Franz Brentano para além de Adolf Trendelenburg: sobre a unidade do ser na filosofia de Aristóteles
Evandro O. Brito
Há um consenso entre os estudiosos da filosofia de Franz Brentano acerca da originalidade de uma das conclusões apresentadas em sua tese doutoral. Intitulada Os múltiplos sentidos do ser segundo Aristóteles (Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristóteles (1862)), e concebida em meio a uma disputa acadêmica acerca de uma interpretação capaz de explicitar a plausibilidade e a coerência da filosofia aristotélica como sistema, Brentano sustentou que a afirmação do caráter polissêmico do ser fundamentava os termos pelos quais o ser se constituía no objeto de estudo da filosofia primeira de Aristóteles. Assim caracterizada, e em divergência para com a interpretação de seu orientador Friderich Adolf Trendelenburg, a originalidade dessa conclusão sustentava-se na plausibilidade de uma interpretação capaz de elucidar a coerência entre os vários modos aristotélicos de enunciação do termo ser. O ponto fundamental a ser considerado está no fato de que a proposta brentaniana de análise das teses de Aristóteles se caracterizou pela originalidade com que Brentano propôs o retorno a Aristóteles. Com Trendelenburg, mas para além deste, Brentano reconstruiu a ontologia aristotélica afirmando, muitas vezes, expor as teses e os argumentos do estagirita melhor do que este teria feito. É certo que o procedimento adotado por Brentano retomou (mas também inaugurou) interpretações contestáveis acerca do sistema do estagirita. De qualquer modo, sua originalidade estava no fato de afirmar que a tese aristotélica to de on legetai men pollakhos definia o objeto de estudo da filosofia primeira ao explicitar o ser em seu sentido analógico (por referência a um). A hipótese interpretativa sustentada de modo descritivo nesse trabalho mostrará que, mesmo sob a orientação de Trendelenburg e à luz do seu zurük zu Kant, Brentano propôs uma radicalização que pode ser caracterizada como um zurük zu Aristóteles. Tratava-se de uma radicalização pelo fato de que a análise brentaniana não se satisfez com a necessidade garantida pela estrutura formal da linguagem, bem como pela explicitação desta necessidade por meio de uma análise lógica da proposição que relevava apenas a necessidade quantitativa obtida na relação entre a forma da proposição e os predicamentos (categorias). Esta radicalização brentaniana consistiu especificamente na análise exclusiva do sujeito da proposição (hupokeimenon) como forma de explicitar a estrutura onto/lógico-categorial das coisas existentes (tode ti) fora do intelecto, ou seja, o ser no sentido das categorias tomado na relação entre substância e categorias.