ARTIGO: A Vingança dos Nerds 2 – Recordatório Perigosos.

12/08/2007 por Alexandre Assumpção.

 

Em 2007, finalmente temos o direito de escolher o que - não - leremos nas bancas.

Já parou pra se perguntar o quanto sua mídia preferida pagou pra que hoje você pudesse ler gente como eu comentando e publicando quadrinhos?

 

Pode parecer engraçado nestes tempos de quadrinhos online - e impressos - com liberdade total e irrestrita de temas, entretanto, estivemos a um passo de uma 'inquisição iconográfica'. Padres, políticos e outros representantes dos ditos ideais familiares massacraram os quadrinhos por serem... Diferentes. E temiam que com toda a violência gráfica e literária dos quadrinhos, os leitores fossem influenciados e se tornassem uma versão da “Família Manson”, executando crimes influenciados pelas idéias e ideais de seus artistas preferidos.

 

Lembrem-se: Manson alegou ter se inspirado em duas músicas dos Beatles (Helter Skelter e Blackbird) para seus... “Devaneios”. E essas “associações” entre cultura pop e pessoas de “Cabeça fraca” são constantes e em alguns casos... Reais.

 

Apesar de Charles Manson, suas famosas cartas e a assustadora teoria do “Helter Skelter” serem importantíssimos para a cultura “pop”, a comparação lógica seria com John Wayne Gaucy, o Serial Killer que adorava criancinhas. (No café da manhã) Quadrinhos é uma literatura irresponsável feita para crianças, certo? Até recentemente ninguém parecia lembrar de que a nona arte alcançava diversas faixas etárias.

 

Todas as mídias são polaróides de um momento e seria ingenuidade achar que uma mídia nova, cheia de hormônios e em busca de identificação não cometesse erros, principalmente os de suas mídias 'mãe': Cinema e literatura.

 

Erros que alimentaram paranóicos como Frederick Wertan, cujo livro “Sedução do Inocente” só refletia elementos da histeria coletiva daquele momento, alias histeria que foi copiada no Brasil por motivos - ainda - menos nobres. Se lá fora, mundo do “pós-guerra” e dos “quintas colunas” foi um prato cheio para o “sono da razão”, que criou monstros como o Macartismo. No Brasil, anos depois, reflexos dos mesmos ideais nos levaram a um golpe militar.

 

Mas... Seria culpa dos quadrinhos? Ou da opinião pública ignorante que – entre outros erros - confundiu a tentativa de Criar uma identificação ainda maior dos quadrinhos com seus leitores criando personagens de sua faixa etária com – entre outras coisas -pedofilia?  (Aqui no Brasil, amenizada pelas piadas de comediantes como os Trapalhões que debochavam da teoria do Super-Homossexualismo)

 

 Não é interessante pensar que o medo da delinqüência juvenil dos primeiros momentos tenha desaparecido e assumido outro aspecto? Quadrinhos, coisa para crianças que emburrece a todos.  

 

Na verdade, o grande medo não foi o emburrecimento, mas a modernização da língua. No Brasil, todos temiam a desintegração da língua culta. Chega a ser divertido imaginar que aqui no Brasil, todos combatiam o emburrecimento e o surgimento da PERIGOSACultura de quadrinhos”. 

 

Bem, eles perderam, é verdade... Muito barulho por nada. Mas é sempre bom lembrar que nem todos os quadrinistas têm só “cultura de quadrinhos”, alguns tem “cultura de verdade” e sabem como passar de uma forma simplista e atraente. Muitos alunos – principalmente de história e línguas - encontram nos quadrinhos os primeiros elementos de suas futuras carreiras. Mitologias, contos... O leitor médio aprende elementos básicos que – quando aprofundados – acrescentam muito em suas vidas.

 

E convém lembrar que quem lê apenas quadrinhos – ao menos - está lendo algo que reforça conhecimentos da língua corrente de nosso país. (Uma das maiores reclamações dos educadores de então)

 

Com o passar dos anos, o envelhecimento do leitor médio e o surgimento de uma geração que não se via refletida nos quadrinhos, a temática precisou ser mudada, abrindo espaço para um... 'Retorno às raízes', quando os quadrinhos finalmente retomaram todos os elementos dos pulps e voltaram a fazer sucesso.

 

'Os quadrinhos não são mais pra crianças... ' Nunca foram principalmente os combatidos, mas a falta desta percepção, tal qual o sono da razão criou monstros que ainda estamos tentando reparar. E com o surgimento dos roteiristas multimídia, os leitores passam a consumir tudo que for produzido por seu roteirista preferido. Livros inclusive. E em casos cada vez mais conhecidos como Alan Moore, Brad Meltzer, Neil Gaiman e até do nosso Octavio Aragão. (entre muitos outros)

 

Os quadrinhos não só se tornaram as portas de abertura para todas as mídias, como é preciso uma grande bagagem cultural pra entender alguns quadrinhos.

 

Os cadáveres de nossos detratores estão revirando em seus túmulos.

 

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Alex Assumpção é Roteirista, e já está há mais de dez anos envolvido no meio independente, atualmente, fora seus roteiros, esta publicando textos no seu blog pessoal O Sumpa Sabe.

 

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