•  ASSALTO NA 15.                                                                                       

10/09/2007 por Kaio Ribeiro.

 

 

Um assassinato. Uma assassinato. Foi o que disseram sobre o corpo estendido na calçada. Caíra do oitavo andar. Estilhaços de vidro e ferro decoravam o corpo lavado de sangue. A nuca arrebentada no chão, tornou vermelho os seus cabelos, que ainda sustentavam nas pontas, o amarelo brilhante, de outrora. Ainda olhava fixa pra janela de onde caíra, como se tivesse deixado algo lá, como se tivesse esperança de voltar àquele apartamento.

Os curiosos, famílias inteiras, debruçavam-se sobre o fim daquela moça. Ainda não haviam bombeiros ou polícia mas, uma pequena multidão abarcava o desfecho da menina. Murmuravam. Especulavam. “Era amante?” “foi traída?” “suicidou-se” “não, assassinato, disseram, assassinato.” “nossa.” “terrível.” E uma onda de pragas - como um enxame de abelhas, mas não de abelhas, de bocas, bocas cheias de dente, lotadas de língua – profanavam o silêncio santo do coração daquela mulher. A pobre, singela, impotente na brancura de sua pele. Alva, tão bela que banhava-se apenas à luz da lua. Contornada quase por inteira por um véu vermelho de morte. Exposta sobre o mosaico da calçada, à meia luz de mercúrio. Cintilante, uma dobradura laminada de ouro. Um altar na calçada. Uma santa. Nua.

“Foi injusto! Foi injusto! Foi injusto, meu amor!” – da janela quebrada do edifício, um homem chora aos berros desesperadamente, apoiado em forma de cruz – “Multidão nenhuma estava entre nós! Você é minha! Só minha!”

“A tua carne ainda cheira no meu corpo!” – deu o último grito, como um suspiro.

 

Nada mais que isso. O meu papel já estava cumprido. Um jornalista de quinta, num jornal de sexta, tudo bem. Mas não seria capaz de tanta covardia. Fazer palco da tragédia, da infelicidade, do ódio, do desprezo...Querida Ruthi, já não via seu encanto há muito tempo. Desde aqueles poucos dias...a felicidade pouca que tivemos na paixão e nos jogos, na tua cama e nos meus caprichos pra você. Que liberdade não curtimos, estar só acompanhado, apaixonados mas livres. Dez ou doze anos não me fizeram te esquecer. Doze anos, e você aqui, assim. Se eu tivesse ligado, ou não sei, ficado, talvez...

O telefone toca: “Pereira, assalto na 15, assalto na 15, cobre lá!”

 

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O Autor

Kaio Ribeiro resumidamente gosta de escrever. Cursa Letras/francês na UEM/Maringá, mas também não sabe até quando. Colabora em uma funzine que está sempre mudando de nome, mas que também não diz bobagens. Publica no jornal do DCE/UEM de vez em quando, e já colaborou com o site www.nomeiodocaminho.com.br. Escreve. Mora no interior do Paraná, onde acorda, dorme, cansa, come, anda, bebe, apanha, cansa, como todo mundo, mas do seu jeito. Escreve.

                                             

Contatoszipoalenha@hotmail.com

 

Biografia enviada pelo autor.