ARTIGO: A salvação está na net?!


 

A salvação está na net?!
Por Michelle Ramos.


Quando surgiram os primeiros fanzines em 1930, nos Estados Unidos (apesar de só receberem esse nome em aproximadamente em 1941 por Russ Chauvenet, também nos EUA), com certeza não era imaginado à proporção que esse tipo de arte teria. Aqui no Brasil, o primeiro fanzine de que se tem registro é o Ficção, criado por Edson Rontani, fã do gênero, em Piracicaba (SP), em 1965.

Nessa época, ainda era usado o termo “Boletim”, só vindo a se usar o termo fanzine aproximadamente nos anos 70. Hoje em dia, apesar dos grandes trancos e barrancos que a HQ nacional já passou, o fanzine ainda é o melhor meio de um artista nacional, seja ele amador ou “profissional”, apresentar seu trabalho, sua arte. Porém, com o decorrer dos anos e com a “facilidade financeira maravilhosa” que nos é imposta pelo mercado brasileiro, poucos autores de quadrinhos têm condições de bancar constantes tiragens de revistas ou zines para apresentar seus trabalhos. Muitos grupos de quadrinhos, devido a esta constante dificuldade, têm se dividido ou simplesmente deixado de existir. Felizmente muitos continuam surgindo, como a Revista Projeto Continuum (quadrinhos de heróis), que está já em sua terceira edição, editada por Rafael Tavares, Daniel Siqueira e Adriano “Sapão”, e o Martelo, fanzine de terror e aventura, que está na quinta edição, editado por Erick Lustosa.

Entre as dificuldades existentes na manutenção dos fanzines por boa parte dos seus editores estão as baixas vendas e a falta de divulgação de seu trabalho, pois sabemos que, apesar do grande número existente de leitores de quadrinhos, não é tão fácil encontrar quem realmente valorize e compre quadrinhos nacionais. Este fato faz a maioria dos editores de fanzines optarem por só fazer tiragens dependendo dos pedidos já recebidos com antecedência.

Ainda hoje, o Fanzine QI, de Edgar Guimarães, tem ajudado na divulgação de boa parte dos fanzines criados por inúmeros editores em nosso país e até no mundo, mas nada se compara à Internet! Sim, é isso mesmo, há alguns anos não se tinha conhecimento da metade dos artistas que conhecemos hoje. A Internet tem facilitado a vida de milhares de artistas nacionais que não tinham meios de divulgação e muito menos bufunfa ($$$$$) para bancar seus sonhados quadrinhos. Blogs e flogs da vida estão sendo criados constantemente para a divulgação de algum artista nacional. E existem as editoras virtuais, como a Nona arte, por exemplo, que faz um belíssimo trabalho. Há algum tempo, a editora só aceitava expor em seu site histórias que se encaixassem no seu perfil. Hoje em dia, porém, se a sua história não se encaixar nesse perfil, você pode ter a oportunidade de ter sua história publicada nas “Histórias dos Leitores”, por exemplo.

A Liga Fanzine recentemente divulgou que também está disponibilizando todo tipo de material, seja ele quadrinhos, tiras, poesias ou afins. É o espaço para a arte brasileira tomando conta da Web. A Areia Hostil, do lorde lobo, também vem fazendo isso há algum tempo com maestria, sem falar do maravilhoso trabalho do Leonardo Santana em seu site Arquivos HQB, onde é disponibilizado todo tipo de material nacional, seja ele amador ou profissional, sem distinção de gêneros.

A Net tem ajudado a apresentar aos amantes dos quadrinhos não só a variedade de artistas que existe em nosso país, mas a variedade enorme de heróis nacionais, personagens muitas vezes esquecidos pelos brasileiros. Quando criei o Zine Brasil: O Guia dos Quadrinhos Nacionais, no flog do Terra, existiam pouquíssimos flogs de artistas que divulgavam seus trabalhos, como o Sebastião Seabra, o Quadro Negro de Wellingtom Fiúza, Jackson Herbert, o JJ Marreiro e Eddy Barrows, fora nossos “tiristas” de plantão como o grande Bira, por exemplo. Já hoje em dia, quase quatro meses depois do Zine Brasil ter sido criado, o Terra praticamente se tornou o QG dos quadrinhistas brasileiros! Lá se encontra uma variedade de artistas e entre os mesmos existe uma ótima sintonia. Ali são ilustrados os variados Heróis Nacionais, existindo também a chamada “Semana do Personagem”, onde durante uma semana diversos artistas ilustram um determinado personagem, tal como: Capitão Sete, Raio Negro, Mylar, Velta, Transmutor, os Vigilantes, Top Man, os heróis da Revista Independente Brado Retumbante, Crânio, cabala, Arcanum, Monte Castelo, Vingador Mascarado, Lagarto Negro, Blagster, Mulher estupenda, Thutharella, A Gringona, Zipt, entre vários outros.

A Net tem sido aliada constante dos quadrinhos nacionais. Alguns chegaram a achar que ela substituiria a revista, mas, ao contrário, ela tem feito o papel vender, e a isso damos graças! Pois apesar dos constantes downloads, o papel ainda é preferência; para um colecionador que se preze (risos) nada como ter sua querida revista em mãos!
Desde que criei o
Blog do Zine Brasil para melhorar ainda mais a divulgação dos quadrinhos nacionais, vejo a cada dia surgir um novo visitante, um novo e-mail, onde um quadrinhista resolve sair do armário (no bom sentido!) e revelar seu talento. Espero imensamente que isso continue assim, mas também é necessário o apoio um dos outros para que o quadrinho nacional cresça, é necessária uma busca por sua compra. É visível o interesse no assunto por parte dos leitores, mas se desejamos que as grandes editoras invistam capital em material tupiniquim, será necessário investir nosso capital também no pouquíssimo material existente em banca.

Há alguns anos, a Editora Escala propôs a idéia da Grafic Talents, onde vários artistas tiveram a oportunidade de ver seus personagens alcançarem espaço nacional. As histórias que tivessem boa aceitação e boa vendagem (é lógico!) teriam continuidade e títulos próprios. Vários artistas aproveitaram a oportunidade e tiveram seus personagens apresentados, entre eles: Lobo Guará, de Carlos Henry; Dálgor, de Chicuta e Dario Chaves; Velta, de Emir Ribeiro; Os Carcereiros, de Nestablo Ramos Neto; Grump, de Orlandeli; Tristão, de Estevão Ribeiro; Mico Legal, de Sérgio Morettini; e Leleco, desenhado por Antonio Lima. Esses, que obtiveram aceitação e ganharam títulos próprios, e várias outras revistas, eram todos vendidos ao preço de R$ 1,50 com páginas coloridas e de boa qualidade, apesar do material ser papel tipo jornal. Infelizmente, não teve uma única revista de personagem adulto (herói) que tenha conseguido título próprio. Ficamos felizes pelos personagens que conseguiram, mas por que não houve vendagem para os heróis da mesma forma que houve para os cartum? Tá, eu sei que nisso o brasileiro é dez, piada é com a gente mesmo (também, com uma vida dessa tem que rir mesmo...), mas ainda assim temos a nítida impressão que o brasileiro não acredita em seus artistas e muito menos em seus heróis. Mas aí é que está o problema! Se nós não acreditarmos em nós mesmos comprando material daqui, como vamos esperar que as grandes editoras apóiem nossos trabalhos investindo neles? A Net está ajudando na divulgação, é uma salvação baseando-se no lamaçal de dificuldades que encontramos, mas ainda assim ela não pode fazer tudo para que o quadrinho nacional tenha o conhecimento e o reconhecimento que lhe são tão necessários. Isso só nós podemos fazer, porque o maior apoio que pode ser dado aos quadrinhos nacionais ainda é um só... investir nosso suado dinheirinho nele.

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