A alternativa Historista: A escola histórica alemã e a crise de identidade da Filosofia (1830 – 1890).
Henrique Melati Pacheco
Esta comunicação busca apresentar a emergência da tradição historista alemã como uma alternativa à crise de identidade da Filosofia no século XIX (Schnädelbach, 1984; Beiser, 2017). Utilizando um método de reconstituição dos problemas e debates da História da Filosofia, o estudo focaliza os trabalhos de autores vinculados à tradição historista alemã e seus comentadores contemporâneos. O estudo insere-se na investigação das raízes comuns entre a filosofia analítica e a filosofia fenomenológico-hermenêutica, enfatizando o contexto de desmoronamento do idealismo hegeliano e a ascensão das ciências naturais (Porta, 2011; Gabriel, 2021; Silva, 2017; Luft, 2024). Partimos da constatação de que a crise oitocentista da filosofia reconfigurou o cenário intelectual da época, propiciando o surgimento e a consolidação de novas abordagens, como a tradição historista (Beiser, 2011). Dividida em três partes, a apresentação inicia com a seção: “a filosofia contemporânea e as ‘somas’ do longo século XIX”, elucidando a crise de identidade que caracterizou a Filosofia após a queda do idealismo hegeliano, um período marcado por incertezas quanto ao próprio objeto e método da disciplina filosófica. Em seguida, na seção: “Longe do olhar de Hegel, a História se fez ciência. Und ist Philosophie der Geschichte etwa nicht auch Geschichte?” discutimos o surgimento da tradição historista, destacando o papel de figuras como Johann Martin Chladenius (1710-1759), Wilhelm von Humboldt (1767-1835) e Leopold von Ranke (1795-1886), que desafiaram as noções correntes de cientificidade (como necessária e universal) ao propor uma abordagem histórica autônoma, centrada no conceito de "compreensão" (Verstehen). Evidencia-se, assim, que o historismo se consolidou como uma tentativa de compreender a história em sua singularidade e cientificidade, rompendo com a visão teleológica da história sujeitada a Razão Absoluta hegeliana. Chladenius, em especial, ainda no século XVIII, ao desenvolver o conceito de “ponto de vista” (Sehe-Punkt) contribuiu significativamente para o desenvolvimento do historismo, pois enfatizou a subjetividade inerente à percepção histórica, preparando o terreno para a noção de 'compreensão' que se tornaria central no pensamento historista. Na terceira seção: “A compreensão como núcleo: o historismo metodológico”, analisamos como o conceito de "compreensão" se consolidou como um núcleo metodológico na obra de Johann Gustav Droysen (1808-1884) e outros historistas, estabelecendo as bases para uma distinção epistemológica entre as ciências naturais (Naturwissenschaft) e as ciências humanas (Geisteswissenschaften). como assinalado por Karl-Otto Apel (1984), o conceito de “Compreensão”, desenvolvido no bojo do historismo, foi posteriormente apropriado pela hermenêutica de Wilhelm Dilthey (1833-1911), e pelo neokantismo da Escola de Baden, tornando-se central na consolidação das Ciências Humanas. Essa distinção, fundamental para a tradição fenomenológico-hermenêutica, demonstra a importância do historismo na formulação de respostas à crise de identidade da Filosofia, e a sua própria apropriação por tradições filosóficas distintas. Nesse sentido, critica-se as proporções que assumiu a distinção metodológica proposta por Droysen. Isto, pois, Droysen, em sua Historik, se preocupou estritamente com a ciência da História, e não estava propondo um método para a separação dos tipos de ciência e sua aplicabilidade. Concluímos discutindo a pluralidade de sentidos do historismo e sua potencialidade em debates contemporâneos sobre a Filosofia e a Ciência.