ARTIGO: É Filme Nacional!!!

15/09/2007 Por Alexandre Assumpção.

 

Bem, até acho que o aviso válido (se a lei que permite reembolso integral do ingresso até certo momento do filme não tiver caducado), mas se eu fui assistir a um filme chamado “Saneamento Básico” estrelado pela Bebel Buzanfa da novela... Não sou exatamente uma virgenzinha. Só que o Cinemark Barra é uma velhinha paranóica que além de colocar este aviso bem grande na bilheteria, ainda tem funcionários que te acompanham tentando te convencer a desistir da aventura.

“É Filme nacional, “mermão”! Tu vai encarara “mermo”?”

Se eu fosse uma mulher não encararia essa criatura, o filme eu veria sem stress. Mas até ai, é minha opinião. Busco pessoas que flertam com a evolução, não elos perdidos culturais.

Até os anos 90. Essa mentalidade Brasil=Lixo era refletida em tudo que fazíamos. E apesar das gratas exceções, nada Brasileiro era realmente “aquilo tudo”.  As propriedades intelectuais principalmente... Eram todas impróprias. Flertávamos com o Underground e toda a questão de simbologia política gerava coisas... Incompreensíveis.

Nos quadrinhos, confesso que o Underground de Robert Crumb, Gilbert Shelton e Cia. fizeram um tremendo estrago. Adicionem pitadas do “Politiburo*” que todas as artes se tornaram e altas doses de egos inflados que faziam algo apenas para “seu pessoal” e saiam reclamando das baixas vendas. (seu pessoal era parte da minoria esmagada, não o contrário)

De um lado o preconceito e do outro a vítima se recusando a evoluir... E assim se passaram mais de 20 anos.  Sim, existiam outros criadores. Muito bons, por sinal... Mas nos tempos pré Internet, todos imaginavam que o eixo Rio-São Paulo era a Meca artística e todos migraram pra cá tentando “fazer parte” e absorver as modas de então. 

Surge um Henfil que faz material politizado e todos querem ser sua sombra ou suplantá-lo, mas ninguém quer mostrar suas próprias qualidades.  É a versão Brasileira da busca “Gold Digger*” que fazem pelos EUA e suas editoras atualmente. Surgem os quadrinhos lisérgicos e encontramos esse tipo de material nos assombrando ainda na virada do milênio.

Se pra um você tem de ser inteligente e pro outro você está careta demais... Ninguém entende os dois. Só que a história nos mostrou que enquanto o primeiro estilo deu Status, o segundo relegou todos os seus expoentes ao ostracismo.  O Brasil não absorve seus Chester Willians... Não são comerciais. Mesmo os que morrem forçando a barra e tentando manter a sobrevida de um underground Brasileiro que foi enterrado ao lado da “pornochanchada” no imaginário popular.

O problema é que apesar de termos exceções excelentes e tudo o mais... A mentalidade de quadrinhista ainda está dividida entre o underground e o idílico, dando espaço tanto para os incompreendidos quanto para aqueles que vão salvar (revolucionar) o quadrinho mundial digamos que... “Redesenhando os olhos do Mangá”. É já ouvi isso.  Bem, os pornôs revolucionaram o cinema brasileiro tirando a calcinha, não é verdade? Até então, toda uma geração babava com imensas calcinhas beges... (Chamem os Inimigos da HP!) É, houve uma mudança...

O que nos trás a leva de cineastas que desaguou no saneamento básico.  Eles simplesmente são despretensiosos. Este é o seu diferencial.  O mercado é artesanal demais para se fazer uma versão nacional de “O Dia Que A Terra Parou”.   Com a tecnologia atual seria possível fazer até nosso “Matrix”, os fundos e a mentalidade dos produtores é que não permitem.

Exatamente como nos quadrinhos, os idiotas de cinema acham que são uma espécie de maçonaria e que você só pode entrar quando convidado e na maioria das vezes sem poderem opinar até se provar digno.  Numa de minhas raríssimas discussões sobre o assunto, perguntei: “Na sua cabeça... Pra que serve o público? Não seria jogo respeitar a inteligência e o livre arbítrio de quem nos consome?” A pessoa se retirou da lista para não me encarar mais.  Em seu mundo, não havia a necessidade de uma resposta. Para ele, o público que se danasse... Desde que consumisse seus produtos entendendo ou não sua visão.

Existem boas histórias pedindo para ser (sendo) contadas e muitas delas são tão despretensiosas que podem virar um chiclete. Zona Zen é um belo exemplo disso... Enquanto o Nestablo tem tudo pra ser o Sienfeld Brasileiro, muitos roteiristas ainda estão brincando com seus bastões de poder ou sendo inteligentes/undergrounds demais pra ter algo impresso.

E continuamos vendo os quadrinhos fluindo só na internet e/ou fanzines impressos...  Nada contra, mas no país da Mônica e do Menino Maluquinho já ficou provado o que vende. O brasileiro é que nunca foi incentivado a consumir o que produz, já que há materiais “de melhor qualidade” importados.  E a maioria dos produtos realmente nunca incentivou o leitor médio.  Repare que o falecido “Ely Barbosa” e o Cedraz da “Turma do Xaxado” sempre tiveram público correndo por fora.  Laerte vende (quase) tudo que produz e tem o pessoal de mangá que nunca para de produzir e ser consumido. Matamos os egos dos criadores, contamos boas histórias, damos o que o povo quer, o mercado prospera e mantemos (ou aumentamos o) público que pode vir a se interessar por materiais mais “cabeça”. E esta pode ser a nossa última chance.

Uma pergunta ingênua... Alguém já pensou em fazer uma pesquisa de opinião e ver o que os leitores buscam e oferecer exatamente isso?  Um fanzine aqui do Rio fez isso e ele agüentou uns quatro anos com 3 mil exemplares só na base da venda direta.

 

*Cavador de ouro é um termo usado praqueles que tentam aplicar pequenos golpes pra subir na vida.

*Politiburo era o nome do grupo fechado de políticos que mandava na extinta URSS.

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Alex Assumpção é Roteirista, e já está há mais de dez anos envolvido no meio independente, atualmente, fora seus roteiros, esta publicando textos no seu blog pessoal O Sumpa Sabe.

 

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