A construção do conceito de movimento no primeiro capítulo dos princípios metafísicos da ciência da natureza de Kant
Orlando Bruno Linhares
Na construção das quatro determinações do conceito empírico de matéria, nos quatro capítulos dos Princípios metafísicos da ciência da natureza, Kant emprega os métodos de construção matemática e de construção metafísica, redigindo cada capítulo, a partir do segundo, conforme os argumentos e as provas dos anteriores: na dinâmica, a matéria definida como o móvel na medida em que preenche o espaço, pressupõe a definição da foronomia, segundo a qual a matéria é o que é móvel no espaço. O elemento móvel, que tem força motriz, é a definição mecânica da matéria e pressupõe as definições da foronomia e da dinâmica. O elemento móvel, na medida em que pode ser objeto da experiência, é a definição da fenomenologia e pressupõe as definições anteriores.
No primeiro capítulo desta obra, denominado foronomia, Kant elabora uma cinemática pura e, com exceção do movimento, abstrai todas as determinações da matéria, compreendendo-a apenas como um ponto geométrico, que se move no espaço.
Ao tratar do problema da construção do movimento, no primeiro capítulo dos Princípios metafísicos da ciência da natureza, Kant se depara com uma dificuldade, que não encontrou na Crítica da razão pura, porque o movimento, que descreve um espaço, representado no traçado de uma linha, a partir da adição sucessiva de suas partes pela síntese da imaginação produtiva, constitui-se também como este mesmo espaço em uma grandeza extensiva. Na foronomia, a construção do movimento, compreendida como a composição de dois ou mais movimentos, não é, como a composição do espaço, uma magnitude extensiva composto de partes situadas fora umas das outras em um momento determinado, mas, a princípio, uma magnitude intensiva, ou seja, o grau de uma qualidade observável, que ocorre em um determinado tempo e lugar.
Para construir o movimento como uma grandeza extensiva, além de empregar os métodos de construção matemática e de construção metafísica e aplicar os axiomas da intuição, primeiro dos quatro princípios sintéticos do entendimento puro da Crítica da razão pura, Kant distingue o espaço em móvel (relativo e observável) e absoluto (uma ideia da razão). Nesta comunicação, eu discuto os problemas com os quais Kant se defronta para construir o conceito de movimento compreendido como grandeza extensiva.