ARTIGO: Visões de mundo

24/09/2007 por Luís Augusto.

 

            Você conhece a letra do hino nacional.

            E o hino da França, ou dos EUA? Reparou que ambos abordam a guerra como meio de mudança, ao contrário do nosso, que discorre sobre amores? E a que conclusão chegou?

            Acertou em cheio, nossa cultura não envolve guerras, nossas conquistas não foram banhadas em sangue, nossa independência foi comprada - em nossa história não há heróis. Tiradentes? Uma tentativa de trocar uma elite por outra. D. Pedro I? Fez de tudo para unificar as coroas do Império e de Portugal. Getúlio Vargas? Não lanço uma gargalhada para evitar polêmicas. Outro fato - somos (e sempre fomos) dominados, não dominadores. Nossa visão é dos oprimidos, não lutamos pelo sistema, e sim para mudá-lo.

           

            Reflitamos agora o impacto disso nos quadrinhos. A arte seqüencial, como todas as artes, segue alguns parâmetros - e seu principal é o de tentar enxergar o mundo ou parte dele através de um ponto de vista específico, normalmente embasado na cultura de origem do artista (embasado - não limitado).

            Todos lembram o contexto em que os primeiros heróis do quadrinho americano surgiram - guerra fria, nacionalidade exacerbada etc. - não é de surpreender a freqüência dos uniformes azuis e vermelhos (Homem Aranha, Super Homem, Capitão América, Mulher Maravilha) - o gênero teve problemas inicias, mas deu certo.

           

            "Oras, então bastaria trocar as cores dos uniformes para verde e amarelo, problemas e vilões não nos faltam." Bobagem mais do que confirmada. Para reforçar, que tal uma olhada geral na nossa literatura, comparando com a estrangeira? Mais uma vez... Nada de heróis cá, muitos lá.

            Nossos vilões, por exemplo, são na maioria dos casos indefiníveis - quem normalmente responsabilizamos pela situação do Brasil? Governo? Quem é o governo, ou quem do governo merece culpa? Ninguém sabe, (todos já perderam qualquer interesse ou esperança em política - mas isso é outra conversa). Não há cientistas loucos entre nós - o mais próximo de "inventor estranho" foi pai da aviação (Santos Dumont).

           

            Se tivéssemos um herói, ele beberia caninha da roça nas folgas, ouvindo um samba. Teria poderes como "enrolar dívidas" (por necessidade), torceria pra sair do trabalho mais cedo... Em outras palavras, teria um mínimo de identificação com nosso povo. Não que todo brasileiro seja assim, mas quem não fica feliz ao bater o ponto mais cedo na sexta e tomar aquela cerveja?

            Enfim, deixo uma sugestão final - quando for escrever aquele roteiro, guarde todas as revistas num armário bem fechado, desligue a tv, abra a janela e olhe com SEUS olhos, veja SEU mundo... Influências estrangeiras não são nocivas contanto que nosso senso crítico seja mantido - não dá é absorver cultura dos outros sem reflexão e seleção.

 

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Luís Augusto é roteirista de histórias em quadrinhos, criador do personagem César, do Blog Diário de César, junto com o desenhista Rafael Pereira, Luís tem buscado desenvolver aos poucos seus projetos e tem se dedicado a debater o atual mercado nacional, assim como discutir a questão heróis do Brasil, buscando com isso o crescimento na qualidade das histórias em quadrinhos feitas em nosso país. Temos o prazer de receber este artista como mais novo articulista do Zine Brasil.