Henri Bergson como chave de leitura de João Guimarães Rosa
Thiago Gomes da Gama Bragantin
O primeiro livro de Henri Bergson, o autor faz uma distinção entre o “eu superficial” e o “eu profundo”. O primeiro conceito dispõe de características objetivas e concretas que seriam analisadas pelo método científico, enquanto o segundo, por ser de caráter subjetivo, não está na ordem da psicologia, mas da metafísica.
Essa diferença do “eu superficial” e do “eu profundo” não é apreendida pelos psicólogos por conta de um erro na percepção da realidade. Tal erro ocorre devido a uma ideia espacializada da realidade. Espacializada porque assume-se que é possível parar, somar, analisar e dividir-se dentro de um mundo estático e objetivo. Em oposição ao método analítico é que a intuição caminha, e na busca pelo “eu profundo” Bergson envereda-se pela metafísica e é aqui que o trabalho do filósofo sempre se aproximará das artes. Enquanto a inteligência e a linguagem estabilizam o movimento para criar conceitos e estudá-los, a arte procura inserir-se na fruição do movimento, numa simpatia (syn = simultaneidade + pathos = afeto) com a obra. Logo, a arte não cristaliza o significado e nem dá definições, mas é um meio para intuir a realidade mediante a multiplicidades de imagens.
Neste momento em que a obra de Guimarães Rosa é introduzida no nosso trabalho. Já é de conhecimento da crítica que Rosa, além de ter sido influenciado por Platão, Plotino e pelo Novo Testamento, também o foi por Henri Bergson. Mesmo assim, essa relação de Rosa e Bergson parece ter sido pouco explorada pela crítica.
O conto Conversa de Bois narra a viagem do menino Tiãozinho com seu padrasto Agenor Soronho. Uma leitura bergsoniana insere o interlocutor na história, já que é impreciso e falho olhar “de fora”. É cabível sugerir que Guimarães Rosa pode ser lido com ferramental do filósofo, pois no conto, o compartilhar de pensamentos entre os animais e o menino, faz o leitor sentir-se como um deles ao lado do som do carro de boi - prosopopeia usada como recurso sinestésico de movimento -, ainda temos uma narrativa principal se dá durante a viagem. É possível, com esses e mais exemplos, reforçar a tese de que Guimarães Rosa espera que o leitor tenha a experiência de inserir-se na história e experimentá-la “por dentro”.
Assim, resumimos o nosso problema contatando que o filósofo Henri Bergson, quando trata da natureza da obra artística, está em coincidência com a natureza do ser, assim, a filosofia pode ter a literatura como horizonte para apreensão intuitiva da duração. Embora o filósofo tenha feito esta afirmação, não nos deixou exemplos e este é o nosso esforço para este trabalho. Ainda mais, pode o conto Conversas de bois dar uma descrição qualitativa do “sentimento profundo”? O conto de Guimarães Rosa pode nos remeter a realidade movente?
Concluímos que pela via da ontologia bergsoniana a obra de Guimarães Rosa pode ter uma compreensão alargada e mais profunda se usarmos do ferramental de Henri Bergson como chave de leitura.