ARTIGO: Reacionário, eu!?


 

Reacionário, eu!?

Por José Valcir

Quadrinhista

 

Antes mesmo do projeto de lei sobre a cota para os quadrinhos ser aprovada, uma onda de críticas contra ela já começa a surgir. E quem ganha com isso? As republicadoras como a Panini, Conrad e todas as outras que publicam quadrinhos estrangeiros.

Esse artigo não é para fazer levante contra elas. Deve-se republicar material estrangeiro, sim. Assim como é preciso ser protecionista com que seja nosso quantos dos nossos artistas não aprenderam a dominar o desenho, a Arte de fazer quadrinhos, com alguém que ele admirasse. Mozart Couto, Mestre dos Quadrinhos pelo Ângelo Agostini, começou imitando John Buscema. Hoje, aquela artista dá aula sobre o assunto.

E o que dizer de Flávio Colin? Considerado por alguns amantes dos quadrinhos como Jack kirby brasileiro.

Lógico que a partir do momento que as editoras nacionais começarem a cumprir com seu papel, elas irão errar. Não será uma tarefa fácil. Vai esbarrar com um público que há mais de cinqüenta anos vem lendo Batman, Capitão América, Luluzinha, Tio Patinhas, e toda uma galeria industrializada. Apoiada numa forte campanha de marketing. Possível de serem encontrados em bolsas, chaveiros, lancheiras, bonés, cadernos e, numa recente empreitada, “games”.

É preciso alertar que não é uma campanha contra os EUA. Também os nipônicos conquistaram uma legião de fãs, que não perdem a oportunidade de trajarem uniformes tal qual seu personagem preferido. Aproveitando essa oportunidade, os coreanos também ganham espaço nas prateleiras com Chonchu, Ragnarock e outros títulos. O curioso que esse país era colônia japonesa quando se tratava de HQs. Eles criaram uma lei para limitar a publicação do mangá e incentivar a produção deles. Hoje exporta para cá. Logo, o que entender desse público leitor que reclama sem analisar. O mesmo aconteceu na Itália e na França.

Na Espanha foi aprovada, por unanimidade, uma lei que premiará artistas locais, numa forma de fomento já que lá sofre o mesmo tipo de política editorial como no Brasil. Em dezembro de 2005, a América Latina promoveu um encontro em Buenos Ayres, na Argentina, para discutirem os problemas editoriais que sofrem os quadrinhos desse lado de cá do hemisfério.

Em cada parte do globo há manifestações em prol dos quadrinhos. O que está prestes acontecer no Brasil, se aprovado o projeto de Lei, será um acontecimento para mudar esse estado de copiadores e republicadoras. Uma ação natural manifestada por todos os autores anônimos que lotam bienais, festivais, congressos e exposições de quadrinhos em várias partes do País e editam fanzines. Falando em exposição, o Brasil foi o primeiro país a fazer uma e o luso-brasileiro Jayme Cortez encabeçou essa empreitada. Assim como tivemos um dos primeiros personagens de quadrinhos do mundo, que antecedeu até o próprio Yellow Kid, feito pelo ítalo-brasileiro Ângelo Agostini.

Mas ninguém quer discutir isso.

Talvez as republicadoras boicotem esse projeto fazendo com não der certo. Quem sabe essa inexperiência, devido há décadas de colonização, nos faça cometer erros com o qual o leitor não perdoe. Não se saiba criar campanhas de marketing por falta de pesquisa de campo? Quem sabe tudo isso não nos leve a nada (ou a tudo)?

Antes de ser do contra. Dê uma chance para que isso aconteça. Imagine o Linux se não fosse pelas pessoas que acreditaram nesse software? E se Santos Dumont não tivesse inventado o avião e o relógio de pulso? Ou se tantas outras idéias tivessem sido caladas diante de uma onda de críticas avassaladoras? Talvez tivéssemos ainda numa caverna escura e fria, porque não se dominaria nem o fogo e nem se teria alvenaria.

Portanto, caro leitor, quadrinhista, editor, parlamentar e outros do contra: dêem uma chance para que a HQB seja forte em cada parte do país e não uma luta isolada como sempre aconteceu.


 

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