Produção de novos devires em tempos neoliberais
Isabel Lopes
Vivemos na era do yes, we can. Na era do tudo é possível, basta ter vontade. Na era dos guias que dizem exatamente o que devemos ou não fazer para alcançarmos a melhor versão de nós mesmos: corpo perfeito, carreira acelerada, relacionamento estável com o par ideal. Nossa sociedade é, então, estruturada de um modo excessivamente positivado, em que não há espaço para falhas, medos ou negatividades. Somos constantemente pressionados por todos os lados: por fora e por dentro.
Todas essas convocações semióticas e essa gestão de si mesmo como uma empresa esgotam os sujeitos e marcam uma era de doenças neuronais como ansiedade, hiperatividade, hipertensão, diabetes, transtornos bipolares, depressão e burnout, que atingem tanto crianças e adolescentes quanto adultos e idosos. E a pergunta mais evidente que podemos fazer diante de um cenário como esse é: qual é o limite da busca pelo mais-gozar? Isto é, o que se compromete do sujeito no trabalho neoliberal? O trabalhador se vê limitado por um regime de verdade que cria e sustenta que a busca pelo sucesso e pelo reconhecimento a qualquer preço caracteriza uma “boa vida”. Mas que vida é essa?
Como afirma Pelbart (2013), o sujeito não sabe o que fazer com esse capital que desenvolve, vivendo à mercê de uma gestão biopolítica que faz com que ele não consiga, ainda, assumir o risco de se abrir a novos possíveis e lutar por seus direitos trabalhistas e humanos. Afinal, como “as pulsões são mais fortes do que interesses ditados pela razão” (Fontenelle, 2017, p.188), o trabalhador permanece preso às convocações ao sucesso, à felicidade e à performance.
Falta, portanto, a crença de que se pode fazer alguma coisa a respeito. “Temos que aprender a pensar de outra forma – para enfim, talvez bem mais tarde, alcançar ainda mais: sentir de outra forma” (Nietzsche, 2016, p.70). É preciso, ao contrário do que impõem os media, duvidar das crenças e dos valores estabelecidos. Afinal, “toda pessoa é uma prisão, e também um canto” (Ibidem, 2005, p.43).
Precisamos criar uma linha de fuga, um modo mais leve de viver. Como diz o Comitê Invisível na contra-capa do livro Now, é preciso viver agora. Viver no presente. E é sobre essa produção que o presente artigo se debruça, partindo da hipótese de que a produção de um novo modo de vida passa necessariamente por dois eventos: um acontecimento que rompe com o estado de normalidade do sujeito e o projeta em uma suspensão do tempo, e a desconstrução à maneira nietzschiana de valores, morais, crenças e comportamentos neoliberais.
Este artigo, portanto, buscará se conectar com estudos e reflexões sobre a filosofia do acontecimento deleuziana, a filosofia de desconstrução nietzschiana e a sociedade do esgotamento neoliberal, tomando por base conceitos como vontade de potência (Nietzsche), corpo sem órgãos, acontecimento (Deleuze e Guattari), homem absurdo (Camus) e fantasia (Lacan), bem como outros autores e conceitos da filosofia contemporânea.