:: BISCOITO DA SORTE

20/10/2007 Por Alexandre D’Assumpção.

 

Capítulo três – I Doser.

Aline nunca foi uma mulher corajosa.   Foi o medo de se rebelar – de verdade - contra sua família que lhe rendeu a fama de nerd sem graça.  Que menina seria interessante vestindo as roupas velhas da mãe.  Principalmente da sua, tantos números maior que nem cinto segura. Seria um belo começo de moda se a calcinha mostrada não fosse presa com pregador. Muitas vezes ela se perguntou se dali sairia borboleta, mariposa ou só uma lagarta mais feia.

Humor num cenário completamente Poe. E o calor em suas pernas denuncia outro clichê de comédia.

Ela nunca teve coragem de entrar no terreno... Lendas urbanas demais e mistérios não resolvidos.  Sons e imagens assustadoras demais por centímetro cúbico, ainda assim ela está decidida a atravessar seu pior pesadelo para conquistar o sonho. Na tentativa de ridicularizar o momento, ela começou a cantar “O Vira”.

O GATO PRETO CRUZOU A ESTRADA

PASSOU POR DEBAIXO DA ESCADA

E LÁ NO FUNDO AZUL

NA NOITE DA FLORESTA

A LUA ILUMINOU A DANÇA, A RODA, A FESTA

 

VIRA, VIRA, VIRA

VIRA, VIRA HOMEM,

VIRA, VIRA,

VIRA, VIRA, LOBISOMEM

 

BAILAM CORUJAS E PIRILAMPOS

ENTRE OS SACIS E AS FADAS

E LÁ NO FUNDO AZUL

NA NOITE DA FLORESTA

A LUA ILUMINOU A DANÇA, A RODA, A FESTA

 

Num momento bobo, ela imaginou pirilampos pelados pregando peças em prostitutas pudendas. A frase: ”Fogo no Rabo”. Nunca pareceu tão divertida.  Sua “fralda” vai ter de ser trocada, mas dessa vez será por causa da crise de riso.  As longas ladainhas da mãe sobre o que meninas devem fazer começaram a fazer sentido.

Imagens aparecem e desaparecem e ela não tem coragem de perguntar se eram manifestações do seu medo ou parentes mortos de alguém fazendo seu pérfido trottoir noturno. Ela olha para os fantasmas e se indaga quando será convidada para ser um dos garçons desta festa em que colabora como palhaça.

No momento que atravessa a velha mansão que hoje serve como hospital psiquiátrico do governo, ouve um estranho ruído em estéreo. A tonteira automática quase faz dela uma vítima. Um imenso corvo voa em sua direção e quase arranca seu olho esquerdo. Apesar de evitar um dano maior, vai deixar marcas. Marcas internas e externas.

Desorientada, Aline tomba e vê o mundo girar ao seu redor. Tomada por um coquetel de sensações ela luta contra seu corpo enquanto as trevas ganham forma.  Entre as lápides, um imenso gato preto a encara. Nas sombras, mistério encara o pavor.

Paralisada e sem ação, a morena dentuça vê o estranho animal se aproximar dela tentando – pela primeira vez em sua vida – não temer um felino. Por um longo momento, mulher e gato se encararam e o tempo parou.

 Quando o relógio voltou a correr, o estranho gato ronronava e acariciava carinhosamente seu rosto pós desmaio.  Suas mãos tremiam, lágrimas Escorriam. A moral de uma participante do PETA estava ferida, mas a vontade de uma sobrevivente fez a diferença. Respirou fundo e só abriu os olhos quando ouviu o maldito som seco: “Crack”.

Sangue escorria em suas mãos, cada uma segurando parte do cadáver ainda quente. A expressão serena do animal matou sua consciência. Ele morreu esperando novos carinhos.  Vitima e algoz foram destruídos pelo mesmo motivo: Confiança. 

A morena fechou os olhos e por um momento parou de sentir o cadáver em suas mãos. Quando abriu, o gato não estava mais lá e o grande negro a encarava sarcástico.

“Não adianta procurar.”

“O que houve com o gato?“

“Você passou no teste.”

“Mas...”

“Você passou no teste!”

“Hum, certo...”

O negro entrega um “farnel” e um envelope em suas mãos antes de desaparecer. Exausta, Aline recostou numa pedra e ficou ali até o sol raiar. Desistiu dos dois negros. Seus nervos estavam em frangalhos.

Continua...

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