Nota de cancelamento da Olimpíada de Matemática de Maringá e Região 2019

Com muita tristeza, a coordenação da OMM comunica o cancelamento da olimpíada neste ano.

A seguir, passamos aos motivos.

Nos últimos anos as universidades públicas no Paraná tem sofrido com a não reposição de docentes efetivos para o lugar daqueles que se aposentaram, que faleceram ou que pediram exoneração. No Departamento de Matemática, o número de docentes efetivos caiu quase 20% nos últimos dois anos. Para suprir a demanda de aulas e dos projetos de pesquisa e extensão desenvolvidos, o governo tem preferido contratar professores de forma temporária.

Até o março de 2019, mesmo com contratos temporários, esses professores podiam se dedicar integralmente às atividades da universidade por serem contratados em regime de trabalho TIDE (Tempo Integral e Dedicação Exclusiva). Neste ano, porém, o governo do Estado do Paraná está proibindo esse tipo de contratação, tentando empurrar para a universidade a filosofia de trabalho "aulista", considerando que o papel do professor é apenas "dar aulas". Esta é a filosofia presente na maioria das faculdades privadas que oferecem apenas atividades de ensino de graduação.

Nós, no entanto, defendemos que a atuação da universidade pública vá para além da formação técnica para o mercado de trabalho. Para isso, a própria constituição federal, no mesmo artigo 207 que garante autonomia às universidades, estabelece que elas devem prezar pela indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão. Entendemos que nossa organização em torno desse tripé é fundamental para garantir a excelência da universidade e a sua vinculação direta com a sociedade.

Desta forma, no Departamento de Matemática, muitos dos professores temporários, além do ensino e da pesquisa, até o março de 2019, ainda podiam participar ativamente de projetos de extensão como:

  • TIME (Teoria e Investigação em Matemática Elementar) que oferece treinamentos para olimpíadas e oficinas de matemática para alunos do ensino básico;
  • Projeto Matemativa, que realiza exposições de matemática em escolas da região, no Museu Interdisciplinar da UEM, e serve de laboratório para os estudantes de diversos cursos;
  • LEM (Laboratório de Ensino de Matemática), que desenvolve materiais pedagógicos e atua na formação continuada de professores da educação básica e nas licenciaturas de matemática e pedagogia;
  • Kit de Sobrevivência em Cálculo, que oferece materiais de apoio aos estudantes de cálculo e de outras disciplinas de matemática da UEM.

Esses projetos, que atuam diretamente na formação de professores e de estudantes do ensino básico e superior, considerando a integração entre ensino, pesquisa e extensão, mostram na prática a importância da universidade sustentada no princípio de indissociabilidade. Porém, para serem desenvolvidos de forma efetiva, é necessário que os docentes participantes vivenciem essa filosofia! É necessário que sejam contratados em regime de dedicação exclusiva e tenham parte da sua jornada de trabalho dedicado à pesquisa e à extensão.

Na realização da OMM, onde participam mais de 1500 estudantes de toda a região, os docentes desses projetos se unem para elaborar questões, divulgar, preparar a infraestrutura e logística, aplicar e corrigir as provas, organizar a cerimônia de premiação, entre outras atividades necessárias. No entanto, como tais professores têm sido contratados para dar aulas, sem o regime TIDE, a execução dos projetos de extensão fica prejudicada e a realização da olimpíada fica inviável!

Além da UEM, outras universidades que colaboram com o projeto, como a Unespar (Paranavaí e Campo mourão) e a UFPR (Jandaia do Sul), enfrentam problemas de natureza semelhante ou até piores, o que reforça a inviabilidade da realização da OMM nessas cidades.

Lamentamos profundamente essa situação, mas continuaremos lutando pela universidade, resgatando a importância do regime de trabalho TIDE para que a importância da indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão em que está baseada não seja apenas um discurso demagógico. Em particular, nos colocaremos enfaticamente contrários à proposta de Lei Geral das Universidades que o Governo Estadual pretende impor e que, na prática, reforça a convergência da universidade para uma condição de "aulista".

Defendemos uma universidade popular e o incentivo aos projetos de extensão. Defendemos que a olimpíada seja uma competição saudável, um espaço de manifestação de habilidades e que fomente uma cultura matemática importante para o pensamento racional e social.

Finalizamos pedindo o apoio de todos que participaram ou ainda participam dos projetos citados e que entendem a importância desses princípios amplos para a universidade. Nos colocamos à disposição para qualquer sugestão, discussão e esclarecimentos.