31 de maio de 2025
Por Marcela D. Ferrari
Foto: Conemat.IA
O Brasil perdeu, recentemente, uma de suas maiores referências na luta por uma ciência mais inclusiva e igualitária. A professora Eliza Maria Ferreira Veras da Silva, primeira mulher negra doutora em Matemática no país, nos deixou, mas seu legado continua a inspirar gerações de estudantes — especialmente meninas negras — a ocuparem com brilho os espaços da ciência.
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Nascida em 1944, em Ituberá (BA), Eliza foi filha de uma mãe branca e um pai negro, sendo criada majoritariamente pela mãe após o desaparecimento do pai. Desde pequena, demonstrou uma inteligência notável e um amor pelos estudos. Superando os desafios da pobreza, do racismo e do machismo estrutural, trilhou uma trajetória acadêmica que desafia as estatísticas e rompe paradigmas.
Ainda jovem, foi aprovada com nota máxima na Escola Normal, o que lhe permitiu iniciar sua carreira como professora primária. Mas Eliza queria mais: impulsionada por uma bolsa da Phillips, decidiu estudar Matemática na UFBA. Em 1964, foi aprovada em 2º lugar no vestibular e, mesmo trabalhando durante todo o curso, concluiu com excelência a licenciatura e o bacharelado.
Foto: Conemat.IA
Pouco tempo depois, ingressou no Instituto de Matemática da UFBA e, com apoio de bolsas da Unesco e do governo francês, realizou o mestrado e doutorado na Universidade de Montpellier, na França. Sua tese de doutorado sobre Álgebras Não Associativas, defendida em 1977, a colocou entre as pioneiras da matemática brasileira e consolidou seu nome na história.
Sua trajetória, analisada no artigo “Eliza: trajetória e estratégias de sobrevivência de uma outsider/within na Matemática”, de autoria da professora Márcia Barbosa de Menezes, nos revela não apenas uma história de sucesso, mas um poderoso exemplo de resistência. Eliza enfrentou o racismo, o sexismo e o elitismo acadêmico com coragem, inteligência e uma força inspiradora.
Eliza não se conformou com os papéis que a sociedade destinava às mulheres negras. Lutou para ser reconhecida como cientista, professora e líder. E, mesmo enfrentando o estigma de “neguinha” — como narrou em suas próprias palavras — transformou esse rótulo imposto em combustível para conquistar seu espaço.
Sua presença na docência e na pesquisa, sua atuação como vice-diretora do Instituto de Matemática e seu compromisso com a formação de novos talentos demonstram o quanto ela acreditava na educação como ferramenta de transformação.
Em 2022, foi homenageada com o programa de iniciação científica que leva seu nome na UFBA — um reconhecimento mais do que merecido, voltado à formação de jovens negras e negros na matemática.
Hoje, nós do Portal do Kit relembramos e celebramos a vida de Eliza Maria como um símbolo de coragem e perseverança. Seu exemplo nos mostra que a matemática também é território de mulheres negras, e que a equidade na ciência só será possível com memória, reconhecimento e ação.
Foto: Conemat.IA
Referências:
Simone Maria de Moraes, Um pouco da trajetória de Eliza Maria Ferreira Veras da Silva, provavelmente a primeira mulher negra brasileira a obter o título de Doutora em Matemática, 41° Noticiário da Sociedade Brasileira de Matemática, 2022.
https://sbm.org.br/wp-content/uploads/2022/03/Noticiario_SBM_202203_nro041-1.pdf
MENEZES, Márcia Barbosa de. Eliza: trajetória e estratégias de sobrevivência de uma outsider/within na Matemática. Bolema, Rio Claro (SP), v. 37, n. 76, p. 407–426, ago. 2023. DOI: 10.1590/1980-4415v37n76a03