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Antropomorfismo...

10/06/2007 por Alexandre Assumpção.

            A identificação incomoda. E cenas chocantes como estupro, massacres e a violência gratuita física ou psicológica nos ofendem pela associação. Em nosso prazer escapista nós nos imaginamos como os personagens e sentimos todo o seu desconforto.

            Imagine a mesma cena vivida por animais fofinhos e com luvinhas de três dedos. Você se importaria? Esta é a grande sacada do antropomorfismo. Ninguém se importa. Justamente por isso gatos perseguem ratos há cinqüenta anos e coelhos colocam dinamita na boca de outros animais a mais tempo do que alguém se lembra.

            Em Patópolis é feita a propaganda do American Way of life recheado de comentários – muitas vezes ácidos - sobre tudo que incomoda os americanos, em Maus, a complicada vida dos judeus durante o nazismo é abrandada justamente por isso. Nos Simpsons, encontramos a violência gratuita de “Comichão e Coçadinha”, inspirados em filmes como “O Massacre da Serra Elétrica" e nos quadrinhos encontramos o erotismo de personagens como Omaha, A Stripper.

            É divertido imaginar criaturas irracionais vivendo nossas paixões e expondo os nossos defeitos piores defeitos. Está é uma das bases da famosa comédia “Slaptstick”, por exemplo, que fica limitada nos “Três Patetas”, mas divertidíssima nas animações e quadrinhos em que os personagens são destruídos, desintegrados e ainda retornam para sofrer ainda mais castigos.     Neste tipo de comédia todas as perversidades são permitidas e nelas, encontramos todas as simbologias ocultas ou não na violência gráfica estilizada.

            O mesmo vale para o material “sombrio”, pois as imagens redondinhas amenizam qualquer tipo de material. E levando-se em conta que falamos de mídias “pop de massa” -quadrinhos e animação - que poucos levam a sério justamente por serem “pra crianças”. Toda a polemica de certas séries e filmes passariam despercebidos – até uma segunda olhada – se estes materiais tivessem sido originalmente publicados em quadrinhos.

            E este é o grande truque do antropomorfismo. Podemos tratar de qualquer assunto sem que ele soe ofensivo para alguém além dos animais e nenhum deles vai reclamar. E grupos de ativistas como “Greenpeace” e “Peta” têm o mínimo de senso crítico para não reclamar da violência aos animais iconográficos.

 

 

Alex Assumpção é Roteirista, e já está há mais de dez anos envolvido no meio independente, atualmente, fora seus roteiros, esta publicando textos no seu blog pessoal O Sumpa Sabe (onde este texto foi originalmente publicado) e de agora em diante esperamos ver suas constante contribuições aqui no Zine Brasil!