A constituição da expressão e seu acesso à idealidade segundo Edmund Husserl
Sérgio Alexandre Minehira
Para nos auxiliar com essa breve exposição, trataremos o assunto a partir da obra de Edmund Husserl, Investigações Lógicas “Investigações para a fenomenologia e a teoria do conhecimento”, onde irei me limitar apenas à Primeira Investigação, e, mais especificamente nos parágrafos §1, §23 e §35.
Nesta comunicação, pretendo explicitar acerca da constituição da expressão – do ponto de vista fenomenológico - e sobre a natureza desse signo, que nos dá a possibilidade de acesso à idealidade.
Parto da explicação sobre a constituição da expressão, onde irei me referir aos conceitos de apercepção objetivante e de apercepção compreensiva (§23), sendo que na primeira se constitui no plano da vivência o objeto, e então, na segunda constituí no plano da vivência a própria expressão. De acordo com a apercepção objetivante, esta nos dá primeiramente algum conteúdo intuitivo em forma de impressões – pela percepção, imaginação, figuração etc. –, e seguidamente, este conteúdo toma uma forma consciente para nós, e é quando podemos significar este objeto apreendido, e em seguida, torna-lo exprimível pela apercepção compreensiva. Ambas as estruturas formam um complexo de relações que despertam na vivência o ato de expressão, e nesta em sua essência contém significação. A elucidação desses atos é relevante quando temos em conta o que Husserl buscava expor em sua obra, sobre a estrutura fundamental de uma teoria do conhecimento a partir de sua psicologia descritiva, que se preocupava em explicitar o que era próprio da esfera dos atos da vivência, e o que não era (como a esfera da semântica, objetiva, intuitiva etc.).
O exame sobre a expressão – que nela contém significação e refere-se de modo intencional a algo - que é um tipo de signo, torna-se fundamental porque é através dela, pode-se chegar a um acesso a uma idealidade a partir de algo concreto. Concreto porque a expressão da palavra contém o seu lado físico (o som), e também seu lado animado de sentido, semântico (a significação), que dá ao som a forma de palavra, de expressão – e pode ser a “palavra pensada”, que não deixa de ser uma expressão só que de modo diferente.
Dessa maneira, a significação se mostra como sendo de natureza ideal, e não precisa ser expressa para continuar sendo significação, ao passo que, para uma expressão ser expressão, é necessário que nela tenha significação. E por serem ideais são atemporais, logo, não são afetadas por princípios causais. Por exemplo, quando um sujeito diz a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180 graus – um exemplo de uma proposição geométrica -, ele diz a partir das suas vivências sobre determinado triângulo e alguma determinada situação ou juízo, mas a significação desse enunciado não está subordinada ao tempo e nem à vivência de quem o enuncia. Esse enunciado aponta para o mesmo significado sempre que alguém o enuncia. Ora, sempre que alguém emite a mesma proposição, cada proposição é manifestada a partir de diferentes vivências, tempos, entendimentos. Essa proposição, mesmo sendo emitida por diversas vivências singulares, aquilo que é expresso remete ao mesmo conteúdo. Desse modo, em seu conteúdo, a significação se mostra como uma unidade na multiplicidade, portanto, sendo o uno no múltiplo.