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2007, O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS?

18/02/2007 Por Vagner Francisco

 

   Muito se tem dito sobre 2007 ser o ano do quadrinho nacional. Alguns estão de acordo, outros contra. Mas o que de fato pode ser feito? Transformar 2007, num ano símbolo, e fazer dele uma constante? Engajarmos nessa luta para ver a nossa nona arte sobressair-se nesse mercado desfavorável? Protestar contra a (agora) única grande editora do país e deixar de comprar suas revistas?

 

   A bem da verdade, o quadrinho como um todo está passando por uma crise que parece não ter fim. No mundo todo!

   Nos últimos 10 anos, aqui no Brasil, vimos uma invasão de quadrinhos novos e diferentes nos seduzir: Abril e Globo vieram com Image; Mythos com Dark Horse; Conrad e JBC, com mangás e assim por diante. E onde estão a Abril, Globo e Mythos hoje? Conrad e JBC ainda conseguem se equilibrar melhor.

 

   A própria Marvel, que é a maior editora no momento, principalmente pelo sucesso de alguns de seus filmes (Demolidor, Hulk, Justiceiro e Elektra foram fracassos retumbantes), na década passada abriu falência e só está no topo hoje porque foi comprada pela empresa de brinquedos, Toy Biz. No cinema mesmo, hoje a Marvel só está se arriscando, porque hipotecou seus principais personagens (que ainda não têm vínculo com nenhum estúdio, como Capitão América, Thor, Dr. Estranho) com a Paramount em troca de empréstimo para que a própria editora tivesse a palavra final na produção de longas-metragens de seus personagens. Ou seja, caso todos os projetos naufraguem, o pagamento será em forma de personagens. X-Men 4, por exemplo, está longe de receber um sinal verde, isso contando com uma impressionante bilheteria em todo o mundo de sua última aventura.

   A DC, por sua vez, levou 10 anos para produzir um filme do Super-Homem e o mais recente vôo do Homem de Aço só aconteceu quando os executivos da Warner (dona da DC) perceberam o quanto o filme do Homem-Aranha rendeu. E pra não arriscar muito, correu atrás do diretor de X-Men e X², Bryan Singer. Muitos não gostaram de ver Keanu Reeves encarnando o irlandês John Constantine no cinema. Mas saibam que ou era Reeves, ou o filme não saía. A produtora Laura Shulen-Donner (também produtora da série dos mutantes da Marvel) queria o ruivo Paul Bettani – que por sinal ficaria perfeito no papel – mas os executivos da Warner queriam ver o Neo como o Hellblazer. E teve de ser!

 

   O que eu quero dizer: se nos EUA, grandes executivos pensam zilhões de vezes antes de por a mão no bolso para produzir materiais de personagens consagrados, por que aqui no Brasil os editores iriam encarar todo e qualquer material quadrinhístico a torto e a direito? Impossível! Temos de nos conscientizar que editor não está interessado em quadrinho nacional porque o próprio quadrinho não se respeita. A hora que chegar um artista com uma puta história, tenho certeza de que esses caras irão publicar. Enquanto isso, é claro, é muito mais fácil publicar quadrinho estrangeiro porque já está pronto e sai mais barato.

 

   Há algum tempo, numa lista de discussão, alguém que se sentia injustiçado, dizia que apenas Marcelo Cassaro tinha vez no Brasil. Então, eis que veio a resposta: “o Marcelo Cassaro é o único que publica no Brasil porque ele também é o único que entrega uma proposta às editoras.” Estava explicado. Ainda deve estar no ar, no UniversoHQ, a entrevista com os donos da Pixel Media, onde eles dizem com todas as letras que propostas de quadrinho nacional são poucas a chegar em suas mãos.

 

   A verdade é que o artista nacional cansou de ouvir que os editores não lhes dão atenção e não estão nem aí para o quadrinho brasileiro e por isso resolveram partir pro “faça você mesmo”. E ele tem razão em fazer isso.

   O quadrinho brasileiro precisa de apoio nacional; precisa de apoio governamental; mas como seria esse apoio? Em forma de cotas para que cada editora se visse obrigada a publicar uma porcentagem de quadrinho nacional em relação ao estrangeiro que produz? Se sim, a Panini já resolveu seus problemas, publicando Turma da Mônica.

   Acho que o ideal seria fazer com que grandes empresas apóiem o quadrinho, revertendo esse em abatimento na declaração de impostos. Também que o editor pudesse fazer empréstimos a juros mínimos no BNDS, assim como o Ministro da Cultura quer implantar no cinema. Precisamos nos livrar dessa dependência do governo e do editor que não está interessado no quadrinho nacional e pensar no que está.

   Imagine, você leitor (a), se a Marca de Fantasia, editora do competentíssimo Henrique Magalhães, pudesse injetar uma grana em suas publicações e jogá-las nas bancas, com distribuição nacional e tudo? Ou mesmo a SM Editora, de José Salles e Edu Manzano? O pessoal da Brado Retumbante poder lançar revistas irmãs da Brado com outros personagens e periodicidade mais próxima? Ou juntar a Areia Hostil, o Manicomics, Zine Brasil e Justiça Eterna numa pequena editora e, como uma Image brasileira, cada artista lançar seu próprio quadrinho num selo? É um sonho que poderia se tornar realidade.

   Talvez criando um Sindicato de Artistas de Quadrinhos a coisa pudesse melhorar. Talvez uma organização da classe se fizesse necessária, pois sabemos que nesse meio, embora não renda sequer um centavo, egos inflados existem.

   Ficar reclamando não resolverá os problemas. Queixar-se que não se está vendendo também não adianta. O mercado está consumindo. Pode ser que não se vende horrores, mas está caminhando. 

 

   O que precisamos, então, para transformar 2007 no ano do quadrinho nacional? Acreditar nele! Acreditar no quadrinho nacional! Acreditar que há excelentes roteiristas por aí. Desenhistas nem é preciso dizer por que exportamos mão de obra especializada como ninguém! Acredito piamente que apenas uma união de forças conseguirá nos tirar de marasmo. Um sindicato, uma Editora Independente, ou algo do gênero. Uma King Features Sindicate brasileira, talvez, sei lá.

Só depende de nós mesmos. Vamos nessa!

  

Vagner Francisco é Roteirista, publica suas Hqs regularmente no Prozine Areia Hostil, escreve artigos para o Fanzine Justiça Eterna e é editor do Fanzine VAL, personagem de sua autoria. È um dos nossos Colonistas e colaborador.