ARTIGO: Nostalgia da modernidade...

18/11/2007 por Alexandre Assumpção.

 

Vivemos num país curioso e sem memória, mas quando a memória é atiçada reclamamos.

Tava lendo no Orkut dia desses uma figura reclamando da republicação do Raio Negro. (a quarta pelas minhas contas) Segundo ele, novas editoras combinam com materiais novos, não com revivals.

Será que ele está errado? Bem... Sim e não. Seu radicalismo tira a razão porque as pessoas acabam criando defesas contra seus argumentos antes de sequer ouvi-los, mas a pergunta é compreensível: Num país que raramente dá a primeira chance, reeditar a mesma coisa mais de uma vez quando se pode investir no que está sendo feito atualmente é suicida.

Vamos usar o exemplo do Raio Negro...  Por volta de 1983, quando fizeram uma coletânea com todas as histórias, o título ainda soava atual. Não era diferente do material nacional ou do importado, pois até 88 quase todos os quadrinhos traduzidos eram antigos. Heróis da TV, ainda mostrava Os Vingadores numa fase que George Perez e John Byrne ainda imitavam John Buscema e o muso inspirador dos dois ainda era visto por aqui em histórias dos anos 60.

Vale lembrar que Raio Negro é anterior aos “Super Heróis Shell”, promoção que introduziu a Marvel no Brasil e é uma adaptação de quase todos os conceitos originais tanto da Marvel quanto da DC amalgamados num material aceitável. O próprio Gedeone assumiu que copiou a origem do Lanterna Verde e adaptou o visual do Ciclope.  Ainda assim, ele conseguiu grandes acertos como o “Dr. Op Art”, vilão inspirado no movimento da arte ótica que voltou à moda com estética New Wave que criou a identidade visual da primeira metade dos anos 80.

Quatro décadas depois continuamos fazendo cópias e chamando de material original, é verdade... Só que – na maioria das vezes – com uma narrativa gráfica mais moderninha e os roteiros ganharam (pro bem e pro mal) boas doses de páprica.

E é ai que está o problema. Vamos tomar como exemplo o Astro Boy do Tezuka. Sempre que ele é reintroduzido temos o original e alguma versão com a estética atual. O grosso está lá, mas a história é contada de uma forma que cada criança tem seu “Astro Boy”. O mesmo pode ser dito do Raio Negro? Astro Boy sempre abre espaço para novos nomes enquanto Raio Negro só reimprime o que já foi feito.

Não tem um erro ai? Tem tanto público assim pra isso ou é o gosto do editor e de um pequeno grupo de nostálgicos? (Ou o medo de perder dinheiro e papel com material desconhecido) Só por curiosidade: Na dúvida não seria melhor fazer uma coletânea e dar trabalho para novatos atualizarem o conceito? Gente, o conceito é contemporâneo do Golpe militar... A nossa realidade mudou muito nos últimos quarenta anos e muitos conceitos arrojados da época soam tão risíveis nos dias atuais quanto os nossos serão daqui a vinte anos.

 

Vinte anos é uma proximidade educada, já que com a velocidade que as informações, tecnologias e estéticas mudam atualmente tudo é subjetivo.

Tem todo um universo de novos talentos pipocando por ai querendo uma chance e as editoras insistem em material reciclado e mais barato do que contratar um profissional e lançar títulos novos. Na internet tem vários bons projetos pedindo pra ir pro papel e grandes talentos que merecem uma segunda olhada, mas que saem do mercado sem jamais terem entrado oficialmente.  

 

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