Leituras (Eco)Fenomenológicas da Crise Climática: Heidegger e o Abandono do Ser
André Luís Fonseca Macedo
A presente comunicação tem por objetivo introduzir e contextualizar elementos da Fenomenologia Hermenêutica de Martin Heidegger, pertinentes para uma fundamentação ontológica da crise climática que atravessamos enquanto corpo coletivo, visando contribuir com as discussões em curso no campo da Filosofia Ambiental e áreas afins. Esse enfoque ontológico tem por princípio fazer-ver as condições de possibilidade históricas que tornam possíveis nossa crise ecológica.
Este exercício fenomenológico e hermenêutico também se configura enquanto uma Ecofenomenologia, por ser uma descrição de como a Presença (Dasein) humana participa historicamente do modo de Ser (Seyn) da Natureza (Φύσις).
As descrições realizadas por Heidegger, principalmente em sua obra “Contribuições à Filosofia: do Acontecimento Apropriador” (Beiträge Zur Philosophie: Vom Ereignis), acerca do Abandono do Ser enquanto medida epocal, nos permite fazer-ver as fundações ontológico-relacionais em jogo na crise climática que vivenciamos na Terra.
Compreendendo o Abandono do Ser não como um simples acaso do processo de desenvolvimento civilizatório, mas justamente como a consumação desse específico modo de Desvelamento (ἀλήθεια) de Ser, legado por nossa tradição europeia, Ocidental e cristã.
A hermenêutica ontológica heideggeriana da Tradição - compreendida como História do Ser -, indica a consumação da Metafísica Técnica Ocidental enquanto Abandono do Ser, por se tratar de um processo de Esquecimento da própria participação compreensiva da Presença humana no acontecimento de Ser; sendo este fundamento histórico propagado por todo o planeta através da colonização e da globalização.
Esse desenvolvimento eclíptico faz com que o próprio Acontecimento Apropriador seja obstruído, a partir da Decomposição da Verdade (ἀλήθεια), ou seja, a Ética do Cuidado Fundamental de Ser que caracteriza essencialmente a condição da Presença humana é sumariamente Esquecida, abandonando assim o Sentido de Ser para a Maquinação Técnica.
Esse processo histórico, segundo Heidegger, carrega através da Presença humana um lastro de Desertificação da Vida na Terra e um estágio de inconsciência coletiva da Presença, em que a mesma, sendo enfeitiçada pela Maquinação Técnica, paulatinamente perde a força meditativa necessária para resistir a entificação do Ser.
Dessa forma, a Presença humana Civilizada não se vê como parte constituinte e compreensiva do Acontecimento de Ser da Natureza, revelando assim, como fundamento ontológico das mudanças climáticas, uma crise ética que conduz a crise ecológico-ambiental, onde a consumação do Abandono do Ser é identificada no modo como a Presença humana habita o planeta e relacionalmente faz parte da Natureza, gerando e intensificando as mudanças climáticas que vivenciamos desde o processo de industrialização.
Para articulação da investigação eco(fenomenológica) acerca do nexo vital ontológico da crise climática, serão elencados alguns temas da fenomenologia hermenêutica heideggeriana, tais como Abandono do Ser, Decomposição da Verdade, Des-encantamento, Desertificação, Natureza e Ciência-Técnica, tendo como eixo condutor as Contribuições à Filosofia do filósofo alemão.