Jovens de obras sociais criam soluções digitais em hackaton no Congresso de Educação Social, em Itaquera
Equipe do DIS/EPM conduziu maratona de inovação com quatro equipes; bullying, transporte, preconceito e desinformação foram os desafios escolhidos
O Circo Social Dom Bosco, em Itaquera, zona leste de São Paulo, foi palco do 6º Congresso de Educação Social — cujo tema deste ano, "Novas Fronteiras e o Papel do Educador Social", propõe repensar o ofício do educador em tempos de transformação digital —, jovens de obras sociais salesianas de pelo menos oito cidades do interior e da capital paulista se debruçaram sobre uma pergunta incômoda: como a tecnologia pode resolver os problemas que eles próprios vivem?
A resposta veio em quatro propostas construídas ao longo de um hackaton conduzido pela equipe do Departamento de Informática em Saúde (DIS) da Escola Paulista de Medicina da Unifesp. Em equipes de cinco a sete participantes, entre 11 e 31 anos, os jovens elegeram seus desafios, desenharam soluções e as apresentaram ao plenário — um exercício que, para boa parte deles, foi a primeira experiência com metodologias de inovação.
Os problemas escolhidos revelam o retrato de uma geração. O bullying foi o desafio da equipe "Diga não ao bullying", que propôs um site informativo de enfrentamento. A inacessibilidade do transporte público motivou a "InovaThon", que idealizou um site de denúncias sobre falhas de acessibilidade — transformando o celular em instrumento de cobrança do poder público. O preconceito, desafio da "Sociedade da Alegria", ganhou uma resposta de dentro para fora da escola: uma disciplina sobre racismo nas escolas. E a desinformação, tema que atravessa o debate público brasileiro, foi o alvo da equipe "Friends", que propôs canais públicos de distribuição de informação — uma aposta no acesso amplo e confiável a informação de qualidade.
Tecnologia a serviço da periferia
A escolha da Unifesp como parceira do congresso não é acidental. O DIS/EPM figura no quadro de apoio institucional do evento, ao lado de parceiros como o Unisal — e a fronteira temática "Culturas Digitais e Tecnológicas", uma das cinco que estruturam a edição 2026, foi justamente o território da maratona.
A equipe de facilitação combinou diferentes experiências: as professoras Claudia Galindo Novoa, chefe do departamento, e Rita Maria Lino Tarcia, vice-chefe da Disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação em Saúde ; a servidora Andréa Pereira Simões Pelogi; o colaborador Silvio Penteado De Pra; Joanna Lopes Soares Ferreira, estudante da turma TS19 do Curso Superior de Tecnologia em Informática em Saúde da Unifesp; e as alunas de enfermagem Antonia Beatriz Souza Santos e Rebeka Teles Pereira, da Universidade Nove de Julho.
A presença de estudantes de graduação e de outra instituição entre os facilitadores tem valor pedagógico próprio: mostra aos participantes do hackaton que a tecnologia é um campo acessível — inclusive para quem, como eles, cresceu longe dos centros de excelência em inovação.
A iniciativa se qualifica como prática extensionista: ao mesmo tempo em que leva metodologias de inovação a jovens em situação de vulnerabilidade social, contribui para a formação dos estudantes do departamento — como Joanna, da TS19, e as alunas de Enfermagem da Universidade Nove de Julho —, que experimentam, em campo, o papel de agentes de transformação técnica. E sinaliza um potencial que ainda se desdobra: o hackaton pode se tornar um espaço profícuo de parcerias futuras.
Das trilhas ao Miro
O hackaton foi o desfecho prático de um congresso construído sobre escuta. Ao longo do evento, os participantes percorreram cinco trilhas temáticas de formação — Existências e Trajetórias Humanas, Cuidado e Saúde Mental, Inclusão e Acessibilidade, Diversidades e Culturas do Encontro e Culturas Digitais e Tecnológicas.
Coube à professora Rita Maria Lino Tarcia a tarefa de costurar o que foi dito. Ela apresentou ao plenário a síntese das discussões das trilhas, sistematizada com o apoio do Miro, quadro colaborativo digital que organizou em tempo real as contribuições dos grupos e as transformou em um panorama visual.
A travessia
O eixo que dá nome ao congresso — "O Mapa de Bordo: A Travessia do Educador Social nas Novas Fronteiras" — pede do educador social o papel de navegador de uma época em que as fronteiras do cuidado, da inclusão e do digital se movimentam. Naquele fim de tarde em Itaquera, os primeiros navegadores, no entanto, tinham entre 11 e 31 anos, vinham de Abrigo Dom Bosco a Lorena, de Americana a Campinas, e voltaram para casa com uma lição que poucos ambientes lhes oferecem: que as ferramentas que moldam o mundo também podem ser usadas por eles para moldá-lo.