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Zine Brasil Entrevista: LOR

05/02/2007 Por Sergio Chaves

 

Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues, mais conhecido como LOR, atua como cartunista desde 1972, publicou em dias alternados charges políticas no Diário Popular de São Paulo (1988 a 2004) e em diversos outros jornais e órgãos de imprensa, algumas reunidas no livro “Os Desmandamentos” (Editora UFMG, 1972).

Formado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, (UFMG), e especialistas em Medicina Interna e Medicina Esportiva, com mestrado em Fisiologia e doutorado em Biologia Molecular, (este, na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo).

É professor titular de Fisiologia do Exercício, na Escola de Educação Física da UFMG. Têm orientado dissertações de mestrado e doutorado, monografias de especialização e trabalhos de iniciação científica. Têm publicado artigos especializados em periódicos, capítulos de livros e trabalhos em eventos científicos.

Como quadrinhista, LOR publicou as tiras "Now sem rumo" e "Telinho - a programação normal" em diversos jornais e livros, e é autor também do livro “Retrato Falado” – uma de suas histórias publicadas originalmente pela revista Contra-Ataque (saiba mais clicando aqui).

Já foi premiado em diversos salões de humor nacionais, 3 vezes em Piracicaba, Curitiba, Rio de Janeiro, Teresina, Montes Claros, Porto Alegre e internacional, (Japão). Em 2005, conquistou o quesito “Mestre do Quadrinho Nacional” do Troféu Ângelo Agostini. Como crítico de cartum, produziu textos e cursos sobre a ideologia dos quadrinhos.

Neste ano, a Associação Cultural Nação HQ, em comemoração ao Dia do Quadrinho Nacional, homenageou o cartunista LOR com a entrega do recém-criado "Troféu Lor", que a partir do próximo ano premiará os destaques dos quadrinhos brasileiros.

Atualmente, desenha para a Revista da Associação Médica de Minas Gerais e para a página de humor "Humor de Segunda" no jornal O Tempo. Atua como ilustrador e está sempre envolvido em manifestações artísticas estudantis ligadas à UFMG.

            Para conferir um pouco mais de suas obras, acesse o site da Editora Nona Arte e da Associação Cultural Nação HQ.

 

Em sua opinião, qual a importância das histórias em quadrinhos na formação cultural de uma pessoa?

LOR – Os quadrinhos é uma forma de arte, que mistura o desenho, a narrativa temporal, a palavra escrita e alguns símbolos próprios. Além disso, parece-me uma arte juvenil, ou seja, geralmente é feita por artistas mais jovens e é mais consumida pelos jovens. Não sei exatamente quais são as razões para isto, mas desconfio que a redução do interesse pelos quadrinhos na vida adulta tenha a ver com o aumento da experiência de vida (consolidando a riqueza do imaginário individual, o que possibilita criar as situações a partir apenas da palavra escrita, sem a necessidade das ilustrações) e a redução de tempo destinado ao lazer em virtude dos compromissos profissionais.

            De qualquer forma, especialmente na juventude, os quadrinhos continuam sendo fonte de construção da ideologia dominante, embora sua importância tenha sido repartida com a televisão, o cinema e a internet, ainda que estes meios de comunicação veiculem os quadrinhos e sejam influenciados por eles reciprocamente.

 

 

Como as HQs entraram na sua vida?

LOR – Desde a infância, trocando as revistas na porta do único cinema na minha cidade do interior, Lambari. A partir dos quadrinhos, especialmente os de histórias de guerra, construí um imaginário tão forte que eu e meu irmão, o escritor e jornalista Ernesto Rodrigues (Ayrton Senna e outros livros), tínhamos a certeza de que na década de 50 e 60 continuávamos na Segunda Guerra Mundial e os nazistas permaneciam uma ameaça nas sombras da noite.

            Depois, já adulto (jovem) passei a usar os quadrinhos como expressão de minhas posições políticas, quando surgiu o "Retrato Falado", que, no fundo, é uma história de guerra.

 

 

Como era a situação do quadrinho nacional na época que se iniciou na produção?

LOR – Ainda não havia internet, a televisão era menos poderosa e as opções culturais eram menos diversificadas. Assim, os quadrinhos eram culturalmente mais importantes. O Ziraldo já era um artista respeitado antes de se tornar escritor e uma das maiores expressões culturais do Brasil.

 

Fale-nos sobre a produção da série Contra-Ataque, e sua época.

LOR – A série pretendia ser um canal de expressão política de um grupo de pessoas com opção socialista e contra a ditadura militar. Reunimo-nos em torno de uma editora (Vega) e trabalhamos três edições: a primeira, o Retrato Falado, a segunda uma edição em defesa do meio ambiente e a terceira uma revista sobre os mecanismos da inflação e do custo de vida. As edições eram de cerca de 5 mil exemplares e enfrentamos uma dificuldade na distribuição comercial que estava nas mãos de um grupo de empresas. Com a fundação do PT, as prioridades políticas do grupo se modificaram e a série de publicações se extinguiu.

 

Você preparou o "Retrato Falado" em meses. O resultado final e obtido com ele foi de acordo com o que tinha em mente, ou tomou novas formas à medida que foi produzindo?

LOR – A concepção original foi construída em vários meses mas depois de aprovada eu modifiquei completamente o projeto original e desenhei tudo em um mês (com minha filha de 2 anos no colo, algumas vezes). O resultado final reflete uma certa pressa, mas não era uma época de se ter calma: o mundo estava ameaçado pela guerra nuclear e nós ainda estávamos com a alma banhada pelo sangue da ditadura militar.

 

Como você associa seu trabalho profissional e artístico? Um sofre influencia do outro? Como você administra ambos?

LOR – O que há de comum entre o fazer artístico e o fazer científico é a necessidade de criatividade, mesmo assim, ela pode ser diferente nas duas situações: Na arte ela é compulsiva e totalmente livre, enquanto na ciência ela é organizada e limitada pela racionalidade. Atualmente, utilizo meus desenhos para ilustrar aulas e artigos científicos.

            Quanto ao lado profissional do cartum, ou seja, desenhar para sobreviver financeiramente, e suas relações com o fazer artístico eu digo que também são coisas diferentes: desenhar artisticamente significa fazer aquilo por necessidade interior, independentemente se vai gerar grana ou não, é algo que se faz para sobreviver mentalmente. Desenhar para sobreviver financeiramente requer criatividade, treinamento e talento mas podem dispensar a compulsão artística, basta o prazer de fazer bem feito.

            A administração do tempo entre as duas profissões é difícil, pois são mundos bem distintos.

 

Você já sofreu algum tipo de preconceito relacionado aos quadrinhos e afins?

LOR – É claro que sim: Minha avó, por exemplo, pedia à minha mulher Thalma que me convencesse a parar de fazer quadrinhos: "Onde já se viu um médico e pai de família perder tempo com estas bobagens?" – dizia ela revoltada.

 

E como reage numa situação dessas? Bate de frente ou ignora?

LOR – O humorista que se leva a sério já morreu. Acho que ela tem a maior razão: Onde já se viu um homem de verdade fazendo estas bobagens, calunguinhas para os outros rirem? Só palhaço mesmo.

 

Como leitor, o que gosta de ler (em geral)?

LOR – Tudo sobre a vida real, ciência, biografia, história, biologia. Na ficção, apaixonei-me pelo universo do Guimarães Rosa e não consegui voltar de lá: Estou ainda perdido numa vereda qualquer, no meio do sertão.

 

Você tem acompanhado algo de HQs recentemente?

LOR – Confesso que pouco leio e não mais desenho quadrinhos, pois estou muito envolvido com outras atividades e o quadrinho requer muito tempo para sua execução: Uma imagem pode valer muitas palavras, mas uma palavra pode ser imaginada de muitas formas diferentes.

 

A propósito, quais as principais características para se produzir um bom resultado?

LOR – Há o bom resultado pessoal, ou seja, o que traz satisfação ao próprio artista e aquilo que agrada às pessoas que recebem o seu trabalho. Nem sempre o que me contenta é aquilo que vai agradar ao público, no entanto, geralmente a aceitação e o apoio do Outro é fundamental para que se complete o processo artístico. Quando o Outro gosta do seu trabalho ele valida sua permanência no mundo, restabelece a realidade para o artista.

Geralmente, o que contenta o artista é algo mais avançado do que aquilo que satisfaz o público. Em cada tipo de arte, o público é geralmente conservador e espera menos do que o artista gostaria de dar. Então, sucesso de público não quer dizer obrigatoriamente arte original, sabemos disso.

 

 

Qual tua opinião sobre as HQs virtuais? Como isso pode ser benéfico e maléfico (se é exista, em sua opinião) para os artistas?

LOR – Acho que a internet está revolucionando nossa cultura e certamente vai modificar nossas referências visuais e gráficas. Não existe maléfico ou benéfico: As coisas são o que são e a gente que se adapta ou morre.

 

Após ter sido (re) lançado pela editora Nona Arte e conquistado o título “Mestre do Quadrinho Nacional” (em 2005, pelo “Troféu Ângelo Agostini”), não possui planos de voltar às HQs? Não possui nada em mente no momento?

LOR – Acho que não se deve fazer arte sem a compulsão interior para fazê-la. Deve ser uma necessidade, senão é apenas rotina ou sobrevivência financeira. Além disso, li no "O que nos faz humanos" do Matt Ridley, que os homens fazem arte para impressionar e conquistar as mulheres e talvez eu esteja passando da idade de querer isto tão intensamente ou já tenha conquistado uma mulher suficientemente.

            Recebo a homenagem do Ângelo Agostini (e agora criaram o Troféu Lor aqui em Belo Horizonte) como um indicativo de que aquele tipo de trabalho naquele momento histórico foi importante para se construir à identidade do quadrinho brasileiro. Não significa que eu deva fazer de novo, pois as referências, as necessidades e os desafios são outros, nos novos tempos. E acho improvável que eu fizesse uma arte diferente daquela que fazia nos 20 e poucos anos.O barco deve seguir e fico feliz que me considerem como parte dele no passado.

 

 

Qual a tua visão sobre o atual mercado de quadrinhos, charges e relacionados no Brasil

LOR – Estou fora da competição há uns dois anos. Não sei dizer exatamente.

 

 

Possui novos projetos em andamento? O que anda produzindo?

LOR – Estou escrevendo um livro chamado “Mantenha a cabeça fria: Atividades físicas e esportes no calor”, relacionado com minha experiência científica neste assunto e isto consome todo o meu tempo fora da rotina universitária (aulas, orientações, reuniões, etc.). No mais, no more: Eu quero é rosetar. 

 

 

Obrigado, LOR, pela total atenção à nossa entrevista.

LOR – Foi um prazer e desejo longa vida para seu projeto e entusiasmo.

Grande abraço, Lor

 

(Entrevista realizada via e-mail, em janeiro de 2007)

Sergio Chaves é Roteirista e Editor dos Fanzines Justiça Eterna e Universo subterrâneo. Colaborador e Colunista do Zine Brasil. Saiba mais Aqui.