..:: Zine Brasil Entrevista: LEONARDO MELO ::..


Zine Brasil Entrevista: LEONARDO MELO

19/05/2007 Por Sergio Chaves

 

Leonardo Melo é editor de uma das melhores revistas independentes do momento, a “Quadrinhópole, onde também atua como roteirista, com destaque à sua série fixa "Undeadman", com o personagem Jason de Ely, o imortal. Também escreve fan fictions para o site Quadrim e colabora para o site PopBalões onde também publicou um estudo completo sobre o Homem-Aranha. 

Mantendo ritmo e qualidade associados à de outros feras dos quadrinhos, Leonardo segue em busca de expandir cada vez mais suas atividades, inovando a cena dos quadrinhos independentes. Confira.
 

Qual tua visão sobre o mercado de quadrinhos nacionais?
Leonardo Melo - Acredito que eles estejam em um momento de ascensão. Os quadrinhos, de modo geral, estão vivendo um "boom" em todo o mundo. Hoje se fala muito do fenômeno que está atingindo a nona arte, que é o de termos cada vez mais títulos nas prateleiras de livrarias e comic shops. Alguns de qualidade duvidosa, é verdade, mas há muita coisa boa saindo e coisa que nunca veríamos no Brasil agora está chegando até nós. E os brasileiros não querem ficar de fora, eles querem a sua fatia do mercado. E ainda que esse mercado nacional seja praticamente inexistente, sinto que há muita vontade de se mudar isso, pois vejo cada vez mais gente interessada em produzir material, em verem publicadas as suas histórias. E se as editoras não ajudam, o jeito é ir na raça mesmo, pelo caminho independente.
 
Qual a maior dificuldade enfrentada por nossos quadrinistas, e qual seria o primeiro passo para melhorarmos?
Leonardo Melo - Não é segredo que o maior problema do nosso "mercado" é a divulgação e a distribuição. Com a internet, esse primeiro problema vem sido resolvido parcialmente. Podemos divulgar nossas revistas em sites de quadrinhos, comunidades no orkut, blogs, listas de discussão e afins, a um custo nulo. Mas o quadrinista independente geralmente não tem grana pra bancar uma tiragem muito maior do que 1.000 ou 2.000 exemplares e aí entra a questão da distribuição, também. Essa pequena tiragem não é suficiente para atingir todo o público de quadrinhos em potencial e as distribuidoras não pegam tiragem com menos de 30 mil. A comix, que supostamente deveria fazer esse trabalho, trata os quadrinhos independentes como segundo plano, não dando a devida atenção que nossos quadrinhos merecem para fazer uma distribuição decente. O jeito é começarmos a trocar com colegas do meio independente, fazendo uma rede de distribuição entre os estados. É um primeiro passo para mostrarmos a nossa força, mas ainda é muito pouco perto do ideal. Ainda assim, essa união dos independentes é extremamente necessária para a sobrevivência do quadrinho nacional, ou continuaremos penando. Pois de nada adianta termos uma grande divulgação se nossos títulos não chegam ao leitor. E precisamos que chegue, precisamos que ele esteja lado a lado com os títulos que ele já lê, ou nada vai mudar. 

 

André Caliman: Desenhista

Como surgiu a Quadrinhópole?
Leonardo Melo - Desde meados de 2000 eu comecei a freqüentar a Gibiteca, onde conheci o André Caliman, o Joelson Souza, o Anderson Xavier e outros. Todos tinham vontade de publicar e desde aquela época, fomos nos aprimorando nos roteiros e nos desenhos. Eu procurei praticar minha escrita com fan fictions no site da Quadrim e li os livros do McLoud, além de sempre pedir a opinião de quem era mais experiente para ver como podia melhorar. Os desenhistas freqüentavam o curso do José Aguiar e foram melhorando cada vez mais. Hoje, inclusive, muitos deles trabalham na área. Finalmente, em 2006, vimos que estávamos num ponto bom para começar. As idéias estavam a mil e resolvemos aproveitar o aniversário da Gibiteca em Outubro para lançar o número # 01. Felizmente conseguimos publicar em um material muito bacana (são 32 páginas em papel couchê) e as histórias agradaram os leitores, tanto nesta parte gráfica quanto nos roteiros/ desenhos. Apesar de ser um trabalho amador (a princípio) e ter saído com alguns errinhos, recebemos vários elogios, tanto de leitores quanto de profissionais da área, e pudemos corrigir estes erros na segunda edição, que foi lançada em dezembro do mesmo ano. Agora, a tendência é ir melhorando e deixando a revista cada vez mais com uma cara profissional.

Como está sendo a receptividade do público?
Leonardo Melo - Está sendo ótima e ouso dizer que essa é a melhor parte de se fazer quadrinhos no Brasil. Ver nosso trabalho reconhecido. Tudo mais é stress... Ter que se preocupar com um roteiro bem elaborado, fazer os desenhos dentro do prazo, elaborar a diagramação, mandar pra gráfica, fazer a divulgação, se preocupar em fazer eventos para vender, ou ir atrás dos eventos, tirar dinheiro do bolso para bancar os custos... É dor de cabeça que não acaba mais. Mas quando a  gente recebe e-mails e cartas de leitores... Tanto de gente que é só apreciador quanto profissionais da área... Dizendo que nossa revista está muito bem feita e que tem futuro, vale a pena todo o esforço e dá gás para fazermos mais!

Um dos destaques da publicação é, sem dúvida, a série Undeadman, sobre o imortal Jason de Ely. Fale um pouco da saga e quais seus planos para ela.
Leonardo Melo - Não quero falar muito para não estragar as surpresas, mas finalmente teremos a conclusão do arco que conta a origem dele na quinta edição. Na sexta faremos uma breve pausa, pois já temos uma história completa programada. E na sétima teremos uma edição especial só do Jason, com várias informações sobre a criação da personagem e outras surpresinhas... heheheeh. Nesta ocasião, mostraremos Jason no Japão, onde ele receberá a primeira katana feita pelo homem. Depois, quando voltar à Inglaterra, terá encontro com personagens históricos e famosos da literatura, além de encontrar uma personagem que será muito importante em sua busca. Ele viverá mais algumas aventuras, até finalmente reencontrar o feiticeiro que o amaldiçoou. Evidentemente que ele não conseguirá se livrar da maldição neste primeiro encontro, ou não teria graça nenhuma.... hehehehe.
Bem, depois deste episódio, ele continuará vagando pela Europa na Idade Média e na Moderna, vai perambular por outros cantos do mundo e participar de mais eventos históricos, até cruzar o oceano na Idade Contemporânea. E não pára por aí. Conforme prometi no editorial da primeira edição, teremos uma espécie de "Apocalipse" e ele sobreviverá a ele, é claro.
É história que não acaba mais... Espero que eu viva para contar todas elas... heheheh.

                                                        Undeadman, o imortal Jason de Ely. 

Quais são os lançamentos previstos para a revista neste ano?
Leonardo Melo - Em Julho teremos a quarta edição e faremos um evento de quadrinhos aqui em Curitiba, que comportará o lançamento de outras revistas independentes. Também teremos palestras, feira de quadrinhos e outras coisas bem legais. Esta edição traz o penúltimo capítulo do arco de origem do Jason, traz uma história sobre jogadores de pôquer feita pelo André e também uma breve biografia da dançarina Ticlau, que se apresentará durante o evento. Também haverá duas histórias do Daniel Esteves (indicado ao HQ MIX como roteirista revelação).
Já na quinta edição, como eu disse, concluímos o arco do Jason e teremos uma história meio "sem noção" feita por mim e pelo Abs Moraes, além das participações mais do que especiais do Daniel Esteves (de novo) e do Bira Dantas. Este lançamento está programado para Outubro, junto com o aniversário de 25 anos da Gibiteca e 10 anos do Gralha.
Por fim, em dezembro, teremos a sexta edição, com a publicação do arco completo de "Insanidade", que infelizmente não pôde ser publicada na terceira edição.
 
Qual a tua opinião quanto aos quadrinhos virtuais? Você acredita que a internet pode ser até mesmo uma opção de profissionalização dos quadrinhos brasileiros?
Leonardo Melo - Eu acredito que será o futuro, mas ainda é muito cedo para falar nisso. Os quadrinhos virtuais ainda estão engatinhando e ainda não há um meio eficaz de se cobrar por isso, e que garanta o sustento do artista. Por enquanto, a grande vantagem de se colocar quadrinhos na internet é a divulgação que esta opção proporciona, mas não vejo como se ganhar dinheiro com quadrinhos virtuais, aí já complica a parte da profissionalização. Mas creio eu que os dois meios - virtual e impresso - não devem se anular e sim, se complementar. 

                                                                           Edição Atual

Pra finalizar, amigo, como quadrinhista e editor, o que os quadrinhos são pra você?
Leonardo Melo - Eu gostaria muito de responder essa pergunta dizendo que é um meio de vida, mas infelizmente, num país como o nosso, não é. E isso desanima qualquer um que esteja nessa estrada, às vezes. Contudo, todos fazemos isso pelo mesmo motivo: quadrinhos são, para todos nós, uma grande paixão. Fazemos o que fazemos por amor à arte. Por sermos teimosos e querermos publicar de qualquer jeito! Mostrar nossas idéias, contar nossas histórias, apontar o talento de nosso traço e mostrar que os brasileiros também sabem fazer quadrinhos de qualidade!
Publicar quadrinhos, pra mim, é um sonho. E junto com meu amigo André Caliman, temos perseguido esse sonho.

* Entrevista realizada em Maio de 2007