As Origens de Hannah Arendt: redefinição e autonomia da filosofia
Carlos Roberto de Melo Almeida
A recepção da obra de Hannah Arendt (1906-1975) foi marcada por três momentos sucessivos, cuja dinâmica revela o progressivo acesso aos textos da autora e evidencia a dimensão filosófica dos problemas enfrentados por ela. Inicialmente interpretada como uma teórica política, Arendt consolidou sua entrada no campo da filosofia a partir da publicação de sua correspondência e de seus ensaios de natureza filosófica. Em um terceiro momento, essas relações passaram a destacar a recepção de termos e métodos das tradições da filosofia alemã do século XX. Sob essa perceptiva, aponto, nesta comunicação, os elementos que evidenciam a recepção e o tratamento da crise de identidade da filosofia, a qual se consolidou na Alemanha a partir da segunda metade do século XIX. Assim, objetivo contribuir para um novo direcionamento da terceira fase da recepção da autora, que tem enfatizado a presença da tradição fenomenológica e hermenêutica em sua obra. Minha apresentação, embora inserida nessa perspectiva, destaca-se ao tratar a crise de identidade da filosofia como o horizonte interpretativo fundamental da obra de Hannah Arendt. Dessa forma, ao direcionar o olhar para a crise da filosofia enquanto horizonte de compreensão da obra da autora, amplia-se, por um lado, o escopo dos problemas enfrentados por ela e, por outro, discute-se sua relação com Jaspers, Heidegger e Husserl a partir de um ponto de vista filosófico e não meramente biográfico: trata-se, assim, de privilegiar os problemas e não apenas os autores com os quais Arendt dialogou. Para isso, a comunicação visa destacar que, a partir de 1840, a filosofia passou a ser regida por um “imperativo de redefinição” frente ao avanço e à consolidação das ciências naturais. Esse imperativo pode ser traduzido em quatro direções nas quais a atividade filosófica deveria se pautar a partir de então para manter sua legitimidade epistêmica frente às novas ciências: o caráter anti-especulativo, a consideração pelos resultados das ciências naturais, o caráter antissistêmico e a busca pela autonomia, especificando o lugar da filosofia no universo do conhecimento humano. Apesar da presença das quatro direções na obra arendtiana, nesta comunicação demonstro o quanto o princípio da autonomia ou especificidade está presente como eixo principal das obras maiores da autora – A Condição Humana, Entre o Passado e o Futuro e A Vida do Espírito. Sem a percepção desse horizonte de problemas que estrutura a obra de Arendt, a compreensão de seus textos pode ficar reduzida à teoria política, como queria a primeira recepção da autora, ou à consideração da originalidade em torno de sua figura, ao enfatizar seus apontamentos quanto à “ruptura” da tradição e a defesa do “pensar sem corrimões”, características da segunda fase de sua recepção. No entanto, ainda que a recepção atual tenha ampliado a perspectiva para as linhas de continuidade entre sua obra e a tradição da qual partiu, o silêncio quanto ao problema da crise de identidade da filosofia contribuiu para uma abordagem insuficientemente filosófica do pensamento de Arendt, ao não permitir situá-lo no contexto da filosofia contemporânea e de seus dilemas próprios. Por isso, ao explorar os pressupostos filosóficos subjacentes na obra de Hannah Arendt, esta comunicação busca abrir novas frentes de discussão e investigação, abordando questões menos exploradas em sua recepção, como a relação entre fisiologia e filosofia, mente e corpo, e a fundamentação das ciências humanas.