♫ Adios ya me voy

Camino de las trincheras,

Hacia el carnaval

Que es adonde muerem las tristezas.♪

 

08/10/2007 Por Kaio Ribeiro.

  

Ouvia assim sempre a menina branquíssima cantando, descendo a rua. Ouvia paciente da janela do edifício, atencioso esperando cada nota, cada passo com uma ternura que achava: “Que desespero essa minha paciência, esse amor...ah, argentina!”

Quase que com um vigor taurino desvendava seu próprio sexo dia após dia, quando passava a argentina. Já havia decorado à hora, entre umas cinco e meia e seis da tarde.    É quando ia pra biblioteca da faculdade.

A menina estudava a noite. Era pequena mas, encorpada. Pele branca branca. Cabelos muito negros.

E assim, passava como ela mesma, toda toda, de ares pro mundo.

 

Carlos nada mais era do que faculdade. Lia lia e bebia um pouco. Quase nunca saía. Admirava a argentina até aparentemente sem esforço, pois sempre estava em casa mesmo, na hora em que ela passava. Admitia sempre aos amigos os versos que escrevia para a menina admirada. Não sabia nome, mas orgulhava-se de prever todos os seus passos no curto espaço em que a via: cruzando uma esquina em L, uns cinqüenta passos não mais. Dizia: “é o tempo que basta. Já a vi arrumando o cabelo, tirando a calcinha do rego e até sorrindo pro chão, pro chão...ah linda. Pequena, mas que fogo, que fogo!” E o fogo tomou conta de acender.

“Porra Carlitos, reage! Vai “dexa” passa?”

“Se fosse eu com essa admiração toda já tinha engatado.”

 

Que horror para o Carlitos ouvir isso da sua situação. “Ah, eles não sabem, não sabem o quanto lhe admiro...”

 

Bilhete:

               Se tu soubesses o quanto lhe adoro menina... Te acho no fogo do meu peito, sem dormir e sem descansar. A chama acesa...e tu tens o segredo disso.

Edifício Barigui, ap 63.

Carlos.

 

As horas encurtavam-se no bar. Carlos passava (e realmente agora) muito tempo em sua casa. A argentina começara ir também à tarde para a biblioteca. E pela manhã soubera dum estágio que conseguira. Carlitos então passava o dia debruçado na janela esperando sua ardência latina. 

 

“Pô Carlitos, ce ta vivendo pra essa menina! Num tá te fazendo bem. Olha só, quando foi a última vez que saiu com a gente? Apareceu no bar?  “Cê” anda fazendo vigília aí pra  essa argentinazinha e vem me dizer que mandou um bilhete pra ela, por uma amiga sua que é amiga dela, anotado seu endereço? Ce tá loco?”

Mas que indignação eram as sobrancelhas de Carlitos: “pois você não entende...NÃO ENTENDE!”

O melhor amigo de Carlitos não suportou sua ira, saiu indignado do apartamento. Apertou os passos pela escada mesmo. Carlitos jogou a cadeira no chão. Na esquina o amigo parou, virou-se e mostrou o dedo do meio. Carlitos retribuiu.

Mas andava mesmo ali atolado naquela paixão, naquela platonice. Andava alagado de suspiros. Fogos e explosões, centelhas no seu espaço. Perturbava-se na janela. “que farei, que farei?”, mastigava pelos cantos da casa. Temia demais a ausência de resposta daquele bilhete, este que sentia ser a curta punhalada que recebera da majestosa visão daquela menina, cantando, sorrindo, passando leve, pequena em flores e azes, cartas do desejo. Tornara-se um inferno sua vida naquele lugar. “Que farei, que farei?”

Carlitos, no pequeno espaço entre a parede e a cama, e de joelhos: “que queimação, que fogo, que ardência no meu peito! Ai meu Deus que há nesse corpo que paralisa, que se detém? Estou queimando uma pedra de gelo no meu coração, dançando passos nervosos entre umas pobres lacunas...Se ante um bordel ou um cemitério bonito, mas não...entre minha solidão...minha solidão.”

 

Mais do Autor

:: Janela Iluminada.

:: Assalto na 15.