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Então você quer fazer quadrinhos?

08/07/2007 Por Sergio Chaves

 

Legal. Mas não é lendo apenas meia dúzia de livros, uma pilha de “Cavaleiros do Zodíaco”, “Batman” ou “X-Men”, pegar papel, lápis e dar vida à tua imaginação. Somente isso não basta.

O processo é longo, e requer sempre bom senso, autocrítica e persistência. Aliás, muita persistência. Publicar quadrinhos por aqui não é uma tarefa fácil.

 

Qual a maior dificuldade para se publicar quadrinhos no Brasil?

A pergunta parece simples, mas sua resposta não é nem um pouco. Não há um fator determinante, nenhum “culpado” propriamente dito.

Quem já se deu ao trabalho de publicar ou ao menos ir em busca de publicar algum trabalho (seja fanzine ou revista), já se deparou com algumas respostas para essa reflexão.

“Não há espaço para o quadrinho nacional”, “a maioria apenas se interessa em materiais estrangeiros”, “não consigo expor o meu trabalho”, “ninguém se interessa em publicar minhas personagens”... As reclamações são muitas. Infindáveis. E quem quiser, conseguirá encontrar muitas outras facilmente. Seja os quadrinhos serem tratados como infantilismo, com desdém, preconceitos e, inclusive, desinteresse. Ora, pois, nosso país vem enfrentando um empobrecimento da educação cada vez maior a cada ano.

Entretanto, há alguns que continuam batendo sempre nessas mesmas teclas, nessas mesmas reclamações, e permanecem de braços cruzados e olhos tapados para mudanças – de costumes e de consciência. Continuar reclamando.... pra quê? Pare e reveja. Quem se deu bem se lamentando de tudo?

 

Tenho recebido muitos materiais recentemente como colaboração para os fanzines que edito de HQs. Muitos me enviam materiais solicitando comentários, críticas, conselhos (não que eu me sinta capaz de corrigi-los sempre, pois tenho noção que tenho muito o quê amadurecer como quadrinhista). Vejo que a maioria desses, no caso, apenas olha para o próprio umbigo e nem sequer procura buscar influências dos grandes nomes da arte seqüencial. Will Eisner, Flávio Colin, Scott McCloud, Claudio Seto, Júlio Shimamoto, e muitos outros grandes nomes da arte seqüencial são desconhecidos para esse pessoal. A maioria procura fazer desenhos calcados em mangás ou comics, disformes, não respeitando a anatomia do corpo humano. Lá não existe perspectiva, ambientação, cenários, expressões faciais, nada.

Não quero focar em gêneros, propriamente ditos. Se a pessoa quiser criar seus super-heróis, mangás, cowboys, o que for, tudo bem. Vai do bom senso e desejo de cada um. Mas sejam coerentes.

Nossos leitores são grandes consumidores do gênero “super-heróis”, por exemplo. Marvel, DC, Image, etc, todos lotam as bancas, a internet, estão sempre por aqui. Acredito que nenhum leitor irá querer trocar o “Superman” (outrora chamado de Super-Homem – o que para mim não faz nenhuma diferença, na verdade) pelo, sei lá, “Hiperman”, só porque o último seria brasileiro. Ninguém gosta de ler cópias.

Seja original, criativo, ousado, crie um diferencial em seu trabalho. Mas nada de patriotismo, ufanismos ou xenofobias. Nada de descer o pau no mercado de quadrinhos americanos, japonês, holandês ou iraquiano. Vamos focar no nosso mundo, na nossa realidade. Eu mesmo não gostaria de ninguém comprasse meus quadrinhos apenas por ser material nacional. Isso não basta. Tem que comprar pra conhecer, comprar por se interessar pelo trabalho em si.

Já o gênero Mangá é muito mais do que apenas desenhos, com suas personagens com “olhos grandes”. O gênero envolve arte e narrativa/roteiro com características próprias. Se você não dominar a união de ambas, seu “mangá” não se encaixará nas propostas do gênero. Vejo muitos jovens leitores de mangás que querem se iniciar na produção de HQS e afins, e sempre cometem esse deslize. No início, tudo bem, mas se ele não amadurecer seus ideais e também seu trabalho, logo desistirá e se juntará ao coro das lamentações. Realmente, é muito fácil desistir de um objetivo do que enfrentá-lo/superá-lo, mas isso não quer dizer que é o melhor caminho.

Questione o que você quer passar com a tua história. Pense, reflita, refaça. Nem sempre nossa primeira idéia é perfeita. E geralmente é importante desconstruir uma idéia para construí-la melhor, tudo em busca de um melhor resultado.

Busque informações adicionais à tua história, à tua arte. Independente se tua história se passar em outra realidade, época ou em outro mundo. Referências, influências de outras artes, como teatro, cinema, música, o que mais lhe inspirar. E leia bastante. Leia e releia bastante quadrinhos, livros, jornais. Através a leitura um novo mundo se abre, as barreiras que limitam nossas mentes se caem, ampliando cada vez mais nossos horizontes.

            Para resumir melhor, repasso aqui as palavras do saudoso mestre Flávio Colin: “Como todos sabem, desenhar HQS é arte muito mais complexa do que geralmente se pensa. Além de exigir qualidade e técnica de desenho, exige boa dose de cultura geral, noções de fotografia, cenografia, moda, animais, etc. É necessário dispor de um bom arquivo e constante atualização. Mas, acima de tudo, o desenhista deve possuir “espírito quadrinista”. Não basta ser talentoso. É um “vírus” de nascença. Quadrinho é a “Nona Arte”. É uma paixão irreversível. Mas uma boa HQ depende muito de um bom roteiro”.

 

Pois, mão à obra.

 

 

INDICAÇÕES DE LEITURAS

 

                      ·         QUADRINHOS E ARTE-SEQÜENCIAL

Escrito pelo grande mestre dos quadrinhos, Will Eisner, criador de SPIRIT e diversas pérolas da arte seqüencial. Eisner conta neste livro, passo a passo, o método de criação de suas histórias, tornando-no um manual indispensável para desenhistas que desejam dominar as técnicas da HQ.

 

  ·        DESVENDANDO OS QUADRINHOS        

Escrito por Scott McCloud em 1993, este é um dos melhores livros do gênero, onde derrubou quaisquer preconceitos relacionados aos quadrinhos e afins. McCloud utiliza a metalinguagem para mostrar ao leitor os conceitos mais importantes dessa forma literária, com um toque original, bem-humorado e descontraído. Em capítulos claros e muito bem estruturados, o autor conduz pelos diversos elementos do gênero: tais como balões, enquadramento, elementos em comum com o cinema, ritmo, e muitos outros. Marco da análise intelectual dos quadrinhos, sem ser maçante.

        ·         REINVENTANDO OS QUADRINHOS       

Agora McCloud leva os quadrinhos ao patamar seguinte, detectando doze revoluções diferentes no modo como eles são criados, lidos e percebidos atualmente, e mostrando que estão prontos para conquistar o novo milênio, utilizando os meios virtuais.

·         GUIA DO ILUSTRADOR     

Ótima dica para todos os profissionais, sejam desenhistas de gaveta, ilustradores, quadrinistas, etc. O ilustrador Ricardo Antunes e mais uma excelente equipe escreveram um manual com dicas e sugestões para todos os ilustradores. Iniciativa bem-vinda em um mercado recheada de problemas de negociações e dúvidas na hora de estabelecer preços. Totalmente aplicável aos profissionais na área de história em quadrinhos. O manual está disponível para download no site http://www.guiadoilustrador.com.br/

 

SITES: Quadrinhos online, edições impressas, entretenimento e muitas informações sobre a arte-seqüencial. Excelentes sites, referenciais. Confiram:

·         EDITORA NONA ARTE – Editor: André Diniz. Site oficial: http://www.nonaarte.com.br

·         MARCA DE FANTASIA – Editor: Henrique Magalhães. Site oficial: www.marcadefantasia.com.br Rua Antônio Lira, 970/303 – João Pessoa/PB – 58045-030 – contato@marcadefantasia.com.br

·         SM EDITORA – Editor: José Salles. Caixa Postal 95 – CEP 17201-970 – Jaú-SP ou pelo e-mail smeditora@yahoo.com.br

·         LOSER GRAPHICS – A/C: Leonardo Pascoal. Site oficial: http://www.losergraphics.com/

 

 

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