DUHEM E NEURATH: DO HOLISMO AO ANTIFUNDACIONALISMO E O PAPEL DA CONVENÇÃO
Luís Fernando Silva de Azevedo
O presente trabalho visa explorar as origens e o desenvolvimento do “Princípio de Neurath”, conforme delineado pelo filósofo e historiador Friedrich Stadler Haller . O ponto de partida é a crítica de Haller à designação comum da “Tese Duhem-Quine”, que frequentemente omite uma conexão essencial com o positivismo lógico, mais precisamente com Otto Neurath. Segundo Haller, o “Princípio de Neurath” oferece uma interpretação alternativa ao convencionalismo de Pierre Duhem, estendendo-o a todas as ciências e reforçando uma visão antifundacionalista radical. Pierre Duhem é amplamente conhecido por sua tese da subdeterminação, que afirma que múltiplas teorias científicas podem ser igualmente
compatíveis com os mesmos conjuntos de dados observacionais. Isso implica que a escolha entre teorias não pode ser baseada exclusivamente em evidências empíricas, levando ao que é conhecido como “holismo teórico”. De acordo com Duhem, as teorias científicas devem ser avaliadas como um todo e não em partes isoladas. A ciência, para Duhem, é um processo contínuo de ajuste e refinamento das teorias, visando a uma economia de pensamento e à organização eficaz dos dados, sem a pretensão de revelar a verdade absoluta sobre a realidade. Otto Neurath, uma figura central no Círculo de Viena, expande o holismo de Duhem para todas as disciplinas científicas, desenvolvendo o que ficou conhecido como “Princípio de Neurath”. Esse princípio afirma que, quando confrontados com observações que contradizem uma teoria, os cientistas não estão obrigados a abandonar imediatamente a teoria em favor dos dados observacionais. Em vez disso, têm a liberdade de revisar a teoria ou até mesmo a própria observação, evitando tratar os dados como verdades absolutas e inquestionáveis. Neurath, assim, rejeita qualquer ideia de fundamentos normativos e metateóricos que possam servir de base fixa para o conhecimento científico. Ele defende que o conhecimento é uma construção contínua e dinâmica, sem sentenças ou proposições inquestionáveis no topo de uma hierarquia epistemológica. A partir desse panorama, esta apresentação se propõe a analisar e reconstruir o processo pelo qual Neurath se apropria da concepção holista de Duhem para a formulação de seu próprio princípio, destacando as continuidades e as diferenças entre as abordagens dos dois pensadores. Além disso, buscamos responder a perguntas fundamentais, como: qual é o papel da teoria na ciência segundo Duhem e Neurath? Como cada autor estabelece os critérios para a escolha de uma teoria em detrimento de outra? E de que maneira o “convenção” pode se tornar um ponto em comum entre os autores? Ao examinar essas questões, pretendemos esclarecer como a interação entreo holismo de Duhem e o antifundacionalismo de Neurath oferece uma compreensão mais ampla sobre o papel da teoria na ciência contemporânea, enfatizando a flexibilidade e a complexidade envolvidas na construção e na avaliação do conhecimento científico.