Planolândia: Um romance de muitas dimensões
Planolândia: Um romance de muitas dimensões
13 de maio de 2026
Por Bianca M. Teixeira
Arte: Bianca M. Teixeira
Planolândia, publicado em 1884 pelo inglês Edwin A. Abbott é uma obra que combina ficção científica com uma forte dose de sátira social. A narrativa se passa em um universo curioso, estruturado a partir da geometria e da ideia de múltiplas dimensões. O protagonista, um quadrado, conduz a história ao tentar explicar a complexidade e as nuances do seu mundo bidimensional a um visitante vindo de uma realidade tridimensional.
Escrito durante o período em que Edwin A. Abbott vivia na Inglaterra vitoriana, Planolândia reflete uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais, rigor moral e restrições de direitos. Nesse contexto, o autor transforma sua própria realidade em crítica social, utilizando a narrativa para ironizar a postura conformada e conservadora do protagonista ao explicar, ao visitante, as crueldades naturalizadas em seu mundo. A originalidade da obra está justamente na forma como apresenta conceitos abstratos e ideias complexas da matemática, como as dimensões, de maneira acessível, sem deixar de abordar diferentes aspectos da sociedade.
Imagem: Retirada do livro ''Planolândia''
Resumo
Nesse universo bidimensional apresentado em Planolândia, os homens são polígonos, enquanto as mulheres são representadas como simples retas. O número de lados define a posição de cada um nessa estrutura: quanto mais lados, maior o prestígio, e então o protagonista, um quadrado pertencente à classe média, enxerga o mundo a partir de uma lógica estritamente racional, moldada pelas regras rígidas de sua sociedade. No entanto, essa visão começa a se transformar quando ele entra em contato com uma realidade que ultrapassa as limitações de seu plano: a experiência com um ser tridimensional rompe sua percepção habitual e o confronta com a existência de algo além do que ele sempre considerou possível. A partir disso, sua compreensão da realidade se expande, levando-o a questionar não apenas a estrutura do mundo em que vive, mas também os próprios limites do conhecimento.
Imagem: Retirada do livro ''Planolândia''
Crítica social
Um aspecto que chama atenção da obra é a representação das mulheres, que são privadas de conhecimento e tratadas como seres inferiores. Por serem segmentos de reta, elas são vistas como letais: são afiadas e ficam 'invisíveis' dependendo do ângulo. Para evitar acidentes, o sistema as obriga a emitir sons e mover-se o tempo todo, alertando sobre sua presença. Essa lógica de controle também atinge os triângulos isósceles que, por serem pontiagudos e pertencerem à classe mais pobre, são descartados diante de qualquer sinal de revolta. Da mesma forma, aqueles que nascem com formas irregulares são eliminados logo no nascimento para preservar o padrão dos polígonos de ângulos iguais. Dessa forma, Abbott fala do nosso próprio mundo utilizando seu universo geométrico para provocar reflexões profundas sobre preconceito, hierarquia social e a resistência humana ao novo.
Avaliação final
De modo geral, a obra se destaca tanto por sua forma inovadora quanto pela profundidade das ideias que apresenta. A articulação entre diferentes conceitos torna a leitura envolvente, ainda que, em alguns momentos, mais exigente. Não se trata de um texto voltado ao público infantil, já que a complexidade de certas reflexões e o uso de termos matemáticos demandam maior atenção do leitor. Ainda assim, é uma leitura valiosa e recomendada a jovens interessados em compreender as relações entre ciência, sociedade e percepção.
Conclusão
Dessa maneira, a narrativa sugere que os limites da realidade não estão necessariamente no mundo em si, mas na forma como os indivíduos são moldados a percebê-lo.
Referência:
ABBOTT, Edwin Abbott. Planolândia: um romance de muitas dimensões. Tradução de Rogerio Galindo. São Paulo: Tordesilhas, 2021.
EDWIN Abbott Abbott. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Edwin_Abbott_Abbott. Acesso em: 6 maio. 2026
Santana, L. W. A., & Senko, E. C. (2016). Perspectivas da era Vitoriana: sociedade, vestuário, literatura e arte entre os séculos XIX e XX. Revista Diálogos Mediterrânicos, (10), 189–215.