O QUE É PRECISO PARA CRIAR UMA HISTÓRIA EM

QUADRINHOS DE SUCESSO?


 

O QUE É PRECISO PARA CRIAR UMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS DE SUCESSO?

10/02/2007 Por Vagner Francisco

 

   O tema é interessante e pertinente a todo (a) quadrinhista que sonha em vencer no universo dos quadrinhos nacionais. E é claro que eu também não tenho a fórmula – porque se a tivesse, bom, eu estaria fazendo muito sucesso, hehe – mas podemos conversar a respeito, levantar questões, exemplos de sucesso e fracasso, enfim, aprender com os erros alheios.

 

   O primeiro passo para se criar uma boa saga é ter-se um roteiro bom. Personagens diferentes entre si, diálogos bem construídos, uma trama sedutora e um excelente começo para já ‘pegar’ o (a) leitor (a). Muitas histórias começam já mostrando tudo e outras não mostrando nada. Um exemplo da primeira é Poder Supremo – série escrita por J. Michael Strakzinski e atualmente publicada na revista Marvel MAX, da Panini – que já na estréia nos mostra tudo o que precisamos saber sobre seu protagonista, Hipérion.

Depois de já ter fisgado o leitor, Strakzinski adotou a fórmula do conta-gotas, entregando fiapos de roteiros bem amarrados, mas que nos fazem ler mês a mês para ver o que vai acontecer. Sem nunca mostrar muito. Só o suficiente. Ou seja: ela tem material para anos e anos, se quiser.

   Um exemplo da segunda é “O Diabo da Guarda”, mini-série do Demolidor, escrita por Kevin Smith. Smith começa bem devagar com sua narrativa e quase faz o (a) leitor (a) pensar que a saga será bem chata. Mas, a cada edição ele vai adicionando ritmo à trama e no final, temos a certeza de que lemos uma puta história!

 

   Após obter um bom ou excelente roteiro, o ideal é conseguir um desenhista à altura. Exemplos não nos faltam no Brasil, somos exportadores de excelentes desenhistas. Às vezes, por questões financeiras, pode ser impossível contratar aquele desenhista de ponta que tanto nos tem tirado o sono, mas dá para encontrar outro à altura e às vezes, um pouco mais barato. Exemplos de sucesso nesse sentido são incalculáveis. Vou citar apenas um: Matrix. O primeiro filme da trilogia do Neo passou pelas mãos de vários protagonistas. Os criadores da trama, os irmãos Wachowski, sonhavam em ver Brad Pitt no papel do salvador da humanidade. Porém, este recusou e o personagem fora então oferecido a Leonardo DiCaprio e Will Smith antes de cair nas mãos de Keanu Reeves, que só aceitou por ver uma influência dos quadrinhos de Frank Miller na trama. E Matrix não foi um sucesso? Claro que foi! Virou quase religião para muitos.

 

   No terceiro passo, provavelmente a coisa pode começar a se complicar. Por quê? Simples: Se você conseguiu convencer um desenhista a ilustrar sua HQ na base da camaradagem ou pelo valor final nas vendas, ótimo! Mas se teve que arcar com os custos do artista, aí sua grana pode ficar curta na hora de produzir a saga. O que fazer? O ideal seria enviar todo o material para uma editora interessada em publicar quadrinhos e ver o que acontece. O que seria demais! Mas e se nenhuma editora se interessar pela trama? Aí o negócio é arregaçar as mangas e fazer você mesmo. Vou contar uma pequena história, mas muito interessante. Uma vez, estava eu e um amigo também quadrinhista num bate-papo com um então dono de Editora.

 

Eu o indaguei perguntando se ele estaria interessado em publicar quadrinhos nacionais, sem nem oferecer nada, apenas formulei a pergunta. A resposta foi categórica: “Você tem um material bom? Faça como os gêmeos (Fábio Moon e Gabriel Ba – que na época estavam publicando revistas independentes, como “Feliz Aniversário Meu Amigo” e “Rock & Roll”); há várias maneiras de se publicar por conta própria hoje em dia. E são todas bem baratas. Não espere pelo Editor, o Editor está pensando noutra coisa (traduzindo: o Editor está pensando em quadrinhos estrangeiros e não nos nacionais).” Meu amigo ao lado desanimou dos Editores. Mas eu não! Porque aquele era apenas um dos editores. E não todos. E hoje, nem editor mais ele o é. Ou seja: O tempo encarregou-se de mostrar-lhe que ele estava no caminho errado.

   O que você pode também fazer é conseguir verbas nas Secretarias de Cultura de sua cidade, estado ou cotas de Patrocínio em estatais ou empresas de grande porte que contam com programas de apoio à cultura. O lado bom disso é que caso você consiga a verba, sua publicação já sai paga e você não mais precisa se preocupar com dinheiro. Porém, isso pode ser uma faca de dois gumes. Afinal, se todo o material já sai pago, que diferença faz se a tiragem toda for vendida ou ‘apenas’ 75% dela? 75% de 1000 exemplares são 750 exemplares! Uma marca respeitável.

  

Mas e se cada centavo investido ali saiu do seu bolso? Aí, sim, quanto mais vender, mais fácil virá seu retorno.

   Isso o que estou dizendo é o que o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, está tentando fazer no cinema nacional. Porque com cotas de patrocínio, os filmes já saíam pagos e seus realizadores podiam fazer o que bem entendiam não se preocupando com prováveis prejuízos. Gil quer fazer com que diretores, realizadores e produtores transformem o circuito em mercado comercial e sólido, e pra isso está criando programas de empréstimo a juros mínimos no BNDS para que quem investir no cinema de nosso país, o faça de olho no retorno, como faz Hollywood – cuja soma para saber se um filme dá lucro é simples: Tem que render 3 vezes o valor do investimento.

   O cinema nacional já faz isso. Dois exemplos de lucro e prejuízo são os filmes 2 Filhos de Francisco e Gaijin 2. Ambos foram lançados quase no mesmo ano, mas um teve orçamento na iniciativa privada e outro com a ajuda do Governo. 2 Filhos de Francisco, é claro, contou com o endosso dos sertanejos Zezé DiCamargo e Luciano e não teve problemas para sair do papel. Resultado: Imenso sucesso de público e crítica e candidato a candidato a representar o Brasil no Oscar.

 

Gaijin 2 levou quase 5 anos para ser realizado devido a pausas quando a verba governamental acabava, e seu resultado foi um fracasso retumbante.

   O Ministro Gil quer que os produtores mirem sempre no primeiro exemplo, e acredito que ele esteja certo.

  

   Um outro fato interessante aconteceu com uma mulher que pensou ter encontrado o pote de ouro no fim do arco-íris, quando decidiu lançar um livro recheado de histórias de ‘cornos’. Como sempre há piadas de infidelidade no país, ela acreditou que venderia sua tiragem mais rápido que pão quente de manhã. Resultado: A coisa não foi bem assim e ela amargou uma imensa dívida com o proprietário de uma gráfica e viu-se obrigada a se expor ao ridículo de narrar sua história num programa de cadeia nacional e realizar uma ‘gincana’ para conseguir saldar a dívida. Por quê? Simples: Falta de conhecimento de mercado. Ela pessoalmente ia às livrarias e tentava vender os livros, mostrando as melhores partes para os leitores e nem assim funcionou.

   Esse seria o quarto passo: Conhecer o público-alvo. Sua história é aventura medieval? Um conto para adultos? Saga super-heroística? Trama urbana? Revolução ultra punk? Há público para todos esses gêneros e você deve conhecer esse público antes de lançar sua saga.

 

   O quinto passo é a malfadada distribuição. Uma grande distribuidora aceita distribuir em escala nacional mediante um número mínimo de exemplares. Por isso a tiragem deve ser grande. Ou então partir para o HQ Club que distribui apenas nas livrarias especializadas. É uma excelente opção para obras mais intimistas e com tiragem menor.

 

   O sexto passo é não menos difícil: Esperar para ver o que acontece. Se o resultado for satisfatório, ótimo. Você está no mapa dos grandes artistas dos quadrinhos. Mas se for um fiasco, bom, aí é preciso criar algo novo e tentar novamente. Lembre-se: Blade Runner foi um imenso fracasso de bilheteria em sua estréia nos cinemas, mas depois virou obra cult.

 

Vagner Francisco é Roteirista, publica suas Hqs regularmente no Prozine Areia Hostil, escreve artigos para o Fanzine Justiça Eterna e é editor do Fanzine VAL, personagem de sua autoria. È um dos nossos Colonistas e colaborador.