Zine Brasil Entrevista: MILÉ DI MORAES E PINHEIRINHO

30/09/2007 Por Michelle Ramos.

 

Com um inicio de carreira difícil, os artistas MILÉ DI MORAES E PINHEIRINHO, resolveram seguir em frente, e lutar para ver seus trabalhos conhecidos e publicados num mercado tão problemático como o nosso mercado de quadrinhos.

Apesar dessas dificuldades, os artistas conseguiram publicar 3 edições da Revista HQ Bíblica, uma publicação que tem como objetivo, não apenas o evangelizar as pessoas, mas também de transformar todas as Histórias das Escrituras Sagradas em Quadrinhos, é tarefa difícil, porém esses dois artistas estão dispostos a enfrentar os desafios.

 

MILÉ DI MORAES E PINHEIRINHO já conseguiram um feito inédito para artistas que ainda trabalham de forma independente, Conseguiram ser entrevistados mais de 100 vezes entre jornais, rádios, e TVs, algumas dessas entrevistas foram disponibilizadas pelo site YOU TUBE.

Tive o prazer de conhecê-los e poder entrevista-los por e-mail, e durante a mesma, devido a compromissos, já próximo ao final, nossa entrevista fica sem a presença de Pinheirinho, mas continuamos firme com o Quadrinista Milé. É comovente ver as dificuldades e a persistência de ambos para conseguir publicar a HQ Bíblica, e com certeza vamos ficar torcendo para que ambos possam colher a seu tempo, os frutos das sementes que plantaram.

 

Mas deixando de muito papo, Curtam a entrevista!

O que levou vocês, a entrar no Mercado de Quadrinhos?

PINHEIRINHO: Olá Michelle, Minha vontade de evangelizar através da arte.

E eu encontrei nos quadrinhos a oportunidade para tal missão.

MILÉ DI MORAES: Olá Michelle, olá leitores do Zine Brasil. Olha, desde criança, sempre fui fascinado por desenho animado. E os quadrinhos foi um meio mais fácil de produzir os meus desenhos. Quanto tinha 5 anos eu desenhava no chão contando minhas histórias, aos 8 anos fazia minhas revistinhas à mão com folhas de caderno, papel de pão, devido a minha família não ter recursos pra comprar na época, sendo assim passei a fazer as minhas próprias. E hoje atuo profissionalmente.

 

Quais suas principais influências?

PINHEIRINHO: Desde a minha infância no Maranhão, sempre acompanhei a Turma da Mônica de Maurício de Sousa.

MILÉ DI MORAES: Minhas principais influências são: Maurício de Sousa, Joe Madureira, Greg Capullo e Greg Land, esse pessoal é fera.

 

Como foi a criação da revista HQ Bíblica?

PINHEIRINHO: Nasceu de uma grande parceria com o quadrinhista Milé di Moraes. Ele desenhando e eu escrevendo sobre as sagradas escrituras.

 MILÉ DI MORAES: Eu já tinha essa idéia de produzir a revista desde 95, quando ainda fazia catequese, lia os textos e imaginava as histórias. Quando li o livro “Proezas do Menino Jesus” de Luís jardim, esclareceu o que eu pretendia.

Já tive uma revista de super heróis em 97, que não foi muito além. Em 2001, com incentivo de minha mãe resolvi trabalhar com a Bíblia em quadrinhos, foi nesse tempo que conheci o Pinheirinho, através de uma nota do jornal “O popular” de Goiás, só devido a esse trabalho voluntário de Divulgador Cultural, que nos aproximou, ele que já tirou vários artistas do anonimato, a missão dele e ajudar as pessoas, um exemplo de ser humano, acabamos sendo amigos e parceiros, e deu muito certo. Então saímos em busca de patrocínio para as publicações.

 

Qual a repercussão dela e do trabalho de vocês depois do lançamento?

PINHEIRINHO: Tivemos a oportunidade de lançar em Brasília, Goiânia e São Luís/MA. A revista foi bem aceita e até hoje muitos perguntam sobre quando sairá o próximo número.

MILÉ DI MORAES: Lançamos em 2001, 2002, e 2006. A repercussão foi ótima, a imprensa deu total apoio, fomos bem recebidos onde íamos, os lançamentos foram um sucesso, a revistas nº 1 e 2 esgotaram. As crianças, jovens e idosos elogiaram muito. A revista não tem segmento religioso, todos podem ter acesso, tanto cristãos, colecionadores de HQs, estudantes, admiradores da arte. Pelo incrível que pareça, nestes 7 anos de existência da HQ Bíblica, graças a Deus, hoje temos um público cativo, mesmo não editando regularmente, está se tornando conhecida, principalmente pela internet.

 

Surgiram novas oportunidades em termos de publicação por uma editora nacional?

PINHEIRINHO: Até hoje não surgiu nenhum convite.

MILÉ DI MORAES: Pelo o sucesso todo, as divulgações nas rádios, jornais, TVs, internet, não tivemos ainda propostas de editores, algumas promessas mas em vão, sendo então que, sentimos na pele a triste realidade do artista brasileiro, que não tem incentivo, e oportunidade de sobreviver da sua arte, diferente do mercado lá fora. A realidade da HQ Brasileira não é diferente do cinema nacional e do desenho animado.

O preconceito das editoras com relação aos artistas nacionais existe, mas estamos aí pra mudar essa mentalidade, depende da galera dos quadrinhos virarem o jogo. A revista estava paralisada, conseguimos publicar a 3ª edição ano passado. Cada ano fica mais complicado, infelizmente tenho muitos colegas que mesmo tendo um material bom e excelente, desistiram de publicar.

 

Quantas edições da Revista HQ Bíblica serão publicadas?

PINHEIRINHO: Mais de 500 revistas. A idéia é publicar as histórias bíblicas até o livro das Revelações, o Apocalipse de João.

MILÉ DI MORAES: Prevemos muitas edições do antigo até o novo testamento. Temos muita coisa pra mostrar pra galera.

 

Quais os próximos projetos que podemos esperar dessa parceria Milé e Pinheirinho?

PINHEIRINHO: O projeto maior é continuar com as revistas HQ Bíblica. Também queremos continuar com as charges em jornais, com desenhos do Milé e argumento do Pinheirinho. Se possível, também trabalhar com desenho animado para a TV.

MILÉ DI MORAES: Produzir a revista regularmente, todo mês, trabalhar com animação pra cinema e TV futuramente e dar oportunidades aos outros artistas.

 

Como foi para vocês a oportunidade de dar tantas entrevistas, como as divulgadas no youtube, e como isso ajudou no trabalho de ambos?

PINHEIRINHO: Foi uma grande satisfação e essas matérias foram de grande valia ao divulgar nosso trabalho até mesmo em nível nacional.

MILÉ DI MORAES: Conseguimos mais de 100 entrevistas em jornais, rádios, TVs, tivemos a sorte ter surgido o YOU TUBE, Deus seja louvado. O vídeo de 1996, que conta minha história no interior de Paraúna-GO, está na categoria dos vídeos favoritos, selecionados pelo site YOU TUBE. A internet é uma boa para os artistas divulgarem seus trabalhos. Agora podemos mostrar para todos a nossa história e que a Bíblia em quadrinhos existe.

  

Numa das entrevistas, de 1996, vemos a dificuldade enfrentada pelo Milé para criar seus desenhos e histórias, o que mudou hoje em dia?

PINHEIRINHO: O Milé é mais indicado a responder.

MILÉ DI MORAES: Michelle, naquela época eu achava tudo normal, meu mundo era aquele, humildemente, só que queimava dentro de mim um sonho de tornar um autor de histórias em quadrinhos, via no Maurício de Sousa, um exemplo a ser seguido. Depois da repercussão da TV anhanguera (Rede Globo) em 96, onde o grande escritor e apresentador Bariani Ortêncio (Livro: Cozinha Goiana) reconheceu que eu precisaria de uma oportunidade, fui chamado pra trabalhar em uma gráfica de Goiânia, foi melhor que continuar no interior, onde não iria me tornar um profissional, e como em Goiânia não tinha escola de quadrinhos, me aperfeiçoei, lendo, treinando, aprendi a colorir pelo computador, me tornei um chargista com o apoio do Pinheirinho, que em 2004 ganhamos dois prêmios do IV Salão Nacional de humor da UNACON.

 

Como é sua família com relação ao seu gosto pelos quadrinhos?

PINHEIRINHO: Minha família ficou feliz em me ver produzindo.

Todos conhecem meu gosto pela arte e tiveram a satisfação de ver esta realização, fruto de minha luta.

MILÉ DI MORAES: Quando era criança o meu pai não gostava muito, eu recortava todos os cadernos pra fazer gibi, trocava a diversão com os colegas pelo desenho, eles achavam que não era normal, e não iria ter futuro. Já meus tios que moravam fora sempre me presenteavam com algum gibi. Hoje minha mãe passou a me apoiar mais ainda, meu pai ficou mais conformado com a profissão que eu queria seguir, e hoje me reconhece como artista, me dão incentivo pra que eu siga em frente.

 

Como você vê o Mercado Brasileiro de Quadrinhos?

PINHEIRINHO: Muito difícil. O mercado é muito complicado e não abre oportunidades. Falam que poesia é difícil de se publicar, mas os quadrinhos não ficam atrás.

MILÉ DI MORAES: Eu vejo o mercado de quadrinhos hoje não com bons olhos. O brasileiro tem pouco hábito à leitura, cada dia, poucos vão a banca comprar um gibi, tenho exemplo da maioria dos amigos meus, muitos acham uma revista de 5, 8 reais, cara, as gibitecas estão escassas, a escola pública tem baixo acesso a esse tipo de leitura, o principal meio que deveria ser mais explorado.

 

A maior parte das bibliotecas mal há livros para pesquisas. Quase todas as cidades menores do interior, não existem bancas de revistas, como é o caso de minha cidade de Paraúna- GO, por exemplo. Atualmente muitos autores publicam suas revistas para satisfazerem o ego, porque estão impossibilitados de atuar comercialmente. As editoras publicam muita coisa de fora, não valorizam o que é nosso.

 

A internet é uma boa vitrine para divulgarmos e vendermos nossas obras, eu acho que o mercado pode melhorar, um exemplo, que em minha opinião está dando certo é os Guerreiros daTempestade, dos meus amigos Anísio e Fábio. Tive a oportunidade de conhecê-los, um grande artista, batalhador e está produzindo um trabalho de tirar o chapéu, com tantas barreiras, estão conquistando o seu espaço merecido.

 

O que você esta lendo em termos de HQ brasileira atualmente?

PINHEIRINHO: Guerreiros da Tempestade. Um trabalho que gosto muito e que admiro. Com bons desenhos e roteiros.

MILÉ DI MORAES: Leio a turma da Mônica e Guerreiros da Tempestade

 

O que falta, em sua opinião, para a HQ Brasileira esta sendo publicada por uma editora nacional regularmente?

MILÉ DI MORAES: Tudo na vida tem que ser planejado, estudado. Falta um projeto, uma visão de mercado, as editoras têm que incentivar e motivar a leitura nas crianças e jovens. Vi uma reportagem no SBT, sobre quadrinhos, e lá detalhava numa pesquisa que, cada vez mais havia menos crianças lendo Hqs, e que quadrinhos no Brasil era coisa de marmanjo, veja, já está perdendo futuros leitores.  Claro que HQs não vendem tanto como 10, 15 anos atrás, mas ainda tem o seu espaço e público, assim como os Games, DVD, outros entretenimento. Acho que o governo deveria promover cota de publicações destinadas à doação, para: escolas públicas, bibliotecas e comunidades. As editoras deviam criar um produto com preço acessível à população carente, eu acho que se não implantar o hábito a leitura, sempre haverá menos publicações, menos investimentos, assim, resultando em menos desenhistas e escritores produzindo.

 

Como fã de quadrinhos de forma geral, qual a história que para você é inesquecível?

MILÉ DI MORAES: Inesquecível para mim foi uma vez quando criança eu achei um gibi do Chico Bento na rua, toda rasgada, amassada, bem na época não tinha condições de comprar, eu lia e sonhava com as histórias.

 

Nossa... Você tem o costume de ler os fanzines? Diga pelo menos um que para você, merece destaque:

MILÉ DI MORAES: Pra dizer a verdade nunca colecionei fanzines, eu acho muito bela as obras quadrinizadas, as histórias criativas, é uma arte que tem grande valor, excelentes profissionais, o motivo de não ser tão adepto talvez, seja que, por aqui não é muito comum o acesso a esse meio de leitura, e é ate raro alguém falar que produz Fanzines. Hoje tenho conhecimento através do site Zine Brasil.

 

Do que você vive atualmente? Os quadrinhos já esta te proporcionando um pouco de pão na sua mesa?

MILÉ DI MORAES: Eu trabalho como desing de embalagens, onde faço o lay-alt e mascotes, às vezes pinta algum freelancer de ilustrações para livros, charge. E o Pinheirinho é divulgador cultural, e trabalha voluntariamente para a igreja, vive praticamente de doações, é a vida que ele escolheu.

Atualmente não dá para sobrevivermos da renda dos quadrinhos, está sendo inviável para nós, devido não termos capital para produzir e divulgar, esta é a realidade da maioria dos artistas de quadrinhos, infelizmente.

Que mensagem ou dica você deixa para os novos artistas brasileiros que estão chegando?

MILÉ DI MORAES: A dica seria a seguinte, estudar sempre, aprender a lidar com as críticas seja qual for, fazer o trabalho com amor e dedicação, só assim para vencermos as barreiras impostas pela cultura escassa de nosso país, e pra quem quer aventurar no mundo editorial, tenha muita persistência. E hoje em dia quem quer produzir quadrinhos comercialmente tem que abranger outras áreas, como: desenho animado, licenciamento de produtos, etc..., como é o exemplo do Maurício de Souza, e finalizando, quero convidar a todos para conhecer um pouco do nosso trabalho, através do site: www.hqbiblica.com.

Michelle, o nosso muito obrigado pela entrevista, você sempre foi camarada conosco, e com todos os outros artistas, Deus lhe pague, e abraço a equipe do site e todos os leitores.

 

O Zine Brasil agradece aos atistas Milé de Moraes e Pinheirinho pela entrevista concedida por e-mail entre Agosto e Setembro de 2007.