Causação Mental: a Origem do Problema
André Leclerc
A revisão da literatura recente de GIORGI e LAVAZZA (2018) sobre a causação mental mostra claramente que o problema não perdeu de sua atualidade. Sua origem se encontra na filosofia moderna a partir de Descartes, que colocou a questão de maneira mais aguda do que qualquer pensador antes dele. A interação mente-mundo parecia natural para Descartes, e para Davidson, que a toma como premissa de seu monismo anômalo. Temos todos a convicção de que nossos pensamentos fazem uma diferença no mundo ao nosso redor através de nossas ações intencionais causadas por nossas atitudes conativas providas de conteúdo conceitual, como intenções e desejos. Após defender a “distinção real” entre corpo e mente (DESCARTES, 1970, p. 185) que estabelece seu famoso dualismo das substâncias, Descartes apresenta a ideia de União Substancial e seu desdobramento natural: o interacionismo. O dualismo de Descartes pressupõe, mas não explica, como as duas substâncias, pensante e extensa, se comunica na percepção e na ação. Descartes, no entanto, não consegue explicar para a Princesa Elizabeth de Bohemia como uma causa mental (imaterial, na concepção dele) pode mexer com a glândula pineal de modo a redirecionar os espíritos animais nos nervos para causar os movimentos corporais apropriados para nossas ações intencionais e nossos planos. Depois de explicar as leis de conservação do movimento, Descartes (Principes, II, 41, 1647) avisa que ele não vai tentar explicar como “os pensamentos dos homens têm a força de mover os corpos” e que ele espera tratar dessa questão num tratado sobre o homem. Logo depois, afirma que a orientação de um corpo em movimento pode ser alterada “sem que haja nenhuma alteração no movimento” / “sans qu’il y ait rien de changé au mouvement”. Descartes representa a quantidade de movimento pelo produto da massa e da velocidade (Q = MV). Ele acreditava que a mente, através da glândula pineal, podia orientar os espíritos aninais nos nervos apropriados para causar os movimentos corporais. A ideia de Descartes é que a intervenção de uma causa mental para orientar o curso dos espíritos animais sem alterar a quantidade de movimento do sistema físico e sem infringir a lei de conservação do movimento que ele mesmo formulou. Leibniz vai corrigir essa visão introduzindo noções usadas até hoje. A quantidade de movimento, na verdade, é uma grandeza vectorial. Também chamada de “momento linear”, é assim representado assim: Q = M V. Dessa forma, a orientação dos espíritos animais requer a aplicação de uma força e altera a quantidade de movimento contrariando o que Descartes pensava. Leibniz criticava Descartes por ter fundada sua teoria da liberdade num simples erro de mecânica! Isso parece suficiente para arruinar a ideia cartesiana do interacionismo. Em resumo: a intervenção de uma causa mental iria alterar a quantidade de movimento no sistema mecânico que seria o mundo físico e assim contradiria as leis de conservação do movimento. Temos assim uma situação muito parecida com aquela que prevalece na filosofia contemporânea com o argumento da exclusão causal, uma situação que Jaegwon Kim descreve como “a vingança de Descartes”.