Variações da Filosofia Científica: Filosofia Alemã vs Filosofia Austro-Germânica
Guillaume Fréchette (Salzburg)
Uma leitura comum da história da filosofia alemã do século 19 tem-na como tendo sido ela impulsionada, entre outras coisas, pelo projeto de desenvolvimento de uma filosofia científica seguindo uma epistemologia kantiana, o desenvolvimento do Neo-kantismo de Lotze a Windelband, Cohen, e Natorp sendo talvez o melhor exemplo deste projeto. Essa tendência declinou, segundo a leitura comum, com a crítica da filosofia científica formulada pelo último Husserl, em Krisis (1934/36), que foi contemporâneo à tomada do governo alemão pelos nazistas em 1933. No seguinte artigo, sugiro que este diagnóstico da evolução da filosofia alemã do século 19 tem duas grandes falhas: ele dá uma muito forte ênfase no elemento político desta história, o “spezifisch deutsch” (Schnädelbach 1983), mas também projeta sobre a história da filosofia do 19 uma distinção entre filosofia continental (da qual a filosofia alemã seria o melhor exemplo) e analítica que é inapropriada para uma correta compreensão do desenvolvimento da filosofia alemã do século 19. Sugiro que existem dois projetos diferentes de uma filosofia científica, em 19 países de língua alemã, do século 19, um kantiano (ou neo-kantiano), que vou chamar o projecto alemão, e um anti-kantiano, que é marcado aqui como o projeto austro-germânico. Vou comparar as principais características desses dois projetos e propor uma explicação alternativa à leitura comum.