ARTIGO: Sonho de Ícaro

14/10/2007 Por Alexandre Assumpção

 

Gente olha só...

Você quer vender uma idéia pra alguém e não sabe como “chegar”. Bate o medo de que não ouçam um novato.

 Ser novato não é demérito. Vivemos num país de panelinhas e quem não entra nelas nasce, cresce e morre novato. (Hoje em dia isso está mudando, aproveite!) E mesmo os artistas estabelecidos só se mantém pela capacidade de se adaptar as constantes mudanças do mercado.  Um ótimo exemplo disso é o Watson Portela, que esteve presente em quase todas as caras dos quadrinhos nos últimos vinte e tantos anos. Seu traço passou por várias fases: Cópia do Moebius, Underground, Mangá, e até o Pornô sob a alcunha “Barroso”.

Apesar das constantes tentativas saudosistas de ressurreição de velhos personagens e autores, como tem feito com o Raio Negro de Gedeone Malagola, nosso mercado instável não suportaria um Bruce Jones, roteirista/Ilustrador conhecido nos anos 70/80, mas que passou os últimos vinte anos trabalhando com publicidade, animação e cinema e voltou pros quadrinhos na virada do milênio sem ter sido esquecido.

O mercado de “Back Issues” mantém a sobrevida de todos os trabalhos interessantes. No Brasil, se você não publicar dois anos ninguém se lembra e se você for desorganizado que nem eu, que perco tudo, nunca vai ter como provar sua “vida pregressa”. Novato instantâneo. Mesmo o Raio Negro está sendo reintroduzido às novas gerações e enfrenta todas as críticas que um novato com mais de quarenta anos merece e concorrendo com material novo, com narrativa mais dinâmica e visual.  

Não é vergonha ser novato... Muito pelo contrário. Isso só prova que num mercado tão inseguro e instável quanto o nosso, ainda tem pessoas que acreditam e querem fazê-lo funcionar. Isso é bom, acredite. Os criadores saíram do Olimpo e se travestiram das pessoas normais que realmente são. Pessoas normais como você, mas a geração pouco anterior a que começou a usar a internet como ferramenta de contato, a dos posers, foi a que menos manteve representantes.  A geração “Val Demente” experimentou tanto que não sobreviveu todo o seu legado.   (Apesar de o Felipe Venâncio ser – hoje - um dos Maiores DJs do Pais) Felizmente, a geração internet veio e facilitou tudo.

Estamos vivendo uma rara continuidade no quadrinho brasileiro. Temos pelo menos três gerações (pelo menos) de criadores consecutivas. Dá pra aprender com os erros e acertos de cada uma delas. Seja Humilde e aproveite tudo que as pessoas tiverem pra te ensinar. Você vai morrer aprendendo e às vezes é bom “saber menos” que os outros, mas não a ponto de se rebaixar e ser desrespeitado.

Só não crie a falsa expectativa de saber àquilo que desconhece nem chegue pra ninguém falando que este é o primeiro de muitos trabalhos nem diga as megalomanias básicas da maioria dos criadores. E dai? Pense num empregador... Você acha que ele se interessaria em ouvir que este é o primeiro de muitos empregos ou simplesmente o que você tem pra oferecer pra ele? Isso te abre ou fecha portas. A apresentação é o Curriculum Vitae de sua proposta de emprego.  

Vou usar o esquema das Submissions americanas que é simples, direto e também funciona aqui.

·         Sinopse (Plot) – Resuma em uma página, no máximo duas o que vai acontecer ao longo de todo o seu projeto.

·         Fichas de personagens e ambientação - Apresente definições e model Sheets de todos os seus personagens (Não mande nada além do desenho) pro cara.  Isso mostra pra ele que você não vai contar uma história em que ninjas marcianos lutam na segunda guerra mundial, por exemplo.

·          Preview de (pelo menos) cinco páginas – Você apresenta a história e dá uma idéia gráfica de como suas idéias podem funcionar.

·         (Se possível) Uma mostra dos trabalhos que você e o artista fizeram. (se você for um de dois) É sempre bom porque prova que você pode cumprir o que promete.

Isso funciona em mercados que compram material continuado, mas dá um ar mais profissional até no Brasil, onde os editores compram só material fechado. Passa a idéia de que você é organizado e tem todos os ases na manga.

 Esse formato de apresentação é o mesmo que você deve registrar. Antes de sequer publicar seu material e sair apresentando as idéias... Registre.  Com esse material na mão vá conversar com os editores, quadrinhistas mais velhos e todos os que você puder vendeu seu peixe.  Passa mais credibilidade do que aquelas pessoas que te alugam falando das idéias sem ter nada pra mostrar. Não ter o que mostrar pode ser sinônimo de desorganização e incompetência.

 Todos os sonhadores têm idéias, mas a maioria não sai disso. Lembre-se sempre de que quadrinhos são um meio de comunicação como outro qualquer e você precisa aprender a ser um “comunicador amador profissional”.  Caso contrário, além de um eterno novato, você vai levar grandes tombos sempre que chegar perto do sol e pode até acabar quebrando o pescoço.

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