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ARTIGO: Modismos e a tradição esquecida

24/06/2007 por Alexandre Assumpção

Você já se perguntou por que o mercado de HQs brasileiro não é maduro e nem tem uma cota razoável de publicações? A resposta talvez seja simples: somos escravos dos modismos!

Pense bem! A cada nova influência, o que se fez de bom até então é deixado de lado. Duvida-se, passe os olhos pelo que se vende nas bancas a fim de ter uma vaga idéia das flutuações do gosto popular.

A todo momento, são flagrantes as demonstrações de que enterramos um passado que deveria permanecer vivo e forte. Certa feita, Moacir Cyrne, durante uma aula de seu curso de História em Quadrinhos, ouviu a seguinte pérola do preconceito e da ignorância: Esse lixo que você está mostrando é coisa de velho! O negócio é mangá. O experiente professor apenas sorriu diante de exibição tão pouco burilada de desinformação.

Tal qual a dona do infeliz comentário acima, muitos leitores devem ignorar que o momento atual está longe de ser a primeira vez que se publica mangá no país. Houve tentativas anteriores, não tão glamurosas. Além disso, para provar que não é de hoje que olhos graúdos e robôs gigantes encantam a garotada, lembremos que, desde os anos sessenta, os animes fazem considerável sucesso.

No tocante a variedade, além deste instante asiático, temos de mencionar a fase européia que enriqueceu as bancas no começo dos anos 90. Na época, indagado sobre seus apetites quadrinhísticos, um famoso fanzineiro sacou logo sua resposta: O novo quadrinho inglês! Ato contínuo, ainda pontuou: Principalmente essa criação maravilhosa do Simon Bisley: o Juiz Dredd.

Pois é. O tal novo quadrinho inglês era o que se lia na linha Vertigo - uma divisão da norte-americana DC Comics - e o carrancudo juiz, que não é criação de Bisley, de novo não tinha nem a moto. Em meados dos anos 70, Dredd havia feito sua estréia, no Brasil, publicado pela saudosa EBAL, como parte da revista 2000 a.D.

Sabe o que é mais irônico? Todos os países que nos mandam estes títulos sabem que algo os antecedeu. As genialidades do passado são cultuadas. Daí, em outras praias, não se ouvem tantas besteiras. No Japão, Magma - que teve uma série live action exibida no Brasil nas décadas de 70 e 80 - dialoga muito bem com Noir e até com A rosa de Versalhes. Na Inglaterra, Doutor Who, Marvelman e a turma da 2000 a.D. convivem com roteiros modernos e da moda. Nos Estados Unidos, ainda há muitos que idolatram Frank Springer e Bob Brown, dois desenhistas que passaram em brancas nuvens por aqui, mas que merecem destaque diante das novas gerações.

Sobram razões para se preservar e se valorizar as grandezas de outrora. Afinal, para se construir algo novo, é preciso se alicerçar sobre uma base sólida, erigida com a experiência do passado. Um bom trabalho artístico não se encerra apenas no autor. Tem pai, mãe, avô, influências e inspirações. Em suma, tradição, uma somatória de fatores que se canalizou sobre o roteirista ou o desenhista daquelas páginas.

Num país desprovido de memória como o Brasil, os leitores só ouvem falar de Emir Ribeiro, Nico Rosso, Flávio Colin, Primaggio, Watson Portela, Jaime Cortez, Cláudio Seto, Gedeone Malagola e Mozart Couto quando estes lançam alguma edição de periodicidade bissexta ou, quem sabe, nas poucas vezes em que suas obras são retomadas em antologias.

Embora irregular, nossa tradição quadrinhística é de uma riqueza prodigiosa. Foi palco de centenas de episódios notáveis desde o dia, no século retrasado, em que Angelo Agostini deitou sua pena sobre o papel pela primeira vez. Realmente, não vale a pena ignorar a nossa história e só ter olhos para os modismos.

 

Alex Assumpção é Roteirista, e já está há mais de dez anos envolvido no meio independente, atualmente, fora seus roteiros, esta publicando textos no seu blog pessoal O Sumpa Sabe (onde este texto foi originalmente publicado) e de agora em diante esperamos ver suas constante contribuições aqui no Zine Brasil!

 

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