ENTÃO VOCÊ DESEJA SER UM CYBERPUNK?!

15/10/2007 Por Vagner Francisco

 

Em 2001, nas páginas de estréia do prozine Areia Hostil, surgia o que se pode chamar de ‘criação máxima’ de Law Tissot, artista multimídia de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Multimídia sim, porque além de roteirista e desenhista de HQs de mão cheia, Law é também vocalista de uma banda punk e agora, diretor de cinema. E sua mais recente obra se chama CIDADE DA DEUSA – ou Cidade Cyber 3, como nos é mais conhecida sua obra de vida.

 

Anteriormente, Cidade Cyber ganhou duas versões em carne e osso. “Os dois primeiros vídeos da Cidade Cyber foram feitos como uma experiência de universidade. Na época eu cursava a disciplina de Cinema & Vídeo (Curso de Artes Visuais - Fundação Universidade Federal do Rio Grande) e surgiu a idéia de fazermos curtas-metragens como pretexto de estudar as linguagens de cinema e vídeo na prática. De uma hora pra outra eu construí com meu colega, Cláudio Azevedo (fotógrafo), a possibilidade de fazer uma versão live action da Cidade Cyber”, lembra Law acerca de como a experiência cinematográfica de Cidade Cyber começou.

 

Cidade Cyber, a primeira incursão em carne-e-osso, estreou em 2004. Law, além de roteirizar e dirigir também estrelou a produção, interpretando seu “herói” na trama, Anti-Címex. Uma curiosidade: Lorde Lobo, melhor amigo de Law e também seu sócio à frente do Estúdio Areia Hostil, numa participação mais que especial, viveu o “vilão” da trama. Em 2005, eis que surge Cidade Cyber 2, dando prosseguimento às aventuras existencialistas e frenéticas de Anti-Címex e cia.

 

Porém, a terceira incursão da guerra cyberpunk não é exatamente uma seqüência. Cidade da Deusa é, na verdade – Law vai me odiar por escrever isso – uma espécie de “Cidade Cyber Begins”, releitura de toda a obra do artista, sem ligações com os filmes anteriores ou com as HQs, publicadas ao longo dos últimos quase 10 anos em Areia Hostil.

 

“(...)... longe deste terceiro, os dois primeiros (filmes) tiveram apenas uma função de estudos. São produtos irregulares em certa medida, mas muito estimulantes em outra. Poder ver meus personagens sendo interpretados em carne e osso, com trilha sonora e perseguições é ótimo” comenta o criador da saga sobre as duas primeiras experiências com Cidade Cyber. E sobre Cidade da Deusa, o que ele disse? “A trama remete aos primórdios da Cidade Cyber (dos quadrinhos), quem lê ou não lê os quadrinhos não terá (assim desejamos) o menor problema em apreciar o filme. Seja como for ele é só mais um passo para um longa metragem com recursos decentes e equipamento totalmente profissional. Mas quero deixar registrado que usamos câmeras profissionais Sony (3CCD) e Adobe Premiere para edição final. O resultado é perturbador! A trilha sonora é fundamentalmente rock gótico inglês dos anos 80...” conclui, entusiasmado. Ainda sobre a qualidade gráfica da produção, ele diz: “O filme foi todo fotografado em sépia para dar esse ar de ficção-científica clássica, meio expressionista (como o filme Metrópolis, de Fritz Lang).” O apoio à obra também veio de fora. “Também contamos com o apoio do Exército Brasileiro (6 Grupamentos de Artilharia de Campanha - Rio Grande), que ‘emprestou’ soldados e armas como figurantes para algumas cenas. Um antiquário emprestou os móveis e uma butique gótica contribuiu com o figurino e acessórios.”

 

Mas e Val(*)? Como ele foi parar em Cidade da Deusa?“O Val sempre me pareceu um personagem e tanto.” elogia. “... (...) ele acabou entrando na Cidade Cyber... (...). Nos quadrinhos e agora no vídeo. Quando começamos a produzir esse filme, fui visitar o grupo Cênico do Teatro Municipal do Rio Grande e encontrei o Gustavo (ator) que desde o início me soou como a minha versão gráfica do Val. E foi assim que tive o desejo de ver o Val na pele do Gustavo. E ficou ótimo!”

 

Nos capítulos mais recentes de Cidade Cyber - a HQ - Val tornou-se uma espécie de déspota da Cidade, com o Esquadrão Topman garantindo sua supremacia (**). E no filme? Qual o papel do personagem na trama?“Nesta história apresentaremos a origem do Kill-Sister-Kill, Anti-Cimex e sua célula cyberpunk, e a disputa entre dois irmãos que desejam conquistar o controle da cidade: STELLA (que cultua a DEUSA) e VAL (que cultua o DEUS dos ILLUMINATI / Pirâmide).” Entrega.

 

Cidade da Deusa ainda não está pronto, mas seu idealizador já tem algumas certezas quanto à sua exibição:“Vamos passar o filme na TV daqui, no Teatro (telão e datashow) e distribuir cópias em DVD.” Cidade da Deusa com certeza promete. Se você quiser acompanhar os passos dessa produção que já está em sua reta final, acesse http://setor8.blogspot.com e confira o diário de produção de uma das mais originais criações quadrinhísticas brasileiras.

 

Logo abaixo, Law Tissot, o criador da Cidade da Deusa, bate um papo conosco sobre Cidade Cyber, filmes baseados em HQs, o futuro e muito mais.

 

(*) Val é uma criação do autor deste texto. Suas desventuras podem ser conferidas nas edições 5 a 14 de Areia Hostil e também em seu próprio zine. Caso queira mais detalhes, não se olvide em entrar em contato.

 

(**) esses eventos foram publicados nas edições 12 a 15 de Areia Hostil - premiada revista independente gaúcha - entre 2005 e 2006. Você ainda consegue encontrar essas e outras edições entrando em contato direto com o editor, Lorde Lobo, pelo site do estúdio ou e-mail.

 

 

De onde surgiu a idéia de transformar a série em quadrinhos, Cidade Cyber, em filmes?

Em 2004, durante a disciplina de Cinema & Vídeo (Curso de Artes Visuais / FURG), foi proposto pela Professoradrª Fabiane Pianowski, que realizássemos experiências práticas com as linguagens audiovisuais, planos cinematográficos, movimentos de câmera, edição... Quase toda a turma preferiu seguir o caminho do vídeo-arte e colagens, mas como eu já tinha essa relação com os quadrinhos, me pareceu sedutor fazer um curta, com atores, figurinos...  Além disso, eu vivia um momento de muita paixão pelo Areia Hostil e pelos meus quadrinhos da Cidade Cyber... Desse contexto acabamos realizando o primeiro vídeo com a colaboração de amigos e da administração do condomínio onde moro aqui em Rio Grande.

  

Você espera continuar com novos episódios cinematográficos, ou está satisfeito com uma trilogia?

Ainda entusiasmados durante a disciplina de Cinema & Vídeo, fizemos uma “segunda parte”, mas ambas são válidas apenas como uma experiência de curso, de sala de aula. Claro que tivemos muitas exposições e críticas favoráveis, mas não podemos considerar os primeiros como qualquer outra coisa senão “experimental”. Mas nesse momento, o que fazemos é algo mais ambicioso, com mais equipamentos, atores profissionais e inseridos na grade de programação da TV Universitária da FURG (Fundação Universidade Federal do Rio Grande), onde hoje trabalho como produtor. Não considero esse filme como a terceira parte de uma trilogia, porque os dois anteriores estão muito distantes do que nos propomos agora. Quanto a continuar, vai depender das avaliações que faremos quando o trabalho ficar pronto, e quais os rumos que poderemos tomar quando o material for distribuído em DVD.

  

Matrix (principalmente os episódios Reloaded e Revolutions) "revolucionaram" a forma de se contar uma história quando suplantaram os limites do cinema e criaram subtramas paralelas em curtas animados e vídeo games para narrar completamente sua história. A idéia é que apenas o "grosso" da saga de Neo e cia. fora mostrado nos filmes. É interessante perceber que, com Cidade Cyber, você faz o mesmo, não? Interagindo filmes com quadrinhos.

Matrix desde o princípio se mostrou como uma grande influência para os meus quadrinhos, mas não teria muita expectativa em comparações de qualquer espécie. Até agora, apenas usei alguns personagens e situações dos quadrinhos da Cidade Cyber num produto áudio-visual. Sendo assim, existem muito mais pessoas que assistiram aos vídeos do que leram os quadrinhos. Tem muita gente que nem se importou em descobrir o Areia Hostil...

 

Ao final de Cidade Cyber Vortex: A Vingança da Maria Cyberpunk, publicado em Areia Hostil # 15, Val torna-se o chefão da Cidade Cyber. Cidade Cyber 3, o filme, parte dali?

Não. A história que mostraremos neste filme será literalmente o “ponto zero” da Cidade Cyber. Quando – e por quem – o andróide Kill-Sister-Kill foi criado (sim, isso será mostrado!), com isso, deixo todos à vontade para assistirem ao filme sem terem alguma relação com tudo o que já foi publicado. Mas, para quem leu todas as edições do Areia Hostil de perto, irá se deliciar com as citações e com as “mensagens secretas”...

 

Anti-Címex sempre foi o maior "herói" de Cidade Cyber. Nesse atual momento, Val é o vilão?

Eu nunca pensei meus personagens dentro deste conceito dos super-heróis: esse é o “vilão” e o outro um “herói”. Anti-Cimex e Kill-Sister-Kill, por exemplo, são personagens que vivem situações que os obrigam a tomar decisões que podem ser altruístas ou egoístas, dependendo do freguês. O personagem principal sempre foi a Cidade Cyber, o território... O Val, dentro do universo da Cidade Cyber não se comporta como um vilão, mas como alguém que luta para recuperar um poder que lhe foi roubado. Além disso, ele é um personagem que tem uma enorme fé em seu Deus...

 

Quais são suas influências nos quadrinhos, cinema e música?

As influências são sempre as mesmas: Moebius, Druillet, Giger, Grant Morrison, Alan Moore. O cinema de ficção-científica certamente e música gótica. Mas essa é uma lista que não é fechada. Eu gosto de artistas que tenham o que dizer e que saibam como.

 

E pra terminar, Law, o que os fãs de Cidade Cyber podem esperar para o futuro nos quadrinhos?

Hoje eu tenho mais vontade de escrever do que desenhar. Meu trabalho como produtor de TV me coloca muito próximo do vídeo, o que me tira cada vez mais o tempo e a prática para o desenho. O Areia Hostil está numa fase de hibernação, mas não está morto. No momento temos uma expectativa maior com o Penitente (Lorde Lobo). Projetos gráficos com qualidade de impressão e formato competitivo. Eu amo os fanzines e o underground, mas não posso fazer disso uma profissão. No momento eu busco oferecer qualidade nas minhas produções artísticas, coisa que não me é possível com os quadrinhos. Por enquanto, é claro.

 

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