Performativos e Verdade
Marco Ruffino
Austin (1962) introduz uma famosa distinção entre enunciados descritivos (“constatives”) e performativos: enquanto os primeiros têm o propósito de descrever algo, sendo que o seu proferimento não constitui por si só a ação indicada pelo verbo, os últimos têm a propriedade especial de que o seu mero proferimento (pelos agentes e nas circunstâncias apropriados) constitui a ação significada pelo verbo. Enunciados performativos são, portanto, aqueles em que falar é fazer algo (além da produção de sinais com significado). Uma pergunta relevante para filósofos e linguistas é se, além de serem um tipo de ação especial, enunciados performativos também podem ser verdadeiros ou falsos. O próprio Austin (1962) defende a resposta negativa, sendo esta uma diferença fundamental (pelo menos num primeiro momento) entre enunciados descritivos e performativos. (Wittgenstein (1953), Recanati (1987), Harris (1978), Hartnack (1963), Jary (2007), por exemplo, compartilham a perspectiva de Austin.). Já Lewis (1970) defende vigorosamente a visão oposta, i.e., apesar de serem tipos especiais de ação, enunciados performativos têm valor de verdade (na maioria das vezes são verdadeiros, mas em algumas circunstâncias podem ser falsos. (Lemmon (1962), Hedenius (1963), Edmondson (1979), Spielmann (1980) e Searle (1979) compartilham a perspectiva de Lewis). O propósito desta comunicação é discutir a controvérsia e desenvolver um argumento em favor da perspectiva de Lewis. Adicionalmente, iremos explorar algumas consequências filosóficas da mesma.