08 de junho de 2025
Por Marcela D. Ferrari
Foto: Conemat.IA
Matemática é linguagem de emancipação, não de opressão. Tornar essa linguagem acessível a todos é um passo fundamental para construir uma sociedade mais justa e mais capaz de navegar os riscos do nosso tempo
Foto: Conemat.IA
Matemática: para muitos, é uma ideia que evoca ansiedade, dificuldade e, até mesmo uma sensação de fracasso. No Brasil, essa percepção tem efeitos concretos: os índices de aprendizado em matemática no ensino básico estão persistentemente abaixo do esperado, e o interesse dos jovens em aprofundar seu conhecimento matemático é cada vez menor.
Mas seria esse fenômeno apenas uma consequência de conteúdos difíceis ou métodos de ensino pouco eficazes? Ou será que essa aversão à matemática também é um sintoma de uma construção histórica e social — uma escolha política, ainda que não declarada?
Ao lançar um olhar mais atento sobre nossa sociedade e sua relação com o conhecimento, podemos perceber que a resposta não é simples, nem neutra.
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Segundo o sociólogo alemão Ulrich Beck, vivemos em uma Sociedade de Risco: uma era em que os próprios avanços técnicos e científicos geram novas incertezas e riscos globais — ambientais, econômicos, tecnológicos. Paradoxalmente, quanto mais complexos e incertos se tornam os problemas da sociedade, mais necessário se torna o domínio de ferramentas conceituais capazes de lidar com essa complexidade. E aqui a matemática deveria ocupar um lugar central.
Modelos matemáticos fundamentam desde as previsões sobre mudanças climáticas até algoritmos de inteligência artificial que controlam decisões cotidianas. Políticas públicas, economia global, planejamento urbano, logística de saúde — tudo depende de uma compreensão quantitativa sofisticada do mundo.
Porém, na prática, a grande maioria da população se vê afastada da matemática e das suas aplicações. A construção de uma opacidade matemática na esfera pública transforma o conhecimento matemático em um instrumento de poder concentrado: quem domina a matemática lê o mundo; quem não domina, é lido por ele.
Essa situação não é casual. No Brasil, desde a Proclamação da República, a educação foi estruturada de maneira a reforçar as hierarquias sociais. O sistema educacional brasileiro foi, em grande parte, guiado por ideais eugenistas que entendiam o acesso ao conhecimento como privilégio das elites — um mecanismo para justificar desigualdades e manter a ordem social.
Nesse contexto, a matemática, com sua linguagem simbólica e seu rigor, foi tratada como um saber de elite. A escola pública — historicamente destinada às camadas populares e aos grupos racializados — pouco investiu em metodologias que tornassem a matemática significativa e acessível para todos. Pelo contrário: a manutenção do "mito da dificuldade" serviu para naturalizar a exclusão.
A ideia de que matemática "não é para todos" foi cultivada por décadas, reforçada por um ensino descontextualizado e avesso à experimentação. Assim, um vasto contingente de brasileiros cresceu acreditando que não seria capaz de dominar uma ferramenta fundamental para participar de maneira crítica na sociedade de risco contemporânea.
Essa alienação matemática é funcional: ao dificultar o acesso da maioria ao pensamento quantitativo, perpetuam-se assimetrias de poder. O cidadão comum, privado de habilidades matemáticas, torna-se menos capaz de questionar relatórios financeiros, compreender algoritmos de recomendação, analisar dados sobre saúde ou clima, ou participar criticamente de debates públicos que dependem cada vez mais de argumentos quantitativos.
A democratização da matemática é, portanto, um imperativo democrático. Não se trata apenas de melhorar os índices educacionais: trata-se de construir uma cidadania capaz de enfrentar os desafios de uma sociedade de risco — e de romper com um projeto histórico que, até hoje, mantém o conhecimento como um recurso escasso e seletivo.
Foto: Conemat.IA
Romper com esse ciclo exige um novo pacto educacional. É preciso:
Ensinar matemática com significado, ligada aos problemas reais da sociedade;
Valorizar a pluralidade de saberes e experiências dos estudantes;
Construir currículos que formem cidadãos críticos e não apenas mão de obra subalterna;
Reconhecer o racismo estrutural e as heranças eugenistas que moldaram nossas práticas escolares.
Matemática é linguagem de emancipação, não de opressão. Tornar essa linguagem acessível a todos é um passo fundamental para construir uma sociedade mais justa e mais capaz de navegar os riscos do nosso tempo.