As origens da fenomenologia husserliana: das matemáticas à filosofia
Maria Luiza Rodrigues Lopes
No prefácio dos Prolegômenos à lógica pura, primeiro volume das Investigações Lógicas (1900-1901), Edmund Husserl diz expressamente que a série de suas investigações lógicas e fenomenológicas se deve aos problemas incontornáveis que surgiram da necessidade de esclarecimentos conceituais da matemática. Apesar dessa informação explícita e das repetidas apresentações do autor como um matemático por excelência, esse aspecto sobre Husserl é, em geral, considerado como um mero detalhe biográfico e não filosófico. Essa postura, somada à atitude comum na literatura secundária de acompanhar o último desenvolvimento da fenomenologia realizado pelo autor, resulta em um desconhecimento da importante relação entre as matemáticas e a filosofia – tema central dessas primeiras produções de Husserl – e, consequentemente, afeta a própria compreensão de como essa relação fomentou os problemas essenciais que dão origem à fenomenologia. É, portanto, objetivo desta comunicação apresentar o cenário inicial das discussões matemáticas nas quais Husserl está inserido, para que possamos expor como a discussão sobre a possibilidade do conhecimento não intuitivo, presente na aritmética, mas também em todas as ciências dedutivas, apresentou ao filósofo a necessidade de repensar um método que fosse capaz de mostrar como os procedimentos mais abstratos das ciências podem despontar na experiência, seja ela interna ou externa. A necessidade de fazer com que todo conhecimento científico repouse em intuições levou Husserl a refinar e desenvolver, a partir da psicologia descritiva de Franz Brentano, um método seguro de análises das nossas intuições, com o objetivo de esclarecer a origem dos conceitos matemáticos e lógicos e como eles se fazem presentes à consciência. É na tentativa de expor esse cenário inicial da produção do autor que pretendemos evidenciar como essas investigações deram origem à fenomenologia.