Um problema ao enigma de Pierre
No final do século XIX, Gottlob Frege, em seu artigo “Sobre o Sentido e a Referência”, apresentou o problema da substituibilidade de expressões correferentes — expressões que se referem ao mesmo objeto, mas divergem em conteúdo informativo. Frege propôs que tal problema poderia ser solucionado ao distinguir entre sentido e referência. No entanto, Saul Kripke, em A Puzzle About Belief (Um Enigma Sobre Crença), introduziu enigmas que não dependem exclusivamente da substituição de termos correferentes, como os casos de tradução e descitação. Esses enigmas revelam uma classe de expressões que, por não envolverem diretamente a substituição, escapam à solução fregeana.
O enigma de Pierre, proposto por Kripke, é o caso mais notório de enigma que escapa à solução de Frege. O enigma descreve Pierre, um francês monolíngue que mantém crenças contraditórias sobre um mesmo lugar sem perceber que se refere à mesma entidade em contextos linguísticos distintos. Pierre, que inicialmente acredita em Londres est jolie (Londres é bonita, em francês), forma a crença oposta ao se mudar para a cidade e começar a acreditar em London is not pretty (Londres não é bonita, em inglês), sem perceber que está se referindo ao mesmo lugar. Kripke não oferece uma solução para o enigma, pois seu objetivo é demonstrar que o problema fregeano não é estritamente sobre substituibilidade salva veritate, uma vez que é possível formular o mesmo problema sem o princípio de substituição, utilizando apenas os princípios de tradução e descitação.
Entretanto, não parece estar definido que traduzir não é correferenciar — ou seja, substituir termos por seus correferentes. O enigma de João pode ajudar nesse caso. Este brasileiro monolíngue e com pouco conhecimento geográfico, acredita que “Holanda não é bonita”. Em suas férias, viaja à Europa e se encanta por um país chamado Nederland, sem saber que se trata da mesma Holanda que ele despreza. Então ele afirma: “Nederland é bonita”. O enigma surge porque João mantém essas duas crenças contraditórias, já que não percebe que ambas se referem ao mesmo país. O enigma de João é semelhante ao de Pierre, exceto pela ausência de tradução literal. Embora “Holanda” seja convencionada como tradução de “Nederland” para o português, não é uma tradução literal — o correto seria algo como “Reino dos Países Baixos”. O ponto é que, ao traduzirmos frases contendo nomes de um idioma para outro, estamos, de alguma forma, substituindo termos por seus correferentes.
IA E FILOSOFIA DA QUASE-VERDADE: REPENSANDO A VERDADE DAS INFORMAÇÕES NA ERA DAS IAS
Este trabalho investiga a aplicabilidade da teoria da quase-verdade, desenvolvida pelo filósofo e lógico Newton da Costa, no campo da inteligência artificial (IA). Em particular, pretende-se investigar a viabilidade da aplicação da teoria de Da Costa na análise e validação das informações geradas por esses sistemas. A noção de verdade é central em várias áreas do conhecimento, como na matemática e em diversas ciências, e tem sido objeto de intensos debates na história da filosofia. No período contemporâneo, foram articuladas e discutidos diversos tratamentos da noção de verdade, como as teorias da correspondência, coerência e pragmatista. No contexto da IA, onde ambiguidades e incertezas são inevitáveis, essas teorias tradicionais enfrentam desafios. A teoria da quase-verdade, que aceita proposições parcialmente verdadeiras dentro de certos contextos, oferece uma abordagem mais flexível e adaptável à validade das informações geradas por IA. Esta teoria se torna particularmente relevante em situações práticas, como o uso de redes neurais e processamento de linguagem natural (NLP), em que a incerteza e ambiguidades são comuns. O objetivo geral da pesquisa aqui apresentada é explorar como a filosofia da quase-verdade pode contribuir para sistemas de IA mais confiáveis e robustos. Ao contrastar a teoria de Da Costa com outras teorias da verdade, como a correspondência de Tarski, a pesquisa sugere que a quase-verdade é mais adequada para contextos que envolvem informações que são produtos de IA. O trabalho visa estabelecer uma ponte entre filosofia e tecnologia, oferecendo uma base teórica para o desenvolvimento de IA mais precisa e socialmente responsável.
O Dialeteísmo nos Ensaios de Newton da Costa
Dialeteísmo é a visão de que há dialeteias, ou seja, sentenças da forma α ˄ ˥α resultam verdadeiras. Em outras palavras, as dialeteias são contradições verdadeiras. Uma das principais motivações para o dialeteísmo encontra-se nos paradoxos semânticos, como o paradoxo do Mentiroso. A sentença do mentiroso, na abordagem dialeteísta, instancia uma dialeteia. Como dialeteísmo é a visão que algumas, mas não todas, contradições são verdadeiras, o dialeteísmo demanda um tratamento paraconsistente. Fora o exposto, para que a teoria dialeteísta faça sentido, ela precisa satisfazer dois requisitos: (I) a negação precisa ser um operador formador de contradição (ofc) e (II) não permitir que a explosão seja válida. Graham Priest, um dos principais defensores do dialeteísmo, elabora uma lógica paraconsistente, conhecida como Lógica do Paradoxo (LP), que, segundo ele, seria capaz de lidar com os requisitos do dialeteísmo. Outra abordagem dialeteísta, embora muito pouco conhecida, foi defendida pelo lógico brasileiro Newton da Costa no livro “Ensaios Sobre os Fundamentos da Lógica”. Nesse livro, da Costa desenvolve uma concepção dialeteísta via um tipo especial de paradoxos, as aporias. No geral, uma aporia é um paradoxo cuja solução abrange modificações substanciais nos princípios básicos da ciência, mas que, apesar disso, permanece controversa enquanto solução. Entrelaçado a isso, da Costa argumenta que a fonte de dificuldades para solucionar as aporias pode estar baseada em uma realidade inconsistente. Esse seria então, um caminho possível para se encontrar contradições na realidade.
Quando a arbitrariedade não é um problema para a justificação
O objetivo da comunicação é propor uma sistematização de como arbitrariedade é compreendida em discussões em Epistemologia e, a partir desse primeiro passo, argumentar o que significa ser racionalmente arbitrário, permitindo compreender por que ser arbitrário não é necessariamente algo ruim. Minha estratégia consiste em, primeiro, me remeter a três debates onde o elemento da arbitrariedade é crucial e delimitar melhor o que significa ser arbitrário. No debate da tese da singularidade da evidência, “arbitrariedade” é o nome dado a uma premissa do argumento em defesa da perspectiva de que, frente a um corpo de evidência, deveria haver apenas um estado doxástico como resposta. Dito de outra forma, perante esse corpo de evidências, que constituem a justificação proposicional de um estado doxástico, deveria haver somente um estado doxástico que responderia adequadamente a essa base evidencial. Admitir vários ou distintos estados como aceitáveis torna arbitrária a escolha de um deles. Um aspecto importante desse debate é que defensores da singularidade da evidência são criticados por delimitar de forma satisfatória por que deveríamos aceitar “arbitrariedade” enquanto premissa. Essas críticas, como pretendo abordar, tornam possível uma visão da arbitrariedade racional. O espaço para uma saída como essa não é tão simples no segundo debate, centrado no problema do regresso. Nele, o cético estabelece que, frente ao desafio de oferecer razões para crer, sempre que interrompemos as inferências de razões, fazemos por alguma razão ou sem razão alguma. No primeiro caso, não interrompemos. No segundo, interrompemos de forma arbitrária. Mais do que no primeiro debate, a arbitrariedade é manifesta aqui enquanto atributo da formação da crença. Haveria um modo correto dessa formação que, quando manifesto, promoveria justificação doxástica ou da crença. E quando arbitrária, a formação impediria esse resultado. Diferente do primeiro debate, aqui é incontornável sustentar uma justificação doxástica que não seja arbitrária para oferecer uma resposta ao problema. E essa demanda facilmente nos conduz ao terceiro debate: o problema do critério. Nele, para determinar qual o meio correto de formar crenças, devemos identificar que crenças foram formadas corretamente. E para identificá-las devemos ter um critério que nos permita fazer isso. Como sabemos que o critério é correto? Porque nos permitiu identificar crenças formadas corretamente. E como as identificamos como corretas? Porque o critério assim nos permitiu. O círculo ou dialelus elaborado pelo cético indicaria que o critério foi arbitrariamente determinado, onde temos o segundo sentido de arbitrário: enquanto atributo da determinação de um critério de formação de crenças para obtenção de justificação doxástica. Nesse ponto, entretanto, temos autores que defendem que não temos escolha e ceder ao cético é findar sem critério algum. Em outras palavras, voltamos ao ponto do primeiro debate: temos que ser racionalmente arbitrários. Cabe, então, delimitar melhor o que significa essa racionalidade arbitrária que surge como saída para as dificuldades apontadas acima. Na caracterização que faço, argumento, também, que sua melhor compreensão permite entender quando, de fato, a arbitrariedade é prejudicial.
A LÓGICA DA DESINFORMAÇÃO: FAKE NEWS E DESASTRES AMBIENTAIS NO CONTEXTO DAS ENCHENTES NO SUL DO BRASIL
O cenário das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 trouxe à tona um problema grave: a disseminação de fake news que, além de confundir as pessoas e criar pânico, dificultou as operações de resgate e os esforços de reconstrução. Este estudo tem como objetivo realizar uma análise lógico-argumentativa da estrutura das fake news propagadas durante esse desastre natural, investigando alguns dos padrões argumentativos utilizados para manipular a opinião pública. A pesquisa se baseia em exemplos de notícias falsas que viralizaram durante o desastre, revelando como falácias lógicas de diferentes tipos são empregadas para distorcer fatos e gerar confusão. A análise busca identificar algumas dessas falácias, propondo uma abordagem crítica que pode ser aplicada na identificação de desinformação. Além disso, serão discutidos brevemente os impactos da disseminação de fake news sobre as ações de emergência e os esforços de reconstrução, com ênfase no papel das mídias sociais e dos meios de comunicação no controle e na amplificação dessas notícias. Este estudo contribui para a compreensão dos desafios na comunicação em contextos de crise, demonstrando como ferramentas de análise lógica, como a identificação de falácias, podem ser aplicadas para explicitar, por exemplo, como falácias podem ser usadas para manipulação de informações e disseminação de desinformação durante momentos de crise.
AS CONCEPÇÕES DE MUNDO ATRAVÉS DAS REVULUÇÕES CIENTÍFICAS
O objetivo geral da nossa pesquisa é apresentar as interpretações de mundo a partir de duas revoluções científicas: a primeira ocorrida com Galileu Galilei, no século XVII, em defesa da teoria do heliocentrismo e da construção das leis fundamentais da mecânica clássica para explicar o mundo macroscópico, e a segunda com Heisenberg, no início do século XX, com a construção da teoria quântica para explicar o mundo microscópico. A tese que norteia a nossa pesquisa é que linguagem e método são os principais recursos por essas duas revoluções na ciência e na filosofia. Para provar a nossa tese, desenvolveremos a nossa pesquisa em três etapas: na primeira, descreveremos os fenômenos e explicitaremos raciocínios fundamentais para construção da Física Clássica a partir das obras de Galileu: “O Mensageiro das Estrelas”, “O Ensaiador”, “Os Dois Máximos Sistemas do Mundo”; na segunda etapa, examinaremos na obra de Heisenberg: “Física e Filosofia”, os conceitos e argumentos que serviram de fundamentos para esses autores construírem suas teorias e por fim, discutiremos os alcances da MC e as limitações da MQ. Dentre algumas das limitações estão as observações de Karl Popper apresentando a sua metodologia baseada na falseabilidade, porque ele não acreditava que apenas o método empírico não fosse suficiente para validação de uma teoria, assim’ ele apresenta no seu livro “Lógica da Pesquisa Científica” (1934) e no artigo Quantum Mechanics without “The Observer” (1967), ele apresenta os limites da mecânica quântica, tendo como alvo de sua crítica, Heisenberg. Assim, vale ressaltar que essa pesquisa não tem relevância apenas no estudo da Filosofia, se trata de uma pesquisa interdisciplinar, relacionando Filosofia, Física e Matemática (álgebra e geometria). Sendo assim, mostraremos que essas revoluções não foram apenas científicas e sim uma revolução conceitual, metodológica e epistemológica sobre a natureza do mundo.
Ceticismo radical: uma impossibilidade lógica?
Conforme Porchat (2007), o ceticismo radical é o maior problema enfrentado pela epistemologia contemporânea. A partir das Meditações metafísicas (1641) de Descartes, arquétipo do cognitivismo e do representacionalismo, inicia-se essa nova forma de ceticismo no período moderno. Assim, surge o desafio de um ceticismo global que põe todas as coisas sob suspeita na epistemologia. Contudo, sabemos que Descartes não é um cético, tampouco defende isso. Aliás, o resto das meditações é dedicado para resolver esse problema e alcançar certezas indubitáveis. Então, o que nos interessa aqui é o quanto esse procedimento inspirou o problema filosófico do ceticismo radical. Ou seja: de que modo podemos superar uma postura filosófica que coloca em xeque as nossas certezas mais básicas do tipo ‘estou acordado’, ‘tenho um corpo’, ‘objetos existem no mundo’, etc. No contexto de reação a esse tipo de ceticismo, Wittgenstein, em sua postura anti-cognitivista e anti-representacionista, parece ser um poderoso aliado para lidar com tal problemática. Em especial, a obra Sobre a certeza (1969) pode ser pensada como uma reação anti-cética por parte de seu autor. Pois, para Wittgenstein, os limites de um jogo de linguagem são os seus limites gramaticais. A gramática, nessa visão, fixa os significados e nos habilita a pensar, falar ou agir significativamente. Com efeito, ela determina o que é uma possibilidade lógica, ao passo que algo que é impossível do ponto de vista lógico é algo a-gramatical (não veicula, nem poderia veicular significado, nem fazer sentido). Isto é, a dúvida radical não faz sentido - é um contrassenso manifesto, logicamente impossível. Porque, nossas perguntas e dúvidas dependem logicamente de proposições, por sua vez, isentas de dúvida. Ademais, tais proposições podem ser entendidas enquanto hinges (dobradiças) uma vez que, ao permanecerem paradas, como no mecanismo de uma porta, possibilitam que nossas práticas epistêmicas ocorram. Por isso, argumentamos que se a dúvida radical é uma dúvida sobre hinges, então a dúvida radical é logicamente impossível. A dúvida radical é uma dúvida sobre hinges. Logo, a dúvida radical é logicamente impossível. Isto posto, defendemos, assim como Wittgenstein, que o ceticismo radical é uma impossibilidade lógica. Com efeito, a dúvida e o erro, em relação às hinges, são sem sentido do ponto de vista lógico.
Guided by mathematical voices
It is a common place in philosophy to say that thought is a conversation with oneself. For instance, in his Essay on Man, Cassirer claims: “instead of dealing with the things themselves man is in a sense constantly conversing with himself”. This is clearly a metaphor. It would be interesting to assess whether there are evidences supporting the idea that the soliloquy (either as a form of private or inner speech) is, in fact, an inner dialogue. In this paper, I want to consider a more particular case of this general question by asking on the dialogicality of mathematical thinking. Authors such Lakatos and Dutilh Novaes have famously argued that the production of deductive proofs is a dialogical practice. Furthermore, Dutilh Novaes claims that mono-agent mathematical thinking results from an internalization of this practice (an internalization that preserves dialogical features). In support of her claim, she advances two arguments. First, she argues that the Vygotskyan literature on developmental psychology affords empirical evidence in favor of her thesis (the Vygotskyan argument). Secondly, she affirms that the hypothesis of the dialogicality of mathematical thinking gives the best explanation to some properties displayed by self-reports on mathematics experience (the self-report argument). In the present paper, I show that both of these arguments are insufficient for establishing the hypothesis of the dialogicality of monological mathematical thinking. Finally, I claim that we need to engage in a richer phenomenology of mathematics experience to improve on Novaes’ arguments.
Verdade e valor epistêmico na ficção: uma análise acerca das teorias de David Lewis e Amy Kind
Este artigo explora as semelhanças entre as teorias de David Lewis e Amy Kind em relação às noções de verdade e valor epistêmico na ficção, destacando como ambas as abordagens oferecem insights sobre a formação e a justificação epistemológica. Amy Kind argumenta que episódios imaginativos na ficção podem ser epistemicamente úteis quando obedecem às restrições da Reality Constraint (RC) e da Change Constraint (CC). Essas restrições garantem que a imaginação se mantenha ancorada na realidade e que mudanças imaginadas sejam guiadas por suas consequências lógicas, promovendo a formação de crenças justificadas. Por outro lado, a teoria dos mundos possíveis de David Lewis enfatiza a importância da economia teórica, defendendo que não se deve introduzir entidades desnecessárias ao considerar realidades alternativas. Lewis propõe que mundos possíveis devem ser consistentes e coesos, evitando contradições e garantindo que as proposições derivadas sejam claras e válidas. Ao longo do artigo, argumentamos que tanto Kind quanto Lewis compartilham um compromisso com a relevância e a lógica na construção de crenças, seja através da imaginação ou da concepção de mundos possíveis. As restrições que ambos impõem buscam evitar a arbitrariedade, promovendo uma estrutura que permita a justificação das crenças formadas. Assim, este trabalho pretende contribuir para um entendimento mais profundo das intersecções entre imaginação, ficção, verdade e valor epistêmico, evidenciando como as teorias de Lewis e Kind podem ser complementares na análise da natureza do pensamento imaginativo e suas implicações epistemológicas.
Tropos e universais
Donald Williams, o criador da ontologia dos tropos, sugeriu que sob o suposto dessa ontologia os universais fossem entendidos como conjuntos de tropos precisamente similares entre si. Mas como podemos ter acesso a um conjunto imenso, como o dos tropos de vermelho? Essa sugestão, mesmo que aceita, sempre foi problemática. Minha exposição consiste na sugestão de uma estratégia mais simples e menos comprometedora. Ela consiste em traduzir para a teoria dos tropos a solução empirista para o problema dos universais sugerida por Berkeley e Hume. Essa teoria consistia em entender a formação de ideias gerais como a habilidade de saber se uma ideia qualquer é ou não é idêntica a uma certa ideia associada ao termo conceitual. O problema maior apontado na solução empirista estava no comprometimento com o imagismo. Minha sugestão consiste simplesmente em substituir a noção de ideia pela noção de tropo. Nesse caso, tudo o que será exigido para o uso geral de uma palavra será a habilidade de, tendo associado um termo conceitual a um tropo específico, sermos capazes de identificarmos qualquer tropo como sendo ou não sendo precisamente similar a ele. Dessa maneira será possível o uso geral do termo conceitual sem o comprometimento com um conjunto de tropos. Mesmo que se seja em princípio possível derivar um conjunto de tropos, ele não terá qualquer função cognitiva.
Lógica possibilística como uma teoria da vagueza
A vagueza é geralmente concebida como um tipo de indeterminação das condições de verdade de uma sentença S (ou de uma enunciação de S, ou de uma proposição expressa por S). Não é que ignoramos alguma informação indispensável para julgar o valor de verdade de S, é que não há valor de verdade, porque as condições de verdade de S não foram especificadas com precisão suficiente. Não há “fact of the matter” que determine o valor de verdade. Já o epistemicismo postula que proposições vagas têm um valor de verdade clássico, mas que jamais o determinaremos—há um limiar dividindo pessoas altas de não-altas, mas ignoramos sua localização. Toda teoria da vagueza precisa comportar o fato de que, dado um predicado vago P, certos objetos definitivamente o satisfazem—alguém de dois metros de altura é alto. Para o epistemicismo, esses objetos são aqueles que sabemos estar suficientemente longe do limiar de P. Para a maioria das outras teorias da vagueza, esses objetos são aqueles que satisfazem P em todos os modos legítimos de tornar P preciso. Não há um limiar único, mas vários limiares que determinam o valor de verdade local àquele mundo possível, isto é, àquela precisificação. No caso do limiar único epistemicista, algumas de suas possíveis localizações são mais plausíveis do que outras: um limiar alto demais exclui objetos que definitivamente satisfazem P, e um baixo demais inclui objetos que definitivamente não o satisfazem. Por motivos análogos, em uma teoria de limiares locais, certos mundos possíveis são mais plausíveis do que outros. Independentemente de um limiar ser global ou local, podemos estimar sua localização por meio da teoria da probabilidade. Mas há outras teorias da incerteza que se apresentam como alternativas mais adequadas para questões de conhecimento e crenças de agentes. Dentre essas teorias, a lógica possibilística modela agentes que desconhecem os valores de verdade de algumas proposições clássicas e, portanto, limitam-se a estimar as possibilidades e necessidades de que elas sejam verdadeiras (ou falsas). Os proponentes da lógica possibilística pressupõem que vagueza não é um fenômeno epistêmico e delegam esse tema à lógica difusa. Parece razoável, no entanto, conceber uma teoria da vagueza como uma estimativa de limiares a ser feita com lógica possibilística. Avaliamos, assim, quão exitosa é a teoria da vagueza resultante: quão bem ela cumpre as tarefas das teorias da vagueza, como difere de alternativas difusas e probabilísticas, até que ponto tem mais poder explicativo do que as teorias existentes, e como compara-se a elas.
Evitando Crenças Contraditórias: A Perspectiva de Mark Richard sobre Relatos de Atitudes Proposicionais
A forma mais simples de atitude proposicional é normalmente compreendida como uma relação entre um sujeito epistêmico e uma proposição. Por exemplo, quando João acredita que está chovendo lá fora, João, nosso sujeito, tem a atitude de crença em relação à proposição está chovendo lá fora. Algumas outras atitudes são duvidar, deduzir, dizer, saber e assim por diante. É possível demonstrar que alguns princípios subjacentes a nossa prática informal de relatar crenças, como o princípio de descitação, conduzem a relatos da forma x acredita que p e x acredita que não-p, mesmo que x não se dê conta de que possui crenças contraditórias (KRIPKE, 1979). Será que desse fato deveríamos implicar que x acredita que p e não-p? Dada a nossa atitude caridosa de que não devemos atribuir crenças contraditórias — tais como ele acredita que p e não-p — a menos que os falantes as sustentem explicitamente, uma proposta semântica sobre como relatar atitudes não pode implicar a atribuição de crenças contraditórias de forma tão gratuita. Mark Richard, no livro Propositional Attitudes: An Essay on Thoughts and How We Ascribe Them (1990), propôs um tratamento quase-formal às situações descritas acima encontradas por Saul Kripke, mas sem implicar atribuições de crenças contraditórias aos falantes. O objetivo deste trabalho é apresentar com mais detalhes o problema dos relatos de atitudes proposicionais e mostrar como Mark Richard tenta solucioná-lo. Para isso, será sustentado que verbos de atitude funcionam como indexicais e que há uma função de correlação f que representa a crença do sujeito da atitude a partir do contexto, de modo que crenças aparentemente contraditórias operam sob contextos diferentes e, portanto, os relatos representam crenças diferentes.
FAKE NEWS: UMA ANÁLISE SOB A ÓTICA DAS PATOLOGIAS DO TESTEMUNHO
Este estudo tem como propósito analisar a problemática das fake news a partir das considerações do filósofo contemporâneo C. A. J. Coady, no texto “Pathologies of Testimony”, no qual é apresentado um quadro teórico acerca de três diferentes formas de comunicação – fofoca, rumor e mito urbano. Abordando a complexidade das mesmas e explanando de que forma desafiam as normas tradicionais de testemunho, especialmente no que tange à credibilidade das fontes e origem da informação; e acabam por falhar em sua função testemunhal, tornando-se potenciais causadoras de danos à sociedade. A pesquisa, a partir da abordagem do filósofo em referência, tem como objetivo realizar uma análise epistemológica das fake news enquanto uma forma patológica de testemunho. Assemelhando-se aos rumores, as fake news, com frequência carecem de fontes confiáveis e são disseminadas sem a verificação adequada, comumente suas informações advêm de fontes duvidosas ou anônimas, que não podem ser rastreadas, fato que compromete a legitimidade de seu conteúdo. Como a credibilidade das fontes é um aspecto fundamental para a avaliação do conteúdo testemunhal, na ausência de uma base de informação confiável incorre-se em um testemunho adoecido. Ademais, assim como os rumores e mitos urbanos, as fake news, embora contenham falsidades em sua comunicação, não devem ser totalmente desconsideradas, pois podem conter também elementos de verdade e/ou refletir preocupações sociais legítimas, sendo imprescindível um olhar cuidadoso acerca de seus impactos na sociedade, especialmente em tempos de crise. Coady destaca que patologias testemunhais tendem a proliferar em situações de incerteza, fato também observado no contexto das fake news, que se tornam mais evidentes em momentos de tensão e conflitos na sociedade (pandemia, períodos eleitorais, contextos de guerra, etc.), nos quais a manipulação da informação pode ter consequências graves. Este trabalho busca investigar e compreender, do ponto de vista da epistemologia do testemunho, a natureza patológica das fake news, configurando um passo relevante para que se possam desenvolver estratégias de mitigação da disseminação desse tipo de notícia e, consequentemente, a minimização de seus danos.
Excepcionalismo e Equilíbrio Reflexivo
Há duas passagens importantes na literatura recente de epistemologia da lógica: ‘eles [os lógicos] estavam errados por causa de um argumento intuitivo, não porque um sistema formal diferente foi proposto, e então, ‘adotado’. O caso mais famoso e que também eu acho que está aberto à disputa é o caso da lógica tradicional, a lógica aristotélica, que aceitava a inferência ‘alguns As são Bs’ de ‘todo A é B’, sem perceber que esse raciocínio é problemático se termos vazios são permitidos’ (Kripke, 2023); ‘Um exemplo em que a lógica científica pode ter substituído a lógica ingênua diz respeito à forma de inferência de ‘Todo F é G’ para ‘Algum F é G’, geralmente rejeitada tanto pela lógica moderna quanto pelas teorias semânticas modernas de linguagem natural’ (Williamson, 2021) (as duas traduções são minhas). Os autores discordam a sobre a explicação da revisão de uma lógica; o primeiro pertence a um registro excepcionalista, e o segundo, anti-excepcionalista. Enquanto Kripke defende que o raciocínio intuitivo (i.e., a lógica ingênua) corrigiu a lógica científica no caso da chamada ‘falácia de pressuposição existencial’, Williamson defende que foi a lógica científica que corrigiu o nosso raciocínio intuitivo. Esse desacordo naturalmente conduz à considerações sobre a aplicação do método de equilíbrio reflexivo em lógica. A presente comunicação defende que esse método é mais adequado a alguns tipos de anti-excepcionalismo em lógica do a alguns tipos de excepcionalismo. O trabalho pretende especificar esses tipos e justificar a adequação/inadequação do método, principalmente a partir da distinção entre axiomas e regras de inferência e também entre lógica científica e lógica ingênua.
Mitigando os danos de dissentimentos epistemicamente prejudiciais
Muitos pensadores têm argumentado em favor do valor epistêmico do dissentimento em contextos de investigação e pesquisa tal como na prática científica. Alguns defendem que as visões dissidentes podem ajudar na correção de visões consensuais errôneas ou a melhorar a justificação de visões corretas, outros argumentam que as visões dissidentes desempenham um papel fundamental em garantir a objetividade do conhecimento científico. No entanto, apesar da literatura epistemológica, principalmente em filosofia da ciência, tratar o dissentimento como benéfico para o conhecimento, essa ideia tem sido questionada em trabalhos recentes. Justin Biddle e Anna Leuschner’s (2015) e Inmaculada de Melo-Martín e Kristen Intemann (2018), apontam casos de dissentimentos que não trazem ganhos epistêmicos, mas são prejudiciais tanto para o conhecimento quanto em algum sentido prático. Isso pode ocorrer quando um grupo decide se opor a uma visão consensual por motivações não epistêmicas, apenas com a finalidade de se levantar dúvidas sobre a visão em questão. Por exemplo, as pesquisas financiadas pela indústria de tabaco nas décadas de 50 e 60 com o objetivo de mostrar que fumar não representaria riscos à saúde e de gerar controvérsia sobre os malefícios do tabaco. Esse tipo de dissentimento não contribui para o conhecimento, mas causa danos epistêmicos tais como promover crenças falsas sobre a evidência científica disponível, provocar dúvidas acerca da existência do consenso científico ou levar à crença de que a posição científica em questão não pode ser utilizada para tomar decisões epistemicamente justificadas. Desta forma, dissentimentos epistemicamente prejudiciais também causam danos sociais, uma vez que prejudicam decisões que impactam a sociedade, como políticas regulatórias, que dependem de evidências científicas para seu embasamento. Neste contexto surgem duas questões epistemológicas relevantes: existe algum critério que nos permita distinguir dissentimentos prejudiciais de dissentimentos benéficos? E qual seria a estratégia mais eficaz para prevenir os danos causados por esses dissentimentos? Esse trabalho visa explorar algumas das principais respostas a essas questões e destacar a posição de Inmaculada de Melo-Martín e Kristen Intemann (2018), segundo a qual, a melhor forma de lidar com dissentimentos prejudiciais é aprimorar a educação científica da população em geral a fim de que sua confiança na prática da ciência não seja abalada mesmo diante da ocorrência de dissentimentos prejudiciais, mitigando assim os danos gerados por esses.
Uma abordagem não-clássica de verdades na ficção
Tradicionalmente assumimos que o discurso ficcional, em oposição ao não-ficcional, seria um discurso não-sério. Assim, é costumeiro defender que, quando estamos em contextos sérios, estamos preocupados com a factualidade de nossas proposições, enquanto que em contextos não-sérios não há (nem deveria haver) um questionamento acerca da veracidade ou falsidade das proposições. Parece haver, então, uma intuição generalizada, por exemplo, de que em discursos ficcionais estamos fingindo. Ou seja, muitas vezes acatamos a ideia de que na ficção, por se tratar de um discurso não-sério, o que é dito não é digno de ser verdadeiro ou falso. Ainda assim, temos casos que demandam um maior refinamento do que seria uma verdade ficcional. Podemos ter afirmações como (1) ‘Bruce Wayne nasceu em Gotham City’ e (2) ‘Capitu nasceu em São Paulo’ e, ademais, dizer que (1) expressa algo verdadeiro e que (2) expressa algo falso, mas que noção de verdade estamos usando nesse caso? No caso de (1) ser um proferimento interno à narrativa ficcional, isso seria diferente de um (usando a terminologia de Recanati 2018) discurso metaficcional? Dado esse contexto, em minha apresentação, pretendo mostrar esses casos motivadores e apresentar uma interpretação lógica (usando LETj) do que seria a verdade ficcional. Veremos que a verdade no contexto ficcional admite casos de sobredeterminação e indeterminação de afirmações, o que é melhor representado por uma lógica paraconsistente e paracompleta como as LETs. Além disso, pretendo motivar que precisaríamos de uma maior compreensão de como tal verdade se distinguiria de uma verdade simpliciter, presente em discursos sérios.
Distinções entre Holismo Quineano e o Anti-excepcionalismo Lógico
O anti-excepcionalismo sobre a lógica (AEL), é uma posição que compreende que a lógica não é excepcional em relação às ciências empíricas, ou seja, a lógica não possui estatuto epistêmico ou metodológico especial. Segundo os anti-excepcionalistas lógicos, Quine (1951) é considerado como um dos precursores da posição, devido aos seus argumentos epistemológicos, como o holismo, o revisionismo, o gradualismo e o não-apriorismo sobre a lógica. Assim, algumas teses desenvolvidas por Quine em seu artigo “Dois Dogmas do Empirismo” foram abraçadas pelos anti-excepcionalistas, isso leva a todos na literatura a aceitar a narrativa de que Quine também se classificaria como um anti-excepcionalista. Contudo, o objetivo da pesquisa é questionar esse status atribuído a Quine, pois ele discordaria de vários pressupostos que o AEL mantém sobre lógica. Além de que as versões contemporâneas da AEL epistemológica diferem do holismo de Quine tanto em termos de seu conteúdo quanto de suas motivações. Até agora não há nenhuma análise cuidadosa sobre a visão de Quine e sua relação com o AEL. Embora os anti-excepcionalistas contemporâneos compartilhem pontos de vista importantes com Quine, eles também costumam rejeitar algumas partes de seu projeto. Os anti-excepcionalistas abdutivistas ao invés de serem naturalistas como Quine são realistas em relação à lógica.
PODE A LÓGICA SER FEMINISTA?
Segundo Andrea Nye (1990), a lógica formal e a filosofia feminista são incompatíveis, pois a lógica teria sido historicamente utilizada para promover interesses patriarcais. Nye defende essa visão ao afirmar que a lógica está intrinsecamente ligada à opressão das mulheres e, portanto, não poderia haver uma lógica feminista ou neutra que não seja opressiva. Além disso, Nye argumenta que o uso da lógica é inerentemente autocontraditório para feministas, pois tentar expor as falhas da lógica por meio dela mesma leva ao fracasso. Ao entrar no debate lógico, as críticas feministas acabam reforçando a tradição que buscam contestar, uma vez que a lógica foi criada para excluir as vozes femininas. Para Nye, as feministas têm duas alternativas: ignorar a lógica, o que ela considera uma saída impotente, ou utilizar a habilidade das mulheres em leitura crítica para responder aos trabalhos lógicos de forma a desestabilizar seus autores. Contudo, Saint-Croix e Cook (2024) argumentam que, apesar de seu uso histórico problemático, a lógica pode ser uma ferramenta poderosa tanto para combater opressões quanto para desenvolver argumentos feministas eficazes. Os autores sustentam que a lógica formal e a filosofia feminista podem se beneficiar mutuamente ao explorar suas interseções, em vez de serem vistas como irreconciliáveis. Assim, existe algo como “lógica feminista?” Gillian Russell (2020) defende que sim. Em sua perspectiva, a lógica serve como uma ferramenta para expor preconceitos e defender a igualdade de gênero, explorando hierarquias sociais, como o patriarcado, e outros dualismos relacionados a gênero, raça, classe e outros dispositivos sociais. Logo, a ideia de lógica feminista existe e pode ser entendida de duas maneiras: i) como uma lógica aplicada para fins feministas e ii) como a parte da lógica que investiga hierarquias sociais relacionadas ao gênero e sua influência nas consequências lógicas. Nesta comunicação, discutiremos a relação entre lógica e feminismo, bem como a aplicação da lógica em contextos feministas.
Sobre a ideia de causalidade em Elizabeth Anscombe e a mecânica quântica
O presente trabalho versará acerca da noção de causalidade na obra de Elizabeth Anscombe em paralelo com os avanços recentes da mecânica quântica. Anscombe, em sua obra Causality and Determination (1971), argumenta contra a visão determinista tradicional de que todo evento é rigidamente determinado por causas anteriores. Para ela, o conceito de causa deve ser entendido de forma mais ampla e plural, incluindo relações contingentes e não-deterministas, pondo em xeque, assim, a concepção mecanicista clássica de causalidade herdada de filósofos como Hume em Tratado da Natureza Humana (1739). Com o advento da mecânica quântica, questões sobre a causalidade têm sido revisitadas. Relações como o princípio da incerteza de Heisenberg e fenômenos como o emaranhamento quântico sugerem que, em nível subatômico, a causalidade não segue o modelo determinista clássico. Tal repensar acerca da ideia de causalidade ressoa com o argumento de Anscombe, que rejeita a necessidade de causas rígidas e propõe uma abordagem mais aberta, em que a causalidade pode ser contingente ou probabilística. Este trabalho buscará conectar as ideias de Anscombe sobre a causalidade com os debates contemporâneos da física quântica, investigando como sua visão filosófica pode fornecer uma base conceitual útil para compreender o comportamento não determinista observado no nível quântico, contribuindo para o diálogo interdisciplinar entre filosofia e física.
A FILOSOFIA DE WITTGENESTEIN E O ESTUDO DA LINGUAGEM EM CRÔNICAS NARRATIVAS BRASILEIRAS "A FILOSOFIA DE WITTGENESTEIN E O ESTUDO DA LINGUAGEM EM CRÔNICAS NARRATIVAS BRASILEIRAS
A presente comunicação é uma versão do ensaio a ser submetido, posteriormente, para a disciplina Tópicos Especiais em Filosofia da Linguagem, do Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Maranhão, ministrada pelo Prof. Dr. Cesar Frederico dos Santos, no segundo semestre letivo de 2024. O objetivo do trabalho é tratar sobre a filosofia da linguagem do “Segundo Wittgenestein”, com fundamento nas Investigações Filosóficas (Wittgenestein) e em obras teóricas dedicadas ao tema, desenvolvendo uma análise da linguagem de crônicas narrativas brasileiras, considerando-as como estudo de caso no âmbito das concepções wittgensteiniana. A virada linguística constitui-se numa mudança de direção no desenvolvimento da filosofia analítica. Os filósofos da linguagem, numa aproximação com a ciência, buscaram tornar a filosofia mais acessível, destituindo-a de obscurantismos e análises pautadas na subjetividade. Dessa forma, adotaram como objeto de estudo a linguagem, por ser considerada algo “observável” e instrumento possível de interpretação para entender a existência humana e o mundo. Como filósofo da linguagem, Ludwig Wittgenstein apresenta duas fases a serem estudadas. A primeira refere-se à escrita da obra Tractatus Logico-Philosophicus (1921), a qual “introduziu a virada linguística na filosofia analítica” (Beaney, 2013, p. 933) e colocou “a relação entre a linguagem e a realidade no centro da investigação filosófica (Beaney, 2013, p. 933). Anos mais tarde, Wittgenstein rompe com sua primeira filosofia, desenvolvendo sua segunda filosofia, que se encontram na obra póstuma Philosophical Investigations (1953), na qual o filósofo propõe a análise da linguagem ordinária, cotidiana, entendida como integrante do mundo físico, portanto possível de ser estudada. O Segundo Wittgenestein volta-se para a linguagem manifestada e observável, como objeto de estudo, a partir do exame de variados casos particulares e concretos, incluindo ainda casos imaginários (McGinn, 1997, p. 13), os quais também remetem a uma experiência humana no mundo. Assim, a análise filosófica deve voltar-se para a observação e descrição da linguagem nas suas relações de uso, na forma como é empregada pelos falantes, enquanto elemento vivo e dinâmico, para compreender o mundo e as experiências humanas. Pelo exposto, a comunicação proposta terá como etapas: tratar sobre as concepções de Wittgenstein (investigação gramatical, conceito de jogo de linguagem e forma de vida), abordar o gênero narrativo crônica, demonstrando as características que o relaciona à filosofia wittgensteiniana, e, por fim, apresentar o resultado de duas análises: i) uma investigação gramatical da crônica Hora de dormir, de Fernando Sabino, na qual há um diálogo entre pai e filho; ii) um exame da concepção de jogo de linguagem e de vida na crônica Recado ao senhor 903, de Rubem Braga, que retrata uma carta de um vizinho para outro. Em esclarecimento, o estudo realizado não visou desenvolver uma análise literária, mas sim utilizar o gênero crônica narrativa para o exame da linguagem com base nas concepções wittgensteiniana, motivo pelo qual se vincula à área da filosofia analítica.
Pré-lógicas e pré-matemáticas como teorias do conhecimento aplicadas à educação
Charles Peirce(2005) propôs o conceito de pré-lógica e o de pré-matemática, defendendo a ideia de que existem formas de raciocínio e inferência que ocorrem antes do surgimento das regras lógicas e matemáticas estabelecidas. A compreensão do desenvolvimento cognitivo e da construção do conhecimento tem sido objeto de estudo em diversas áreas, como a filosofia e a psicologia da educação. Nesse contexto, é que a epistemologia genética de Jean-Piaget e algumas considerações sobre as contribuições de Anna Sfard, também desempenham papel fundamental. Essas abordagens fornecem insights valiosos sobre o desenvolvimento do pensamento lógico e matemático, bem como sobre as habilidades intuitivas presentes antes do pleno desenvolvimento da lógica formal e da matemática. Tudo isso pode ser do interesse do professor de filosofia que ensina lógica quanto do professor de matemática, trazendo a importância do professor como também um teórico do conhecimento. Busca-se, pois, explorar a relação entre a epistemologia genética de Piaget e as pré-lógicas e pré-matemáticas de Peirce, e algumas considerações da filósofa israelense Anna Sfard.
A Filosofia Pragmática de Wittgeinstein: O uso da Linguagem em seu contexto sócio-prático
Wittgenstein na sua obra as “Investigações Filosóficas”, propõem a entender como funciona a linguagem. É importante notarmos que Wittgenstein sugere um não pensar e sim um olhar para tudo que está ao nosso redor, pois quando olhamos sem pensar somos capazes de perceber as várias explicações que fazemos das palavras, diferentes usos das palavras que estão relacionados às atividades extralingüísticas inevitavelmente, envolvidas pela Linguagem. Nas Investigações a linguagem só poderá ser interpretada nos seus jogos específicos, em sociedades particulares, jogos estes, que são fundamentados por regras, e que estão inseridos em formas de vida especificas. O objetivo é analisar o funcionamento da linguagem, a descrição dos vários usos de uma palavra, nesses casos, explicitar o conjunto de regras presentes nos jogos de linguagem. A ideia de que cada “jogo de linguagem” é regido por uma quantidade de regras, e estas não garantem nenhuma explicação, nenhuma verdade totalizante, pois se trata de regras particulares. A linguagem aqui mencionada é tomada como utilizável e funcional, a existência de uma variedade de significados na linguagem e várias maneiras de aplicá-la na vida, há de certo modo uma infinidade de “jogos de linguagem,” onde se dá a justificação de cada um dentro do contexto em que o individuo utiliza.
GALILEU ENTRE MUNDOS: DO “RENASCER DAS RUÍNAS ANTIGAS” AO ALVORECER DE UMA NOVA CIÊNCIA
Este trabalho versa sobre o lento processo histórico cultural e especulativo, do qual decorrem os fundamentos do pensamento de Galileu Galilei e a sua consequente adesão a um novo sistema de mundo. Discute ainda, os significativos desdobramentos nesse sentido, a partir do fervor das discussões engendradas pelos mais abertos eruditos do Renascimento Italiano acerca dos clássicos gregos e latinos, redescobertos no período. Dentre os quais, algumas obras de Aristóteles, que traduzidas diretamente do grego, tivera seu conteúdo reinterpretado. Desse modo, as análises feitas aqui se ocupam de dois importantes séculos da renascença, os séculos XV e XVI, mas sem deixar de notar seus prelúdios no XIV e epílogo no início do XVII. Contextos estes, sem os quais torna difícil a tarefa de compreender o gênio de Galileu, suas influências e rupturas no âmbito das contraposições ao peripatetismo. Com isso, o exame das interfaces históricas e filosóficas que atravessam toda a sua vida, evidencia um Galileu entre mundos, cujo os quais estão pautados no “retorno” à ruinosa Antiguidade clássica e o alvorecer de uma nova epistemologia. Assim, concluindo aqueles acalorados debates do início do Renascimento, e “abrindo os caminhos” para a ciência moderna.
O que caracteriza o debate entre monismo e pluralismo lógico?
Analogamente ao processo de revolução que as geometrias não-euclidianas causaram na matemática, desenvolvimento atual da lógica, em especial a caracterização de sistemas não-clássicos, tem permitido o surgimento de discussões e acarretado questionamentos acerca da abordagem até então predominantemente clássica, bem como sobre a própria natureza da lógica. Em primeira análise, um dos problemas centrais é se podemos afirmar que diferentes sistemas lógicos, mutuamente incompatíveis por vezes, oferecem noções de consequência lógica igualmente legítimas? Essa questão é debatida por duas posições filosóficas: o monismo e o pluralismo lógico . Nesse caso, os pluralistas não só toleram o estudo de lógicas alternativas, como também defendem que várias delas podem ser consideradas satisfatórias para determinados domínios. Por outro lado, os monistas sustentam que há apenas uma única Lógica verdadeira, seja ela clássica ou não. Nas duas situações teremos inúmeros aspectos, mas especialmente na primeira teremos o advento de diferentes vertentes teóricas como resposta ao debate. Diante disso, apresentaremos o panorama geral do debate entre pluralismo lógico ao monismo, evidenciando alguns dos seus principais elementos.
É possível individualizar o não-ser? O problema da negação no primeiro Wittgenstein
Minha apresentação busca reconstruir um clássico problema que afeta diversas concepções representacionais da linguagem: o “problema da negação”. Nossa reconstrução tem Wittgenstein como principal referência, pois ele foi um filósofo especialmente preocupado com essa questão. Um exemplo claro dessa preocupação encontra-se em seus cadernos de 1914-1916, que fazem parte dos seus escritos pré-tractatianos: “Eis o mistério da negação: as coisas não estão assim, e ainda assim podemos dizer como as coisas não estão”. A preocupação de Wittgenstein pode ser resumida da seguinte maneira: como a linguagem, entendida fundamentalmente como representação da realidade, pode descrever algo quando o representado não existe? Isso é o mesmo que perguntar o que proposições negativas verdadeiras e proposições falsas descreveriam. Em última instância, tanto o problema da negação quanto o problema da falsidade tratam de como essas proposições podem representar aquilo que não é. Utilizaremos o artigo de Jean-Philippe Narboux, intitulado “The Threefold Puzzle of Negation and the Limits of Sense”, como principal referência para a reconstrução do “problema da negação”. Neste artigo, os escritos de Wittgenstein servem como paradigma para a reconstrução do problema da negação, que Narboux chama especificamente de “o enigma da negação”. A tese central do texto é que o conceito de negação deve ser compreendido em conjunto com outros dois conceitos fundamentais: o de limite e o de intecionalidade. Segundo Narboux, esses três conceitos estão intrinsecamente interligados, de modo que qualquer tentativa de entendê-los isoladamente “mutila o problema” e impede sua adequada compreensão. Nessa linha, o autor defende uma “estrutura tríplice do enigma da negação”, que serve de base para sua reconstrução do problema. O artigo apresenta, assim, três enigmas da negação, sendo cada um deles utilizado para destacar um aspecto da estrutura tríplice do problema. O primeiro enigma diz respeito ao emprego do sentido da proposição (uso bipolar da negação) e é formulado da seguinte maneira: “como pode não-P (digamos, "O livro não está sobre a mesa") negar P, já que, se P não é o caso (como não-P afirma), então nada corresponde a P?”. O segundo enigma trata da delimitação do sentido da proposição, na medida em que o uso unipolar da negação exclui o sentido daquilo que é negado. O terceiro, por sua vez, é uma consequência dos dois enigmas anteriores e trata da equivocidade dos diferentes usos da negação nos outros dois enigmas. Nossa apresentação se concentrará especilamente no primeiro enigma, com o objetivo de analisar como Wittgenstein abordou o “problema da negação” em seus escritos pré-tractatianos e no próprio Tractatus Logico-Philosophicus. Apesar de destacarmos apenas um dos três enigmas, seguiremos o alerta de Narboux para evitar “mutilar” a estrutura tríplice do problema. Assim, ao tratar do primeiro enigma, que pode ser entendido como o problema da negação nas concepções representacionais da linguagem, é importante lembrar que a questão da negação também está relacionada àss discussões sobre limite e intencionalidade da linguagem.
Paradoxo de Fitch e atualização informacional
O paradoxo de Fitch (ou paradoxo de Church-Fitch), que remonta ao artigo “The Logical Analysis of Some Value Concepts” (1963), é um resultado em epistemologia formal que tem sido considerado na literatura especializada tanto como uma refutação ao verificacionismo (no sentido de que todas as verdades são, em princípio, verificáveis – e, portanto, cognoscíveis), quanto a diversas formas de antirrealismo epistêmico (inclusive, de construtivismo, idealismo e pragmatismo). Não é exatamente um paradoxo, mas um resultado filosoficamente indigesto. Em resumo, ele mostra como, a partir da suposição de que todas as verdades podem (pelo menos em princípio) ser conhecidas, obtemos a consequência inusitada de que todas as verdades já são, de fato, conhecidas. Em lógica epistêmica, isso resulta em uma equivalência e subsequente colapso entre cada fórmula e essa mesma fórmula precedida com o operador epistêmico forte (conhecimento/crença), trivializando essa modalidade. As tentativas para se bloquear o paradoxo costumam ir em uma das seguintes duas direções: ou revisar a lógica subjacente à prova (por exemplo, com tratamentos paracompletos ou paraconsistentes, entre outros), ou localizar o problema em algum dos princípios sintáticos ou semânticos usados (sem necessariamente mudar a lógica subjacente). É bem evidente que a construção da prova do paradoxo depende fortemente do bem conhecido fenômeno das sentenças mooreanas – ou seja, da dificuldade em se fornecer um tratamento lógico satisfatório para sentenças da forma “p, mas não se sabe/acredita que p”, as quais intuitivamente são inconsistentes – porque, ao afirmarem que p é o caso, comprometem (pelo menos pragmaticamente) o agente epistêmico que as enuncia com o conhecimento de que p é o caso. Na perspectiva da lógica epistêmica dinâmica, uma atualização informacional de uma sentença mooreana pode ser algo muito natural, ao consideramos, por exemplo, os anúncios públicos autorrefutadores – quando o compartilhamento público de uma informação verdadeira automaticamente produz uma atualização informacional que torna aquela informação falsa, sem nenhuma estranheza de caráter lógico ou intuitivo. Em nossa apresentação, após recapitularmos rapidamente a derivação do paradoxo de Fitch, mostraremos como a sentença mooreana que permite a obtenção do paradoxo só é realmente problemática nos casos de autorreferência do agente epistêmico que profere a mesma (inclusive em se tratando de formalização dessas sentenças numa lógica do anúncio público) e discutiremos as razões por que esse tipo de sentença não deveria fazer parte de uma atualização informacional.
Frege’s Nebengedanken and Grice’s Implicatures
In the first part of “Über Sinn und Bedeutung” (1892) Frege famously treats sentences as particular cases of proper names that have truth-values as Bedeutung and thoughts as Sinn. This part of the paper is extremely well-known and lays down the basis of contemporary formal semantics. Much less known and discussed is the second part of Frege’s paper in which he considers several possible counterexamples to his own semantics. In addressing these counterexamples, Frege shows a remarkable sensitivity to some phenomena that almost a century later would be part of the field that we now call pragmatics. His discussion is primarily focused on subordinate clauses (i.e., sentences within sentences) of different kinds (noun, locational, temporal, causal, etc., clauses) and in each of them he detects different pragmatic phenomena (such as presuppositions, indirect reference, colouring, etc.). In this presentation I shall focus on the examples in which Frege detects what he calls Nebengedanken (side-thoughts), i.e., cases such as in the sentence ‘Napoleon, who recognized the danger to his right flank, himself led his guards against the enemy position’. In such cases, according to him, we have more thoughts expressed than there are clauses. And, also according to him, there are two kinds of Nebengedanken that can be both illustrated in the Napoleon sentence, depending on how we interpret it: (i)-those that are not part of the expressed thought but are understood by us as a product of our psychology; (ii)-those that are part of the expressed thought, although not explicitly indicated in any of the clauses.Some scholars (e.g., Horn 2007, Künne 2010) called attention to the fact that Nebengedanken of the first kind can be considered as a foreshadow of Grice’s notion of conversational implicatures, while Nebengedanken of the second kind might be seen as foreshadows of Grice’s conventional implicature (although Grice himself says very little about this latter kind of implicature). More recently, Sander (2019, 2021) has raised some objections to the parallel between Frege and Grice on this particular point, and claims that the notion of Nebengedanken in Frege is far more restricted than most scholars think. I shall argue against Sander’s position, contending that Horn and Künne’s reading is closer to Frege’s intention and, hence, we do indeed have a neat ancestor of Grice’s notions of conversational and conventional implicatures.
References:
Frege, G. (1892) “Über Sinn und Bedeutung”, Zeitschrift für Philosophie und philosophische Kritik 100: 25–50.
Horn, L. (2007) “Toward a Fregean Pragmatics: Voraussetzung, Nebengedanke, Andeutung”, in
Explorations in Pragmatics: Linguistic, Cognitive and Intercultural Aspects, ed. I. Kecskes and L.R. Horn, Berlin: Mouton de Gruyter: 39–69.
Künne, W. (2010) Die Philosophische Logik Gottlob Freges. Klostermann.
Sander, T. (2019) “Understanding Frege’s Notion of Presupposition”. Synthese 199:12603–12624
Sander, T. (2021) “Fregean Side-Thoughts”. Australasian Journal of Philosophy, Vol. 99, NO. 3, 455–471.
A psicologia de Quine: A Convergência entre Comportamento e Processos Cognitivos
Nossa apresentação consiste em apresentar algumas perspectivas epistemológicas da psicologia presente nos textos de Quine. Especificamente em Word and Object (1960), Quine desafia o dualismo tradicional que separa mente e corpo, promovendo uma visão holística que considera as interações entre comportamentos observáveis e processos mentais. Essa perspectiva é relevante porque a psicologia é frequentemente dividida entre abordagens que enfatizam o comportamento (como a psicologia comportamental) e aquelas que se concentram na cognição (como a psicologia cognitiva). Em Word and Object, Quine argumenta que uma compreensão mais profunda da mente humana deve incluir a análise de comportamentos que expressam estados mentais, argumentando que a cognição não pode ser isolada de sua manifestação prática. Um conceito central na filosofia de Quine é a indeterminação da tradução, que sugere que não há uma única interpretação correta para um comportamento ou expressão linguística. Esse conceito tem implicações significativas para a psicologia, porque ao estudar o comportamento humano, os psicólogos devem levar em conta a multiplicidade de significados que podem ser atribuídos a um único ato. Essa abordagem encoraja os profissionais a adotar métodos flexíveis e inclusivos, acomodando a complexidade da experiência humana. Em Two Dogmas of Empiricism (1951), Quine também rejeitou a ideia de que a linguagem reflete diretamente a realidade. Ele argumenta que a linguagem e o comportamento estão interconectados em uma rede de interações, o que implica que as interpretações do comportamento não podem ser dissociadas das estruturas linguísticas e culturais que moldam as percepções e experiências. Assim, a integração entre comportamento e cognição deve considerar os contextos socioculturais nos quais os indivíduos estão inseridos. Essa abordagem integrativa é corroborada pelos avanços da psicologia contemporânea, como a psicologia cultural e social, que enfatizam a influência do ambiente social e cultural nos processos cognitivos. Quine oferece uma base filosófica sólida para sustentar essas abordagens, promovendo uma prática psicológica que valoriza a complexidade e a interconexão entre diferentes domínios do conhecimento humano. As ideias de Quine servem como um convite à reflexão sobre como a prática psicológica pode se beneficiar de uma perspectiva unificada, que leve em consideração tanto a experiência subjetiva quanto as manifestações observáveis do comportamento. Em suma, uma análise da psicologia à luz das ideias de Quine revela a necessidade de uma abordagem integrativa que transcenda as divisões tradicionais entre comportamento e cognição. Essa perspectiva não apenas enriquece a compreensão teórica da psicologia, mas também oferece ferramentas práticas para psicólogos que buscam intervenções mais práticas e contextualizadas.
Críticas à aplicabilidade dialeteísta
Dialeteísmo é a visão de que afirma que contradições (A & ¬A) podem ser verdadeiras, e dialeteístas são aqueles que defendem tal tese. Como o dialeteísmo é a tese de que algumas, mas não todas, contradições são verdadeiras, essa visão, enquanto uma tese lógico-semântica, implica na paraconsistência. Ou seja, para que seja possível afirmar contradições verdadeiras, sem trivialidade, a lógica subjacente ao dialeteísmo deve ser paraconsintente (isto é, a lógica não pode validar o princípio de explosão que, intuitivamente diz que tudo se segue de uma contradição). Além disso, uma sentença do tipo A & ¬A deve representar uma contradição na lógica subjacente ao dialeteísmo. Assim, o significado de contradição é relevante para a discussão em questão. Segundo o dialeteísta Graham Priest, uma contradição deve capturar o sentido de contraditoriedade do quadrado de oposições da lógica aristotélica. Essa exigência na perspectiva de Priest, equivale assumir que o símbolo de negação deve ser um operador formador de contradição (ofc). Tendo isso em vista, para que o dialeteísmo faça sentido, a lógica subjacente precisa atender a duas exigências básicas: (i) deve ser paraconsistente e (ii) o símbolo de negação deve ser um ofc. Priest argumenta que a Lógica do Paradoxo (LP) é adequado ao dialeteísmo, uma vez que, segundo ele, LP atende essas duas exigências básicas. Todavia, como veremos em nossa apresentação, essa defesa de Priest é problemática. Partiremos de uma famosa crítica colocada por Hartley Slater em que defende que o símbolo de negação de LP é formador de subcontrárias, e não propriamente um ofc. Priest rebate essa crítica, argumentando que a negação de LP é sim um ofc por validar o princípio do terceiro excluído (PTE) e a lei de não contradição (LNC). A partir das ideias de Melo e Arenhart, veremos que a resposta de Priest é inaquedada. Deste modo, não basta que o princípio do terceiro excluído (PTE) e a lei de não contradição (LNC) resulte em válidas na Lógica do Paradoxo para que o sentido de contradição seja capturado. Segundo Melo e Arenhart, demonstrar apenas de forma sintática não é suficiente para garantir o sentido de contradição pretendido. Para os autores, essas leis lógicas só resultam em válidas por assumirem que há sentenças verdadeiras e falsas (truth value-gluts) que por sua vez, é uma pressuposição dialeteísta. Portanto, o sentido de contradição exposto por Priest não resulta em satisfatório meramente pelas validações de PTE e LNC. Em nossa apresentação, vamos expor de maneira sucinta os conceitos básicos do dialeteísmo. Feito isso, vamos dar maior ênfase nas críticas propostas por Slater e Melo e Arenhart.
Sobre a impossibilidade de desacordos profundos
Desacordos certamente não são novidade na história da filosofia. No entanto, quando se trata de framework propositions (proposições estruturantes ou certezas fulcrais), o desacordo parece assumir outra dimensão. Os participantes de um desacordo entre certezas fulcrais discordam das crenças mais fundamentais. Esse tipo de discordância envolve visões de mundo completamente ou quase completamente diferentes. Trata-se de um desacordo no qual os discordantes entram em conflito sobre coisas muito significativas, o que faz com que não abandonem suas convicções por razão alguma. Fogelin em The Logic of Deep Disagreements (1985,2005) defende que desacordos sobre aborto e ações afirmativas são exemplos de desacordos profundos, um tipo peculiar de desacordo que não é resolvido por meio da razão, pois os discordantes não compartilham um solo comum. Entretanto, destacamos um problema na caracterização de desacordos profundos de Fogelin: se um desacordo profundo, de fato, não tem nenhum tipo de solo comum compartilhado, como seria possível haver um desacordo? Dito de outra maneira: como pode haver um desacordo onde nem a comunicação é possível? É sabido que, para que seja possível um desacordo, é preciso que se tenha, pelo menos, um ponto em comum. Seja compartilhamento de crenças, seja um reconhecimento, mas é imprescindível que se tenha algum tipo de acordo mínimo para que seja possível discordar. Dessa forma, o desacordo profundo parece ser diluído. Em outras palavras, se a caracterização da noção de desacordos profundos for a de Fogelin, a consequência será: não existem desacordos profundos.
False Thoughts and Inferences
One of the most puzzling features about Frege’s view on logic from a modern point of view is his insistence that it is not possible to judge false thoughts as true and to draw inferences from them. According to Frege, it is only possible to draw inferences from thoughts judged as true. He repeatedly makes the point and it is inscribed into the very formalism of his Begriffsschrift (BS § 6, BLA § 14, N 148, PMC 20). Moreover, it is intimately connected to the distinction between thinking and judging a thought central to his thinking (BS §§ 2, 5, BLA § 5, T 62, PW 184). In this talk I focus on the claim that it is not possible to draw inferences from false or unasserted thoughts. The thesis seems especially odd comparing it both with the paradigm of Tarski’s model-theoretic and Gentzen’s proof-theoretic accounts of inference which suggest, on the contrary, that it is necessary to abstract from the truth of the premisses. (Tarski 1935, Gentzen 1935) I will consider the attempt to show that this does not overthrow Frege’s notion of inference, but that the comparison is actually instructive to understand the logical and philosophical points he is insisting on. First of all, Frege’s conception of inference is embedded within his endeavour to formalize the epistemic practice of proving true thoughts which is distinctive from considering their logical consequence relations (Sundholm 2012, 2024, Van der Schaar 2017). Secondly, it is the very point of the distinction between thinking and judging a thought to make sense of the logical use of unasserted and possibly even false assumptions. (Tichý 1988, 236-239, N 146-147, PW 244-246) Finally, my goal is not to decide upon, but to sharpen the question about Frege’s conception of inference in considering to what degree Frege and the moderns are contradicting or talking past each other.
A Prova de Frege do Princípio de Hume
Em Die Grundlagen der Arithmetik (1884), Frege tentou definir o conceito de número cardinal contextualmente por meio do princípio de abstração conhecido como Princípio de Hume, de acordo com o qual uma igualdade numérica deve ser entendida como uma correspondência um-a-um entre os conceitos envolvidos. O problema de Júlio César mostrou que essa definição falhou em fornecer um significado ao conceito de número, o que levou Frege a uma definição explícita de número em termos de extensões de conceitos. A definição explícita define o número cardinal de um conceito F como a extensão contendo todos os conceitos que podem ser correlacionados um-a-um com F. A principal razão de Frege para a adoção da noção de extensão de conceito era que, de acordo com ele, ela aparentemente evita o problema de Júlio César. No entanto, houve um importante segundo motivo por trás de sua adoção da definição explícita: o Princípio de Hume pode ser provado por meio dela. Na visão de Frege, essa é uma característica essencial de qualquer definição apropriada de número, uma vez que o Princípio de Hume, que tinha sido descartado como uma boa definição, é um pilar do projeto logicista: ele representa igualdades aritméticas de uma maneira puramente lógica. Veremos que a prova que Frege vislumbrou do Princípio de Hume era baseada numa lei lógica que ele ainda não tinha explicitamente formulado: A Lei Básica V. Mais precisamente, a prova esboçada no parágrafo 73 de Die Grundlagen baseia-se num princípio que governa a relação de identidade entre extensões de conceitos. Tal princípio é muito similar à Lei Básica V que Frege formulou em Grundgesetze der Arithmetik (1893), o que mostra que ele já tinha uma ideia de como seria a sua lei lógica que governa extensões de conceitos. Além disso, veremos também que uma possível versão da Lei Básica V em Die Grundlagen teria feito uso da noção de Frege de identidade de conteúdo, o que tornaria tal versão diferente em significado da versão posterior.
Um Arquipélago de Enigmas: introdução às lógicas modais
A lógica modal oferece uma imagem rica da lógica com a introdução dos novos operadores "□" e "⋄", cuja caracterização requer uma semântica alternativa à introdução de tabelas-verdade, como ocorre na lógica clássica. A semântica de Kripke, neste contexto, é uma alternativa muito usada para lidar com a família de lógicas modais normais. Não obstante, em virtude do caráter mais técnico desta semântica, pouco foi feito para ilustrar sua intuitividade e naturalidade para o raciocínio por meio da construção de enigmas nestas lógicas. Nesta apresentação, irei expor alguns enigmas modais que criei à maneira dos puzzles clássicos de Raymond Smullyan da Ilha dos Cavaleiros e Bandidos. Nos enigmas tradicionais de Smullyan, há dois tipos de personagens que habitam esta ilha: os Cavaleiros, que sempre falam a verdade, e os Bandidos, que sempre falam o falso. No caso dos enigmas modais, não temos mais apenas uma ilha, mas um Arquipélago de Ilhas dos Cavaleiros e Bandidos. Um habitante de determinada ilha pode visitar outras ilhas, e sua identidade pode se alterar de acordo com a ilha em que ele está. Iremos introduzir a noção de um personagem ser confiável, no caso em que sua identidade permanecer a mesma ao longo das ilhas que ele visitar, e ser potencialmente um Cavaleiro (ou Bandido), no caso em que ele se torne a personagem em questão em alguma das ilhas que ele pode visitar. Com isso, pretendo fazer uma introdução ao público geral de filosofia de como raciocinar em termos modais, explicar como estes puzzles nos ajudam a entender o que significam os operadores novos introduzidos nestas lógicas e como entender a semântica de Kripke em termos intuitivos e precisos. Apresentarei como algumas das propriedades das lógicas modais normais como a regra de necessitação, o axioma K, D, 4, 5, B, T, entre outros, podem ser apresentados como enigmas, assim como os sistemas S4 e S5 de Lewis, nos Enigmas Modais do Arquipélago de Cavaleiros e Bandidos.
Pragmatic Nonsense
Inspired by the early Wittgenstein’s concept of nonsense (meaning that which lies beyond the limits of language), we investigate two different types of nonsense: formal nonsense and pragmatic nonsense. The simpler notion of formal nonsense is defined in accordance with Tarski’s semantic theory of truth; the notion of pragmatic nonsense is in turn formulated within the context of the theory of pragmatic truth, also known as quasi-truth, as formalized by da Costa and his collaborators. Pragmatic nonsense extends formal nonsense, the same way da Costa’s pragmatic truth is an extension of Tarski’s definition of truth. An expression is thus considered formally nonsensical in case the formal criteria required for the assignment of any truth-value (whether true, false, pragmatically true, or pragmatically false) are not met; and an expression, or even a well-formed formula, is considered pragmatically nonsensical if either the formal or the pragmatic criteria of relevance (inscribed within the context of scientific practice) required for the assignment of any pragmatic truth-value (pragmatically true or pragmatically false) are not met. We also introduce the concept of strictly pragmatic truth, which excludes pragmatic nonsense and necessarily depends on certain criteria of relevance, unlike the original definition of pragmatic truth/quasi-truth.
Uma solução neopragmatista para o problema quineano da variação de significado em disputas lógicas
Nos últimos dois séculos, lógicas genuinamente rivais à clássica foram construídas, e, conjuntamente, argumentos foram desenvolvidos para defender ou atacar as lógicas “deviantes”, bem como a clássica. Nesse contexto, Quine (1970), e, mais recentemente, Warren (2016) defenderam a tese de que uma mudança de lógica constitui uma mudança de assunto — assim, as discussões feitas por lógicos rivais seriam meramente disputas verbais. Identifico como central nessa posição o “Princípio da Caridade Lógica” (ou “Princípio de Salvar o Óbvio”): qualquer sentença lógica em L é verdadeira se somente se for aceita (potencialmente, inequivocadamente) pelos falantes de L. Vejo que há uma visão errônea da relação entre lógica e linguagem aqui: uma linguagem natural não possui uma única lógica subjacente a ela, mas sim permite o criação de diferentes sistemas lógicos. Desejo destacar o fato de que, na argumentação por uma ou outra lógica, filósofos não usam só linguagens artificiais, e nem poderiam — a linguagem natural é indispensável. O que geralmente se faz nas disputas lógicas é apontar para um argumento específico que devemos aceitar como válido, ou uma situação claramente possível que violaria leis lógicas. Vejo aqui uma primazia da linguagem natural em relação à lógica, a partir da qual introduzirei o inferencialismo neopragmatista defendido por Brandom (2000) e Peregrin (2014). Nessa visão da linguagem, o vocabulário lógico trata-se de uma explicitação das relações inferenciais que constituem a linguagem natural. O desenvolvimento de sistemas lógicos seria então um processo de abstração e universalização de regras inferenciais boas num contexto específico. Com isso, podemos pensar nas disputas lógicas como negociações metalinguísticas (Plunkett, 2015; Silva, 2023). Ou seja: não disputas sobre nada a respeito de o que é verdadeiro, mas sim de como devemos usar certas palavras.
Interpretações Paraconsistentes: Dialeteísmo versus Abordagem Epistêmica
Na lógica clássica, uma contradição leva à derivação de qualquer proposição, conhecida como princípio da explosão. Esse princípio declara que, na presença de uma contradição, tudo pode ser logicamente deduzido. Em vista disso, surgem os sistemas de lógicas paraconsistente, que violam o princípio da explosão, permitindo tratar contradições sem resultar em trivialidade. O surgimento desses sistemas foi fundamental para o desenvolvimento de interpretações da paraconsistência, como a abordagem dialeteísta. Essa visão defende a existência de contradições verdadeiras (dialeteias) e encontram sua maior motivação nos paradoxos semânticos, como o Paradoxo do Mentiroso. Dialeteístas, como Graham Priest, consideram que o Paradoxo do Mentiroso estaria mostrando que há contradições verdadeiras. Com isso, Priest desenvolve uma lógica paraconsistente, conhecida como “Lógica do Paradoxo” (LP), que seria capaz de lidar com dialeteias sem trivialidade. Na abordagem epistêmica, por outro lado, as contradições são vistas como resultado de evidências conflitantes. Isso significa que pode haver evidências que sustentem tanto uma proposição quanto sua negação, sem que se afirme que ambas sejam verdadeiras. Para lidar com a noção de evidência, Abílio Rodrigues e Walter Carnielli tomam algumas lógicas paraconsistentes, como a Lógica Básica de Evidência (BLE) e a Lógica de Evidência e Verdade (LETj). A BLE assegura a consistência das evidências, enquanto a LETj, uma extensão da BLE, garante tanto a evidência quanto a verdade. Nesta apresentação, buscamos destacar o problema da natureza das contradições dentro do contexto da filosofia da paraconsistência. Em particular, iremos expor as abordagens dialeteísta e epistêmica, ressaltando como essas perspectivas podem ser contrastadas.