04 de junho de 2026
Por Kauã Guilherme F. da Silva
Foto: @footballshirtcollective/Pinterest
Durante o Torneio da França, ocorrido em 1997, o mundo teve a possibilidade de ver uma bola de futebol desafiar tudo o que se era esperado. Durante o campeonato, o lateral-esquerdo brasileiro Roberto Carlos preparou-se para cobrar uma falta a aproximadamente 35 metros do gol francês. Ele correu, bateu com a parte externa do pé, e à primeira vista a bola tomou uma direção que parecia não possuir sentido algum, a ponto de o gandula chegar a se abaixar, por pensar que a bola iria para longe. Porém, a bola, como se tivesse vontade própria, descreveu uma curva “impossível” no ar, contornou a barreira francesa e foi parar no canto do gol. O goleiro Barthez não pôde fazer nada além de ficar parado e ver o mundo aplaudir.
O que aconteceu ali não foi sorte, ou mágica. Foi um espetáculo proporcionado pela aerodinâmica e geometria. Aquele chute é um dos exemplos mais bonitos de como a matemática está presente nos mais variados espaços, entre eles o campo de futebol e como por sua vez os craques do esporte, mesmo sem saber, desempenham o papel de engenheiros intuitivos.
Legenda: Ilustração explicando o Efeito Magnus
Foto: Reprodução/Brasil Escola
Para entender esse fenômeno não podemos olhar para a bola como um objeto liso, mas como um corpo que interage com o ar ao seu redor. Quando o cobrador da falta, bate na bola com efeito, ele causa uma rotação violenta nela. E esse efeito não serve apenas para “enfeitar” o chute, mas sim para causar uma grande mudança na direção, causado por um princípio da física conhecido como Efeito Magnus.
Com foco em interpretar o seu princípio, basta imaginar a bola rodando no sentido anti-horário enquanto avança. De um lado a superfície da bola se move contra o vento; do outro se move a favor do vento. No lado onde a bola gira contra o ar, a velocidade relativa do ar é menor, o que gera uma área de alta pressão. No lado oposto, onde a bola gira a favor do fluxo, o ar se move mais rápido e a pressão é menor.
Essa diferença de pressão cria uma força que empurra a bola lateralmente, fazendo-a desviar do caminho reto e descrever uma curva.
Legenda: Representação da direção do “chute impossível”
Foto: Reprodução/Curto e Curioso
Em relação à geometria propriamente dita. Em um chute “padrão”, o trajeto da bola realizado seria aproximadamente uma parábola, uma curva simétrica a qual seria determinada pela força gravitacional e pela sua velocidade inicial. Porém com o efeito aplicado, a trajetória se torna uma curva tridimensional complexa. Vista de cima, ela deixa de ser uma linha reta e passa a ser uma curva com um raio definido, ou seja, é como se a bola fizesse a pequena parte de uma circunferência imaginária no ar.
O jogador, de forma intuitiva ou treinada, precisa calcular mentalmente três coisas: a força da batida (velocidade), o ângulo de saída e a rotação aplicada. Com o objetivo sendo alcançar o exato raio da curva necessário para que a bola possa começar indo em direção a fora do gol, contorne a barreira e posteriormente, no último instante volte a ir em direção para dentro das redes. Sendo esse o movimento que “congelará” o goleiro, pois ele se posicionará, para defender a bola que supostamente está vindo em uma direção, mas a curva a levará para outro lugar.
Dessa maneira, podemos inferir que seja na trivela de Quaresma, na falta venenosa de Juninho Pernambucano ou no chute histórico de Roberto Carlos, a matemática de maneira silenciosa e precisa, sempre está presente. Podemos afirmar que cada curva desenhada no gramado é a solução de um complexo problema de aerodinâmica e geometria, resolvido em questão de segundos, por um atleta, cujo cérebro, treinado a exaustão, calcula ângulos e velocidades como se fossem matemáticos famosos.
Na próxima vez que assistir uma partida e ver um lance “inexplicável”, lembre-se que não é mágica e sim matemática. E talvez esse seja mais um dos motivos do futebol ser tão bonito.
Referências
A FÍSICA por trás do CHUTE PERFEITO. Apresentação: Pedro Loos. [S.l.]: Ciência Todo Dia, 19 maio 2026. 1 vídeo. Disponível em: https://youtu.be/vjUHN_YTG_s. Acesso em: 23 maio 2026.
BRASIL ESCOLA. Como a bola de futebol faz curva?. UOL, 18 jun. 2018. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/fisica/como-bola-futebol-faz-curva.htm. Acesso em: 25 maio 2026.
CURTO E CURIOSO. Bola com efeito: truque revela o Efeito Magnus. jan. 2016. Disponível em: https://www.curtoecurioso.com/2016/01/bola-com-efeito-truque-revela-efeito-magnus.html. Acesso em: 25 maio 2026.
FELIPE, Marcos. Golaço de falta de Roberto Carlos que "desafiou a física" completa 25 anos; reveja. ge, Rio de Janeiro, 3 jun. 2022. Disponível em: https://ge.globo.com/blogs/brasil-mundialfc/post/2022/06/03/ha-25-anos-roberto-carlos-fazia-gol-pelo-brasil-que-desafiou-a-fisica-relembre.ghtml. Acesso em: 26 maio 2026.
FOOTBALLSHIRTCOLLECTIVE. Serious swerve #robertocarlos #brazil #letournoi. Pinterest, 20 set. 2016. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/152418768618508135/. Acesso em: 26 maio 2026.