21 de setembro de 2026
Por Kauã Guilherme F. da Silva
Foto: Ondas sonoras e proporções musicais — a matemática por trás da harmonia (Imagem: Pinterest)
Você já parou para pensar por que determinadas músicas soam agradáveis e outras soam de uma maneira desconfortável? A resposta para essa pergunta não está apenas na arte, mas também está na matemática. Há mais de 2.500 anos, Pitágoras descobriu que intervalos musicais correspondem a proporções numéricas simples.
Para descobrir isso, ele esticou cordas de diferentes comprimentos e percebeu que uma corda com metade do comprimento produz a mesma nota que uma corda uma oitava acima (proporção 2:1); uma corda com dois terços do comprimento produz a quinta (proporção 3:2); e uma corda com três quartos do comprimento produz a quarta (proporção 4:3). Essas proporções são os intervalos mais consonantes da música ocidental. E são, todas, frações simples.
Porém, nesse contexto surge um problema: se a música é feita de frações simples, por que não afinamos todos os instrumentos com essas frações? A resposta é que na verdade podemos, mas só em uma tonalidade. O sistema baseado nas frações exatas, conhecido como escala pura, soa perfeitamente afinado em uma tonalidade, mas acaba sendo desafinado em outras. Isso acontece porque as frações não se combinam perfeitamente: ao empilhar doze quintas (3:2) e tentar fechar uma oitava, sobra um pequeno intervalo chamado de “coma pitagórica”.
Legenda: O ciclo das quintas, ao completar 12 quintas, sobra a coma pitagórica, o "erro" que impede a afinação perfeita em todas as tonalidades (Imagem: Wikimedia Commons).
Legenda: Tabela de escalas maiores e menores, mostrando os intervalos (em tons e semitons) que formam cada escala, com as notas correspondentes em cada tonalidade (Imagem: acervo pessoal/Use AI).
Para resolver esse problema, os músicos criaram a escala temperada. Em vez de usar frações exatas, divide-se a oitava em 12 partes iguais. Cada semitom tem frequência multiplicada por 2^(1/12) ≈ 1,05946. Ou seja, para subir um semitom, multiplica-se a frequência por aproximadamente 1,05946. Para subir uma oitava (12 semitons), multiplica-se 12 vezes e chega exatamente a 2. Mas afinal de contas, qual a razão de usar exatamente 12? E a resposta para essa pergunta é que ele representa o menor número de divisões que consegue aproximar bem as frações puras (2:1, 3:2, 4:3) e, ao mesmo tempo, permitir que se toque em qualquer tonalidade sem desafinar grosseiramente.
Se usássemos menos notas, não seria possível mudar de tom. Se usássemos mais (como 19 ou 31), o instrumento ficaria impraticável. Com isso, agora podemos tocar em qualquer tom sem desafinar. Entretanto, vale lembrar que ainda assim nenhum intervalo é perfeitamente puro. E é justamente por isso que alguns músicos dizem que a escala temperada soa "levemente desafinada", porque ela é, matematicamente, uma aproximação. Mas é uma desafinação tão pequena que quase ninguém percebe.
Legenda: Iannis Xenakis em seu estúdio. O compositor que transformou equações em música. (Imagem: Pinterest).
Muito se fala que Bach usava matemática para compor. Essa informação é parcialmente verdadeira, mas precisa ser entendida com cuidado. Bach não usava equações nem cálculos. O que ele usava era proporção e simetria, um dos exemplos mais marcantes é o Cânone do Caranguejo, que pode ser tocado de trás para frente e soa igual. É uma simetria matemática perfeita, mas nem por isso é considerada resultado de um cálculo. Já Iannis Xenakis usava “matemática de verdade”. Formado em engenharia, ele aplicava probabilidade e estatística para compor. Na sua obra, Achorripsis, usou a distribuição de Poisson para calcular a densidade de eventos sonoros. Xenakis não usava a matemática como metáfora, ele a utilizava para calcular a música em si.
Hoje, a matemática não está apenas na música, ela literalmente cria música. Algoritmos de inteligência artificial já compõem melodias, harmonias e até mesmo músicas completas. Sistemas como MuseNet e Emmy analisam milhares de partituras e geram novas sequências de notas em estilo semelhante, mas por enquanto, apenas a melodia. Todavia, já existem ferramentas como Suno, Udio e MusicGen, as quais vão além: recebem uma descrição em texto e geram a música inteira, com instrumentação, mixagem e até vozes sintéticas.
Legenda: Interface de um gerador de música por IA. A matemática que atualmente cria sem partituras. (Imagem: TopMediai).
Mesmo antes de alguém perceber, a música já era matemática. Pitágoras descobriu que intervalos são frações. Após isso, a escala temperada transformou frações em potências irracionais. O que proporcionou que, sucessivamente, Bach usasse proporções como estrutura e Xenakis pudesse utilizar a probabilidade como linguagem. Evoluindo, ao ponto onde atualmente a IA possa usar da estatística e redes neurais para criar sons que nunca existiram. E talvez seja isso que torna a música tão fascinante: ela é, ao mesmo tempo, arte e ciência, emoção e equação, som e número. Cada vez que escutamos um sertanejo e sofremos, ficamos alegres com uma música eletrônica e com um funk, ou até mesmo quando colocamos alguma sinfonia para estudarmos, há uma estrutura matemática por trás. Uma estrutura que começou com uma corda esticada há 2.500 anos e que hoje ecoa em cada fone de ouvido, cada show, cada algoritmo. A música que a matemática escreveu e continua escrevendo.
Referências
ACERVO PESSOAL. Tabela de escalas maiores e menores. Criado com auxílio de inteligência artificial, 20 set. 2026.
BBC NEWS BRASIL. A matemática por trás da música. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese. Acesso em: 19 set. 2026.
FERGUSON, Kitty. A Música de Pitágoras. São Paulo: Editora Madras, 2009.
SUPERINTERESSANTE. A matemática da música. Disponível em: https://super.abril.com.br. Acesso em: 19 set. 2026.
PINTEREST. Iannis Xenakis. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/191895634119900027/. Acesso em: 20 set. 2026.
PINTEREST. Fibonacci in Music: Inspiring Composers with the Perfect Sequence. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/269512358947843472/. Acesso em: 20 set. 2026.
TOPMEDIAI. Gerador de música por IA. Disponível em: https://images.topmediai.com/topmediaibr/assets/overview/ai-music-generator/gerador-demusica.jpg. Acesso em: 20 set. 2026.
WIKIMEDIA COMMONS. Ciclo das https://commons.wikimedia.org/. Acesso em: 20 set. 2026.
WIKIPÉDIA. Música e quintas. matemática. Disponível Disponível https://pt.wikipedia.org/wiki/Música_e_matemática. Acesso em: 19 set. 2026.
XENAKIS, Iannis. Formalized Music: Thought and Mathematics in Composition. Bloomington: Indiana University Press, 1971.