Zine Brasil Entrevista: Ulisses Azeredo

22/07/2007 Por Michelle Ramos.

 

Ulisses Azeredo é um dos poucos colecionadores de quadrinhos nacionais que tive o prazer de conhecer através da internet, amante confesso do gênero de terror, é editor do maior site de quadrinhos de terror do Brasil, o site NOSTALGIA DO TERROR recentemente foi indicado ao Oscar do Quadrinho brasileiro, o premio HQ Mix, como melhor site de Quadrinhos, conhecido por brasileiros e estrangeiros que se admiram da qualidade dos quadrinhos nacionais apresentados pelo Nostalgia, o site permanece com seu propósito inicial que é “homenagear artistas e HQs do gênero de terror que enriqueceram a cultura do nosso Brasil(frase do Ulisses). Nessa entrevista é possivel conhecer um Fã fervoroso, um leitor consciente, e acima de tudo um Brasileiro que sonha com um país que valorize seus artistas e invista nos quadrinhos Brasileiros do jeito que ele merece. Com vocês... Ulisses Azeredo!

 

E-mail do entrevistado: editores@nostalgiadoterror.com

Site: http://www.nostalgiadoterror.com

 

Você realmente dá mostras de ser totalmente apaixonado por este gênero de quadrinhos, há quanto tempo você coleciona estas Hqs?


Azeredo: Michelle, poucos acreditam, mas eu aprendi a ler com as revistas do gênero editadas pela Bloch, principalmente lendo os quadrinhos do Edmundo Rodrigues. Era 1976 e naquela época já comecei a formar minha coleção. Tinha então seis anos e de lá para cá, o amor só cresceu, apesar dos pesares.

 

Quando estas revistas foram lançadas era uma verdadeira febre de monstros, vampiros e o mundo sobrenatural era uma constante.  Por que você acha que não existem mais novos lançamentos sendo vendidos neste gênero no Brasil?

Azeredo: Talvez um desgaste neste segmento. Mas na verdade, mesmo com a renovação do público poderia em muito melhorar. Não há planejamento, incentivo e até idealismo, pois faltam também pessoas com amor à pátria também.
O gênero terror, foi o que mais revelou artistas nacionais e simplesmente desapareceu. Essa invasão de porcarias enlatadas e manipuladoras prejudicou bastante o mercado. Mas se o quadrinho nacional fosse mais estruturado na época, e conseguisse o apoio de órgãos que incentivam a cultura, a situação seria outra. Ainda está em tempo de se tentar fazer algo.

 

Um amigo e também quadrinista Erick Lustosa, daqui de Pernambuco chegou a criar e editar o zine O Martelo, (você chegou a conhecer?) onde seu conteúdo era totalmente dedicado aos quadrinhos de terror, não só a republicação de material de grandes mestres do terror, mas também trazendo novos artistas nesse gênero. O Nostalgia não pensa em fazer algo parecido? Lançar uma publicação impressa onde este tipo de hq poderia ser mais conhecido e dessa forma revelar possíveis novos escritores do terror Brasileiro?

 

Azeredo: Michele, conheço “O Martelo”, porque ele ainda está no ar. Lançar algo no Brasil, mesmo de brincadeira, é difícil. Não existe apoio e sim muito desgaste. O Nostalgia, embora noticiado, está sofrendo barbaridade, pois não há interesse nenhum em ralação a patrocínio ou alguma espécie de incentivo, embora eu tenho feito de tudo.  É a memória dos nossos artistas que está em jogo, mas é realmente um “país sem memória!”. Quem sabe algum dia, vejam em alguma banca, um coletânea “Nostalgia do Terror”. Só o tempo dirá.

 

 

Recentemente o site foi indicado ao Prêmio HQ mix, como Melhor site de

Quadrinhos, o que isso representa para você neste momento?

 

Azeredo: Agradeço ao HQ MIX. Foi realmente um empurrão, no bom sentido. Uma real valorização ao Trabalho. Bom ser lembrado por eles. Acho também que poderiam incentivar mais sites com conteúdo totalmente nacional. Sem ofender, não dou crédito a site que se diz brasileiro e que tenha 30 ou 50% de material estrangeiro. E o pior de tudo: são os que mais recebem grande incentivo... Paciência.

 

Qual a repercussão que a existência do site causa nos seus visitantes?

 

Azeredo: Quem descobre o Nostalgia sempre volta. O público dele fiel. É por isso que o tráfego do site, que não é pouco, sempre excede o limite.

Agora é difícil acreditar que recebo muitos e-mails de blogs e de sites norte-americanos mostrando interesse bem maior que a nossa mídia digital brasileira, salvo exceções, é claro. Mas aí é que se vê que somos país de 3º mundo mesmo.

 

 

Você também escreve ou desenha? Qual a primeira Hq de terror que você leu e te marcou, que fez você ser o colecionador que é hoje?

 

Azeredo: Já cheguei a desenhar por só por brincadeira mesmo. O Amigo Zalla até publicou alguns destes desenhos na página do leitor na revista “Calafrio”, mas acho que não levava jeito nenhum.. (risos)...

Quanto ao desenhista, um que me marcou foi o Edmundo Rodrigues, pois o mesmo desenhou de tudo: Jerônimo, super-herói, passando por Almas penadas, Lobisomens e lendas brasileiras. Tudo isso com conotação dentro do gênero terror. Hoje o desenhista que está começando, já está alienado e só quer desenhar super-heróis americanos. É uma pena!

 

Com certeza a cultura brasileira facilita criação de tantas e diferentes histórias sobrenaturais, mas na hora de escrever hqs, os novos escritores sempre se prendem a criação de super heróis e Cia, que razão você daria para  isso?

 

Azeredo: Temos diariamente o mau exemplo nos livros e internet: Adoração à cultura alheia, estrangeira, sem mesmo conhecer a nossa. A alienação que estão fazendo com os nossos futuros artistas, é um crime e tem que ser combatido.

 

Qual dos personagens de terror seriam seus preferidos e por quê?

 

Azeredo: O Morto do Pântano do Colonnese é excepcional. O sarcasmo da personagem aliado à barbárie é o diferencial.  A Mirza, também do Colonnese, com sua sensualidade virginal, é um espetáculo. Não vamos esquecer da Naiara, do Nico Rosso, provocadora, com jeito de adolescente e que usava métodos cruéis para com as suas vítimas..(risos)...

 

Realmente o universo dos quadrinhos brasileiros nesse gênero é um dos mais ricos que se possa imaginar, é uma verdadeira pena não temos artistas que se dediquem a trabalhar na nossa própria cultura, mas é justo falar que essa atitude é conseqüência da atitude do próprio leitor brasileiro, seja ele um profissional da área, que nada faz para mudar a situação, quando o simples leitor, que rejeita uma publicação nacional, pelo simples fato de ser um material Brasileiro... Você já sofreu preconceito por gostar de quadrinhos? Especialmente por gostar de quadrinhos nacionais, divulga-los e não ganhar nada com isso?

 

Azeredo: Atualmente, todo artista, quadrinhista ou pesquisador é, em muito,ignorado.

Temos que mendigar a divulgação do nosso próprio trabalho nacional em sites, blogs, ou jornais, quando, no meu entender, teria que ser prioridade para fortalecimento da nossa cultura. Você já reparou que os nossos sites ajudam a vender as revistas que vem de fora, divulgando, comentando e elogiando o enlatado e esquecendo totalmente o pouco que aqui é publicado? Quando divulgam algo lançado aqui, expressam de três a cinco linhas e tudo bem. Essa mazela foi introduzida pouco a pouco no nosso mercado e cada vez mais forte.

 

A cada dia surgem novas publicações de zines e revistas, porém pouquíssimas conseguem se sustentar sozinhas, e a grande maioria sempre trazem o mesmo conteúdo, os mesmos tipos de histórias, e isso só aumenta o numero de quadrinhos Nacionais, porém não existe uma qualidade significativa que chame a tenção das editoras nacionais como na época das revistas de terror, que se deve isso em sua opinião?

 

Azeredo: A influência externa descaracterizou um pouco o jovem artista. A influência é demasiada. Esquecem do estudo constante e correto, enveredando para o lado das características estrangeiras. Mesmo assim, o mercado se renovou e existem muitos bons artistas. Esses, às vezes, só conseguem mostrar o talento, realmente fora do nosso país.

 

Um dos motivos que alguns editores dão para a não publicação de quadrinhos nacionais de forma constante, é o gasto que o mesmo exige, como divulgação maciça da publicação e seus autores, especialmente quando eles são autores novos, como se existisse a possibilidade de se vender um produto sem muita divulgação... Você acha que a criação de uma lei que exija uma porcentagem significativa de publicações nacionais para cada editora já resolveria nosso atual mercado?

 

Azeredo: No meu entender, sim. Uma lei específica é o que poderia fortalecer os quadrinhos brasileiros. Infelizmente em um país de cultura alienada não há outra forma. A lei seria um impulso inicial, pois com o tempo, os quadrinhos estariam mais fortalecidos e obtendo incentivos culturais, gradativamente, a situação se reverteria.

 

Artistas como André Diniz e Marcatti se destacam por terem seus trabalhos constantemente nas livrarias, mostrando que o quadrinho brasileiro tem qualidade para estar a venda ao lado de qualquer outra publicação estrangeira de sucesso, mas ainda assim muitos artistas ainda sofrem para ter uma historia sua publicada no dia a dia, artistas como Emir Ribeiro e Sebastião Seabra apesar de serem nomes conhecidos e admirados ainda encontram muitas dificuldades para suas novas publicações, muitas lançadas independentes, quem tem mais culpa pelas dificuldades impostas a HQ Brasileira? As editoras, os profissionais ou os leitores?

 

Azeredo: Os leitores, ao longo do tempo, absorveram o que foi implantado. O que falta mesmo, a muitos editores, com algumas exceções, é “Brio”. Acham que o caminho do oportunismo é o mais fácil. Há de se ter coragem para tentar mudar a situação, mas tudo isso, aliado ao receio, dominam esta classe. Já tivemos dificuldades em outras épocas, mas os nossos editores e empresários, tinham outra mentalidade. Essa nova geração de artistas, é uma vítima cruel do sistema insano. Em tudo tem que se ter coragem. É isso que faz a diferença.

 

Certa vez um amigo me aconselhou a fazer do Zine Brasil parte de outro site de quadrinhos, visando com isso que o mesmo daria mais divulgação aos meus trabalhos quando eu os divulgasse, eu disse que não precisávamos disso, e que se esse era o único motivo para se unir a um outro site isso não era uma boa idéia, sem perceber ele mostrou um dos motivos que a HQ Nacional encontra tantas dificuldades de conseguir ir mais longe, a falta de UNIÃO entre os artistas e profissionais, será que tudo nesse meio tem que ser visto como competição? Pois é como muitos têm agido, tipo: “Faça parte de meu site eu te ajudo se não...TE VIRA!” Como você vê essa falta de união entre nossos artistas? O quão prejudicial é essa atitude entre os profissionais de quadrinhos?

 

Azeredo: Sem dúvida, Michelle. É uma verdade absoluta. Muitos não têm esse espírito solidário e digo até patriótico, uma vez que até torcem contra um colega de trabalho. É um mal terrível e o correto seria a classe se unir, fortalecendo esta causa, visto que o mercado já cria dificuldades suficientes.

 

Você que leu, ler e coleciona revistas que trazem uma das melhores épocas ou até o melhor dos quadrinhos nacionais, que dica daria para os leitores e jovens provisionais de quadrinhos que sonham em ver seus trabalhos em bancas de revistas espalhadas pelo país?

 

Azeredo: Quem sou eu..(risos).. Mas aconselho a continuarem a luta, apesar dos pesares... Nunca desistir do sonho. A força de vontade pode atropelar as dificuldades. Nós, brasileiros, podemos fazer a diferença, pois já se está provado que somos muito capazes. A internet é um meio poderoso para a divulgação para expor trabalhos, e com personalidade, sem influencia, poderá fazer a diferença.

 

Valeu Ulisses, grata por sua entrevista, espero que o Nostalgia cresça de vento em popa e que o Zine Brasil possa estar noticiando a cada dia sua história de sucesso!

 

Azeredo: Eu é que agradeço Michelle, em explanar algumas idéias. Você está de parabéns por publicar este belo site, trazendo material totalmente nacional, demonstrando o amor profundo por nossas raízes. Foram poucos os que tiveram esta iniciativa.

 

*Entrevista realizada em Julho de 2007