Unidades de Conservação são fontes ou drenos de espécies exóticas invasoras? Uma análise de rotas e vetores de invasões biológicas com foco em manejo e restauração

O Parque Nacional do Itatiaia possuía em 2013 registros de ocorrência para 34 espécies exóticas invasoras. Essa quantidade de registros coloca o Parque de Itatiaia em segundo lugar no ranking de unidades de conservação brasileiras com o maior número de espécies exóticas invasoras, atrás apenas do Parque Nacional de Brasília que possui 36 espécies exóticas invasoras registradas. Com esse elevado número de espécies exóticas invasoras, o Parque de Itatiaia é, ao mesmo tempo, uma prioridade para gestão e manejo de invasões biológicas (incluindo restauração de áreas invadidas) e uma excelente oportunidade para a realização de pesquisas sobre ecologia e manejo de hábitats invadidos e em recuperação ecológica pós-invasão. O projeto ora proposto irá contribuir com a construção do conhecimento ecológico sobre comunidades e ecossistemas afetados por ações antrópicas, bem como apoiar ações de manejo e controle de invasões biológicas em unidades de conservação de proteção integral. Unidades de conservação no Brasil ainda carecem de um sistema para detecção, monitoramento, prevenção e priorização para espécies exóticas potencialmente invasoras e invasoras. Virtualmente todas as unidades de conservação se baseiam apenas em listas qualitativas de espécies para tomar decisões de manejo. Essas listas tendem a ser incompletas, inconsistentes e de pouca valia para tomada de decisão uma vez que não indicam situação populacional, áreas, hábitats e ecossistemas sob maior risco potencial e situações prioritárias. O sistema de levantamento quantitativo de espécies exóticas, de rotas e vetores de dispersão e determinação de áreas prioritárias com maior potencial de invasão que estamos propondo nesse projeto é pioneiro e, se bem-sucedido, poderá ser replicado em qualquer unidade de conservação e até mesmo em áreas particulares. Desta forma, entendemos que o desenvolvimento de um sistema de monitoramento, detecção, prevenção de invasões é um produto tecnológico inovador resultante da realização desse projeto. Do ponto de vista científico, a presente proposta visa aprofundar o conhecimento sobre a efetividade das unidades de conservação de proteção integral para a preservação da biodiversidade em face à presença de espécies exóticas invasoras. O paradigma atual da conservação afirma que áreas protegidas sofrem pressão de invasões biológicas da matriz antropizada uma vez que áreas antropizadas ao redor das unidades são fontes de espécies exóticas que podem se disseminar para dentro da unidade preservada e invadir, prejudicando populações de espécies nativas e ecossistemas. Porém, o levantamento recente feito pelo nosso grupo de pesquisa, em conjunto com a literatura científica recente, indica que a ampla maioria das unidades de conservação hospeda espécies exóticas invasoras em seu interior e que muitas dessas invasões são resultado do abandono de áreas cultivadas pré-criação das UC. Espécies exóticas que eram manejadas antes da criação das UC deixaram de ser manejadas com a desapropriação da área e tiveram a oportunidade de se naturalizar e, em alguns casos, invadir. Tal situação normalmente não ocorre no entorno da Unidade, onde, na maioria dos casos, espécies exóticas utilizadas em sistemas produtivos são permanentemente manejadas. A hipótese de unidades de conservação como potenciais hospedeiras e fontes de espécies exóticas invasoras nunca foi testada e, se corroborada, poderia mudar um dos paradigmas centrais da Biologia da Conservação.

Projeto de mestrado da Raphaela Duarte Silveira e do Hugo Marques da Rosa.

Projeto aprovado na chamada CNPq/ICMBio/FAPs Nº18/2017 Pesquisa em Unidades de Conservação da Caatinga e Mata Atlântica.