ARTIGO:Jesuisvraimentdésolé*, mas...

24/09/2007 Por Alexandre Assumpção.

 

Não sei se eu já falei disso por aqui, mas o que nos separa de qualquer outro país é a falta de organização.  Somos o único país em que uma cota (racial) cultural obrigatória nunca decolou e o único que a produção não tem uma “cara”.

Exatamente como no mundo inteiro o quadrinho Brasileiro é parte de um grande caldeirão de influências. Não há purismos, nem a ingenuidade de acreditar que criamos nossa própria linguagem. 

Somos quase que exclusivamente sustentados pela “Mônica” e pelas charges. Todos os outros “elementos” só surgem porque somos todos “Fanboys” e buscamos os nichos que achamos interessantes.

E é nesses nichos que achamos as diferentes mais formas de metalinguagem.  Os autores misturam elementos em seu caldeirão e criam algo completamente novo. Elementos como o humor em aventuras como “Holy Avenger”, que em qualquer outro país ganharia tintas mais cinzentas.

Num país conhecido pelos longos anos de publicações de terror e eróticas, o humor é um diferencial. A auto Paródia, já que seus trabalhos quase nunca são publicados.  Fanzines, certo?

Nem em Cuba, em pleno regime “El Barbon” fanzines sustentavam a produção nacional.  Muito pelo contrário... Muitos brasileiros migraram pra lá nos anos 80/90 e abraçaram o comunismo insular como uma desesperada forma de ter seus trabalhos publicados e pagos.

No Brasil, a última grande editora (VECCHI) morreu em 83/84 e na década seguinte os poucos espaços foram minguando até finalmente desaparecer e virarem história. Os cariocas ainda tiveram Edmundo Rodrigues e a Editora Bloch até o final da década. (Marcelo Quintanilha, ex “Gau” surgiu lá e hoje publica na França) Até 86, havia a Grafipar no Paraná (independente do nome) que publicava vários tipos de material, em São Paulo tínhamos da Nova Sampa e até a Abril voltou às raízes e Publicou vários materiais nacionais em títulos próprios ou no Aventura e Ficção.

E então veio o fim. No final da década de 80 os quadrinhos perderam as grandes editoras.

As duas décadas seguintes foram seguidas de várias tentativas de emplacar uma editora só de quadrinhos, mas como nenhuma realmente ganhou a  força de uma Bloch, Vecchi ou Abril,  viramos exportadores de artistas ou produtores Underground, já que com raras exceções, os editores e os artistas distribuem suas revistas por venda direta e quando conseguem, em banca.  E os quadrinhos “locais” prosperam. Minas e Brasília têm vários títulos “na banca da esquina” que nunca vão chegar na minha.

Chega a ser estranho imaginar que na década de 90, entramos no circuito das convenções de quadrinhos, o que nos abriria um leque maior de leitores, criadores e criaturas e ainda assim nada realmente aconteceu. Por outro lado, o Pessoal de Mangá não só não acha que seu produto final não é quadrinho como consegue fazer produções e produtos. 

*Aos mais novos... Francês já foi nossa língua pátria e justamente por isso, a frase lá de cima, que significa: “Sinto muitíssimo.” Ou nosso popular “Só Lamento”.

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui na Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar

Salve o Morro do Vintém, Pendura a saia eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar”.

Novos Baianos

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Alex Assumpção é Roteirista, e já está há mais de dez anos envolvido no meio independente, atualmente, fora seus roteiros, esta publicando textos no seu blog pessoal O Sumpa Sabe.

 

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