O JOGO DO COPO

Lívia acabava de chegar à casa de seus tios, em Campos do Jordão, após ser liberada pelas notas escolares. Sua irmã Valeska, de 17 anos, havia chegado um dia antes e já estava se divertindo com Victória, a prima de 18 anos, filha única de Saulo e Marlene Mendes. Marlene era irmã da Mara, mãe de Lívia e de Valeska. As duas irmãs iam passar as férias de julho com a prima maior de idade que havia acabado de ganhar seu primeiro carro de presente do pai e que estava exultante com isso.

– Você já está com a carteira, Vic? – Lívia perguntou animada, cruzando as pernas, sentada na cama da prima. No quarto, tipicamente adolescente, um pôster de Madonna vestida de noiva era o item decorativo mais chamativo. O som tocava o famoso hit Dancing in the dark, de Bruce Springsteen.

– Ainda não, mas isso não vai impedir a gente de sair, né? – Os olhos enormes e castanhos de Victória encararam a prima, também animada.

Valeska, entretanto, estava temerosa e, enquanto escovava os longos cabelos loiros em frente ao espelho redondo da prima, pensava a respeito. Enfim, ela se pronunciou:

– Sei lá, isso pode dar problema.

– Ih, não esquenta, Val! Meu pai é juiz, conhece uma porção de gente! Você acha que alguém vai se meter com a gente?

– Claro que não! – Lívia respondeu, esfregando as mãos.

– Mas não é isso... – Val largou a escova e se juntou às outras duas na cama. – Eu quero dizer que você aprendeu a dirigir há pouco tempo, pode causar algum acidente!

– Confie em mim, eu dirijo melhor do que muito instrutor de autoescola, OK?

– Tá, mas a Lívia só tem 12 anos, não podemos levá-la...

– Eu já tenho 13 anos, Valeska! – a garota quase rugiu e a irmã virou as costas, dando de ombros.

O assunto morreu ali e as três foram até a varanda espaçosa e aconchegante da casa, onde lancharam e jogaram alguns jogos de tabuleiro, como War e Jogo da Vida.

Após umas poucas partidas, começavam a arrumar os jogos. Foi quando viram Roger chegar, um vizinho de 18 anos. O rapaz, que oscilava entre o emo e o gótico, carregava uma caixa grande embrulhada e sorriu para Victória, que olhou para o objeto que ele portava, já sabendo do que se tratava.

– Pensei que não viesse mais! – Victória reclamou, ainda com o sorriso usual.

– Eu tive trabalho pra tirar isso aqui da garagem do meu pai. Tenho de devolver até amanhã de manhã, porque eles voltam lá pelas 09h00 da viagem.

– O que é isso? – a curiosa Lívia perguntou.

– Um jogo muito melhor do que essas coisas de crianças que vocês estavam jogando – Roger disse triunfante, lançando um olhar de interesse sobre a desconfiada Valeska.

– É uma tábua Ouija – Victória se apressou a responder.

– Uma tábua o quê? – Lívia arqueou uma sobrancelha, tentando tocar no objeto parcialmente aberto por Roger.

– Já ouviu falar no jogo do copo? – ele perguntou e Lívia sacudiu a cabeça afirmativamente – Então, vamos jogar!

– Que besteira! – Valeska disse rindo. – E nós é que somos crianças?

– Você já mexeu nisso? – Roger perguntou com ar sombrio.

– Eu não! – Valeska respondeu em tom cortante, enquanto Victória observava a discussão – Vou perder meu tempo com isso pra quê?

– Tem medo de falar com os mortos? – ele perguntou em tom desafiador.

– Os mortos não falam, eles não voltam! Não tenho o que temer.

– Então, vamos brincar, ué!

– Você já usou essa tábua, Roger? – Victória perguntou, rindo.

– Eu não... mas meu pai sim e ele sempre disse que funciona. Ele me contou que falou com o avô dele quando eu ainda era bebê.

– Sério? – Lívia arregalava os olhos.

– Sério. E meu pai não mente, ele é militar, do tipo sério pacas, não é, Vic?

– Verdade.

– Onde podemos fazer? – Roger estava ansioso.

– Humm... – Victória pensava. – Vai demorar?

– Não sei, vai depender dos fantasmas! – Roger gargalhou e Lívia deu um tapa de leve no braço dele.

– Meus tios só voltam amanhã de manhã também, qual o problema em demorar, Vic? – Lívia questionou. – Além disso a sua empregada está de folga.

– Nossa festa, esqueceu?

– Ah, mas dá tempo! – Roger interveio. – E eu aproveito e vou com vocês à festa.

– Quem te convidou? – Valeska perguntou em um tom surpreso.

– Por que, não posso ir?

– Você deveria é ficar aqui de babá pra minha irmã! – Valeska zombou e Lívia a olhou, irritada.

– Pode, claro que pode! Você conhece o aniversariante, é o meu primo Alan. – Victória interveio.

– Ah, tá... pô, aquele bichinha nem me convidou!

– Sempre achei o Alan um cara de juízo – Valeska disse e Roger a olhou com antipatia. Desde crianças implicavam um com o outro e era nítido que a implicância atual não se passava de uma atração reprimida de adolescentes.

– Então, vamos? – Victória acenava já na entrada da casa. – Como a Lívia disse, até a empregada está fora hoje, ninguém vai nos incomodar.

***

Apesar do inverno de Campos do Jordão, o ambiente na sala de estar dos Mendes estava uma fornalha, pois, além do aquecedor, Roger exagerara nas velas. A tábua fora disposta sobre a mesa redonda de vidro, com suas letras e números formando uma meia-lua. Os quatro jovens estavam sentados ao redor; deram as mãos e fizeram uma oração para proteção, segundo a orientação de Roger.

– Um copo de plástico?! – Valeska pegou o objeto com cara de desprezo.

– Você quer se arriscar a ser cortada por um espírito raivoso com um copo de vidro, sua maluca? – ele respondeu, irritado e tomou o copo branco da mão da garota.

– E agora, o que fazemos? – Victória perguntou, aflita, porém excitada.

– Colocamos nossos dedos indicadores sobre o copo...

Os quatro assim fizeram; Valeska foi a primeira. Todos se olharam solenemente e Roger começou:

– Existe alguma força aqui?

Silêncio profundo. Lívia não aguentou e começou a rir, seguida por Valeska. Victória olhou de cara feia para as duas e Roger pediu para todas se concentrarem.

– Por favor, se existir alguma força presente, nos guie para o sim...

– E se guiar para o não? – Valeska não resistiu.

– Dá para parar? – Roger quase gritou.

De repente, o copo começou a ir em direção ao “Sim” do tabuleiro e Lívia abriu a boca, sem conseguir emitir qualquer som.

– Ai gente... está mexendo! – Victória disse assustada.

– Tem algum de vocês empurrando com o dedo! – Lívia acusou, nervosa.

De repente, Valeska começou a rir e disse:

– Eu estava mexendo! Qualquer um pode pressionar de leve e fazer esse copo andar sem que os outros saibam quem está no comando. Seu pai foi enganado por alguém quando fez essa brincadeira, Roger.

– Meu pai estava sozinho quando fez isso! – Roger disse com o rosto afogueado e Valeska ficou mais séria.

– Então, ele disse isso pra te assustar...

– Eu já disse que meu pai não mente!

– Olha aqui, parem com essa discussão idiota! – Victória disse com firmeza. – Também não gosto dessa ideia de tocar no copo, isso não passa credibilidade!

– O que você sugere, então? – Lívia continuava assustada.

– Que nossos dedos fiquem acima do copo, sei lá, tipo um centímetro, sem tocá-lo, tudo bem? – Os três concordaram. – Se tiver alguma presença mesmo, o copo vai se mexer e aí vamos poder fazer nossas perguntas.

– Gente, o que devemos perguntar? – Lívia franziu as sobrancelhas, confusa.

– Na hora a gente vê... – Roger disse, já se concentrando de novo na mesa. – Vamos lá, vamos nos posicionar e nos concentrar...

***

Jorge e Flávio tinham encerrado seus plantões – eram bombeiros militares – e dirigiam pela estrada. Jorge ligou o som e a voz de Lady Gaga não agradou muito a Flávio, que fez uma careta. O amigo ignorou a reclamação silenciosa e ainda aumentou o som, fazendo o outro rir. Foi nesse momento que viram um carro passando por eles em alta velocidade. Jorge, que estava na direção, olhou interessado para o colega, que fez um gesto para que manobrasse e fosse atrás do veículo.

– Deu pra ver quem dirigia? – o primeiro perguntou.

– Não tenho certeza, mas acho que era uma mulher. Melhor deixar pra lá, não somos da polícia, cara!

– Não sei não... olha lá como ela está, perdidona!

– Deve estar drogada ou bêbada.

De repente, o motorista do veículo perseguido perdeu o controle e saiu da pista. Jorge acelerou, mas nada pôde fazer para ajudar, pois foi tudo muito rápido e os dois só tiveram tempo de sair de perto de onde o carro explodiu.

Flávio acionou reforço via rádio, porém, era impossível se aproximarem do carro, pois as chamas eram altas demais e outras explosões seguiram. Ele tentava comunicar o local exato onde se encontravam e teve uma surpresa com a resposta que obteve:

– Isso é alguma brincadeira? – Perguntou a atendente do 193.

– Como assim, brincadeira? Estou aqui com o sargento Jorge Nascimento, na estrada...

– Eu entendi muito bem! – A mulher disse de forma brusca; em seguida, respirou fundo e fez uma pergunta: – Há quanto tempo vocês dois estão servindo aqui na região?

– O quê?! – Flávio perguntou, incrédulo, enquanto via Jorge tentando se aproximar do local da explosão, mas sem êxito. – O que isso tem a ver?

– Há quanto tempo?

– Três semanas mais ou menos! – Flávio respondeu irritado. – Dá pra mandar o reforço agora?

– Fique calmo, não será preciso.

– Você é maluca?

Flávio já perdia o resto da paciência, quando o amigo deu um berro, chamando por ele, que sequer havia reparado em algo aterrador: a estrada estava vazia; não havia carro algum acidentado e nenhum vestígio de vítimas ou fogo.

– Flávio, você viu o que eu vi, não viu? – Jorge estava pálido, apesar de ser mulato.

– O que aconteceu aqui, meu Deus?

***

– Não está acontecendo nada! – Lívia reclamou e sua irmã Valeska deu um muxoxo.

– Eu disse que isso é besteira. Vamos nos arrumar pra festa.

– Ficamos aqui, tentando por mais de quinze minutos, e nada! Eu desisto! – Victória rompeu o elo e se levantou para pegar um refrigerante.

– Vocês não podem sair sem permissão! – Roger disse.

– Quem disse? Valeska colocou as mãos nos quadris, desafiadora.

– É contra as regras, sua tonta! – Lívia respondeu e a irmã a olhou aborrecida.

– Guria, sossega o facho, senão você não vai com a gente! – Valeska se impôs e Lívia tremeu.

– Puxa, Val... eu não quero ficar sozinha aqui...

– Então fique quieta e obedeça a mim e à Vic, entendeu?

Apenas Roger e Lívia ainda mantinham os polegares sobre o copo e ele ficou olhando sério para a mesa e para o objeto de plástico no meio do tabuleiro, com aquelas duas mãos jovens estendidas acima dele. No final, Lívia recolheu a mão e cruzou os braços. Victória retornava com uma garrafa de guaraná de um litro e usou o abridor metálico de sua mãe para abri-la. Ela havia pegado três copos e, com preguiça de voltar à copa, estendeu a mão para o copo de plástico, inerte ainda sobre a tábua.

– Pelo menos esse copo vai ter algum uso – ela disse e, quando tocou o copo, este tremeu. Victória se assustou e os demais a encararam apreensivos. – Vocês viram isso?

– Eu vi... – Valeska respondeu com a voz baixa, se aproximando lentamente da mesa.

– Gente, fiquem calmas... – Roger tremia, enquanto estendia outra vez sua mão direita sobre o copo. – Eu vou perguntar... – Ele não precisou, pois, o copo deslizou rapidamente para a palavra “Sim” do tabuleiro.

***

– Esta casa foi totalmente reconstruída, vocês não precisam se preocupar, pois o material utilizado foi de primeira qualidade – dizia a corretora de imóveis, trajando um típico tailleur bege e com uma correntinha de prata antiquada, cujo pingente trazia seu sobrenome gravado: Tavares. Ela exibia a casa duplex aos recém-casados Tomás e Cinthia.

– Ela é linda! – Cinthia olhava sonhadoramente ao redor. – Me sinto na Suíça aqui!

– É sim, mas acho que vai ficar puxado pagar essa entrada. – Tomás analisava, já visando arrancar um desconto da corretora com cara de raposa. A profissional estava de costas para ele e pôde dar seu sorrisinho malicioso. Ele podia ser esperto, mas ela era esperta e meio, pensou.

– Ora, mas nós podemos negociar essa entrada.

– Não sei, não sei... – Tomás se fazia de difícil. – Eu sou meio supersticioso, sabe? Uma casa que pegou fogo, ficou vazia durante anos...

– Ora, mas isso foi há tantos anos! – Ela ponderou. – E os outros moradores não tiveram do que reclamar. O clima aqui é ótimo, nem parece que estamos em um país tropical.

– Como foi mesmo que ocorreu o incêndio? – Tomás insistiu.

– Ai, amor, que importa? Isso foi em...

– 1985, pra ser exata – a corretora respondeu. – Parece que foram velas que foram esquecidas acesas, as cortinas foram atingidas por alguma fagulha e aí, bem... sabem como o fogo se alastra rápido.

– E alguém se feriu? – Cinthia se preocupava, imaginando aquela casa sendo destruída por chamas gigantescas e seus moradores sendo queimados vivos.

– Não, estavam todos fora naquela noite. – Sorriu e mudou o rumo da conversa. – Bem, acho que podem ficar tranquilos porque a casa não é mal-assombrada, se é o que querem me perguntar.

– Que bom! – Tomás disse rindo e abraçou Cinthia, que pressentia que a nova aquisição estava próxima de se concretizar.

***

– Gente, tá mexendo! – Roger quase gritava, vendo o copo voltar sozinho à posição inicial.

– Por que o espanto? Você acreditava piamente nisso, ou estava só fingindo pra colocar medo na gente? – Valeska lembrou.

– Vai perguntar o quê? – Lívia disse com um tremor na voz.

– Não sei, é... – Roger gaguejava e Victória tomou a frente.

– Quem é você?

O copo deslizou devagar desta vez para a palavra “Não”. Victória perguntou outra vez:

– Diga seu nome... – o copo permaneceu parado no “Não”.

– Tá bom, tá bom, você não quer dizer seu nome... – Valeska interrompeu, confiante. – Então, pode responder a outras perguntas?

O copo deslizou para a palavra ao lado, o “Sim”.

– Então tá, deixa eu ver... – Valeska respirou fundo. – Eu vou me formar ano que vem?

O olhar ansioso dos quatro jovens acompanhou o deslizar do copo para a palavra “Não”.

– Mana, você vai ser reprovada! – Lívia levou a mão à boca. – Nossos pais vão te dar uma surra!

– Isso é idiotice, eu sempre fui excelente aluna! – Valeska ficou vermelha, pois, de fato, nunca repetira de ano.

– Deixa eu perguntar – Victória impediu que Roger falasse algo e tomou sua frente. – Eu vou conseguir morar sozinha no ano que vem?

O copo, que estava no “Não”, ali permaneceu, então Victória mudou a pergunta.

– Eu vou deixar os meus pais?

O copo deslizou para o “Sim” e Victória pulou de alegria.

– Gente, eu vou conseguir o meu apê, que maravilha!

– Grande coisa pra quem já nasceu rica! – Lívia debochou e Victória mostrou a língua pra ela.

– Agora sou eu – Roger engrossou a voz e tomou a palavra. – Como é esse lado? Como é estar morto?

– Mas que pergunta é essa? – Valeska protestou e as outras duas olharam sérias para o rapaz.

– Não se mete, é a minha vez! Responde, como é o outro lado da vida?

Um vento gelado se fez sentir, embora a janela não estivesse aberta. A cortina balançou forte e fez Lívia ter um sobressalto. O copo estremeceu e deslizou, primeiro para a letra V, depois para a letra O, em seguida para a letra C, depois para a letra E. Os quatro estavam petrificados. O copo continuou a formar sua frase, seguindo para as letras V, A e I. Deu uma pausa e continuou indo para o S, o A, o B, o E e o R. Fez outra pausa e se dirigiu às letras E e M. Por fim, passou pelas letras B, R, E, V e E.

– Você vai saber em breve! – Lívia gritou. – Meu Deus o que é isso?!

– Como assim, vou saber em breve?! – Roger levou a mão ao peito. – Que porra é essa?

– Eu não quero perguntar nada! – Lívia disse e saiu de perto da mesa, roendo as unhas como fazia quando ficava com medo.

– Pois eu sim! – Valeska disse. – Você é do bem?

Victória e Valeska gritaram ao ver o copo deslizando com uma velocidade incrível para o “Não”. O copo começou a escrever insultos para as garotas, como “P-I-R-A-N-H-A-S” e “P-U-T-A-S” e para Roger disse “V-I-A-D-I-N-H-O”. Roger, que trazia consigo um vidro de água benta, começou a jogar na direção do copo, que pulava sobre a mesa, deixando todos atordoados. Lívia que estava próxima da janela, abriu-a e saltou, correndo para fora da casa. Os outros três ficaram tentando conter o que quer que estivesse dominando o copo, embora soubessem que seria em vão.

– Não deixe ele cair no chão! – Roger berrou, ainda jogando água benta sobre o copo, que executava uma dança alucinada sobre as letras, parecendo ser tão pesado, que a mesa começou a tremer a cada vez que ele batia no tampo.

– Por quê? – Victória perguntou aos berros.

– Se o copo cair, quer dizer que um de nós vai morrer!

– Seu filho da puta! – Valeska avançou em Roger e se atracou com ele, gritando. – Eu não queria participar dessa merda, seu babaca!

Victória gritava para eles pararem e acabou se engalfinhando, na tentativa de separar os dois. Quando os três estavam se estapeando sobre a mesa, o peso de seus corpos amassou o copo, que mesmo assim continuava a se mexer sozinho.

Lívia os olhava a certa distância do lado de fora, quando viu labaredas nas cortinas e se lembrou das velas que Roger acendera. Ela correu para a janela, desesperada, e jogou um vaso que estava na varanda sobre a mesa onde os outros três se digladiavam para pegarem o maldito copo. Ao sentirem o impacto, olharam assustados e viram Lívia gritando do lado de fora e perceberam que o local já estava pegando fogo.

Tentaram apagar as chamas, que só aumentavam cada vez mais rápido, e quando viram que era melhor fugir, correram para a janela por onde Lívia escapara. Para espanto de todos, a janela bateu com violência e se viram presos, enquanto Lívia berrava por socorro do lado de fora.

Valeska e Victória socavam a janela e começavam a tossir com a fumaça, enquanto Roger, sem reação, as encarava com os olhos arregalados e úmidos. “Eu vou morrer”, ele pensava. Lívia, não vendo outro jeito, pegou um vaso mais pesado, acenou para a irmã e a prima se afastarem da janela e quebrou os vidros, criando uma saída para os três fugirem.

Quando estavam todos do lado de fora, se recuperando do pavor, Lívia olhou para dentro da sala em chamas e apontou horrorizada para uma figura alta, masculina e com barba, um rosto disforme que exibia um sorriso cruel. A figura segurava o copo todo amassado e o jogou na direção dos jovens, que gritaram de pavor e correram. Eles seguiam Victória, que abriu a porta de seu carro novo e, encontrando a chave na ignição, não pensou duas vezes e deu partida.

– Entrem logo! – Victória gritou e Valeska e Roger obedeceram prontamente, mas quando Lívia fez menção de se aproximar, as portas do carro se fecharam sozinhas e a caçula do grupo ficou do lado de fora.

– Não me deixem aqui, eu quero ir com vocês! – A garota chorava em pânico, enquanto tentava se agarrar ao carro já em movimento, rumo à estrada principal da cidade.

***

– Eu sei o que eu vi! – Flávio explicava ao médico de plantão que tentava examiná-lo.

– Você parece bem, não bateu com a cabeça... – o médico comentou com ar profissional.

– Mas é claro que não bati – ele respondeu indignado. – E nem o Jorge bateu! Nós vimos um carro explodir naquela estrada, não temos porque mentir.

O médico respirou fundo, sentou-se ao lado de Flávio, que estava em uma maca da ambulância acionada por ele mesmo, e esfregou os olhos, aparentando cansaço.

– Olha, eu não estou dizendo que vocês estão mentindo... eu só quis examiná-los para ter certeza de que não estão débeis, bêbados ou tendo alucinações. – O médico pegou seu tablet e abriu um site, mostrando a tela para Flávio.

– O que é isso? – Flávio o encarou desconfiado.

– Eu já conversei com seu colega e ele já ouviu falar nesse caso. Não se lembrou de imediato, afinal de contas era um bebê quando tudo aconteceu por aqui. Mas a irmã mais velha costumava contar certas histórias de cidades vizinhas a ele, então, com essas imagens e esse texto ele lembrou.

– Acidente na estrada... em 1985 mata... – Flávio começou a ler a matéria e de vez em quando encarava o médico, que o estudava apreensivo. Ao terminar a leitura, o bombeiro riu e lhe devolveu o tablet. – Tá, e o que esse acidente tem a ver com o que aconteceu hoje?

– Vocês não são os primeiros bombeiros ou policiais que passam por essa situação aqui em Campos do Jordão. Vários outros, desde 1985, juraram estar passando com seus colegas por aquele trecho da estrada, quando são ultrapassados por um carro em alta velocidade, um carro cujo modelo já até saiu de linha... alguns seguiram o carro, para multar ou até mesmo para ajudar, como foi o seu caso, mas quando se aproximavam, o veículo explodia... eles pediam reforços e quando os reforços chegavam, isso nos primeiros casos, não havia carro algum incendiado; às vezes, nem mesmo os bombeiros ou policiais, porque alguns surtavam e fugiam do local.

– Mas, eu não estou entendendo... – Flávio começava a entender, no fundo ele já entendia.

– Desde que houve aquele acidente em 1985, essas visões começaram a acontecer. Porque, realmente, quando o Passat ultrapassou uma viatura da polícia militar em alta velocidade, parecendo descontrolado, os agentes perseguiram o motorista e houve uma explosão que não deixou ninguém vivo. Hoje faz 29 anos que eles morreram. Os agentes mais antigos evitam passar por aqui nessa data, mas vocês, como são novos na região...

– Você está me dizendo que eu e o Jorge vimos uma assombração?

– Mais do que isso. Segundo os mais entendidos e crédulos, você viu espíritos perdidos revivendo suas mortes.

***

Cinthia e Tomás estavam a todo vapor com a mudança. Caixas e mais caixas de papelão saíam do caminhão de mudanças e alguns amigos ajudavam, já que Cinthia estava no segundo mês de gravidez e não poderia pegar muito peso. Ela ajudava nas coisas mais leves, orientando onde ficariam os móveis e demais objetos.

Dois dias depois, com alguns cômodos da casa mais arrumados, o casal organizou um churrasco no gramado espaçoso da frente da casa. O clima estava agradável e o sol amenizava o frio da cidade. Cinthia fazia pudim de leite e sua mãe um pavê, quando a mais moça escutou um barulho vindo da garagem, cuja parede ficava colada na da cozinha. “Ratos?”, pensou e ficou apavorada. Achou melhor avisar logo ao marido. A mãe de Cinthia continuou a montar as camadas de seu pavê e nem percebeu quando a filha se dirigiu ao quintal.

Cinthia explicou ao marido sobre o barulho e ele a seguiu até a garagem. Os convidados, no total três casais, ficaram aguardando. Eles não aguentaram e riram quando Tomás saiu da garagem, exibindo uma antiga tábua Ouija, muito empoeirada.

Eles deixaram o objeto de lado, mas claro que a curiosidade falou mais alto e quando deu o fim de tarde, Cinthia, Tomás e o casal que ainda estava por lá, Anderson e Rafaela, resolveram montar a “relíquia”.

– Me lembro que fizemos isso uma vez, mas nunca aconteceu nada – comentou Rafaela.

– Não tem a seta pra apontar as letras e os números – Cinthia observou.

– E por que você acha que no Brasil se chama Jogo do Copo, meu amor? – Tomás brincou. – Porque brasileiro sabe improvisar!

Anderson, entendendo a deixa, pegou um copo de vidro na cozinha e se sentou ao lado da esposa, na mesa redonda da sala, rindo. Já haviam bebido bastante e tudo seria motivo de diversão ali. Com exceção de Cinthia, que não ingerira álcool por causa da gravidez, os demais estavam “altos”.

A brincadeira começou e foi Tomás quem fez a primeira pergunta:

– Vamos lá, existe algum fantasma aqui? – Ele ria, mas logo parou quando viu que o copo de vidro se mexia sob seus dedos, apesar de ninguém estar tocando no copo.

– Eu bebi muito... – Anderson disse e Rafaela gargalhou.

– Eu não bebi – Cinthia disse em tom grave. – Esse copo está se mexendo.

Mesmo sob o efeito das bebidas, os semblantes relaxados de Tomás, Anderson e Rafaela logo se tornaram rijos. Tomás engoliu em seco e continuou:

– Você é homem ou mulher?

O copo deslizou e formou a palavra “H-O-M-E-M”, deixando os quatro aterrorizados. Rafaela, então, com a voz falhando, resolveu perguntar se o espírito era bom e a resposta foi “Sim”, seguida de um “V-A-O E-M-B-O-R-A”.

– Tomás, eu estou com medo! – Cinthia torcia as mãos.

– Eu não vou embora, essa é a minha casa – Tomás disse sério.

O copo tremeu e deslizou, formando a frase “S-A-L-V-E-M S-E”.

– Nos salvar de quê? – Rafaela perguntou.

O copo deslizou e formou “N-A-O P-O-D-E-M-O-S I-M-P-E-D-I-R J-A E-S-T-A V-I-N-D-O”.

– “Não podemos”? Tem mais alguém com você? – Rafaela continuou e o copo respondeu afirmativamente. – Quem está com você? Como se chamam?

O copo começou a deslizar...

***

– Vic, volta pra pegar a minha irmã! – Valeska gritava no banco de trás, enquanto a prima tentava manobrar em vão.

– Eu não consigo, eu não consigo! – Victória olhava atordoada para os lados e viu o rosto petrificado de Roger, que começava a ranger os dentes.

– Para esse carro, Vic!

– Val, eu estou tentando, mas o carro não obedece!

Valeska já não via mais Lívia gritando e correndo atrás do veículo, pois o carro estava a mais de 80 km/h. Victória fazia o possível para manter o veículo em linha reta na estrada.

Já estava escuro e quando Victória avistou uma viatura policial mais à frente, buzinou repetidamente, na tentativa de ser socorrida. Os policiais ouviram a buzina e se assustaram com a velocidade absurda com que o Passat passou por eles, ziguezagueando mais à frente. O policial que estava no banco do carona chegou a ver o rosto pálido da jovem motorista, gritando algo que não lhe foi possível compreender.

– Ela deve ter perdido o controle, Cláudio! – Disse ele para o colega que dirigia e partiram no encalço do Passat, alertando às demais viaturas da região.

– Eu disse que isso ia dar merda, Vic! – Valeska acusou, quando uma visão na estrada tirou sua atenção da prima, que tentava controlar a direção.

Valeska deu um salto do banco traseiro quando viu Lívia aparecer na estrada, prestes a ser atropelada, e desviou o volante para fora da pista. Entre o momento em que Valeska desviou abruptamente o carro e o instante em que este capotou, apenas uma fração de segundos se passou. Antes da explosão, os três viram Lívia se transformando naquela criatura medonha que manipulara o copo na casa de Victória. Foi a última visão que tiveram.

Os policiais sentiram o calor infernal quando o Passat explodiu e o policial Cláudio podia jurar, anos depois do fato, que ouviu também os gritos dos adolescentes sendo levados pelo vento.

***

E todos os anos, Valeska, Victória e Roger reviviam o mesmo pesadelo; acordavam no meio da estrada, entre os escombros do Passat, um ajudava o outro a sair e caminhavam penosamente pela estrada, onde, curiosamente, não viam viva alma. Eles sempre se viam de volta à casa dos pais de Victória. Nos primeiros anos, se depararam com o casal definhando com a perda da filha, da sobrinha e do rapazinho bobo, porém gente boa, da vizinhança. A casa ficara destruída pelo incêndio, mas Valeska, Victória e Roger nunca conseguiram ver os destroços, tampouco a reconstrução; eles a viam do jeito que estava quando abriram a maldita tábua Ouija. Vendo que não suportariam mais viver ali, os pais de Victória venderam a propriedade. Cada novo morador encontrava a tábua, chamava a família e amigos, e iniciavam as tolas e perigosas perguntas; perguntas estas que os três jovens começaram a responder, trocando de lugar com os vivos incautos, que haviam sido um dia.

Nunca houve qualquer acidente grave desde que os espíritos dos três jovens começaram a responder perguntas de outras pessoas. Na verdade, os três livraram algumas de acidentes e outros perigos, porém... se sentiam escravos. No final, quando não aguentavam mais ser evocados a todo instante por curiosos, que não sabiam cuidar de suas próprias vidas, eles se passavam por espíritos zombeteiros e acabavam com a “brincadeira”. Porém, alguém acabou sabendo que ainda assombravam, mesmo sem querer, o local. E, mais uma vez, precisavam evitar que o perigo se aproximasse dos inocentes.

Agora, em 2014, tentavam enxotar aquele casal e seus amigos, pois os três já não estavam mais conseguindo aprisionar o mal que ali se enraizara e que temia a verdade mais do que tudo.

– Quem está com você? Qual o seu nome?

O copo começou a deslizar... “R-O-G-E-R” e uma pausa; “V-A-L” e outra pausa; “V-I-C” e outra pausa.

– Quem são vocês, Roger, Val e Vic? – Tomás perguntou.

A resposta: “A-M-I-G-O-S”.

– Que alívio! – Cinthia saiu de perto e, de repente, um estrondo violento assustou a todos. O espelho grande da sala estava rachado. Cinthia ouviu uma voz dizendo: Veja o que realmente aconteceu e viu no espelho o rosto jovem e bonito de Valeska em um espelho semelhante àquele, escovando os longos cabelos e conversando com a prima:

Mas não é isso... – Val largou a escova e se juntou a Victória na cama. – Eu quero dizer que você aprendeu a dirigir há pouco tempo, pode causar algum acidente!

Confie em mim, eu dirijo melhor do que muito instrutor de autoescola, OK?

Tá, mas a Lívia só tem 12 anos, não podemos levá-la...

Neste momento, Lívia entrou e jogou a mochila com força no chão, surpreendendo as outras duas, que estavam de costas para a porta do quarto.

Eu não sou criança, Valeska! – A garota quase rugiu e a irmã questionou o que ela fazia ali.

Meus pais conversaram com o médico e ele me deu alta. – Lívia tinha um sorriso cínico e Victória respirou fundo.

Que maravilha! – Valeska respondeu, olhando para a prima. – Sorte sua não ter irmã pirralha e ainda por cima problemática.

No calendário com o pôster de Michael Jackson, que ficava na porta do closet de Victória, lia-se: 1984.

Cinthia continuou a ver as cenas, mas desta vez a visão era de 1985, no dia em que Lívia chegou sozinha à casa dos tios, após ter fugido da clínica de repouso onde estivera internada por alguns meses. A casa estava vazia, pois ainda não haviam começado as reformas. Tudo estava negro e com fuligem ainda. Um cenário deplorável e medonho. A esposa de Tomás viu Lívia sentada com as pernas cruzadas no chão, falando sozinha e chamando os nomes Vic e Val, tratando esta última pessoa imaginária como irmã e a outra como prima; depois, o nome Roger surgiu, enquanto Lívia pegava o tabuleiro Ouija e um copo de plástico. A garota conversava com o nada, ora parecendo animada, ora parecendo com medo, quando começou a invocar presenças, sozinha, na tábua. Lívia tinha um diálogo para cada um dos três personagens.

– Cinthia, o que você tem? – Rafaela batia de leve no rosto da amiga, que olhava para um ponto fixo no espelho, sem perceber o que se passava ao seu redor. – Tomás, ela está estranha!

– Ela voltou aqui pra se comunicar com eles, um ano depois... – Lacrimejava e via os espíritos do rapaz e das duas moças cercando Lívia, os três com olhares de compaixão, tentando mover o copo para avisá-la de que estavam ali, mas a própria Lívia assumiu a direção para onde o copo ia. O pôster de Michael Jackson não estava mais no quarto que um dia fora de Victória. Tudo ali se resumia a cinzas.

– Ela quem, Cinthia? – Tomás perguntou aflito, ao vê-la chorando.

– Ela se sentia culpada pela morte deles... queria vê-los de novo, mas estava fora de si...

Em 1984, os quatro deixaram de sair porque tinham de ficar com a Lívia, então, o rapaz foi pegar o jogo do copo para ficarem se distraindo. Eles estavam entediados e resolveram tirar um sarro com a guria chata. Combinaram e armaram um cenário, fazendo parecer que o copo se mexia e que espíritos do mal estavam ali. Lívia, que já fazia um tratamento psiquiátrico, não suportou e teve uma crise, tendo que ser socorrida e internada às pressas. Ela convulsionou, teve alucinações e jurava que o “demônio do tabuleiro” estava atrás dela e que iria matar a todos.

Um ano depois, os pais das três somente as deixaram passar as férias juntas, caso prometessem cuidar da mais jovem, que precisava de apoio e de amigos. Todos queriam ir à festa de Alan, para namorar principalmente, mas como Lívia atrapalharia de novo, Valeska combinou com Victória que daria o calmante da irmã mais cedo, sem que ela soubesse, talvez em um suco ou refrigerante. Victória achou a ideia brilhante e ela mesma providenciou o refrigerante. Assim, Lívia iria dormir mais cedo e eles poderiam sair e depois dizer aos pais que ela preferiu ficar em casa, pois estava cansada. Lívia escutou a conversa, escondida atrás da porta, ficou com raiva e armou uma vingança. Mais uma vez a queriam deixar de lado, mais uma vez a tratavam como uma tonta.

Lívia fingiu beber o refrigerante que a prima lhe dera e minutos depois disse estar com sono. Ela foi para o quarto, pulou a janela e esperou do lado de fora. Quando os três mentirosos chegaram, sorrateiros, e entraram no Passat de Victória, Lívia apareceu com cara de poucos amigos.

Eu vou com vocês! – Disse, parada em frente ao carro.

Não vai droga nenhuma, sua mala sem alça! – Valeska disse, irada, e puxou a irmã, que se esquivou com violência.

Lívia, você não pode ir, lá vai ter bebidas e nós queremos namorar, mas que saco! – Victória explodiu, já abrindo a porta do carro e não dando atenção à caçula.

Eu não quero ficar sozinha!

É só por hoje à noite, custa? – Valeska perguntou e abriu a porta traseira do carro.

Tá com medo de ficar sozinha, a bebezinha! – Roger provocou e as outras duas riram. – Olha, você se lembra daquela tábua Ouija que jogamos ano passado? Então, eu esqueci ela aqui, sabia? Brinca lá com ela que você vai ter amiguinhos pra te fazer companhia!

Seus filhos da puta! – Lívia berrou e não conseguiu entrar no carro, os outros foram mais rápidos.

Entrem logo! – Victória gritou e Valeska e Roger obedeceram prontamente, mas quando Lívia fez menção de se aproximar, as portas do carro se fecharam e a garota revoltada ficou do lado de fora.

Não me deixem aqui, eu quero ir com vocês! – Chorava de ódio, enquanto tentava se agarrar ao carro já em movimento, rumo à estrada.

– Ela incendiou a casa da prima, jogando gasolina nas cortinas da sala e tacando fogo, e sequer esperou as chamas espalharem, porque queria alcançá-los na estrada. Pediu carona a um motoqueiro e chegou antes, ficou de tocaia na estrada... Lívia apareceu no meio da pista, metros adiante do carro da prima... a irmã a viu e se assustou, mexendo no volante... o carro saiu da pista, capotou e os três morreram na explosão.

Cinthia teve uma crise de choro e o copo de vidro estalou, voltando a se mexer e a formar novas palavras: “S-A-I-A-M P-E-R-I-G-O”. Tomás só teve tempo de amparar a esposa grávida, que desmaiou. Anderson, irritado, deu um safanão no copo, que se espatifou no chão, quando a campainha tocou em seguida. Tomás carregava Cinthia e procurava as chaves de seu carro para levá-la ao hospital, enquanto Anderson foi atender à porta. Ele não teve tempo de anunciar a visita inesperada ao dono da casa, porque o tiro que levou foi certeiro e fatal.

***

Meses depois, Cinthia dava luz a um menino saudável. Rafaela havia se afastado dos amigos, pois a morte do marido naquelas circunstâncias ainda a assombrava. Por coincidência, o bombeiro Flávio estava na maternidade no dia seguinte ao parto, porque havia socorrido outra parturiente e, quando soube que a ex-moradora da “casa assombrada” estava ali internada, tomou coragem e foi conversar com Tomás. As informações que trocaram esclareceram as dúvidas que Flávio ainda tinha em relação ao acidente que presenciara na estrada.

– A corretora, aquela mulher era a Lívia. Ela nunca se recuperou de ter causado o acidente que matou a irmã, a prima e o amigo e ficou mais doida do que já era – Tomás explicou.

– Ela matou o seu amigo, mas por quê?

– Ela ficou um tempo trabalhando com corretagem e quando soube que o último morador estava vendendo a casa, conseguiu intermediar a venda e se reaproximar. Parece que ela tentava entrar na casa, todos os anos, mas quando outras pessoas passaram a morar lá, era afastada na marra. A garota era doida de pedra! Eu não sei por que ela atirou no Anderson, por que foi até nós armada e até hoje me pergunto como ela soube que estávamos com aquele jogo maldito!

– Pelo que você me contou, foi graças ao tal jogo que vocês foram avisados. Ela poderia ter matado todos, mas como você saiu pelos fundos com sua esposa, ouviu o tiro e teve tempo de se proteger.

– Eu sei, eu sei... A Rafaela foi muito corajosa se atracando com uma louca armada. Ainda bem que ela não se feriu... quer dizer, fisicamente, mas o trauma...

– Ao menos aquela maluca teve o que merecia e não vai mais fazer mal a ninguém.

– Não sei. Depois do que vi naquele dia, aqueles espíritos se comunicando... não sei mesmo. A vida não acaba aqui, disso eu tenho certeza agora. – Tomás encarou Flávio, sério e um tanto cerimonioso.

– Vocês não voltaram mais lá?

– Não. Nunca mais passo perto daquela casa e nunca mais quero ver um tabuleiro daqueles na minha frente.

– O que fez com aquele?

– Eu queimei.

– Ué... – Flávio coçou o queixo. – Esse tabuleiro... estranho vocês terem encontrado ele na garagem. Ele não tinha sido destruído no incêndio em 1985?

– Eu... bem... ele deveria ter queimado... Agora que você disse isso... – Tomás ofegou. – Como aquela tábua foi parar na garagem da nossa casa? Bem lembrado, mas eu não faço ideia!

***

A casa continuava vazia e a placa de ALUGA-SE permanecia pendurada no portão que, ao se abrir sozinho, deu passagem para a corretora Lívia entrar. Ela estava assustada, olhava para o sangue em abundância que vertia da altura de seu umbigo; apertava o abdômen na tentativa de estancá-lo. Sentia muita dor e muita sede... sempre ouvira dizer que pessoas que levam tiros sentem muita sede. Aquela mulher se atracara com ela e a arma acabara disparando contra a própria Lívia. Ela correu, não deixaria que a prendessem, e foi para o único lugar onde acreditava que poderia obter socorro: a casa de Vic.

Gemia e caiu sentada na varanda, os sapatos altos e o tailleur claro imundos de sangue. De repente, a porta da sala se abriu e Lívia viu sua irmã Valeska saindo, séria como sempre, encarando-a com visível reprovação. Atrás de Valeska, vieram Victória e Roger, estes também sisudos e olhando-a severamente.

– Eu sempre soube que vocês estavam aqui... – disse com esforço.

– Claro que sempre soube! – Valeska acusou. – Ficamos aqui durante todo esse tempo por sua culpa!

– Eu não queria que vocês tivessem...

– Morrido? – Roger perguntou, os lábios trêmulos.

– Temos duas notícias para você, Lívia. – Victória se aproximou. – A primeira é que você não é mais uma doente mental; não existe mais doença.

– Não? – Lívia perguntou, confusa, e se assustou ao ver o sangue de seu corpo enegrecendo.

– A segunda é que você não está mais sangrando e nem sentindo dor alguma. Isso é uma ilusão, já aconteceu.

– O quê? – Lívia encarou os três, franzindo as sobrancelhas, e viu sua roupa seca; o ferimento havia sumido.

– Lívia, acorde... Você agora raciocina claramente, irmãzinha... Como você acha que está nos vendo? Você tentou por quase 30 anos e só depois que leva um tiro é que consegue? Junte as peças! – Valeska disse e Lívia os encarou com atenção. Ela percebeu que seus semblantes eram muito pálidos, todos tinham olheiras e pareciam perdidos, cansados demais como nunca foram em vida.

– Eu saí correndo depois que ela atirou...

– Você morreu, Lívia! – Valeska concluiu.

– O quê? Não, eu estou viva! Eu consegui falar com vocês, consigo ver vocês porque passei por uma experiência de quase morte, é isso! Devo estar em algum hospital agora, entubada...

– Você está no cemitério, Lívia! Enterrada, morta! – Victória bradou.

– Vão pro inferno! – Lívia berrou e os três se entreolharam. Roger explicou:

– Nós vivemos no inferno por sua causa. Viramos escravos de idiotas que querem saber o futuro, que querem falar com os mortos... teve gente que morou aqui e que nos vampirizava todos os dias, chamavam amigos, até cobravam dinheiro deles por isso... Você foi tão cretina, que incendiou a casa, mas teve o cuidado de salvar o tabuleiro, né?

– Me perdoem, eu não queria ficar sozinha, vocês não queriam fazer nada legal comigo... – Lívia chorava e Valeska se aproximou com um olhar de desprezo.

– Não mudou nada! Meus pais diziam que você tinha problemas... eu sempre achei que você era uma mimada e petulante!

– Val, fique comigo! – Lívia ainda estava no chão e estendia a mão para a irmã, que se afastou e se pôs ao lado de Roger e de Victória.

– Você fez tudo aquilo só para não ficar sozinha... – Victória falou. – Sempre fez de tudo para voltar para cá e continuar nos perturbando... Pois você agora tem essa casa TODA pra você!

– Adeus, Lívia! – Valeska disse e, seguida pelos outros dois, foi em direção ao portão de entrada da propriedade, que se abriu sozinho para eles cruzarem. Val, Vic e Roger assim fizeram e uma trilha surgiu diante deles... uma trilha iluminada, convidativa e libertadora. Lívia correu e tentou alcançá-los, mas tropeçou no que acreditava ainda ser seus sapatos altos. Ela ainda se sentia uma mulher de 43 anos de idade, que não mais sabia correr como uma garota ágil. Os três ficaram olhando sua débil tentativa de ultrapassar o portão, que se fechou com violência diante dela, separando-a para sempre daqueles que um dia foram sua família e amigo.

– Eu quero ir, não me deixem aqui sozinha! – Lívia, agora com sua aparência de 13 anos de idade, berrava, enquanto lutava contra aquele portão. Valeska olhou para a irmã com certa pena, levantou o olhar e viu uma silhueta dentro da casa. Parecia ser de um homem alto e magro, com uma aura maligna, que observava a cena, aguardando pacientemente sua conclusão.

Valeska foi andando de costas, de mãos dadas com sua prima e seu amigo, os três com os olhares fixos ora na casa, ora em Lívia, que tentava forçar o portão para segui-los. A irmã mais velha foi sumindo pela bela trilha e deixou seu último recado para a irmã:

– Sinto te dizer, Lívia, mas você não está mais sozinha.

Os três já estavam longe dali, sorrindo e se sentindo libertos. A sensação de prisão os deixara e voltaram a sorrir. Não sabiam o que encontrariam pela frente, mas sentiam que era algo bom, justo... Além disso, estavam juntos e tinham certeza de que não seria nada pior do que a experiência que foram forçados a passar logo após suas mortes prematuras e violentas. Se animaram tanto com o que viam adiante, que correram juntos, sempre de mãos dadas e gargalhando alto. A sensação era melhor do que a própria infância.

Não viram quando Lívia, desolada, soltou o portão, se virou para trás e deu de cara com o verdadeiro dono da casa e de sua alma, aquele que tanto se alimentara de sua loucura e que sempre vira em Lívia uma porta, um elo com o mundo real. Ele segurava um tabuleiro Ouija e lhe disse em meio a um sorriso pavoroso:

– Vamos jogar!

O grito alucinante de Lívia ecoou pelos cômodos da casa.