:: Publicações ZB Capitão ALFA # 1

Edgar Franco: Entrevista exclusiva.

26/01/2008 Por Michelle Ramos para o ZINE BRASIL.

 

Edgar Franco Fotografado por Christian Rengstl.

 

Esse cara é Doido! Essa foi a primeira coisa que eu pensei quando vi o trabalho de Edgar Franco pela primeira vez, com um roteiro “anormal” ao que tinha e tenho visto dentro do quadrinho brasileiro, tem sido uma experiência única poder apreciar tão grandiosa criatividade vinda deste artista.

 

Edgar Franco além de conhecido quadrinhista,possuindo dezenas de páginas publicadas em revistas do Brasil e exterior ainda é compositor, arquiteto e professor.

Resumindo é um daqueles artistas dinâmicos que o Brasil só apresenta de tempos em tempos.

Com uma tremenda força de vontade e persistência, mostra-nos que é preciso acreditar em nosso trabalho e capacidade, pois muitas dificuldades podem surgir em nossa caminhada, mas se formos firmes, inabaláveis e pacientes em nosso propósito inicial, as portas terminam se abrindo.

 

Por isso, prepare-se o mundo de Edgar Franco só esta começando!

 

Quadrinhista, compositor, arquiteto e professor. Como aconteceu essa incrível mistura em sua vida?

 

Acho que não é difícil orquestrar todos esses atributos porque eles estão intrinsecamente conectados. A paixão inata pelo desenho e pelos quadrinhos levou-me à faculdade de arquitetura, a paixão pela leitura, pela pesquisa sobre as linguagens artísticas e novos meios despertou-me o interesse por fazer mestrado em multimeios (Unicamp) – no qual fui pioneiro da investigação das HQs na Internet, o que resultou no livro HQtrônicas (Editora Annablume) e no CD-Rom de mesmo título com minhas HQtrônicas. A relação entre HQ e arquitetura também começou a ser pesquisada desde a época da faculdade e passei a ministrar palestras sobre esse assunto em diversos locais, com isso surgiu o convite para ser professor na PUC-MG. O passo seguinte foi o doutorado em artes na USP, onde pude pesquisar sobre o fenômeno pós-humano e finalmente abarcar um universo mais amplo de formas de expressão estabelecendo-me como artista multimídia, utilizando o universo ficcional da “Aurora Pós-humana” para a criação de ilustrações, HQs curtas, álbuns de quadrinhos, animação, música e ciberarte. Na verdade desde a adolescência estive envolvido de forma indireta com o universo musical, mas somente em 2004 passei efetivamente a trabalhar como compositor criando o POSTHUMAN TANTRA.

Acredito que o artista que domina uma arte, domina todas as outras, sou totalmente contra esse corporativismo tacanho e cartesiano que classifica os artistas segundo uma forma de expressão: pintor, ilustrador, escultor, etc. O verdadeiro artista sente-se sempre instigado a experimentar e criar nas mais diversas formas de expressão, por isso estou sempre aberto à experimentação.

 

Seu traço é um dos estilos mais dinâmicos e surreais nos quadrinhos independentes, qual tua referência na hora de desenhar?

 

Obrigado pelo comentário. Desde muito cedo, quando comecei a desenhar, eu tinha birra de copiar, amava muitos artistas, mas nunca quis copiá-los, preferia treinar o desenho observando o mundo e desenhando-o, além de exercitar minha imaginação livremente, mas NUNCA copiar ninguém. Acho que meu desenho demorou mais a evoluir por isso, no entanto ganhei em outros aspectos, pois aos poucos o traço foi adquirindo uma marca pessoal. O pessoal dos zines já dizia perceber que era o Edgar Franco ali. É claro que muitos dos artistas que sempre amei me influenciaram de forma indireta, mas não só quadrinhistas, muitos cineastas, pintores, escritores e magistas foram preponderantes na formação de minha noção de arte e do belo. Acho que o dinamismo de meu traço é também fruto de uma liberdade grande no desenho, por vezes sacrifico até algo da continuidade de uma HQ em prol dessa liberdade - por exemplo, o cabelo de uma personagem pode estar maior ou diferente de um quadrinho pra outro. Coisas desse tipo são um ultraje para os puristas da narrativa quadrinhística, mas eu gosto de experimentar, essa sempre será uma das principais premissas de meus quadrinhos. 

 

Você sofre ou já sofreu algum preconceito pelo seu traço ou pelos estilos de suas histórias?

 

Sim, existe muito preconceito, a maioria dos leitores de quadrinhos são conservadores puristas e não gostam de HQs que experimentam no texto e traço. Tenho consciência de que meu trabalho é para poucos, jamais será para as massas. Mas lido bem com isso, existe um grupo restrito de leitores fiéis que me dão o feedback necessário para sempre buscar evoluir dentro de minha proposta e continuar acreditando em meu trabalho artístico. O caso mais esdrúxulo de preconceito contra meus quadrinhos foi quando eles foram chamados de “pornográficos” por um pseudo-editor, ou seja, ele não leu, ou não entendeu nada! Também já tive HQs vetadas em salões de quadrinhos, revistas e até fanzines, na maioria das vezes pelo mesmo motivo, a alegação de que o que faço “não é quadrinho”. Não me aborreço mais com essas coisas, sigo acreditando no que crio e galgando o espaço que acredito merecer.

 

Nessa sua longa caminhada de escritor de histórias em quadrinhos, como você esta vendo a atitude dos artistas independentes de hoje?

 

É um bom momento, os jovens artistas estão aproveitando o barateamento do custo gráfico no país e produzindo trabalhos com acabamento profissional. Estão também se organizando mais, em grupos que efetivamente se auxiliam, com mais cooperação e menos rivalidade. Isso é muito bom. Só tenho uma crítica, acho que as novas gerações estão “certinhas demais”, não vejo mais aquele ímpeto de experimentar e criar coisas novas que foi tão forte nas décadas de 80 e 90. O pessoal desenha divinamente e escreve bons roteiros, mas é tudo derivativo, tudo parece demais com mil coisas que já vimos/lemos. O salto de qualidade técnica e gráfica não está sendo acompanhado por um salto criativo, é pena.

 

O que te faz discutir tanto sobre a influência da tecnologia nos quadrinhos e na vida humana? Como você vê o futuro da Humanidade nesse sentido? Artlectos e Pós-Humanos seria um exemplo?

 

Essa é uma pergunta complexa, poderia ficar dissertando aqui por alguns dias pra respondê-la. Como o pesquisador canadense McLuhan acredito que os meios são as mensagens, ou seja, nós somos formatados e nossa relação com o mundo é modificada e reestruturada a partir das tecnologias, ao mesmo tempo essas mudanças de relação e cognição não necessariamente resultam numa mudança de comportamento dos seres humanos para com o seu próximo. Veja que muitas coisas que foram imaginadas e teorizadas hoje fazem parte do nosso cotidiano, mesmo a idéia mítica de um inconsciente coletivo hoje tem uma metáfora perfeita na rede Internet, ela conecta bilhões de mentes sobre o globo e é um manancial ilimitado de informação, também está reformatando a estrutura de nossos cérebros. A memorização de fatos tão importante até algum tempo agora tornou-se algo obsoleto. A rede é parte de nossa memória. Se eu te perguntar quais os afluentes do Rio Amazonas e você não souber, basta dois cliques no Google e lá estão eles!

 

A metodologia pedagógica de todas as escolas e universidades está falida, ela já não responde à aceleração da informação e ao grande papel das imagens na construção do conhecimento na mente dos jovens. Por esses motivos é impossível para mim como artista não refletir sobre os avanços tecnológicos, eles estão moldando-nos e reestruturando-nos, somos uma espécie em transição, veja que já estão a venda gatos antialérgicos e outros híbridos com felinos selvagens, já fizeram uma ovelha que tem 15% de genética humana e cientistas apostam que em menos de 20 anos pessoas estarão se casando com robôs! Imagine o que está vindo por aí. Entretanto as características mais marcantes da espécie humana ainda são o egoísmo, e o dogmatismo, não existe uma consciência de que estamos todos unidos, conectados como espécie, que devemos nos amar, amar a todas as outras espécies que habitam o planeta e amar o universo, falta essa visão sistêmica ao homem. Para mim a tecnologia tem possibilidades de fazer com que compreendamos essa interconexão com todos e tudo, mas existe também a possibilidade de simplesmente ela contribuir para acelerar nossa extinção como espécie. É sobre isso que discuto em meus trabalhos, sobre essas possibilidades, hora vejo luz, hora trevas. Em “Artlectos e Pós-humanos” crio HQs curtas que refletem sobre essas eternas tensões e tento apontar possibilidades de futuro de forma poética e sem pretensões de futurólogo. São visões artísticas, considerando que para mim a arte é a maior das ciências.

 

Edgar Franco Fotografado por Christian Rengstl.

 Como compositor, do que trata suas músicas? Qual a influência dos quadrinhos quando esta compondo?

 

O POSTHUMAN TANTRA, minha one-man-band, surgiu com a intenção de produzir as atmosferas sonoras para o universo da “Aurora Pós-humana”, meu mundo ficcional futuro, onde existirão três espécies na terra, os Tecnogenéticos – organismos híbridos de humano-animal-vegetal -, os Extropianos – seres humanos que transportaram sua memória e consciência para um chip de computador e habitam corpos robóticos -, e os Resistentes – seres humanos no sentido tradicional, espécie em extinção. Aos poucos minha música foi também incluindo uma visão tecno-transcendente e a possibilidade de expansão dos níveis de consciência através de interfaces tecnognósticas. Sim, acho que meus quadrinhos e músicas estão intrinsecamente conectados, quem ouve minha música diz que ela lembra meus quadrinhos e vice-versa, tanto que as apresentações ao vivo do POSTHUMAN TANTRA incluirão além da música e de uma performance de palco a projeção contínua de meus quadrinhos, ilustrações e animações. Algumas de minhas músicas, mesmo instrumentais, nascem de um conceito que relembra o argumento de uma HQ, veja 3 exemplos de faixas do CD “Neocortex Plug-in” (lançado pela gravadora Suíça LEGATUS RECORDS – www.legatusrecords.net ):

 

The Omega Neocortex (4:34”).

Faixa que abre o CD, com forte clima onírico & transcendente. Música instrumental onde tentei capturar a essência da proposta do visionário Teilhard de Chardin, ele anteviu o surgimento de uma rede global que conectaria a consciência de todos os homens e seres vivos do planeta, chamou essa rede de Noosfera. Quando ela estiver completa Gaia acordará como um planeta consciente e nós seremos seus trilhões de neurônios, neurônios do grande “Neocortex ômega de Gaia”.

 

Visions From The Abyssal Neurogenetic Circuit (3:49”).

Faixa instrumental baseada nas possibilidades de transe através de realidades virtuais computacionais, transes tecnológicos semelhantes aos dos alucinógenos. Transes que poderão fazer com que alcancemos as verdades universais através de nosso circuito neurogenético (presente no DNA). Trata da possível descoberta da consciência cósmica com auxílio da tecnologia. É inspirada nas reflexões de Roy Ascott & Robert Anton Wilson.

 

Glorification Of Our Nanotechpain (8:20”).

Música densa e obscura com várias participações vocais (entre elas a de Kenji Siratori – escritor cyberpunk Japonês & Mike, mentor da banda Suíça TransZendenZ). O conceito que a engendrou trata das ameaças possíveis como a criação de nano robôs que inicialmente serão gerados para erradicação de doenças, mas depois passarão a ser produzidos em larga escala de forma clandestina para inocular novas doenças e fazer uma poderosíssima indústria farmacêutica do futuro lucrar com a venda de “nano robôs antídoto”. É o continuísmo, a alta tecnologia aliada ao velho egoísmo humano.

 

Capa do CD "Neocortex Plug-in"

E revertendo a questão, a música te ajuda na criação de novas histórias em quadrinhos?

 

Sim, são processos que se retro-alimentam. Veja o caso da HQ “brinGuedoTeCA” que foi publicada na revista “Artlectos e Pós-humanos Nº 2”. A idéia para seu roteiro surgiu quando eu estava compondo uma música chamada “Teknogenetik Australopitekus” – que trata de uma reformatação doentia na moral humana com os avanços tecnológicos – depois de gravar a música fiz a HQ, e finalmente resolvi transformá-la em uma HQtrônica, unindo a música às imagens e criando uma espécie de jogo em Flash. Esse trabalho, que contou com a participação do artista multimídia Fábio FON, foi publicado inicialmente na revista-objeto-CD-rom “Noisgrande” e depois foi traduzido para o inglês e entrou como faixa multimídia do CD “Neocortex Plug-in”, por sinal um trabalho que tem agradado tanto a crítica quanto o público.

 

Qual tua referência na hora de criar seus desenhos e roteiros? Quando você descobriu seu próprio estilo?

 

Como eu salientei, o universo de referências é realmente amplo, vai da pintura até a ciberarte, passando pelo cinema e música. Vou citar apenas alguns:

 

  • Artistas: Brom, Dali, Bruegel, Bosch, Alfredo Alcala, Caza, Druillet, Gazy Andraus, Antônio Amaral, Goya, Klimt, Arcimboldo, Stelarc, Mark Pauline, Natacha Vita-More, Diana Domingues, Roy Ascott, Eduardo Kac, Suzete Venturelli, Fábio FON.
  • Músicos & bandas: John Cage, Syd Barrett, Coph Nia, Merzbow, Vangelis, Ordo Rosarius, Lustmord, Celtic Frost, TransZendenZ, Ulver & Philip Glass.
  • Cineastas: David Cronenberg, Kubrick, Kurosawa, Andrew Niccol, Jean Pierre Jeunet, Tsukamoto.  
  • Filósofos: Blavatsky, John Lilly, Giordano Bruno, Dee, Sheldrake, Ken Wilber, Francisco de Assis, Buckminster Fuller, Vernon Vinge, Ray Kurzweil, Krishnamurti, Lovelock, Stanislav Grof.
  • Escritores: Herman Hesse, André Carneiro, Asimov. P.K.Dick, Bradbury, Edgar Alan Poe.

Bem, esses são só a ponta do iceberg, mas demonstram de maneira geral meus gostos pessoais e são fundamentais para a constante evolução de minha consciência e daquilo que chamam de estilo – prefiro pensar que ainda não tenho um estilo formado, ter um estilo é estar estagnado, meu trabalho evolui a cada dia.

 

Edgar Franco Fotografado por Christian Rengstl.

 Muito se discute sobre um estilo próprio nos quadrinhos brasileiros, e como criar esse estilo próprio pode ajudar na consolidação e publicação dos quadrinhos nacionais, como você acha que o brasileiro vai encontrar esse estilo?

 

De certa forma respondi parte dessa pergunta em outros momentos. Não se força a criação de um estilo de fora pra dentro, é como procurar o pássaro azul no mundo lá fora e nunca encontrar. O estilo nasce do artista, simplesmente do ato de acreditar no que faz e tentar se expressar através de seus sentimentos e sensações mais profundas. É preciso conhecer as técnicas do desenho e roteiro, mas depois abdicar delas, pois elas podem tornar-se armadilhas e seu trabalho apenas um carimbo mal acabado de dezenas de outras criações já produzidas. Acho que muitos estilos inovadores de quadrinhos surgiram no Brasil, mas nunca foi dado o devido valor a esses estilos, os críticos sempre acreditaram de forma inocente que fazer HQ brasileira é falar de nossa cultura popular, tratar de cangaceiros, sacis, mulas sem cabeça, lendas derivadas de arquétipos globais, copiar Guimarães Rosa e o mítico Macunaíma. 99% do que tem sido feito na tentativa de criar HQ nacional é lixo, inclusive muita bobagem tem sido premiada e tem ganhado o status de “grandes HQs”, chega a ser risível. Um dos estilos inovadores que floresceu no Brasil durante a década de 90 foi a chamada “Fantasia Filosófica”, ou ainda “Quadrinhos Poético-filosóficos”, um gênero de HQs curtas, com ambientação fantástica, texto poético e carga filosófica desenvolvido por artistas como Gazy Andraus, Flávio Calazans, Al Greco, Rosemário, Érika Saheki, Henry Jaepelt, Antônio Amaral e também por mim. Teve até uma revista especial dedicada a este gênero singular, a revista Mandala, editada pela Marca de Fantasia de Henrique Magalhães.

 

Como você vê a questão Super-Heróis Brasileiros?

 

Não sou um fã de quadrinhos de super-heróis, por isso não tenho muito referencial para fazer uma crítica mais consistente sobre o gênero. Mas gosto de alguns trabalhos que não são derivativos, conseguem trazer algo de novo. Acredito que é possível sim criar algo interessante fazendo super-heróis brasileiros. Dos trabalhos recentes que vi, gostei muito da proposta de O MÁSCARA NOTURNA, personagem de José Salles. É um quase anti-herói com uma sina doentia, Salles é um grande roteirista e suas histórias misturam suspense, horror, jeitinho brasileiro, sexo e aventura. É um trabalho muito bom, que poderia render excelentes produtos em outras mídias como o cinema e a animação.

 

Ilustração de Edgar Franco para cards da Trilogia Kelemath

Em sua opinião, quando as editoras vão se abrir mais ao material tipicamente nacional? Depende mais de quem, da editora ou do artista?

 

A maioria dos editores quer lucrar, e os produtos vindos do exterior são baratos e com propaganda gratuita do cinema e de outras mídias. O cara não vai deixar de publicar o Batman pra publicar um herói brasileiro, a indústria cultural não está preocupada com qualidade ou nacionalidade, eles querem ganhar dinheiro. Portanto os artistas devem buscar as alternativas existentes, buscar o seu público. É possível ter HQ comercial de qualidade e com cara brasileira, veja as nossas HQs de horror das décadas de 70 e 80, conquistaram milhares de leitores e muitos artistas criavam roteiros geniais unindo a tradição mundial do horror a características de nossa mitologia popular, Elmano Silva e sua “Besta Fera” e também “O Homem do Patuá” era algo genial. Eu tinha 11-12 anos e relia suas HQs diversas vezes.

 

Acho que hoje é importante conquistar um público alvo, direcionar o seu trabalho e conseguir fazer chegá-lo ao seu leitor! As grandes tiragens vão acabar, seus dias estão contados. Mas se um quadrinhista conseguir um público cativo de 2000 pessoas que lerão sua revista mensalmente, poderá até viver de quadrinhos. É um desafio, pois não estão se formando novas gerações de leitores, brevemente as HQS não serão mais mídia de massa, serão uma forma de arte cult. O mesmo aconteceu com o Teatro, a Poesia e com outras formas de arte.  Vamos ver o que o futuro nos reserva.

 

Como compositor, é mais fácil ser cantor, ter uma banda e etc., ou é ainda mais difícil publicar hqs?

 

Eu amo criar HQs e jamais irei parar de criá-las! Foi minha primeira forma de expressão artística e tem um papel importante em minha formação como artista multimídia. Entretanto as HQs são realmente vítimas de preconceitos em todos os campos, desde a arte até a academia, publicar quadrinhos no Brasil é algo difícil e doloroso. Conquistar espaços é algo muito complicado, por isso em meus 20 anos fazendo HQs tenho muito orgulho do que consegui com muito suor e uma produção constante que hoje soma mais de 2000 páginas (entre HQs e ilustrações). Por incrível que pareça em apenas três anos trabalhando com música, conquistei espaços incríveis, tem sido muito mais fácil do que com os quadrinhos.

 

Ilustração de Edgar Franco para cards da Trilogia Kelemath

 Como é visto seu trabalho nos quadrinhos e na música fora do país?

 

Já publiquei HQs em países como Romênia, Inglaterra, EUA, Itália, França, Espanha, Portugal, África do Sul, entre outros. Fui até entrevistado por uma importante revista alemã dedicada aos games, cinema & HQ. A recepção ao meu trabalho sempre foi calorosa, apesar das dificuldades da língua, já que o português é compreendido por muito poucos e é sempre necessário fazer traduções. Mas com a música tudo é mais fácil, trata-se de uma linguagem universal, e, além disso, 90% de minhas composições são em inglês, o que também facilita a penetração global do trabalho.

 

Em apenas três anos com o POSTHUMAN TANTRA, participei de coletâneas na Itália, França, Austrália e Brasil, lancei um grandioso trabalho conceitual com a lendária banda francesa MELEK-THA - a trilogia Kelemath - composta de três caixas de CDs com mais de 9 horas de música e ainda 25 cards desenhados por mim inspirados na história conceitual da saga: uma invasão alienígena de uma raça híbrida provinda de Sirius. Finalmente o POSTHUMAN TANTRA foi uma das primeiras bandas brasileiras do estilo dark ambient a assinar contrato com uma gravadora Européia (Legatus Records) para o lançamento de um CD. Esse trabalho, o primeiro CD oficial da banda, foi lançado pela Legatus em junho de 2007 e tem alcançado boa distribuição global com resenhas e divulgação em países como Japão e Rússia, além de toda a Europa. No Brasil o álbum recebeu nota 9 em resenha da revista Rock Hard Valhalla (Nº 53) – franquia brasileira da revista de rock mais lida no planeta, e também dei uma curta entrevista para a mesma revista. Enfim, venho colhendo bons frutos com a banda, mas também não tenho do que reclamar com meus recentes lançamentos em quadrinhos, a revista “Artlectos & Pós-humanos” recebeu boas críticas e elogios de meu restrito e fiel grupo de leitores. Não abdico de criar em múltiplos suportes e mídias, isso é instigante e prazeroso.

 

Como pesquisador da área, o que o futuro da tecnologia reserva para os quadrinhos?

 

Em meu mestrado em multimídia na Unicamp estudei o fenômeno da migração das HQs para a rede Internet. Minha pesquisa pioneira no Brasil foi lançada como livro em 2005 – com um CD-Rom acompanhando, onde apresento minhas próprias HQtrônicas. A segunda edição de “HQtrônicas – Do Suporte Papel à Rede Internet” foi lançada esse mês (janeiro de 2008) pela editora Annablume em parceria com a FAPESP, provando a importância e boa recepção ao trabalho. No livro relato o surgimento de uma nova linguagem artística que alcunho de HQtrônicas, ela hibridiza HQ e hipermídia, também analiso o fenômeno das HQs na web de forma mais ampla em seus múltiplos aspectos. Acho que as HQs irão tomar múltiplas formas, algumas delas se mixando com as novas possibilidades tecnológicas enquanto outras manterão a tradição. Também tenho discutido o assunto em minha coluna “Quadrinhos Redondos” no site Bigorna, os interessados podem conhecer minhas idéias visitando a coluna.

 

Com todo o crescimento da tecnologia atualmente, você acha que a revista em quadrinhos impressa perderá sua importância?

 

Como já salientei, as publicações em suporte papel, aos poucos, irão tornar-se cult. Serão publicadas de forma luxuosa para os aficionados – já existe essa tendência no mercado. As grandes tiragens de “gibis” tornaram-se coisas do passado, os quadrinhos estão seguindo um caminho segmentado. Prova disso é que muitos jovens das novas gerações não sabem ler quadrinhos, ou seja, não conhecem os códigos que compõem a linguagem, pois nunca leram HQs! Para nossa geração ler HQs era quase como ver televisão, fazia parte do cotidiano das crianças. Hoje os entretenimentos interativos, como os games de computador, são mais sedutores. É por isso que acredito que as HQs impressas sobreviverão, mas ganharão o mesmo status cult de outras artes como o teatro.

 

Veremos mais de “Artlectos e Pós-humanos” em breve?

 

Com certeza, a editora deu sinal verde para a continuidade do título e estou em fase de produção do número 3 da revista!

 

Como foi a publicação pela SM Editora, fale sobre como se deu essa parceria.

 

O José Salles é um amigo de longa data, um dos grandes nomes da cultura underground brasileira. Escritor de talento, roteirista de mão cheia e um videomaker singular. Além disso, Salles é um homem de mente inquieta, sempre envolvido em iniciativas bacanas envolvendo mídias alternativas. Fiz a proposta de um título para a editora ainda em seu início e Salles topou de imediato, me dando carta branca para desenvolver o trabalho. Aí nasceu a “Artlectos e Pós-humanos”, uma revista com HQs curtas que são ambientadas em múltiplas fases de meu universo de FC futurista “Aurora Pós-humana”. Até agora o ritmo de publicação foi de um número por ano, um em 2006 e outro em 2007. Para mim está ótimo, pois meus quadrinhos não são fáceis, são para um público restrito, com esse tempo também posso esmerar-me mais na proposta conceitual e na arte do gibi, já que estou sempre envolvido com trabalhos artísticos em múltiplas mídias. Espero continuar indefinidamente com o título enquanto a editora SM, que acaba de mudar o nome para “Editora Júpiter 2” tiver interesse na revista e os leitores estiverem apreciando. É uma grande parceria, Salles É UM EDITOR DE VERDADE, acredita no meu trabalho e incentiva-me muito!

 
Capas da revista "Artlectos & Pós-humanos"

Falando de seus projetos pessoais, em que tipo de atividade você esta envolvido atualmente?

Bem, acaba de ser lançado na Internet o primeiro videoclipe do Posthuman Tantra, eu contribui como assistente de direção e, pasme, ator principal no vídeo! Ele foi feito para a nova música "The Master of the Alien Werewolves' Clan". O trabalho é uma produção conjunta Brasil-Alemanha e foi dirigido pelo bavariano Christian Rengstl e sua esposa Ariadne. O clipe conta com locações especiais e um clima tétrico-mágico, com influências do expressionismo alemão & b-movies da produtora inglesa Hammer.
A versão de melhor qualidade está no Myspace  (na primeira página), mas é possível assistí-lo também no Youtube.

Aproveitando a presença da equipe que filmou e dirigiu esse primeiro clipe no Brasil, fizemos todas as tomadas e filmagens para um segundo clipe que será montado e editado na Alemanha. Também desenvolveremos juntos um curta em stop-motion criado a partir de uma das HQs publicadas na “Artlectos e Pós-humanos”.

 

Estou montando o show do Posthuman Tantra, que contará com muitas surpresas. Além disso, existem dois lançamentos que estão prestes a sair, o CD “Gothik Kama Sutra”, parceria entre o Posthuman Tantra e o lendário músico Amyr Cantúsio Jr. (Alpha III), e a nova box set com a banda francesa Melek-tha “Alien Emperor Eternal” (3 CDs e 5 cards desenhados por mim).

 

Para o segundo semestre de 2008 possivelmente será lançado o EP “Asenath Conjurations”, parceria entre o Posthuman Tantra e a escritora européia e ocultista Asenath Mason - autora do livro “Necronomicon Gnosis”. Finalmente, iniciei os trabalhos para um álbum em quadrinhos totalmente colorido, minha aventura mais ousada pelo mundo das HQs, um trabalho de 100 páginas com arte e roteiro meus, totalmente em cores. Penso que levarei uns dois anos nesse projeto.

  

Você tem o costume de ler e comprar revistas e zines independentes? Qual você indicaria como exemplo de bom quadrinho nacional?

 

Eu procuro adquirir sim, na medida do possível, tenho praticamente todos os títulos de editoras com a SM e a Marca de Fantasia e indico o material dessas duas grandes marcas da HQ independente para todos aqueles que estiverem em busca de boas HQs alternativas, esses selos são sinônimos de qualidade! Mas tem também muitos outros abnegados fazendo um trabalho bonito, o pessoal da “Prismarte” aí de Recife, a “Areia Hostil” lá do Rio Grande do Sul (infelizmente parada por um tempo). Um álbum recente impressionou-me muito, chama-se “Blue Note”, foi desenhado por Shiko e roteirizado por Biu – publicado com apoio do governo da Paraíba. Dentre os nomes mais conhecidos, indico as novas adaptações literárias para os quadrinhos feitas por Marcatti e pelo grande Laudo, no humor tem o Márcio Baraldi e o Bira Dantas – com um trabalho contínuo e marcante. Estou na expectativa pra ler os novos álbuns de Gazy Andraus e Antônio Amaral, sei que vem coisa muito boa por aí! Enfim, com certeza estou esquecendo muita gente de talento...

 

Qual o momento mais feliz que você teve até hoje nas histórias em quadrinhos?

 

O momento mais feliz ainda virá, tenho muito que fazer e criar! Mas vivi momentos marcantes como quando publiquei minha primeira HQ em um fanzine ainda nos anos 80, com 13 anos de idade, o zine chamava-se Odisséia, foi muito bom ver a reação das pessoas ao meu trabalho. Outro momento especial foi o encontro com grandes artistas da HQ brasileira que pensavam sobre essa linguagem e trafegavam em universos próximos ao meu, como o irmão Gazy Andraus, o mestre Flávio Calazans, o amigo especial Henrique Magalhães; a parceria com um ídolo da infância chamado Mozart Couto em Biocyberdrama. Enfim, os melhores momentos foram todos de conexão com mentes especiais! Também conhecer pessoas sensíveis ao meu trabalho, pessoas como você Michelle que está coordenando esse espaço tão bacana das HQs brasileiras na web – o ZINE BRASIL - e me entrevistando aqui, isso é o que realmente vale a pena!

               

O prazer é meu (risos). E Qual o momento mais difícil na sua carreira de quadrinhista brasileiro?

 

Os momentos mais difíceis foram aqueles em que deixei de publicar meus trabalhos por não fazer concessões, quando pseudo-editores sugeriam mudanças no direcionamento de meus quadrinhos para torná-los “publicáveis”. Recebi muitas recusas por jamais fazer concessões, por acreditar no meu trabalho, no início isso era doloroso, pois todo artista quer ver seu trabalho publicado, quer chegar até as pessoas. Hoje encaro isso com muita tranqüilidade, encontrei o meu espaço, conheço meus limites, minhas qualidades e potencialidades e continuo não fazendo concessões.

 

Se um jovem que acaba de descobrir a arte dos quadrinhos, começasse a escrever ou desenhar hqs e lhe perguntasse qual sua dica para trabalhar no ramo, o que você diria nesse momento?

 

Seja você mesmo, faça aquilo que você acredita, ouça apenas o seu coração, nunca faça concessões. E lembre-se que um bom artista se faz com 99% de transpiração e 1% de inspiração, ou seja, produza, produza, produza...

 

Edgar foi um imenso prazer ter a honra de entrevistá-lo, obrigada pela atenção e sobre tudo obrigadão pela paciência!

 

Querida Michelle, a honra é toda minha, fico muito feliz em poder ocupar um espaço tão nobre quanto o do ZINE BRASIL com uma entrevista como essa! Continue com esse trabalho maravilhoso e abnegado em prol das HQS nacionais, você é uma guerreira! PARABÉNS! Convido todos os amigos interessados em conhecer mais do meu trabalho a entrarem em contato comigo pelo e-mail oidicius@hotmail.com e também a visitarem meus sites.(clique nos links abaixo em azul).

 

Posthuman Tantra no Myspace.

Site oficial do Posthuman Tantra:

Posthuman Tantra no Opus Nocturne 

Comunidade Orkut do Posthuman Tantra: 

Fotolog de Edgar Franco:

NeoMaso Prometeu (HQtrônica que recebeu menção honrosa no Festival Videobrasil). 

Ritualart (site pessoal - HQs, Entrevista, Ilustrações, poemas - está desatualizado a nova versão está sendo desenvolvida).

Mito Ômega (site de web arte envolvendo computação evolutiva e vida artificial – work in progress):

Freakpedia (web arte).

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