ARTIGO: Tecnologia de quadrinhos...

31/10/2007 Por Alexandre D’Assumpção.

No filme: “Barrados No Shopping”, o personagem “Brody” fez um verdadeiro inquérito de perguntas absurdas ao criador “Stan Lee”. Felizmente, algumas de suas dúvidas procediam, o que me lembrou uma história pessoal:

Numa das muitas conversas sobre estética dos quadrinhos com o amigo Ricardo França, escritor do “Uno e o Múltiplo”, um livro tão bom e hermético que qualquer um além de nós dois e dos pobres coitados que entram mudos e saem calados com medo de assumir que não entenderam o miolo. Quando perguntei o motivo dele não ter explicado “nadica de nada” da tecnologia que passamos anos desenvolvendo. (mais ele do que eu, claro)

Resposta: “Já viu quadrinho explicar alguma coisa?”.

Bem, no caso do livro dele, que muita gente ainda para pra me perguntar detalhes importantes para a compreensão da trama. Detalhes de todos os tipos, tecnológicos inclusive. Bem, eu adorei o livro e o dedicado à (...). Também, mas concordo que quando um elemento importante para a história depende apenas da crença de que é assim e pronto... Humpf!

 Tirando raras exceções, a tecnologia de quadrinhos bem que poderia ser poderia ser um tipo de magia já que as duas só funcionam porque (ou quando) acreditamos nelas.

É ASSIM E PRONTO!

O legado de Lee e Kirby, que propagaram o uso ignorante (no bom sentido) da tecnologia com brinquedos como o “Nulificador Total” e outras traquitanas ainda mais estranhas como os imensos computadores valvulados baseados em COBOL permanecem quase intocados. Sempre tem alguém revivendo a parte visual dessas tecnologias disfuncionais e inúteis.

Se um absurdo servisse como ponto de virada nas histórias se tornaria uma verdade. E o leitor que tem só cultura de quadrinhos compra e algumas vezes divulgam idéias absurdas.

Ano que vem o primeiro super-herói famoso completa setenta anos, e ainda acreditamos em quase todas as lógicas científicas de épocas mais ingênuas.  E os “mutantes” são os sorridentes filhos dessa “família nuclear” criada pelos seguidores de “Norman Rockwell”.

Imitando Adam Savage dos Caçadores de Mitos: “Rejeitamos a sua realidade e substituímos pela nossa”.

Nos quadrinhos toda a tecnologia é figurativa e muitas vezes... Obsoleta.  Olhe ao seu reder e me diga: Sua realidade é representada entre as sarjetas?

 Quase tudo é visual e figurado para manter a fantasia correndo. Seja a tecnologia de ficção científica, urbanóide, ou bélica como os assombrosos armamentos mega funcionais dos anos 80/90 que surgiram para suprir as falhas dos desenhistas. Ainda assim, temos todo um universo de tecnologias inexplorado e real.

Nada contra toda a fantasia, mas o universo Geek nos mostra tecnobugingangas necessárias e funcionais todas as semanas. E existem tecnologias reais que são mais absurdas do que as dos quadrinhos. Um bom exemplo disso é a “bomba gay”, um projétil que quando disparado te torna a coisa mais atraente que seus inimigos já viram na vida.  Na verdade, a bomba libera um gás que torna seus Feromônios tão fortes quanto aqueles perfuminhos de sex shop. (Tecnologia não letal tão absurda e inacreditável quanto um desenho do Pernalonga).

 Quando o controverso e semi-simpático (roteirista) Warren Ellis* assumiu o manche e as turbinas do Homem de Ferro, ele se fez a mesma pergunta e pensou em quantos leitores o título da Marvel perdia por não se assumir Geek e fez as mesmas perguntas que levantei até aqui antes de dar upgrades tecnológicos – alguns sutis, outros nem tanto - que considerou necessários para manter a fantasia sem ofender aqueles  que  buscavam a representação realista.

 Somos enganados por uma fina noção de realidade identificável. E esse é o truque dos bons quadrinhos. E hoje em dia tem Google e Wikipédia para ajudar até o roteirista mais travado.

Tem um desenho em que a Liga Da Justiça vai para uma terra alternativa baseada nos anos 40 que mostra bem isso. A cena em que Tom Turbina ativa seu poder causa frisson e dá a sensação de grandiosidade necessária ao momento. A função da turbina é questionável, mas naquele momento ninguém quer saber tecnodetalhes. No episódio seguinte, eles fazem uma explicação lógica e cientifica da viagem que os levou até aquela dimensão.

Cada momento teve o que precisava e todos saíram satisfeitos com seu escapismo não ofensivo.

 

*Gosto do Ellis, mas quando o convidei pro meu grupo de amigos de um site de relacionamentos, o cara me mandou tomar, eu respondi e hoje ele me dá dicas simpáticas de roteiro. Dois quarentões bêbados demonstrando a boa e velha educação européia. Ainda bem que sou meio Brasileiro. (risos)

 

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