ARTIGO: Transliteração

08/10/2007 Por Alexandre Assumpção

 

Imitando o Álvaro Garnero.

 “Estas passagens são interessantes, mas ainda não são a nossa matéria.”

 

1>   Rocky Horror Show - Super Heroes

Janet:

“E os Super-Heróis vêm para festejar

Provar a carne quase morta.

E tudo que conheço ... Ainda é a besta.”

 

2>   Transliterar.

do Lat. trans + littera, letra

v. tr.,

reduzir um sistema de escrita a outro, letra por letra.

 

E agora, vamos a nossa matéria:

Transliteração...

Desculpa pros leigos, parabéns aos que amam as desventuras de Brad e Janet e um abração pro fã Clube.  Rock Horror Show é um maravilhoso evento da fase “Glam” que pode ser facilmente perdido na tradução.  Responda rápido: Não acontece o mesmo com os Super-Heróis?

Todas as “versões brasileiras” são releituras de algum conceito, mas até que ponto o conceito se encaixa na nossa realidade?

Quando transliteraram o Rock Horror pra nossa língua e cultura, o monstro travesti ganhou o visual de surfista. Condizia com a mentalidade da época (a segunda versão, nos anos 90) e deixou o Marcelo Novaes quase irreconhecível.  Apesar das adaptações e limitações, foi uma boa peça e até as “Velhinhas da Van” se divertiram. E meu fetiche pela Claudia Ohana fez dela a escolha perfeita pra Janet. (Ela até lembra uma das muitas atrizes que interpretaram a personagem)

Transliteração é a palavra chave da semana e Super-Heróis a nossa linguagem de escolha. Sim, é uma linguagem que só funciona dentro de seus elementos tal qual o Mangá. Por acaso, adaptamos mas não transliteramos.  Seguimos a risca todos os conceitos da fórmula original quando poderíamos traçar paralelos alternativos. Até onde sei, foi justamente isso que fez as “Brit Comics” aterrissarem nos EUA (e nas filiais) a partir dos anos 80.

Dê um jateamento de areia no chassi de quase tudo que lemos por aqui e encontraremos Marvel, DC e Image por trás da pintura. O problema é que tudo isso funciona lá por aproveitar elementos da cultura pop local.  Se o seu material for “tipo exportação” vale a pena, mas se não for...

Dois “não rola” básicos:

Homens de sobretudo e chapéu no Brasil?  Não temos clima nem hábito para nenhum dos dois, mas sempre tem algum “herói” fazendo isso.

VisuArquitetônico” – Não temos cidades completamente góticas e nem completamente “Arcádia”. Estamos no Brasil e mesmo nas cidades grandes os Supers teriam problema. Quer matar o mito? Manda pra uma cidade do interior e vê se ele se vira.

Posso ficar aqui dizendo todos os problemas, mas seria perda de tempo sem a dica básica: Somos brasileiros e apesar de devoradores de hambúrgueres, temos linguagens e hábitos diferentes.  A grande revolução do quadrinho europeu e do Mangá foi justamente essa: Transliteraram o mito do (super) herói pro seu quintal.

Está tudo lá, só que com a linguagem e a cara deles.  Ai vem o brasileiro, acha legal e quer fazer exatamente aquilo ou tenta fazer uma adaptação estética e acha que mudou tudo.  Sim, se você colocar três dentes na Mônica o Mauricio não vai poder te processar, mas continua sendo a Mônica, não é?  Só que “Tunada”.

 Que tal criar algo completamente diferente?  Entender como sua comunidade funciona e onde uma super pessoa poderia se enquadrar, pra começar.  Estamos no Brasil e temos elementos tanto históricos quanto visuais muito interessantes que se aproveitados engrandeceriam qualquer história. E dariam mais credibilidade.

 Alguns criadores têm encontrado um bom caminho e justamente por isso seria divertido ver personagens como o Penitente operando em Diadema. Por mais que ele lembre o Grifter (bandoleiro). 

Também é interessante ver que alguns criadores têm seguido o rumo do humor que sempre funcionou por aqui e permite todas as liberdades possíveis e prováveis.

Transliteração. Esse é o canal.

 

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