ARTIGO: Um Estranho Casal…

22/08/2007 por Alexandre Assumpção.

Não sei por que sempre que penso na dupla Desenhista/Roteirista lembro da dupla Walter Matthau/ Jack Lemmon naquele filme em que os dois têm de fugir vestidos de mulher: O Estranho Casal.

Minha dupla criativa preferida sempre tem um representante de cada sexo, mas… Não é uma constante. (sem preconceitos, só lidando com as opções clássicas) Apesar de termos tirado as placas de “menina não entra” do clubinho, elas ainda são raras e acabamos passando mais tempo com nossos parceiros criativos do que com nossas mulheres.

E antes que eu esqueça… Essa introdução não tem nada a ver com o texto. Joga fora, chefe! (joga não…)

Um dos piores relacionamentos que podem existir é entre desenhista e roteirista.  Nem marido e mulher pré-separação se desentendem tanto. E é divertido ver os desentendimentos desta união imprescindível.

Trabalhei ao longo dos últimos vinte anos com um monte de desenhistas...  E confesso que apesar de ter trancado minha Katana durante as visitas de alguns pra não ter de resistir à tentação, aprendi muito com eles, já que foi minha primeira carreira de escolha. Virei roteirista por preguiça e acomodação ao ver que era mais fácil passar a fórmula do que sentar e destrinchar páginas. 

E como todos sabem... Assim como na música, que todo mundo quer ser guitarrista, quem entra pros quadrinhos quer “desenhar” sua história. Eu fui um dos raros casos em que um guitarrista assumiu a cozinha pra ajudar a banda. E gostei, pois era um desenhista medíocre.  Na verdade, se eu tivesse começado nos anos 90 seria problema já que minha maior neura eram as influências orientais quando todos – inclusive eu - queriam copiar o John Byrne.

E esse comecinho de “carreira”, aliado aos grandes parceiros fizeram de mim um roteirista melhor. Enquanto conversamos, estou terminando a sexta versão do teaser para um projeto e não tenho do que reclamar, pois finalmente posso usar todas as minhas influências com este parceiro que... Sempre rejeita meus teasers! (Isso quando ele não some por um ano) Ele sabe o que quer e é um dos mais incríveis narradores visuais que já vi.  E isso me motiva a ser mais... Dadivoso.

Como eu já disse antes... Aprendo o tempo todo e gosto dos desenhistas exigentes, pois são esses que vão melhorar e você junto, pois acompanha o ritmo.   Tanto que até estranho quando aceitam tudo que eu mando sem reclamar.

Seja com este desenhista que me fez estudar além de egiptologia e tendências Art Noveau, técnicas de roteiro mais eficientes como quando (logo no começo da carreira) um desenhista amigo alegou que me entenderia melhor se eu abandonasse o “Estilo Marvel” (plot) e adotasse o “full Script”, que ele chamava de “Roteiro de Cinema”, tive mais lições do que reclamações. E é sempre bom lembrar que todos os manuais que vieram depois começaram tímidos nos anos 90. Minha geração conheceu – com muito esforço e pouca divulgação – livros de autores importantes, mas pouco aproveitados como Moacy Cyrne*, com linguagem tão técnica que ninguém entendia. 

Quando comecei, os amigos aprendiam tudo entre si... Quadrinhos também.  E éramos amigos que faziam quadrinhos. Fiz parte de um grupo que interagia muito e um dos desenhistas era meu vizinho, alguém que de tempos em tempos “dava no saco”, mas devo muito a sua visão.

 O primeiro de muitos casamentos. Cada um deles me preparando para absorver elementos de cada parceiro em meus trabalhos. Crescer desenvolvendo diferentes soluções como roteirista e diagramador sabendo que o outro lado também faria seu melhor para que nosso filho criativo nascesse.

 Confesso que nem todos os momentos foram bons, houve atritos e casamentos desfeitos pelas tais “diferenças criativas” e outros foram “litígio instantâneo”, já que não dá pra trabalhar com pessoas sem noção de parceria, que ficam esperando tudo vir na mão ou que se acham mais importantes do que o produto final.

Felizmente, Autores/Artistas podem ser “solteirões” e roteiristas crescem e viram redatores de outras mídias. Nos dois casos vocês podem viver solo e fazer trabalhos funcionais.

Se me perguntar, procuro uma parceria duradoura e já que nosso clube ainda não tem tantas meninas...

Sempre prefiro o “Estranho Casal 2. Dá menos na pinta quando aparece uma Sophia Loren.

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Alex Assumpção é Roteirista, e já está há mais de dez anos envolvido no meio independente, atualmente, fora seus roteiros, esta publicando textos no seu blog pessoal O Sumpa Sabe.

 

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