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UM RETIRO SOBRE A ESPIRITUALIDADE CONJUGAL

 Pe. Flávio Cavalca de Castro cssr

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UM RETIRO SOBRE A ESPIRITUALIDADE

CONJUGAL 2

1 – A ESPIRITUALIDADE EM GERAL

Que é espiritualidade

Temos de começar com um pergunta: que vem a ser espiritualidade? Geralmente se confunde espiritualidade com piedade. De modo geral, quando falamos em espiri-tualidade, estamos usando a palavra para indicar preocu-pações com as coisas do espírito, em oposição às preo-cupações com as coisas materiais. A espiritualidade con-siste em procurar desenvolver aquilo que há de espiritual no homem, incluindo uma variedade muito grande de rea-lidades. Espiritualidade pode ser entendida também como um ideal, uma proposta de vida. Aqui tomaremos a ex-pressão num sentido mais estrito.

Nesse sentido, espiritualidade, como parte da teologi-a, é uma apresentação sistemática da doutrina e da práti-ca da procura da perfeição cristã, conforme as diversas situações e estados de vida. É nesse sentido que pode-remos dizer que para os casais existe uma espiritualidade própria, um caminho próprio para chegar à perfeição da vida cristã. Podemos ainda falar de espiritualidade en-quanto maneira de cada ordem e congregação religiosa, ou movimento encarar e pôr em prática as propostas do evangelho, dando um enfoque especial a este ou àquele aspecto. Assim podemos falar de espiritualidade francis-cana, redentorista, das Equipes de N. Senhora e outras. 3

A vida cristã

Se a espiritualidade tem por finalidade levar à perfei-ção da vida cristã, em que consiste a vida cristã? Que entendemos por isto? Conforme a doutrina cristã católica, por bondade e misericórdia de Deus, recebemos a possi-bilidade de participar na vida do próprio Deus. Já como simples criaturas humanas, recebemos de Deus imensas possibilidades: inteligência, liberdade, senso artístico, ca-pacidade de relacionamento e comunicação. Mas tudo isso conserva-nos no nível meramente humano. A men-sagem da Escritura, a mensagem do Cristo, é que Deus não nos quer simplesmente como criaturas. Ele nos quer como filhos e filhas, o que é muito mais. Filho, filha de Deus é quem participa da natureza do próprio Deus, quem recebeu enfim uma característica nova, uma quali-dade nova que lhe vem de fora, mas é ao mesmo tempo uma característica que atinge seu próprio modo ser.

Lembrem-se daquela frase de São João “nós somos chamados filhos de Deus”; mas, ele logo completa: “não apenas fomos chamados, nós somos filhos de Deus”. A-contece em nós uma transformação qualitativa. Continu-amos sim, sendo homens e mulheres, mas homens e mu-lheres envoltos na realidade de uma maneira nova de vi-ver. Insisto: essa maneira nova de viver não está apenas em nossa maneira de ver, de pensar. Não é apenas a nossa maneira de nos relacionar com Deus. É algo mais profundo. Atinge o nosso próprio ser. Somos transforma-dos tanto, que essa transformação é descrita pelo Novo Testamento exatamente com essa palavra vida. “Quem crê em mim, terá a vida eterna” (Jo 6,47). Logo pensamos em vida eterna depois da morte. Não. O sentido é outro; vida que dura para sempre, já, agora. Já, agora, estamos 4

vivendo essa vida eterna que se opõe à vida pura e sim-plesmente humana. Já, agora, somos filhos de Deus, ain-da que, no dizer de João, não se tenha manifestado ple-namente o que somos e o que podemos ser (1Jo 3,2)

Essa participação na vida divina, é apresentada no Novo Testamento como novo nascimento, regeneração, como se nós, que fomos gerados por nossos pais, fosse-mos gerados de novo, re-gerados pelo poder de Deus (Jo 1,12-13). Ressurreição é outra palavra usada para des-crever nossa nova situação. Sabemos que não apenas somos criaturas. Somos criaturas decaídas, mortas, que não têm possibilidade de, por si mesmas, procurar a feli-cidade e a justiça. É preciso que o poder de Deus nos faça voltar à vida, à essa vida que tinha sido planejada por Deus. Vida que é apresentada na Escritura também como incorporação. Somos incorporados em Cristo. So-mos incorporados a Cristo, ou seja, passamos a fazer par-te da realidade do Cristo. Com ele formamos um só corpo, uma só realidade, uma só pessoa. Essa vida nova, que recebemos, é que nos caracteriza e, no dizer de Paulo, nos dá possibilidade de viver de maneira nova, libertos, livres da escravidão do pecado que pesava sobre nós. Cristo libertou-nos, diz Paulo, para uma ressurreição, para uma vida nova. Agora somos livres, como ele deixa tão claro na Carta aos Gálatas. Porque Cristo nos deu essa vida nova, temos a verdadeira liberdade. Já não somos escravos do desejo, da ambição. Agora podemos viver na liberdade do espírito, temos em nós o alento de Deus, a vida nova que vem de Deus, e por isso já não somos es-cravos do pecado.

Nisso consiste fundamentalmente a vida cristã: as e-xigências morais, as obrigações religiosas são derivadas dessa realidade. Não se pode compreender a proposta 5

cristã a não ser a partir dessa idéia de nova criação, de regeneração, de vida nova que nos vem de Deus e nos transforma interiormente. Que de cegos nos torna capa-zes de ver; de escravos, em livres; de mortos, em vivos; de capazes apenas de odiar, de capazes apenas de ego-ísmo, em capazes de amar e de abrir-nos para Deus e para os outros. Fundamentalmente o que recebemos é uma vida. Se recebemos uma participação na vida de Deus, estamos recebendo também uma participação na maneira de Deus pensar, na maneira de Deus amar, na maneira de Deus querer. Por isso mesmo a lei de Deus não é uma lei que se imponha a nós de fora. É uma lei que nos orienta a partir de dentro, a partir dessa vida nova que ele criou em nós. Sem a ajuda e a transformação que vem de Deus, somos incapazes do bem.

Se recebemos uma vida, temos de crescer nessa vi-da. Porque vida que não se desenvolve, não é vida. A espiritualidade vai consistir exatamente no desenvolvi-mento dessa vida divina que Deus nos concedeu. Todos são chamados para esse desenvolvimento e para esse crescimento, e todos são chamados para essa perfeição, não apenas alguns. Todos. E mais: não apenas os cris-tãos. Todo ser humano, toda criatura humana que é atin-gida pela graça de Deus tem de procurar a perfeição des-sa vida divina. Vamos falar de perfeição cristã, mas não vamos imaginar que vida, participação na vida divina, pro-cura de santidade, procura de perfeição, que isso seja monopólio dos cristãos. Deus quer a salvação de todos, desde o primeiro até o último ser humano. De todos. Dos que viveram antes de Cristo e dos que vão viver até o fi-nal desta nossa realidade, em qualquer religião, em qual-quer situação. É claro que, como diz o Cristo, daquele a quem mais foi dado mais será exigido. Todos são chama-dos à perfeição: para nós isso ficou ainda mais claro de-6

pois do ensinamento do Concílio Vaticano II. Mas nem sempre isso foi percebido com igual clareza por todos.

Concretamente em que consiste crescer na vida cris-tã? Em primeiro lugar consiste em tornar-nos mais partici-pantes dessa vida divina. E crescemos na vida divina na medida em que somos cada vez mais amados de Deus. Geralmente pensamos que crescemos na graça quanto mais amamos a Deus. Acontece que o amor de Deus por nós é anterior ao nosso amor por ele. Ele nos ama sem merecimento nosso, ama livremente e por isso ama cada um de uma maneira pessoal e especial. Deus não ama por atacado. E como seu amor é gratuito, não precisa amar a todos no mesmo grau. Pode amar um mais do que outro. É bom lembrar a parábola dos trabalhadores convi-dados para a vinha (Mt 20,1-16). Uns às sete da manhã, outros às cinco da tarde, mas todos receberam o mesmo salário. Os madrugadores reclamaram. E disse o patrão: “Qual é o dever de justiça que tenho com vocês? Posso amar, sou livre nos meus dons”. Isso faz parte do jogo do amor. Deus nos ama, seu amor é que nos faz melhores, desde que nos deixemos levar por esse amor. Santa Te-resinha tem uma comparação que nos pode ajudar: Tome um copo grande, encha até a boca. Tome um copo pe-quenino. Encha até a boca. Ambos estão cheios. Em ne-nhum cabe mais do que ali está. Assim é conosco. Nosso problema não é ser mais do que alguém ou ser igual a alguém. Nosso problema é desenvolver ao máximo as nossas possibilidades, desenvolver ao máximo os dons que o Senhor nos dá. Aliás, estão lembrados da parábola dos talentos, não estão? Um, dois, cinco, dez talentos, conforme a vontade do patrão. Quem recebeu um não pode reclamar. Quem recebeu dez, não se pode gabar. Se o que recebeu um produzir mais um, vai receber a 7

mesma recompensa e a mesma felicidade que o outro que recebeu dez e produziu mais dez.

Crescer na espiritualidade é, pois, crescer na vida no-va, sendo cada vez mais, participando cada vez mais dessa vida divina, cada vez mais orientados pelo espírito de Deus. Crescer em santidade é deixar-nos levar pelos impulsos que vêm de Deus, sem negociar, sem regatear, sem ficar com medo. É deixar-se levar. Os autores espiri-tuais lembram que um barco, por mais bem equipado que seja, por maiores que sejam as velas, ou por mais forte que seja o motor, não irá para lugar nenhum enquanto estiver amarrado ao porto. Já perceberam que, de vez em quando, brigamos com Deus, discutimos, negociamos, regateamos? A verdade é que temos medo do que Deus possa fazer de nós. Temos medo de ser melhores.

Crescer em perfeição significa estarmos cada vez mais imbuídos das idéias de Cristo, da maneira de pensar de Cristo. Cada vez mais entregues à vontade do Pai, vontade de Deus que jamais é imposição. Vontade de Deus que é uma só: nosso bem e nossa felicidade. Cres-cer em perfeição é assumir, como critério de decisão na vida, a verdade e a justiça. O que Deus propõe, a maneira de pensar de Deus, sua maneira de ver, superando idéias e critérios meramente naturais. Crescer na santidade sig-nifica estarmos cada vez mais inclinados para o amor, cada vez mais inclinados para o bem, cada vez menos inclinados para o mal, cada vez mais resistentes aos im-previstos do mal. Já perceberam como somos fracos e vulneráveis diante de certas idéias que nos tomam de re-pente, ou se quiserem, de certas tentações que nos to-mam de improviso. Facilmente nos deixamos levar, facil-mente nos deixamos levar pelo medo, pela covardia, pela raiva, pela ambição, pela vontade de vingança e coisas 8

assim. Crescer em santidade é desenvolver em nós uma resistência maior a esses ataques imprevistos.

Numa palavra, crescer em perfeição significa desen-volver as boas qualidades que Deus colocou em nós e enfraquecer as más que nos são próprias. É aumentar a presença do amor em nossa vida, diminuindo o peso do egoísmo. Talvez esse seja o modo mais fácil de perce-bermos em que altura estamos. Quanto menos domina em nós o egoísmo, tanto mais dominará em nós o amor de Deus.

Crescer em santidade é crescer na caridade

Podem perceber facilmente que o centro da vida cris-tã não está no cumprimento da lei, não está nas práticas religiosas e nos atos de culto. O fundamental, o central da vida cristã, está no amor, na união, na caridade que é o amor que Deus cria e provoca em nós, na união com a Trindade e com os irmãos. Isso quer dizer que crescer em perfeição cristã, procurar a santidade cristã significa cres-cer, procurar crescer na caridade. A espiritualidade cristã consiste na procura sistemática do crescimento na cari-dade com Deus e com os irmãos. Por isso podemos até dizer que propriamente não existe um mandamento da caridade. Mandamento traz logo a idéia de imposição e obrigação. O que existe é a possibilidade, a imensa pos-sibilidade de caridade e de amor que nos vem por dom de Deus. Porque somos filhos de uma humanidade pecado-ra, por nós mesmo somos incapazes de amar. Incapazes de amar a Deus ou de amar o próximo. Por nós mesmos somos governados e guiados pelo egoísmo. 9

E, na verdade, não crescemos no amor na medida de nosso esforço. Não é fazendo alguma espécie de ginásti-ca espiritual que aumentamos nosso amor. Só podemos crescer no amor se Deus agir sobre nós. Por isso mesmo é que continuamente temos de pedir que Deus aumente em nós o amor. É preciso que o Senhor aumente sempre a pressão sobre nós, para que afinal nos deixemos levar, para que afinal sejamos capazes de abrir a porta e de nos render à sua proposta. Esse é o caminho do crescimento. Crescermos na vida sobrenatural quando somos elevados por Deus a uma participação maior na vida divina. Certo que temos de colaborar, sem dúvida. Claro que, se cola-boramos, Deus nos ama mais. Mas nada disso destrói a verdade fundamental: a iniciativa é dele. Para ir para fren-te dependemos totalmente do seu impulso. Ele nos ajuda até mesmo a querermos ser ajudados.

Essa realidade do amor, da caridade como centro da vida cristã leva-nos também a perceber como a Igreja e-xiste única e exclusivamente para a caridade. O docu-mento do Vaticano II sobre a Igreja, Lumen Gentium, logo no primeiro número diz que a Igreja é instrumento de Deus para a união de todos com Ele e de todos entre si. É a primeira idéia apresentada sobre a Igreja, idéia que de-pois será desenvolvida sob outros aspectos em todo do-cumento. A Igreja existe para que possamos amar a Deus e nos possamos amar. Se uma lei na Igreja não serve para isso, não tem valor nenhum. Se uma organização da Igreja não leva isso, é inútil toda essa estrutura criada. Tudo o que existe na Igreja existe para isso. Afinal, tudo quanto existe existe para que possamos amar a Deus e possamos viver em fraternidade. Tudo na Igreja existe para que a caridade cresça em nós. 10

O amor que Deus infunde, derrama em nós necessa-riamente nos leva a viver e a agir de uma determinada maneira. Por isso mesmo é que João, na sua Carta (1Jo 2,3-11) diz muito claramente: quem quiser saber se co-nhece e ama a Deus, veja se conhece e ama o próximo. O amor, a fé que vêm de Deus, todos os dons sobrenatu-rais não podem ser percebidos pela nossa inteligência, ou pela nossa sensibilidade. O que podemos ver é o nosso procedimento; e se vemos que nosso procedimento cami-nha na direção do bem, sabemos que isso não acontece por nossa própria força. Se assim vivemos, no amor e no bem, é porque Deus está agindo em nós.

Se livremente aderirmos a essa proposta que vem de Deus, se nos abrirmos a esse amor de Deus, que vem e nos transforma, então também iremos ser fatores de sal-vação e de felicidade para os outros. A vida nova, que vem de Deus, não se transmite pela palavra. Essa vida nova transmite-se vivendo. Se a vivemos intensamente, através de nós Deus irá atingir outros. Estamos diante de uma lei fundamental: tudo vem de Deus, mas normalmen-te para salvar Deus usa a intermediação humana. Cada pessoa unida com Deus, podemos dizer, é um sacramen-to para salvação de outras. Unidos a Deus pela graça, somos mais que qualquer sacramental ou símbolo religio-so: somos presença e manifestação de Deus.

Se nos deixamos levar por essa vida nova que vem de Deus, somos arrastados a uma vida, a um crescimento sem limites. Na vida espiritual nunca podemos dizer: bas-ta, daqui não passo. Se de fato estamos unidos a Deus, haverá em nós um motor que nos impulsiona sempre mais para frente. O amor e a vida sobrenatural não co-nhecem limites. A vida espiritual consiste no amor, e o amor é incondicional e ilimitado, ou não é amor. O amor é 11

vínculo de união e exige abnegação total. Se há tanta de-sunião entre nós é porque não estamos suficientemente unidos a Deus. Unidos a ele, infalivelmente estaremos unidos entre nós. Sem essa união com Deus, não é pos-sível compreensão entre nós. Se não vivemos essa vida que vem de Deus, não terão sentido para nós as coisas de Deus. Passaremos a raciocinar apenas a partir da nossa razão e dos nossos princípios.

Uma última consideração. Por mais que nós desen-volvamos em nós essa vida divina que vem de Deus, por mais que desenvolvamos essa caridade, esse amor, essa vida e esse amor serão apenas iniciais, enquanto esti-vermos nesta terra. Somente na outra vida é que podere-mos dizer: agora sim, meu Deus, cheguei até onde podia. Se nos alegramos e nos sentimos felizes, apesar de o nosso conhecimento agora ser muito pequeno, muito limi-tado, muito obscuro, qual será nossa alegria e nossa feli-cidade quando se tornar plenamente claro para nós toda essa comunhão para a qual Deus nos chamou. Quando ficarmos sabendo como fomos de fato amados por uma infinidade de pessoas, quando afinal percebermos quanto recebemos de Deus, haverá em nós uma gratidão, uma felicidade, uma alegria infinita. 12

2 − A ESPIRITUALIDADE CONJUGAL

Vimos em que consiste a espiritualidade cristã, qual é a sua linha central. Agora vamos olhar para a espirituali-dade conjugal. E podemos começar com uma observa-ção: falar da espiritualidade conjugal, desse caminho para a perfeição cristã do casal, supõe necessariamente falar do Sacramento do Matrimônio, dessa presença continua-da do Cristo na vida do casal, de tal maneira que ele pes-soalmente é que faz sua união. Essa presença do Cristo na vida do casal é fator básico, fundamental, indispensá-vel para que se atinja a perfeição da sua vida conjugal. Graças à presença do Cristo na vida do casal, toda vida conjugal é transformada. O Sacramento do Matrimônio não é algo que aconteceu no passado, é uma realidade presente. Naquela cerimônia, anos atrás, houve apenas o começo de uma vida, de um sacramento. Houve o come-ço de uma presença especial do Cristo na vida dessas duas pessoas que estavam assumindo comunhão total de toda vida por toda a vida. Toda vida conjugal, pela pre-sença do Cristo, passa a ser fator de felicidade para o casal. É através da vida conjugal que o Cristo atinge o casal e o leva para frente. O casal santifica-se, chega à perfeição cristã pura e simplesmente vivendo até as últi-mas conseqüências o Sacramento do Matrimônio. Sacra-mento do Matrimônio que também qualifica o casal para uma ação específica na Igreja e na sociedade. Sem falar no Sacramento do Matrimônio é impossível apresentar uma espiritualidade conjugal.

Agora, porém, não vamos demorar-nos na considera-ção do Sacramento do Matrimônio. Vamos supor tudo que já ouviram falar sobre esse sacramento. Vamos concen-trar-nos em alguns aspectos da espiritualidade conjugal, sem esquecer que, repito, a vivência do Sacramento do 13

Matrimônio é o trilho pelo qual se desenvolve o casal. É sempre um ponto de referência para tudo quanto se dis-ser.

O casal é chamado à santidade

Colocado isso, vamos olhar um pouco para o chama-do dos casais à santidade. O Concílio Vaticano II, no capí-tulo V do documento sobre a Igreja – Lumen Gentium – diz claramente que todos são chamados à santidade. Também os casais são chamados à santidade. O Concílio diz isso muito rapidamente. De qualquer maneira foi um grande avanço na história da Igreja, porque durante muito tempo a vocação ao matrimônio foi considerada uma vo-cação de segunda classe.

Lá pelo século V, temos, por exemplo, São João Cri-sóstomo (+407), que diz que o casamento é campo de virtudes, plantação onde se cultivam as virtudes. E diz também que o lar tem de ser uma Igreja. Mais tarde, mil e duzentos anos depois, temos São Francisco de Sa-les(1567-1622) que escreveu um livro muito interessante: Filotéia (1609) (“Filotéia” quer dizer “amiga de Deus”) de-senvolvendo uma idéia que estava bastante esquecida: “Todos são chamados ao crescimento na perfeição cristã, também os casados”. No capítulo terceiro da primeira par-te, diz que também os casados são chamados à procura da perfeição (à devoção, como dizia). Assim “o cuidado da família torna-se tranqüilo; o amor do marido e da mu-lher, mais sincero...” Na terceira parte, capítulo doze, mesmo fazendo as reservas comuns no tempo, escreve: “o prazer vindo do matrimônio é um presente do céu”. Fi-nalmente, no capítulo trinta e oito tem seis páginas de conselhos aos casados que querem a santidade e louva os que celebram o aniversário do casamento... Santo A-14

fonso de Ligório (1696-1787), fundador da minha congre-gação redentorista, ele também, principalmente num livro chamado Prática do Amor a Jesus Cristo, diz que também os casados devem chegar à perfeição: “Erram os que di-zem que Deus não quer que todos sejam santos. Não, a vontade de Deus é a nossa santificação (1Ts 4,3). Deus quer que todos sejam santos, e cada um na sua situação: o religioso como religioso, o secular como secular, o sa-cerdote como sacerdote, o casado como casado, o co-merciante como comerciante, o soldado como soldado, e assim por diante em qualquer estado de vida.”

Mas, de maneira geral, não se falava muito sobre a vocação dos casais para a santidade. Em parte talvez, por uma má interpretação de São Paulo (1Cor 7,32), aquela passagem que vocês conhecem: Quem não é casado pensa nas coisas de Deus, quem é casado pensa nas preocupações da mulher e do marido. Na perspectiva em que colocava a questão, Paulo tinha toda a razão. Mas erraram os que o interpretaram dizendo que o casamento, o amor conjugal, as preocupações familiares são empeci-lhos no caminho de Deus. E pior ainda os que pensaram que essa era uma vocação para quem ama a Deus com menos generosidade.

Mesmo Santo Afonso, que fala aos casados da pos-sibilidade e da necessidade de chegar à santidade, mes-mo ele fala de maneira muito pessimista do casamento. Talvez pela vida de casamento que viam no seu tempo, que coloca principalmente as mulheres numa situação bem desfavorável do ponto de vista humano e cristão. É nesse contexto que Santo Afonso e outros escritores fala-vam do casamento como empecilho.

São Gregório Nisseno viveu de 335 a 394. Tinha mui-ta experiência: foi casado, depois ele ficou viúvo, foi ser monge no deserto e finalmente foi nomeado bispo. Ele 15

disse em uma de suas pregações, falando da mulher ca-sada: “Um pedacinho do seu coração vai para cada filho que gerou e se tem muitos filhos, sua alma divide-se em tantas partes quanto são os filhos, de modo que sente em suas próprias entranhas, o que acontece a cada um de-les”. A conclusão pode ser uma só: por isso a mulher ca-sada não pode se dedicar à procura da santidade. Numa outra vez disse, em tom oratório: “Por onde eu vou come-çar a pintar essa vida difícil com as cores mais cinzentas e mais adequadas? Todos os absurdos da vida têm sua origem no matrimônio”... Aquele mesmo São João Crisós-tomo, do qual já falei, escreveu: “Dura e inevitável é a es-cravidão do matrimônio. Ainda que não trouxesse nenhu-ma dor, o matrimônio nada tem em si de grande; de que adiantará na hora da morte, o mais perfeito dos matrimô-nios? De nada!”.

Por isso é que foi de grande valia o Vaticano II dizer que “todos são chamados à santidade” e de maneira es-pecial, que “os casados são chamados à santidade”: “É necessário que os cônjuges e os pais cristãos, seguindo o seu próprio caminho, se ajudem mutuamente a conservar a graça no decorrer de toda a sua vida, numa grande fide-lidade de amor, e que eduquem na doutrina cristã e nas virtudes evangélicas a prole que receberem amorosamen-te de Deus. Oferecem, assim, a todos o exemplo de um amor incansável e generoso, constroem a fraternidade da caridade, e apresentam-se como testemunhas e coopera-dores da fecundidade da Mãe Igreja, como símbolo e par-ticipação do amor com que Cristo amou a sua esposa e por ela se entregou. (...) Por conseguinte, todos os fiéis santificar-se-ão dia a dia, sempre mais, nas diversas con-dições da sua vida, nas suas ocupações e circunstâncias, e precisamente através de todas estas coisas, desde que as recebam com fé, das mãos do Pai celeste, e cooperem com a vontade divina, manifestando a todos, no próprio 16

serviço temporal, a caridade com que Deus amou o mun-do.” (LG 41)

O Concílio não explica em pormenores, e nem o po-deria fazer, qual é esse caminho próprio para o casal. Mas fica bastante claro pelo texto que esse é um caminho próprio, diferente do caminho seguido pelos celibatários. Caminho marcado pela mútua ajuda em todos os senti-dos, pela fidelidade ao amor conjugal, pela fecundidade no seu sentido amplo e pleno. Pode assim o casal chegar à perfeição, não apesar, mas através das circunstâncias de sua vida matrimonial. Como para todos, também para o casal a procura da santidade passa pela vida do dia a dia. A vida naquelas circunstâncias em que Deus nos co-locou. Não adianta o casal querer procurar a santidade por caminhos diferentes desses que são indicados pela própria vida matrimonial.

É claro que se o Vaticano II, ao apresentar essa dou-trina, colhe os frutos da reflexão teológica de muitos auto-res. Podemos lembrar: M. J. Scheeben(1835-88) (Os Mis-térios do Cristianismo); D. von Hildebrand (1889-1977) (O Matrimônio) mais Pe. Carré, A. Christian, Pe. Doncoeur, Pe. Viollet com seus livros e movimentos. Entre esses movimentos, não há dúvida que podemos colocar as E-quipes de Nossa Senhora, sob a inspiração de H. Caffarel (1903-1996).

O cerne da espiritualidade conjugal

Podemos agora dar um passo e tentar aprofundar um pouco a reflexão, tentando ver qual é o cerne, a linha mestra da espiritualidade conjugal. Já vimos antes que a espiritualidade cristã se fundamenta no crescimento na caridade, união com Deus, e na caridade união com os 17

outros, na caridade fraterna que faz de todos nós irmãos e irmãs. A partir dessa idéia, podemos afirmar, parece-me, que a espiritualidade conjugal consiste, está na vivência da caridade conjugal, da caridade entre marido e mulher. Chegar à perfeição da caridade é chegar à perfeição es-perada por Deus, dos casais.

A expressão caridade conjugal pode causar certa surpresa. Mas é adequada, pois acrescenta algo muito importante à simples idéia do amor conjugal, deixando claro que o amor conjugal é dom de Deus, derramado por ele no coração de um homem e de uma mulher. Por sua própria natureza, homem e mulher podem sentir-se atraí-dos, podem até estabelecer entre si laços de amizade. Mas a oferta de Deus vai além: a todos os homens e mu-lheres oferece a possibilidade de um novo amor conjugal, transfigurado pela participação de ambos na vida da Trin-dade. É amor que existe a partir de uma ação divina, que transforma as pessoas e dá-lhes possibilidade de amar de uma maneira nova. Em qualquer tempo e em qualquer cultura, sempre que um homem e uma mulher, mesmo que não sejam cristãos, de fato se amam com amor ver-dadeiro, procurando doação e aliança de vida, amam-se porque foram transformados e atingidos pelo poder de Deus. A caridade conjugal engloba, abraça, inclui toda a realidade do amor entre um homem e uma mulher. Não é apenas um amor espiritual: é amor do espírito e da alma, sim, mas é também amor do coração e da carne, amor de desejo e de atração.

O caminho da perfeição para o casal é o desenvolvi-mento da caridade conjugal. Essa é a linha mestra ao re-dor da qual deve organizar-se todo o esforço para levar a vida conjugal à sua plenitude. 18

As características da caridade conjugal

Em primeiro lugar a caridade conjugal é amor que vem de Deus. Não nasce apenas do coração do homem e da mulher. Torna-lhes possível amar-se muito mais inten-samente do que poderiam fazer apenas com suas poten-cialidades e atrações. É uma consagração, é uma eleva-ção, se quiserem, é uma transformação, uma transubs-tanciação do simples amor conjugal.

Essa caridade conjugal vem de Deus e leva esse ho-mem e essa mulher a querer estabelecer entre si uma aliança, uma partilha de toda sua vida, por toda vida. Ali-ança que é colocar o outro em primeiro, aceitar o outro como a pessoa mais importante em sua vida. É aceitar organizar toda sua vida em função dessa pessoa. É a isso que o casal é levado, quando é levado pelo amor, pela caridade que vem de Deus. É aliança de vida, de toda a vida, por toda a vida. É isso que está simbolicamente indi-cado naquela passagem do Livro do Gênesis, quando Deus apresenta a Eva, recém-criada, para Adão, e ele diz: - Agora sim, aí está quem é carne de minha carne, ossos de meus ossos. Ou, em linguagem de hoje, aí está alguém que é meu outro eu, alguém que eu assumir como reflexo meu para eu ser reflexo dela.

Essa caridade conjugal, repito, não é uma caridade meramente espiritual. É amor que vem de Deus, mas é amor que engloba, assume toda a realidade do amor con-jugal vivido em plenitude e nele se encarna. É, em primei-ro lugar, caridade que atinge a vontade. Iluminado por Deus esse homem e essa mulher têm coragem de dizer “quero viver com você para sempre, comprometendo-me com você em tudo, colocando você em primeiro lugar na minha vida, antes de pai, mãe, profissão, amigos, tudo. Você é a primeira pessoa, logo abaixo de Deus para 19

mim”. A caridade conjugal leva a uma escolha, a uma op-ção. Entre milhares de outras pessoas, essa é a escolhi-da. É a caridade-afeto, que não é apenas amor espiritual, é amor-necessidade de alguém. É pulsação mais rápida do coração, arrepio no corpo, preocupação constante com o outro, um pensar continuamente no outro.

A caridade conjugal é uma caridade sexuada e sexu-al. É caridade de homem, é caridade de mulher, diferen-tes exatamente por serem homem e mulher e não apenas por terem órgãos sexuais diferentes. As duas realidades, a sobrenatural e a natural, imbricam-se de tal maneira que se torna difícil a distinção ou separação. É caridade não apenas sexuada, mas também sexual: ira manifestar-se na linguagem do sexo, do relacionamento sexual. Essa a caridade que é o caminho de salvação e de perfeição pa-ra o casal. Seu objetivo é fazer a felicidade dele e dela, felicidade perfeita, nesta e na vida que dura para sempre. Felicidade que é o grande objetivo de quem se casa, ser feliz fazendo a felicidade do outro.

O casal vive, pois, uma forma especial de caridade. O caminho da santidade cristã é o caminho da caridade. O caminho de santidade do casal é a caridade conjugal. E podemos até dizer que a caridade conjugal é muito mais exigente do que a simples caridade fraterna. A caridade fraterna exige que se tenha união com todos, mas não exige que se tenha plena e total comunhão de vida com todos. A caridade conjugal exige que se coloque o cônju-ge em primeiro lugar, antes de qualquer outra pessoa, antes de pai, mãe, filho, neto, dos amigos, da profissão, antes de tudo. Pelo cônjuge se deve fazer o que não se tem obrigação de fazer por ninguém mais no mundo. Não é sem motivo que muitos dizem ser a regra do amor con-jugal mais estrita do que a de qualquer ordem religiosa. 20

Essa visão é determinante para sua caminhada até a perfeição cristã. Você não pode olhar para o seu relacio-namento conjugal apenas a partir dos pontos de vistas humanos, da psicologia de conselheiros sentimentais. Como diz Jesus, “nem todos são capazes de aceitar essa doutrina, mas só aqueles que possuem o dom” (Mt 19,11). Se você quer fazer de seu casamento caminho de salva-ção, vai ter de olhar para o amor conjugal com o olhos da fé.

Marido e mulher chegam à perfeição cristã ajudados pelo amor mútuo. Chegam à perfeição através da convi-vência carinhosa, do apoio contínuo. Chegam à santidade através da alegria, alegria que não excluí dor, sofrimento, preocupação. Através da alegria que é a satisfação íntima de quem se sabe amado e amante, de quem se sabe na amizade com Deus (Lúmen Gentium 41).

A caridade conjugal, a caridade que é caminho de salvação para vocês, não é uma camada colocada em cima da realidade humana. É algo que vem de Deus e atravessa toda a realidade humana, dá sentido, valor, consistência, grandeza, beleza a toda essa realidade fes-tiva, espiritual e ao mesmo tempo carnal, vivida pelo ca-sal. Transfigura-a e transubstancia. A caridade conjugal, esse amor sobrenatural, é como que a alma de toda a realidade conjugal, penetra tudo, cada momento, cada expressão, cada palavra, cada gesto. Nas horas passa-das ao lado da cama de um filho doente, nas horas de angústias tentando acertar o orçamento, nos momentos de gozo e de alegria tranqüila de uma noite de amor, em tudo estará presente essa caridade que vem de Deus. Assim estarão vivendo o que ensina Pedro em sua carta (1Pd 2,5), transformando toda sua vida em hóstia de lou-vor oferecida a Deus. Marido e mulher chegam à perfei-ção cristã, ajudados pelo amor mútuo, pela convivência carinhosa, pelo apoio, pela alegria, e por tudo quanto 21

nasce do amor entre eles. Também pelo prazer mútuo e pela felicidade de se conhecerem.

Exigências da caridade conjugal

A vivência dessa caridade conjugal passa necessari-amente por algumas portas estreitas. Passa em primeiro lugar pela renúncia. Ou você coloca seu casamento em primeiro lugar na sua vida, ou não paga a pena casar-se. Ou você o coloca antes de tudo, ou está prestes a ser infeliz e a fazer a desgraça de outra pessoa. Lá no Gêne-sis está a sabedoria dos antigos nas palavras postas na boca do Adão: “por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher”. Por isso deixará e unir-se-á. Deixará muitas coisas: renuncia ao egoísmo, à comodidade, ao sossego, renuncia, renuncia... Ou você passa por essa porta, ou não encontrará o caminho da felicidade no ca-samento.

Passa a caridade conjugal pela porta estreita e exi-gente da união. Na sua despedida, no Evangelho de Jo-ão, Jesus pede ao Pai que seus discípulos sejam um, como ele é um. Pois bem, por mais estreita que seja a união entre os discípulos de Cristo, mais estreita tem de ser a união entre marido e mulher. É preciso que continu-amente procurem essa união, essa união querida por Cristo, essa união que é para vocês salvação e felicidade. Ou vocês colocam essa visão de amor como linha central de sua vida ou vão perder-se numa infinidade de batalhas sem sentido e sem vitória possível.

A vivência da caridade conjugal passa necessaria-mente por muitas portas estreitas: é preciso que vocês passem continuamente pela vivência de fidelidade, pela 22

vivência da sexualidade, pela vivência da paternidade e da maternidade, pela vivencia da abnegação.

Vocês têm de viver a fidelidade. A fidelidade mais completa, mais total, mais absoluta. Fidelidade de cora-ção, fidelidade de afeto. Não basta a fidelidade de cama. E se vocês querem manter fidelidade, cuidado com seus olhares, cuidados com seus afetos. Para que haja fideli-dade do coração é preciso que seu coração seja um cora-ção ocupado de fato por um amor. Coração vagabundo e vazio é coração sem dono, que será tomado de assalto pela primeira sedução que passar. Essa é a realidade. Não existe santidade, não existe sacramento, não existe idade que nos mude. Somos facilmente atraídos. Não a-penas a mulher é volúvel, “mobile”, como na ária de Verdi; também o homem. Quantos casais, que poderiam ser a-presentados como modelos, desmoronaram de uma hora para a outra, inexplicavelmente. Ou melhor: muito expli-cavelmente.

A caridade conjugal que leva à santidade passa pela porta da reconciliação e do perdão sem limites. Ser ama-do é poder contar sempre com o perdão de alguém. Amar sempre é perdoar sempre. Quem não precisa de perdão? Mas perdão não é tolerância medrosa ou cúmplice. Per-doar exige a firmeza necessária para levar de volta ao bom caminho. Perdoar é levar para Deus, não afagar o pecado. E é certo: seu perdão será sacramento do perdão de Deus.

A vivência da caridade conjugal, como caminho de salvação, passa pela vivência adequada da sexualidade conjugal, como veremos mais longamente adiante. A cari-dade conjugal passa pela vivência da paternidade e da maternidade, para que o casal não se feche sobre si mesmo, mas se abra para os filhos, para a família mais ampla, para a Sociedade e para a Igreja. Passa pela pa-23

ternidade e pela maternidade, da carne e do sangue, ou se for o caso, do coração. Mas sempre estará destinado ao fracasso o casal que não se abrir para ser fonte de vida. Paternidade e maternidade do coração será no mí-nimo assumir responsabilidade por todos os que estão ao redor. O casal cristão não pode ser casalzinho fechado em si mesmo, narcisista a dois, um olhando para o outro, embevecidos, esquecidos de tudo e de todos.

A vivência da caridade passa pela abnegação, inse-parável do amor. Também a vivência caridade conjugal enquanto caridade vivida na sexualidade. Abnegação, como diz Caffarel, é o casal e cada um dos cônjuges não fechar-se em si mesmo, mas abrir-se sempre para o ou-tro. Em primeiro lugar para Deus, colocado sempre em primeiro lugar. Abnegar-se é respeitar sempre uma justa escala de valores, sem procurar sempre o mais fácil, é dominar-se dominando instintos e impulsos.

Conclusão

Esse é o caminho da espiritualidade conjugal, o ca-minho para a perfeição a ser trilhado pelo casal. Caminho próprio e característico. Não será preciso dizer que esse caminho da caridade conjugal poderá, sem perda de suas características, receber tonalidades provindas das diver-sas correntes ou escolas da rica tradição cristã. 24

3 − A ESPIRITUALIDADE CONJUGAL, CAMINHO GRADUAL, DIFERENCIADO, ASCÉTICO E ESCATOLÓGICO

Caminho gradual

Uma das grandes lições da espiritualidade cristã é o respeito à gradualidade. Por isso vamos salientar logo que a espiritualidade conjugal é uma caminhada gradual, ou seja, de acordo com a fase atual da vida do casal. Não podemos esperar de um casal, que está apenas come-çando, toda a maturidade no amor que se espera de outro que já viveu trinta ou quarenta anos de aliança. Mas é importante que já os primeiros passos no amor, no tempo do namoro, sejam passos orientados pela busca da per-feição cristã. Ou será pedir demais que namorados e noi-vos sejam colocados desde o início diante dessa proposta de busca da santidade?

Caminho diferenciado

Como caminho para a santidade, cada etapa na vida do casal traz oportunidades, facilidades ou empecilhos. Em cada uma dessas circunstâncias é preciso descobrir os sinais do projeto de Deus, tirar proveito das facilidades e até mesmo dos entraves. Cada uma dessas etapas será marcada pelo amor, que se vai tornando cada vez mais exigente e também mais gratificante. 25

No casamento, a procura da santidade vai ser muito marcada pelos primeiros anos, antes da chegada dos fi-lhos. É quando se dá a adaptação de um ao outro, quan-do se assume uma distância maior com relação a pais e ao resto da família, para de fato constituir um novo núcleo conjugal. Essa etapa tem de ser vivida como processo de crescimento e de aprofundamento do amor.

Quando chegam os filhos, haverá boa oportunidade para o aprofundamento da generosidade, para o enfren-tamento de novas dificuldades, novos sacrifícios e novas renúncias. Durante alguns anos os filhos ocuparão um espaço muito importante na vida do casal. Tanto que, se não houver cuidado, a presença dos filhos pode prejudicar o crescimento e a caminhada do casal, se passarem a ocupar o primeiro lugar. Para ser bom pai e boa mãe, em primeiro lugar é preciso ser esposo e esposa. Isso exige planejamento, opção, de vez em quando exige até cora-gem para tomar atitudes que nem todos vão compreen-der.

Mas os filhos crescem rapidamente e de repente dei-xam a casa, e se vão para longe. E começa a ficar tão grande aquela casa que foi preciso ampliar mais de uma vez. Um olha para o outro e diz: E agora? Que é que va-mos fazer da vida? Não lhes posso dar uma receita; ape-nas chamo sua atenção para a necessidade de se prepa-rarem, para que nessa altura ainda encontrem um sentido pleno para sua vida matrimonial, e ela continue sendo caminho de aperfeiçoamento para vocês. Afinal vocês não se casaram em primeiro lugar para pôr essas criaturas no mundo e cuidar delas até que pudessem caminhar sozi-nhas. Vocês se casaram, em primeiro lugar, um por causa do outro, para juntos e na mútua ajuda procurar sua reali-zação conforme o projeto de Deus. E esse motivo precisa ser suficientemente assimilado para que continuem sendo casal, para que um continue sendo a pessoa mais impor-26

tante para o outro mesmo quando os filhos se tiverem ido. Assim não irão deixar tão pouco que os netos ocupem o primeiro lugar.

É bom ser realista. A vida não dura para sempre, nem a vida de casal. A viuvez não pode ser esquecida quando se fala da caminhada matrimonial em busca da perfeição. Quem ficar, precisará continuar, sem olhar para a viuvez como se fosse uma tragédia que tira todo o sentido da vida. Se o casal viveu a espiritualidade conjugal, se de fato amadureceu vivendo intensamente seu amor, quem ficar saberá continuar na busca do que foi o objetivo de sua vida. Saberá aproveitar essa última etapa como pre-paração para o encontro final no amor definitivo, para a plena realização do amor com que sempre sonharam. Saberá viver a viuvez como experiência enriquecedora da limitação de todos os projetos humanos, de modo que se possa atirar confiante nos braços do Senhor, o único em quem poderá encontrar afinal plena e definitiva felicidade.

Ao passar por essas diversas etapas da vida matri-monial você poderá aprender que não pode pôr sua felici-dade em nada. Ou melhor, em nada fora de Deus e logo depois em seu casamento. Em cada uma dessas etapas da vida, há um jeito de amar, há um jeito de orar, há um jeito de lutar, de viver, de chorar e de cantar. Viva inten-samente essas etapas e haverá de descobrir que o ver-dadeiro amor não diminui, mas não é sempre o mesmo, mas vai se transformando continuamente. Se consegui-rem viver esse amor, irão experimentar que na maturida-de, na idade avançada, ele se torna cada vez melhor, tal-vez porque já se esteja aproximando um pouco da perfei-ta realização do amor, que irá acontecer só lá, no depois definitivo. Através de todas essas etapas é que se forja o homem e a mulher conforme o projeto divino. 27

Caminho ascético

O caminho da espiritualidade conjugal, do amor con-jugal até a santidade só é possível se nessa vida conjugal existir a ascese. Essa palavra, tradicional na espiritualida-de cristã, vem de uma palavra grega “askésis”, que signi-fica exercício, esforço, ginástica. A espiritualidade conju-gal exige um esforço continuado, metódico. Um esforço perseverante da pessoa e do casal, de tal maneira que, ajudados pela graça de Deus ele e ela vão aperfeiçoando suas qualidades e corrigindo suas falhas. É exatamente aí que se vai encaixar a Regra de Vida proposta pelas Equi-pes de N. Senhora.

A ascese parte, em primeiro lugar, do reconhecimento da própria limitação e dos próprios defeitos. Exige-se um exercício de sinceridade e o conhecimento de si mesmo. Saiba exatamente quais são suas qualidades e quais são seus defeitos. Nem será preciso dizer que, nesse exercí-cio de auto-conhecimento, será de grande ajuda o parcei-ro de vida. A partir desse conhecimento será possível tra-çar um plano. Veja o que é mais urgente corrigir, quais são os meios que deve empregar, que providências deve tomar para não se esquecer do que foi decidido. Estabe-leça depois um sistema de controle, de tal maneira que, de tempo em tempo, você possa dizer se melhorou ou se piorou. É claro que a reunião de Equipe vai oferecer uma boa oportunidade, desde que a o momento da partilha seja bem aproveitado.

Continue assim examinando as diversas qualidades ou defeitos que devem ser trabalhados, e você estará fa-zendo um exercício, uma ascese, de continuado cresci-mento espiritual. É bom lembrar que a própria vida matri-monial já traz consigo ótimas oportunidades que vão obri-gar a pessoa a se transformar, pois a vida em comum faz 28

que sobressaiam defeitos e qualidades. A vida em comum exige esforço, renúncia, domínio, compreensão.

A ascese conjugal exige, por exemplo, que o casal aprofunde em sua vida, a pobreza evangélica, que não é apenas um conselho, mas uma exigência. A pobreza e-vangélica é para todo o cristão. Entre outras coisas po-breza evangélica é não deixar que as coisas e sua posse sejam o mais importante na sua vida. É não se deixar levar pela vontade de acumular sem limites; é economia, previdência, dedicação ao trabalho. Pobreza evangélica é não se preocupar demais com a aparência, não ter gastos demasiados com roupas, com cuidados de beleza. Pobre-za evangélica é saber partilhar. Há tantas e tantas oportu-nidades para isso. Pobreza evangélica é aceitar que não somos donos, mas apenas administradores dos bens de Deus.

É preciso que o casal desenvolva a virtude da tempe-rança, o saber “temperar” as coisas da vida. Trabalhar, nem de menos, nem de mais; distrair-se, nem de menos, nem de mais; dormir, nem de menos, nem de mais; co-mer, nem de menos, nem de mais; beber, nem de menos, nem de mais; procurar a satisfações, nem de menos, nem de mais. Aliás, os antigos chamavam isso de sabedoria, o saber viver, o saber encontrar o verdadeiro sabor da vida.

Sirvam apenas essas duas como exemplos das virtu-des morais que o casal deve procurar através de uma as-cese contínua e fiel: justiça, respeito, fortaleza, coragem, mansidão e tantas outras. Não adianta procurar a santi-dade em abstrato, lutando com moinhos de vento. É pre-ciso procurar a santidade concreta, que acontece nas pe-quenas coisas da vida. E não adianta correr ao mesmo tempo atrás de todas as virtudes. Faça um trabalho metó-dico 29

Caminho escatológico

O caminho do amor conjugal para a santidade tem de ser escatológico. Escatologia é aquela parte da teologia que trata das últimas coisas, da morte, do julgamento, do céu, do inferno. Das últimas coisas, dos objetivos da vida. Uma espiritualidade escatológica é uma maneira de viver o presente tendo em vista o futuro, o final.

São Felipe Néri (1515-1595), não sei se já ouviram fa-lar dele, foi um dia procurado por um rapaz. − Padre Feli-pe, estou muito feliz. Estou terminando o curso de direito. Estou quase me formando. − Que bom, formidável. Você vai se formar advogado. E depois? − Bem, depois vou estabelecer um escritório, vou me tornar famoso, vou ter dinheiro. − E depois? − Bom, depois vou casar-me. − E depois? − Depois vou ter filhos... − E depois? − Depois? ... Vocês já se fizeram essa pergunta? Você está correndo atrás do “Honda” dos seus sonhos, ou daquele aparta-mento especial. E depois? Você está querendo aquela casa, ou aquele jogo de sala. Ótimo. E depois? E depois? Viver uma espiritualidade escatológica em primeiro lugar é isso. Perguntar-se sobre o valor das coisas, dos esforços, dessas realidades que vamos vivendo.

Mas, significa também que o casal tem de dar valor a todas as coisas da vida presente. A todas as coisas que de fato tem valor, porque são para nós dom de Deus. Não é porque existe lá no fim o céu que essas realidades vão perder seu valor. Os bens culturais, os bens econômicos, artísticos, o prazer, a alegria, a competência profissional, tudo isso tem valor. São bens que, ajudando no nosso crescimento, terão de certa forma perenidade; são cami-nho de felicidade que Deus nos deu. Nada disso pode ser renegado. São Paulo (1Cor 10,31) ensina: “quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, 30

façam tudo para a glória de Deus”. Usem todos os bens com a moderação, com a temperança, dando o devido valor a essas coisas. Valor verdadeiro, mas, valor relativo. “Uma coisa eu digo a vocês, irmãos: o tempo se tornou breve. De agora em diante, aqueles que têm esposa, comportem-se como se não a tivessem; aqueles que cho-ram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; os que tiram partido deste mundo, como se não desfrutassem. Porque a aparência deste mundo é passageira” (1Cor 7,29-31).

A espiritualidade conjugal escatológica exige que se estabeleça uma correta ordem de valores entre os bens que se procuram, de maneira que os menos importantes sejam sacrificados em vista dos mais importantes. Antes da faculdade para o filho vem a estabilidade de seu ca-samento, a harmonia dentro de casa, a prudência, aquela sabedoria que faz dar os passos gradualmente, sem sal-tos.

O casal tem de viver escatologicamente seu amor conjugal. Não se amem apenas até a morte. É muito pou-co. Vocês têm de se amar para a eternidade, para sem-pre. Já pensaram como isso pode ser entusiasmante? Você eternamente fazer parte da felicidade desse homem, dessa mulher? Não se espante se, de vez em quando, o amor que você vive lhe parece insuficiente. Se você ama bastante, nunca estará satisfeito, mas sabe que na eterni-dade encontrará a plena realização do amor com que so-nhou. E jamais conseguirá imaginar o que espera você. Diante disso, muitas coisinhas, muitas pequenas misérias perdem o sentido. Já não têm importância nenhuma. Se quiser avaliar os prós e os contras da vida que está vi-vendo agora no seu matrimônio, olhe para esse futuro, e irá perceber que tem sentido todo esforço o para chegar à plena realização do amor. 31

Conclusão

Buscar a santidade no casamento é muito simples. Como diz Pe. Caffarel: “essa arte, essa sabedoria consis-te em aproveitar as realidades da vida, na medida em que elas vão aparecendo, vendo em cada situação, em cada circunstância, uma mensagem de Deus”.

A “escuta da Palavra”, enquanto Ponto Concreto de Esforço, consiste na leitura diária de um trecho da Escritu-ra e na aplicação disso na vida. Mas, esse tipo de “escuta da Palavra” é apenas o começo. A perfeita “escuta da Pa-lavra” consiste em procurar discernir, em todas as circuns-tâncias, as indicações que Deus nos dá de sua vontade. Na própria vida de casal é que está o caminho para a san-tidade e também a regra para chegar a essa santidade. 32

4 – A ESPIRITUALIDADE CONJUGAL É METÓDICA

O método é necessário na vida espiritual

A caminhada em busca da perfeição cristã precisa ser sistemática Para isso deve ter, em primeiro lugar, um ob-jetivo bem claro e definido. Não basta um vago propósito. Somente a partir de um objetivo claro será possível traçar caminhos e etapas a serem percorridos. Uma caminhada metódica haverá de respeitar, de maneira realística, um ritmo adequado, sem propostas inexeqüíveis, mas tam-bém sem tolerância comodista. Essa caminhada metódica deverá sempre ser programada levando em conta as leis da vida espiritual, ou melhor, os dados da realidade, da teologia e também da psicologia. O método na caminhada espiritual é necessário para se vencer a rotina e a nossa inata volubilidade. Jamais iremos crescer se vivemos ao sabor do capricho do momento. Precisamos de um pro-grama de vida, para a manhã, a tarde, a noite, para a se-mana e o mês. Comprometa-se com alguns pontos, dos quais não abra mão. Comprometa-se com certos momen-tos de oração que você vai viver esteja alegre ou triste, seja qual for a situação do dia. De uma caminhada metó-dica faz ainda parte um sistema de controle periódico.

Finalmente, se quiser estabelecer para si uma cami-nhada metódica em busca da perfeição, não deixe de 33

procurar um tratado sistemático sobre a espiritualidade, se possível sobre a espiritualidade conjugal.

A proposta das ENS

Os casais equipistas contam uma proposta sistemáti-ca para a procura da perfeição cristã como casados, co-mo casais, através da vida matrimonial. É caminho já comprovado por mais de sessenta anos de caminhada. Essa proposta é, ao mesmo tempo, bem definida mas aberta, sem se fechar num sistema rígido. Permite o a-proveitamento da riqueza de outras propostas (e até de outros movimentos) e está aberta ao futuro, é uma espiri-tualidade que continua evoluindo. Ajudou casais de 1940, época bem característica do Mundo e da Igreja, caminhou com os casais da época do Concílio Vaticano II, e está ao lado dos casais que enfrentam os tempos atuais com su-as riquezas e seus desafios. Manteve fidelidade ao núcleo do carisma inicial e continua atenta aos sinais dos tem-pos. É característica e precisa, mas deixa espaço sufici-ente para o casal e os indivíduos encontrar seus próprios caminhos de resposta ao chamado do Senhor.

Vida numa comunidade de casais

A proposta mais importante das Equipes de Nossa Senhora para os casais é que procurem a perfeição parti-cipando de uma comunidade de casais. Essa a grande força das Equipes que desde o começo quiseram formar verdadeiras comunidades eclesiais

A equipe não é um grupo formado por pessoas que se juntam ao acaso. A equipe é uma comunidade formada 34

por casais que têm um só coração, um só pensamento, uma só fé, uma só proposta de vida. É uma pequena co-munidade que possibilita entre as pessoas e entre os ca-sais confiança mútua, entrega mútua, ajuda mútua, parti-lha de vida.

A comunidade eclesial não existe apenas ou princi-palmente quando está reunida. A comunidade caracteriza-se, em primeiro lugar, pela unidade de intenção e de pen-samento, por um projeto de vida, pela partilha de vida. Os encontros, os ritos, as cerimônias da comunidade são meios para que possa crescer essa unidade íntima da comunidade.

A equipe é uma comunidade eclesial que nasce não por iniciativa dos casais. Toda e qualquer comunidade cristã nasce por iniciativa de Deus, que ama, escolhe, chama as pessoas e os casais. A equipe que é verdadeira comunidade não se forma a partir de simpatias, afinidades ou escolhas. Por isso é de se temer pela legitimidade cris-tã de uma equipe que, antes de acolher um novo casal, faz mil exigências, e não tem coragem de dizer pura e simplesmente: “Senhor, vós nos chamastes gratuitamen-te, sem olhar para os nossos méritos, nossas qualidades, ou atrativos. Por isso, estamos prontos, Senhor, a acolher quem vier”.

A Equipe de Nossa Senhora tem, pois, como caracte-rística principal ser uma comunidade formada a partir do chamado e do poder de Deus. É uma comunidade eclesi-al, quer dizer, é uma comunidade que é Igreja. Que é I-greja na sua forma celular. É uma Igreja vivida na sua ex-pressão mais simples. Por isso mesmo é que nas equipes de casais existe a presença do Sacerdote Conselheiro Espiritual. Não em primeiro lugar como conselheiro ou perito em espiritualidade, mas como sacerdote. Ele, pela sua presença sacramental, enquanto presbítero, é pre-35

sença do Cristo nessa pequena Igreja. Não é escolhido, em primeiro lugar, pela sua sabedoria, pelo seu jeito, pela sua piedade, pela sua capacidade de dar bons conselhos, mas para ser na comunidade representante do Cristo, sacerdote e salvador.

A equipe comunidade-Igreja, onde a ligação entre os membros nasce da mesma fé, da mesma esperança, da mesma caridade e da partilha fraterna de bens. Uma parti-lha que vai além do que é exigido ou proposto pela Igreja enquanto grande comunidade paroquial, diocesana ou universal. A Igreja, a diocese, a paróquia, são comunida-des, sim, mas são comunidades grandes demais. Não permitem que as pessoas possam conhecer-se, viver em plena fraternidade, na confiança mútua completa. A Equi-pe de Nossa Senhora é uma comunidade-Igreja de seis a sete casais, que se conhecem profundamente, que de-senvolveram confiança mútua e, por isso mesmo, podem ser de fato e em tudo irmãos e irmãs.

Essa comunidade-equipe é para os casais caminho e primeiro meio para chegar à santidade, porque é uma comunidade onde se vive a partilha e a entreajuda. A par-tilha das descobertas, das esperanças, dos medos, das dificuldades. Partilha da amizade, do esforço, do trabalho, das afinidades e das qualidades de cada um. Entreajuda nas coisas espirituais, nas coisas familiares e também nas coisas materiais. Essa comunidade-equipe ajuda os ca-sais enquanto é comunidade que vive a fraternidade pro-posta por Cristo, no cotidiano da vida, de tal maneira que, a qualquer momento, o casal possa procurar a sua equi-pe, na certeza de ser sempre bem acolhido e ajudado. A equipe, enquanto célula-Igreja, é instrumento e sacramen-to de Cristo: podemos dizer que sua ação é sacramental porque participa da ação, da eficácia sacramental da grande Igreja. 36

É preciso insistir: a comunidade equipe-Igreja vive sua comunhão na vida do dia a dia. Quem se lembra da equipe somente quando convocada a reunião mensal, não está vivendo numa comunidade. Os casais da equipe devem fazer parte da vida uns dos outros, das suas preo-cupações, continuamente presentes na lembrança uns dos outros. A reunião mensal o é o momento forte, um meio para reativar, reanimar, reforçar essa comunhão de vida, que se estende pelo mês inteiro. Mas a reunião mensal da equipe não constitui a vida da equipe.

A prática dos pontos concretos de esforço

Essa a segunda característica da proposta das ENS para a santificação dos casais. Penso que não será preci-so alongar-nos sobre o tema; vamos apenas lembrar al-guns aspectos.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que esses Pontos Concretos de Esforço não são invenção das Equipes. São meios, são propostas tradicionais da espiritualidade cristã. Na Regra de qualquer ordem religiosa, de uma maneira ou de outra, ali encontraremos esses pontos, menos na-quilo que é característico da vida de casal.

Esses Pontos Concretos de Esforço são pontos con-cretos, determinados, claramente delimitados. São pro-postas precisas, e não permitem nem escapatórias, nem esquecimentos. A meditação, a oração pessoal ou conju-gal, a escuta da palavra, ou se fazem ou não se fazem. Se se fizer outra coisa, pode ser até algo de bom, mas não é exatamente a proposta apresentada pelas Equipes. Não é possível tergiversar. São balizas que marcam uma caminhada metódica e bem definida. 37

Mais. Os Pontos Concretos de Esforço estão ligados entre si, por uma lógica interna; não são pontos juntados aleatoriamente; um prende-se ao outro, um exige o outro.

Passando rapidamente por eles, temos em primeiro lugar a proposta da Escuta da Palavra. Porque é o primei-ro? Exatamente porque é a partir da palavra de Deus, da revelação, da manifestação divina que podemos conhecer o objetivo para o qual somos chamados.

A Escuta da Palavra, em sua concretização mínima, proposta pelo Guia das Equipes, consiste numa leitura diária da Escritura, da Palavra de Deus, principalmente do Evangelho e na sua aplicação à vida pessoal.

Nada impede que o casal faça a leitura em conjunto, mas é preciso que, além de uma aplicação para a vida do casal, haja uma aplicação à vida de cada pessoa. Muitas vezes essa Escuta da Palavra praticamente se identifica com a Meditação. Essa é uma possibilidade, e em muitos casos é a melhor maneira de fazer a Escuta.

Mas, a Escuta da Palavra tem de ter na vida do casal um sentido mais amplo. Escutar a Palavra de Deus signi-fica procurar, em tudo e sempre, discernir, descobrir, co-nhecer qual a vontade e a proposta de Deus em cada cir-cunstância da vida. Chega, por exemplo, uma proposta profissional para ele ou para ela: ambos devem colocar-se diante de Deus, procurando discernir qual é sua divina vontade. O mesmo deve ser feito diante de qualquer pro-blema, diante de qualquer nova oportunidade, num mo-mento de alegria ou de dificuldade. O casal deverá procu-rar a vontade de Deus usando os métodos mais adequa-dos para isso. Pode inclusive procurar uma resposta na Escritura, onde a possa encontrar, é claro, sem fazer dis-so consulta a um oráculo. Muitas vezes, porém, a respos-ta não deve ser procurada na Bíblia, mas em outros tex-38

tos, até mesmo num livro de auto-ajuda, num livro de psi-cologia, ou até num filme, num programa de rádio ou de televisão. Outras vezes o melhor será procurar o conselho de alguém, do cônjuge, de um irmão de equipe, de um médico, de um psicólogo, ou de um padre.

A Escuta da Palavra é fundamental porque, como diz Santo Afonso, a santidade consiste em viver a vontade de Deus. Muito simples, mas, tremendamente difícil.

A Oração Pessoal é o segundo ponto proposto. Ora-ção que é em primeiro lugar, atitude nossa diante de Deus. S. Paulo ensina: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17) Re-zar sempre, estar sempre com o terço na mão, estar sempre rezando o Pai-nosso não é possível, mas é possí-vel manter sempre a devida atitude diante de Deus, reco-nhecendo nossa dependência, numa contínua atitude de adoração, colocando toda a nossa vida a seu serviço. Uma atitude assumida somente pode ser mudada por uma outra tomada de atitude. Enquanto não abandonar-mos nossa atitude de oração, estaremos como que sendo levados por um piloto automático. Estabelecido nosso ru-mo em direção a Deus, estamos a caminhar nessa dire-ção ainda que estejamos a fazer outras coisas, que não nos permitem pensar continuamente em Deus.

Mas é preciso ter também momentos específicos de oração, em que nos afastamos de outras preocupações para concentrar-nos na presença de Deus, olhar para nossa situação e nossas necessidades, para louvar e a-dorar o Senhor.

Essa oração pessoal exigida, ou melhor, proposta pe-las equipes é uma oração exterior ou interior. A oração exterior pode ser um salmo, o terço, uma oração que sa-bemos de memória, uma oração improvisada. Já a oração interior é aquela em que não usamos palavras, nem profe-39

ridas exteriormente, nem imaginadas interiormente. Com essa oração simplesmente nos colocamos diante de Deus e nos dispomos a ouvir e aceitar o que ele tem a nos di-zer.

A Meditação é uma variante da oração interior. Con-siste em colocar-nos diante de uma verdade, de uma pas-sagem da S. Escritura, ou de um texto espiritual, lendo, ouvindo, ou simplesmente relembrando. O segundo passo consiste em refletir sobre isso, procurando ver como se aplica à nossa vida e tomando uma decisão prática a res-peito. Finalmente conversamos com Deus a respeito do que meditamos, adorando-o, louvando, pedindo sua aju-da, agradecendo. A meditação exige sempre algum méto-do, deve ter começo, meio e fim. Será muito bom se ti-vermos um horário previsto para ela, se possível um local adequado, um texto que nos possa ajudar e evitar que fiquemos a remoer sempre as mesmas idéias.

A Oração Conjugal deve ser feita diariamente, se possível. Oração conjugal não é simplesmente uma ora-ção qualquer feita pelo casal, por exemplo recitando o rosário. Deve ser uma oração do casal, a partir da vida conjugal, de seus anseios e preocupações. O casal que realmente se ama, que partilha tudo, não irá encontrar dificuldade em partilhar também sua oração.

A Oração Familiar deverá ser praticada na medida do possível. E exige muito tato, principalmente quando os filhos chegam à adolescência. Não tentem impor a eles nenhuma forma de oração; tentem conquistá-los e des-pertar sua iniciativa e sua criatividade. Se não for possível uma oração familiar diária, quem sabe será melhor convi-dá-los para a oração em ocasiões mais marcantes da vida familiar. 40

A Regra de Vida é ponto muito característico da pro-posta das Equipes para a caminhada espiritual do casal. Em primeiro lugar, o casal e cada um dos cônjuges de-vem ter um adequado conhecimento de sua realidade. Devem examinar-se para conhecer suas qualidades e seus defeitos, suas fraquezas, os perigos que os cercam, os meios e as circunstâncias de que podem dispor na caminhada em busca da perfeição.

A partir desse conhecimento, poderão estabelecer e escalonar metas no seu esforço para corrigir falhas e crescer em boas qualidades. Para isso deverão fazer pro-postas realistas, precisas e concretas, possíveis e desafi-adoras. Se for o caso, que se prevejam oportunidades e prazos, bem como um sistema de controle para se aferir o progresso ou o recuo. Os mestres espirituais sempre in-sistiram muito na necessidade de um exame de consciên-cia periódico, se possível até diário. Não é preciso que o outro saiba qual a regra de vida que você se estabeleceu, se bem que isso às vezes possa ajudar.

O Dever de Sentar-se ou diálogo conjugal. Deve ser pelo menos mensal, com dia e hora previstos na agenda do casal, com tempo e local favoráveis. Seu tema central deve ser a vida do casal, sob todos os seus aspectos; outros assuntos sejam deixados para outra oportunidade. Que o diálogo seja feito sempre num clima de oração, na presença de Cristo.

Algumas regras simples podem ajudar: jamais inter-rompa o que o outro está dizendo; não conteste imedia-tamente, não tente logo explicar-se; não julgue a intenção do outro; mais do que afirmar algo como fato, prefira falar de sua maneira de o ver; não cobre resposta ou decisão imediata: dê tempo para a reflexão e a assimilação; em vez de fazer exigências, fale do que gostaria que aconte-41

cesse; não exija do outro uma confissão de culpa: conten-te-se com sua mudança de comportamento.

Façam do dever de sentar-se um momento de revela-ção mútua: falem sobre si, sobre seus sentimentos, me-dos, alegrias, problemas e esperanças. Não caiam na ten-tação de fugir para os comentários sobre outros assuntos e outras pessoas. Quem sabe, o casal bem que poderia manter um diário de bordo, em que fosse registrando sua caminhada, suas decisões, derrotas e vitórias. Isso ajuda-ria muito a manter um controle mais realista da vida con-jugal.

Conclusão

Quanto ao retiro anual, não vou comentar. Mas será bom insistir que, para a caminhada metódica na procura da santidade do casal, é de suma importância a partilha na reunião de equipe. Partilha bem feita, que não seja simples prestação de contas com monossilábicos sim ou não. Partilha que seja troca de experiências e de mútua ajuda na caminhada para a santidade conjugal. Por isso, é preciso que a partilha seja clara, sincera, sem rodeios, manifestando o que de fato experimentaram e viveram desde reunião anterior. Não inventem, não dêem descul-pas. Falem de suas descobertas na oração, dos novos caminhos encontrados para estar em contato com Deus. O que fizeram para não se esquecer deste ou daquele ponto concreto de esforço. Peçam ajuda para alguma difi-culdade encontrada. Procurem ajuda para descobrir o que Deus quer do casal no momento. Não fiquem indiferentes e em silêncio diante de angústias de alegrias manifesta-das pelos outros. 42

Tenham coragem de, na partilha, fazer e aceitar a correção fraterna. Digam honestamente o que pensam da maneira de alguém proceder. Não para acusar, mas para ajudar a mudar, para indicar alternativas e saídas. Diante de uma correção fraterna, não partam imediatamente para a negação ou a desculpa; dêem-se o tempo necessário para analisar melhor o que disseram. 43

5 – A VIVÊNCIA CRISTÃ DA SEXUALIDADE

Introdução

Temos de refletir agora sobre um tema que nem sempre é posto em relação com a espiritualidade, ou seja, a vivência da sexualidade, tanto em nível pessoal, como em nível conjugal.

Cito inicialmente um texto um pouco longo do pa-dre Caffarel, texto tirado do documento de Chantilly (O Carisma Fundador das ENS, em 3 de maio de 1987, na reunião dos Responsáveis Regionais da Europa em Chantilly, edição revisada, p. 18-19). Nessa passagem, ele comenta um inquérito realizado entre os equipistas sobre a sexualidade:

“A primeira coisa que me impressionou fortemente foi o mutismo dos pais a tal respeito. Uma negligência de 95%. Vocês irão dizer-me: ‘Essas respostas são de 1969; não são de casais de 1987. Duvido, porém, que haja atu-almente um progresso muito grande nesse domínio. Por-tanto, mutismo dos pais, o que quer dizer dificuldade da maior parte dos filhos, rapazes e moças, dificuldade de que eles não ousam falar, e consequentemente sentimen-to de culpa, muitas vezes sentimento neurótico de culpa. Impressionam-me essas perturbações durante a infância, essas consciências perturbadas durante anos, o que quer dizer noivados mal vividos, porque os pais não dizem na-da e os padres não dizem muito mais. Muitas vezes, um grande número de noivados são mal vividos, porque os noivos não sabem exatamente, como eles dizem, o que é permitido e o que é proibido. Começo do casamento mui-tas vezes catastrófico, a um ponto que eu nem imaginava, porque não se fala disso. A harmonia sexual raramente é alcançada no começo. Muitas vezes é preciso esperar 44

dois ou três anos, por vezes dez, quinze anos e, em mui-tos casos, jamais realizada. E esse inquérito revelou-me até que ponto ela é de importância capital.

Desse inquérito igualmente verifiquei que o sentido cristão da sexualidade é quase totalmente ignorado pelos casais das Equipes. Não chegam a 2% os que dão uma resposta verdadeiramente rica a estas perguntas: ‘Qual é o sentido cristão da sexualidade? Como viveis cristãmen-te a vossa sexualidade?’

E é aí que reconheço que os da Igreja, quanto a esse ponto, não são fiéis à sua missão. Prega-se a mora-lidade no matrimônio, diz-se o que é permitido e o que é proibido, mas não se oferece ao cristão casado um único livro (não existe!... digam-me se conhecem algum!...), não se oferece um único livro sobre a maneira de (desculpem a expressão, que antes eu detestava, que é um pouco vulgar, mas que me parece importante) a maneira de bem ‘fazer o amor’, de bem viver a relação sexual. E com isso os casais cristãos, como os outros, vivem uma sexualida-de de bárbaros. Não tenho tempo de lhes dizer agora co-mo depois evoluí, graças às confidências e averiguações que fiz junto de certos casais. O que lhes digo, como coi-sa que não foi feita e que se impõe, é que é absolutamen-te preciso guiar os casais para a perfeição humana e cris-tã da relação sexual”.

Pois bem, diante dessas palavras de padre Caffa-rel, é que vou me atrever a dizer alguma coisa para vocês sobre a vivência cristã da sexualidade. Mais uma vez per-feitamente consciente que o ideal seria uma apresentação feita por casais, fruto de experiência vivida. O que vou apresentar sirva, pois, mais como desafio e incitação para que os casais comecem a refletir, comecem a conversar sobre isso nas equipes, convencidos afinal que a vivência da conjugalidade em toda a sua plenitude, portanto tam-45

bém na vivência da sexualidade, é caminho de perfeição. Convencidos que existe um nexo que não podem esque-cer entre sua vida de marido e mulher e sua oração, sua espiritualidade, seu amor a Deus e sua abertura para o mundo.

1. Somos sexuados, não apenas te-mos órgãos sexuais

Podemos começar nossa caminhada a partir de uma constatação óbvia: somos seres, pessoas sexuadas. Não apenas temos órgãos sexuais: somos homens ou somos mulheres. Somos homens ou mulheres em tudo e para tudo. É nossa maneira de ser, é nossa maneira pró-pria de nos situar nesse mundo de Deus. É a nossa ma-neira de nos situar no relacionamento com outros homens e outras mulheres.

Somos homens e mulheres. É como homens e mulheres que pensamos, que conhecemos, que nos rela-cionamos, que amamos e nos comunicamos. É exata-mente na medida em que assumimos plenamente essa nossa identidade masculina ou feminina que podemos ocupar corretamente nossa posição no mundo de Deus, na sociedade e na Igreja. É assim que temos de assumir a vida. É assim que temos de procurar a nossa realiza-ção. Dom Valfredo Tepe, diz que “a aceitação construtiva dessa diferença de homem e mulher é básica para a auto-realização de qualquer pessoa humana e para seu rela-cionamento autêntico com outras pessoas do mesmo ou de outro sexo, diferentes entre si por tantos outros aspec-tos e fatores” (Valfredo Tepe, Diálogo e auto-realização, 4ª ed., Ed. Mensageiro da Fé, Salvador, p. 25).

Isso faz parte do plano de Deus. Se olharmos para a Escritura, já os antigos, na sua reflexão, perceberam 46

que Deus não criou pura e simplesmente o ser humano. Ele criou o ser humano homem e o ser humano mulher, de tal maneira que essa dualidade irá constituir a grande-za de sua criação, seu ponto mais alto. É enquanto ho-mem, é enquanto mulher que somos reflexos de Deus. O Senhor nos fez à sua imagem e semelhança, o Senhor criou o ser humano homem e mulher.

Essa realidade vai marcar nossa maneira de amar. Amar é ligar-se, é estabelecer contato, é estabelecer comprometimento, é relacionar-se, é colocar-se com os outros numa correta relação de dar e receber, de ajudar e ser ajudado, de aprender e de revelar. Como homens e como mulheres é que amamos a Deus e amamos os ou-tros. Principalmente no amar os outros nós, homens e mulheres, vamos ser condicionados pela nossa sexuali-dade. Nesse conjunto de atrações, de afetos, de adesões, de dar e receber, que nos une a outras pessoas.

2. Sexualidade pessoal

Essa dualidade enriquecedora do ser homem ou mulher não se manifesta apenas no matrimônio, mas, em toda a vida humana. Nós homens precisamos desespera-damente de vocês mulheres. Vocês mulheres precisam desesperadamente de nós homens, porque é somente assim, nesse contato, nessa convivência, nesse confron-to, nessa atração e nessa repulsão, nessa procura de a-juda mútua que crescemos. É fácil ver na experiência o que significa para um rapaz o ter tido ou não uma ou duas irmãs; a marca deixada por uma mãe na alma de um ho-mem, a marca deixada por um pai na alma de uma mu-lher.

Pena que nossa vida social esteja dominada ape-nas por uma visão utilitária da sexualidade. Normalmente não se olha a pessoa que é homem ou que é mulher. O-47

lha-se apenas para o macho e para a fêmea, como al-guém que se deve conquistar, usufruir ou invejar. Com isso se perde o enriquecimento que vem da convivência e do trabalho continuado ao lado de uma mulher ou de um homem. Sorte nossa se soubermos conviver com pessoas do outro sexo vendo nelas ajuda, revelação, manifestação de um mundo que não conhecemos muito bem. Claro que para isso é preciso haver maturidade, é preciso saber manter decisões e limites.

A amizade entre homens e mulheres geralmente passa a ser um laço e um perigo, quando no plano de Deus deveria ser uma bênção. De tal maneira que o rela-cionamento conjugal de um casal iria encaixar-se harmo-niosamente num conjunto mais amplo, que lhe acrescen-taria conteúdo e profundidade.

Somos homens e mulheres e temos de viver como homens e mulheres. Para viver de maneira cristã a sexua-lidade temos, em primeiro lugar, de nos assumir como homens e mulheres na plenitude, na totalidade de nossa vida. Isso é fundamental para o nosso correto relaciona-mento com Deus, com os outros, com o mundo.

A natureza sexuada por si mesma exige diálogo com o outro, principalmente com o outro que é mais dife-rente, mais outro, porque é do outro sexo. A sexualidade não deve ser fonte de conflito, não deve ser território de caça. O convívio entre homens e mulheres tem de ser encontro para o diálogo, para que se revelem e se mani-festem o que são, partilhem sua visão de Deus e do mun-do. Isso é fundamental para o enriquecimento de ambos os sexos.

Esse diálogo entre homem e mulher deve partir da verdade; desse reconhecer o homem, desse reconhecer a mulher como alguém diferente de si mesmo, mas ao 48

mesmo tempo igual em dignidade, igual em grandeza, merecedor e merecedora de um mesmo respeito.

Esse diálogo tem de ser um enfrentamento marca-do pela maravilha diante de um mistério. Mistério de um ser humano, ainda maior pelo fato de ele ser homem ou mulher, diferente de nós. Mistério de um território desco-nhecido, cuja riqueza podemos apenas entrever. Diante desse mistério nasce a admiração, encanto por esse mo-do de ser mulher, por esse modo de ser homem, por esse modo de ser que ao mesmo tempo nos escapa e nos faz falta, que nos pode enriquecer e completar. Descoberta sempre renovada que nos leva ao respeito e à vontade de um conhecimento mais profundo. Desse diálogo e desse contato deve nascer a acolhida. Acolhida no amor, no respeito, na compreensão, na amizade, na solidariedade. Porque é somente nesse clima que será possível nascer o verdadeiro amor, amor que leva à partilha de vida na ami-zade, ou à partilha total de vida conjugal entre um homem e uma mulher.

A vivência cristã da sexualidade exige que procu-remos desenvolver plenamente em nós todas as potencia-lidades do modo de ser masculino ou feminino. É preciso educar, fazer crescer e desenvolver-se as potencialidades desse nosso ser sexuado. Somos diferentes, temos de ser diferentes, e sendo diferentes é que nos podemos completar, é que podemos compor o grande mosaico da obra do Criador. Como homens e mulheres temos de con-trolar nossas limitações, inseparáveis de nosso ser mas-culino ou feminino. E nesse controlar nossas limitações, e nesse desenvolver nossas potencialidades muito somos ajudados exatamente pelo encontro e o convívio com o outro sexo, dentro ou fora do matrimônio.

É verdade. Tudo isso poderia ser bastante mais fá-cil se houvesse uma verdadeira educação para a sexuali-49

dade. Se houvesse formação da pessoa enquanto homem ou mulher, para saber relacionar-se na amizade e no a-mor com o outro sexo. Se houvesse essa formação, essa educação para a sexualidade, sem dúvida nenhuma, a vida dos casais seria profundamente diferente.

Essa educação para a sexualidade raramente a-contece. É fácil dar informação, é fácil ensinar biologia, é fácil ensinar anatomia. Mas ensinar a ser gente homem, ensinar a ser gente mulher, ensinar a tratar gente homem e gente mulher, isso é um pouco mais difícil. Temos de pessoalmente, cada um por si, fazer uma opção pela vi-vência plena da nossa sexualidade. Todos temos de to-mar uma decisão: ou viver nossa sexualidade no celibato, ou viver nossa sexualidade no relacionamento conjugal. Essa é uma opção básica em nossa vida. E muitos confli-tos e muitas desgraças nascem do fato de essa opção não ter sido feita livremente ou maduramente. Quantos se casam porque todo o mundo se casa; quantos abraçam o celibato levados pura e simplesmente por um romantismo religioso, que não tem nada de cristão e não vem de Deus. É claro, há situações em que a pessoa praticamen-te é obrigada a viver em celibato porque, por uma razão ou outra, não é possível ou aconselhável o casamento. São casos excepcionais, que precisam de acompanha-mento, nem que seja para serem assumidos e carrega-dos como pesada cruz.

3. A sexualidade conjugal

No casamento, o relacionamento entre homem e mulher não é apenas um relacionamento sexuado, como aquele que existe entre todos os homens e todas as mu-lheres. No casal esse relacionamento será um relaciona-mento plenamente sexual, ou seja, a vivência da sexuali-dade vai ganhar formas novas de manifestação. Por isso 50

mesmo o casamento supõe pessoas razoavelmente ma-duras na sua sexualidade e dispostas a crescer sexual-mente como casal.

Diálogo de amor

Esse relacionamento é plenamente sexual, e quando digo relacionamento plenamente sexual, não es-tou pensando apenas no encontro sexual. Ou se me per-mitem usar uma palavra que pode parecer dura, mas é clara e objetiva, o relacionamento sexual não se reduz ao coito. O relacionamento sexual, do qual estou falando, na vida do casal atinge a vida toda. Com esse homem, com essa mulher você não se relaciona, não conversa, não se revela, não tenta compreensão apenas como homem e mulher, mas, como esposo e esposa, dentro de uma rea-lidade totalmente nova e exclusiva de vocês dois.

Esse relacionamento plenamente sexual significa que, não só na cama, mas em toda a vida, ele tem de ser Adão para ela, ela tem de ser Eva para ele; em tudo, no jeito de se portar, no jeito de falar, no jeito de se revelar, no jeito de olhar, no jeito de tocar, no jeito de estar lado a lado. É a vida toda que tem de ser marcada por esse mo-do de ser esponsal. Tantas e tantas frustrações na vida matrimonial nascem exatamente do fato de tudo estar centrado no leito matrimonial. Isso não é suficiente para o coração de nenhum homem, de nenhuma mulher. Marido e mulher precisam encontrar na sexualidade, assumida na sua totalidade, um tesouro, uma riqueza a ser vivida du-rante a vida toda e não só na ternura e no ardor dos pri-meiros tempos. É preciso que, para além de toda a idade, de todas as limitações físicas que possam ir aparecendo, é preciso que ele continue sendo sempre Adão, e ela con-tinue sendo sempre Eva, num relacionamento pleno e total. 51

Abaixo de Deus, só podemos ter satisfação no en-contro amoroso com outras pessoas; encontro amoroso nas suas diversas formas. As coisas, o poder, o simples prazer físico, jamais serão suficientes para satisfazer, en-cher plenamente a medida da nossa fome de felicidade. O casal tem de aprender a viver assim intensamente sua sexualidade conjugal na plenitude. E viver a sexualidade na sua plenitude significa viver num contínuo diálogo de amor.

A sexualidade possibilita conhecer-nos como ho-mens e mulheres; mas, de modo especial, é a possibilida-de de marido e mulher se conhecer. Esse conhecer, ex-pressão que aparece várias vezes na Sagrada Escritura, que incluí tudo, a experiência física, a experiência tátil, a experiência do coração, o conhecimento do íntimo da ou-tra pessoa, esse conhecer que significa de certa maneira assimilar o outro para transformá-lo em si e para se trans-formar nele. A sexualidade é a possibilidade de diálogo no amor, no casamento e fora do casamento, de maneira diferente sim, pois no casamento homem e mulher reve-lam-se completamente, deixando cair todos os véus. Na passagem do Gênesis, eles estavam nus e não se enver-gonhavam, um era plenamente transparente para o outro. Resultado do pecado é a vergonha, não vergonha de mostrar o corpo e revelar os órgãos sexuais, mas vergo-nha de ser transparente para o outro. E é isso, é essa u-nidade que marido e mulher tem de reconstruir. No casa-mento, essa capacidade de diálogo, a partir da sexualida-de, é trabalhada, é aprofundada e engloba o relaciona-mento sexual. Mas somente o amor é de fato chave para esse diálogo, para esse encontro. Do contrário, teremos apenas encontro de corpos e de órgãos, enquanto cora-ções e mentes, pensamentos e sonhos, esperanças e medos, continuam dormindo em camas completamente separadas. 52

Assumir a lei do amor

Para viver plenamente a sexualidade conjugal é preciso assumir, aceitar a lei do amor, pois a vivência da sexualidade é dialogo de amor. E a primeira exigência para o amor é ser plenamente homem, é ser plenamente mulher; é ser homem para essa mulher, e é ser mulher para esse homem, de forma única e insubstituível. É uma experiência que não pode co-existir com outros tipos de relacionamento. A linguagem do amor, a lei do amor diz que todo o relacionamento sexuado ou sexual, entre ma-rido e mulher, deve expressar o amor. Cada gesto, cada olhar. E expressar o amor não é algo indefinido ou abstra-to. Expressar o amor é dizer continuamente para alguém: “você é a minha escolhida, escolhida entre mil, entre mi-lhões, você é única; você é o meu escolhido, escolhido entre mil, entre milhões, você é único”. Manifestar amor é manifestar apreciação: como você é bom, é boa para mim, como admiro seu jeito de ser, como admiro sua fir-meza, seu dengo, como admiro seu olhar, como admiro suas palavras, como admiro sua iniciativa, como admiro sua ternura. Manifestar amor é manifestar apreciação por palavras ou, e aí precisa aprender uma linguagem nova, por simples gestos, por olhares, pela simples maneira de ser.

Palavras, de vez em quando, podem ajudar. Mas geralmente as palavras são pobres demais. Por mais que você diga “eu amo você”, o outro vai sempre dizer “repi-ta!”. Mas, se você mostra amor, já não é preciso dizer na-da, porque foi recebido o dom, e onde há dom, onde há entrega, quando alguém se faz presente, já não é neces-sário usar palavras que expliquem o dom ou o presente. 53

Cultivar o amor

A lei do amor exige que todo relacionamento seja marcado pelo afeto, por essa repercussão causada em nosso interior pela presença de uma pessoa. Porque essa pessoa está em nossa vida, já não somos os mesmos. Fomos afetados interiormente, fomos transformados ante-riormente. É preciso que o relacionamento seja guiado sempre pela atração, por uma atração mútua, aceita, mantida, aprofundada, avivada sempre. Com o passar dos anos essa atração de um pelo outro não pode diminu-ir, pode apenas transformar-se. Atração em todos os sen-tidos; essa atração é de certa forma o imã, o adesivo que impede que o casal se desfaça.

É preciso que a linguagem do amor signifique satis-fação. Satisfação vem do latim “satis”, que quer dizer sufi-ciente, que basta, que preenche. Satisfação é ter o sufici-ente, não sentir falta de nada. Pois bem, a linguagem do amor exige que se procure dar ao outro satisfação e se procure encontrar no outro satisfação. Isso exige saber quais são os anseios, os desejos e os sonhos do outro; significa sair de si mesmo, renunciar a si mesmo, doar-se para tentar completar, enquanto nos é possível como cria-turas humana, esse vazio que ele e ela vão carregar sempre, e que você vai conseguir preencher somente quando já não existir para vocês nem tarde, nem noite, quando já estiverem lá, na plenitude de Deus.

Aprender a lei do amor

O amor, a linguagem do amor é dar alegria. É frui-ção mútua, linguagem usada tantas vezes no Cântico dos Cânticos: Eu sou para você, você é para mim, para você eu sou diferente de todas, para mim você é diferente de todos, e você é para mim a alegria e você é para mim a minha maior riqueza. Ou o casamento é isso, ou não paga 54

a pena. Isso não é romantismo, é prestar atenção e ouvi-dos à necessidade que cada ser humano traz dentro de si. Manifestar amor concretamente é mostrar carinho, é mostrar ternura. Importante é que esse amor é algo de concreto, realidade muito ampla que abrange toda a vida e toda a pessoa.

O amor tem suas leis. O amor jamais usa alguém, nem sexualmente. O amor nunca faz chantagem emocio-nal. O amor nunca apela para o poder, o amor nunca ape-la para a força, o amor não usa ninguém. Amar, amar é sair de si. Amar é saber dividir-se com outra pessoa. Vo-cês lembram, tempos atrás, as revistas e os jornais trazi-am um quadrinho “Amar é...”. Pagaria a pena recuperar aquelas idéias.

Amar é sair de si. Quem não quiser sair de si, para se doar e se preocupar com outra pessoa, não se case. Amar é entregar-se. Não é abandonar sua própria felici-dade, renunciar a seu eu. Não. É procurar felicidade fa-zendo a felicidade do outro, é procurar realização fazendo a realização do outro, é assumir um projeto conjugal de vida. Conjugal: essa expressão vem do latim, de uma pa-lavra que significa jugo, canga. Conjugal é a situação de quem está ligado por uma canga. Mas não é canga de escravidão, não é canga de opressão, é canga que permi-te unir esforços, que ajuda a caminhar lado a lado, que ajuda a compreender quem está do outro lado e a não caminhar mais depressa do que ele pode. Que ensina a fazer esforço máximo possível, para tentar acompanhar o esforço de quem está do outro lado. Isso é sair de si, isso é doar-se.

Amar é não se colocar nem antes, nem depois, mas colocar-se lado a lado, e ao mesmo tempo frente a frente para aprofundar o conhecimento mútuo, para apro-fundar a aliança. Lado a lado para enfrentar a vida e ca-55

minhar para Deus, caminhar para aquele horizonte que se entrevê ao longe, para onde se quer ir, aonde interessa chegar.

Para viver a sexualidade conjugal de maneira cristã é preciso cultivar o amor. A sexualidade é possibilidade de contatos, de diálogo, de manifestação de amor. Para ter o que manifestar, para ter o que conversar com o ou-tro, é preciso cultivar o amor.

O amor, em uma de suas formas, é atração entre um homem e uma mulher. Atração física, atração român-tica, atração intelectual e também atração que nasce da caridade sobrenatural, da capacidade nova de amar in-fundida por Deus. Isso é que leva um homem e uma mu-lher a se sentirem chamados um para o outro. Pois bem, essa atração, por mais forte que seja, pode embotar-se e desbotar. Por isso mesmo é necessário que seja continu-amente alimentada, que continuamente o casal esteja a recuperar aqueles motivos pelos quais se sente um atraí-do pelo outro. O amor conjugal, enquanto vem de Deus, tem de ser continuamente implorado como graça e como dom a ser conservado “em vasos de argila” (2Cor 4,7).

O amor pode ser considerado como afeto. Afeto é o impacto interior causado em nós por uma pessoa. Não é algo racional, não é algo que possamos justificar ou con-trolar. É algo que acontece, mas exatamente por isso também é algo que pode passar e acabar. É como certas fotografias, principalmente essas fotos coloridas, que de-penduradas na parede, onde bate o sol, aos poucos vão desaparecendo. E na vida do casal é uma tragédia quan-do o afeto desaparece. Porque o afeto é exatamente aqui-lo que em primeiro lugar nos leva a ação e à reação. An-tes de pensar, antes de raciocinar, antes de pesar prós e contras ele já nos inclina numa direção. Isso é importante para nós, importante de maneira especial para o casal. 56

Quanta tentação acaba fazendo ninho na cabeça de um homem, de uma mulher, exatamente porque o afeto de-sapareceu. E, quando o afeto desaparece, facilmente ins-tintos vão subindo para ocupar seu lugar.

O amor pode ser considerado como escolha, deci-são livre envolvida no querer casar-se com essa pessoa. Mas, decisão tomada pode ser decisão mudada. A nossa vontade muda. É verdade que não pode e não deve; mas muda. Por isso, é preciso que continuamente estejamos repetindo para nós mesmos os motivos que nos levaram a essa escolha e decisão. É preciso que continuamente es-tejamos a renovar nossa adesão e nosso compromisso: afinal, amar é comprometer-se. Nossa cabeça funciona seletivamente. Se prestamos atenção só nas cores cin-zas, temos um resultado; se olhamos principalmente para as coisas mais alegres, o resultado será outro. Pois bem, coloque sempre em primeiro plano as razões que levaram você a escolher esse homem, essa mulher; as razões que hoje ainda levam você a escolher esse homem, essa mu-lher. Nossa decisão pode mudar. O amor é frágil, porque nós somos frágeis. Somos volúveis. Lembram-se daquela ária “La donna é mobile...”? Não, não é a mulher que é volúvel; volúvel é o coração humano, que muda mais do que o vento. É preciso, então, que o casal se firme na sua decisão, redescobrindo os motivos para amar, reafirman-do a escolha, reafirmando a aliança, amadurecendo para uma caridade sempre maior.

Se você quer conservar, se quer ser fiel a seu a-mor, se quer crescer no amor para com esse homem, pa-ra com essa mulher, seja fiel no seu amor para com Deus. Cresça nesse amor para com Deus, e peça que Ele conti-nuamente aumente seu amor. Quem se separa do Se-nhor, acaba separando-se também de uma pessoa, por mais que a tenha amado no passado. 57

Aprender a língua do amor

Para cultivar o amor, é preciso também aprender a língua do amor, que é uma língua abrangente, que não se restringe apenas ao encontro genital, aos limites do leito conjugal.

A linguagem do amor tem de ser aprendida, porque não é inata. Em primeiro lugar é preciso que o casal a-prenda a língua do outro, o código do outro, o que o outro quer de fato manifestar através das palavras que usa, a-través dos gestos que faz, do contrário haverá tragédias. Amor é relacionamento entre pessoas, não é a mesma coisa que matemática ou física ou geometria. No relacio-namento entre as pessoas é absolutamente indispensável a emoção, o afeto contido nas palavras, nos gestos. Nu-ma palavra, é preciso poesia. Sem perceber um valor grande nas coisas mesmo pequenas, sem saber colocar nas palavras e nos gestos um valor novo que vem dessa visão superior da vida dominada pela emoção, por essa intuição de valores que não conseguimos exprimir em pa-lavras, sem isso o amor acaba mudo, e amor mudo é a-mor falecido.

É preciso aprender a linguagem do corpo, dos sen-tidos, a linguagem dos ritos do amor. É preciso cuidar do ambiente, não apenas do quarto nupcial ou conjugal, mas também do jardim, da casa, ainda que seja uma casinha de pau-a-pique, coberta de sapé. Alguma coisa tem de existir nessa casa que a transforme, que lhe dê um toque especial, que faça desse barraco que seja um lar de dois que se amam e vivem na união. Estamos sendo ultima-mente utilitaristas demais. Temos de redescobrir esses valores ocultos. Nesses meus quarenta e oito anos de confidências e mais confidências de casais, quantos vi infelizes por não terem aberto os olhos para esse mundo 58

de significados que é o mundo da poesia. Criem esse ambiente rico de sentidos.

Cultivar a linguagem do amor exige fazer-se atra-ente. Não é porque muitas rugas já se formaram que você pode dar-se o luxo de não mais se importar com sua apa-rência. A aparência, a realidade física também é dom de Deus, e a beleza não está em ter ou não ter rugas. A be-leza está em você, de um jeito ou de outro, saber fazer-se e mostrar-se atraente, pela sua maneira de ser, de se cui-dar, mostrando que o outro é importante para você, e que você é importante para ele, sendo para ele imagem de alegria, felicidade e paz. Isso é fundamental.

Aprender a linguagem do amor significa aprender a dar e a receber. No casamento, não basta dar. No livro do padre Caffarel, “Nas encruzilhadas do amor”, temos aquele capítulo sobre a mulher perfeita. “Já não agüento minha mulher é perfeita demais para o meu gosto!”, la-menta-se um pobre marido. Querer apenas dar, sem nada receber, é colocar-se no pedestal, na atitude de quem é superior, suficiente para si mesmo. Amar é saber aceitar e receber; é saber dizer que precisa, que precisa tremen-damente do outro. A lei do amor é dar e receber. O con-trário não é amor, é egoísmo, é posse, é usufruto. Essa lei aplica-se a todo o conjunto da vida, mas volta e meia é esquecida, até mesmo no relacionamento sexual, no en-contro no leito conjugal. Alguns se preocupam apenas em receber, e outros se preocupam apenas em dar.

É preciso que haja dar e receber na procura da sa-tisfação, no procurar fazer o outro feliz enquanto é possí-vel neste mundo de Deus. Satisfação também dos senti-dos e dos anseios de homem e de mulher, pois que tam-bém isso é dom de Deus, ainda que dom limitado, por enquanto apenas adiantamento de um dom maior que ele nos promete. Ajudar o outro a realizar-se plenamente co-59

mo pessoa, como homem, como mulher; ajudar o outro a valorizar-se. É preciso procurar e oferecer enquanto pos-sível, o máximo de satisfação nesta vida. Satisfação no sentido de a pessoa sentir-se bem com Deus, consigo mesma, com os outros e com o mundo. Dar e receber, significa aceitar que a outra pessoa também se preocupe com você. Entender que não é implicância dela, se vive sempre pondo à sua frente o frasco de adoçante, ou a caixa de comprimidos.

Amor e fidelidade

O amor exige fidelidade. A intimidade sexual é pro-va de total confiança, de total aceitação de uma pessoa. É um desnudar-se completamente perante o outro, é entre-gar-se plenamente em total confiança, deixando que o outro se enriqueça com o seu dom. Por isso mesmo essa intimidade, essa manifestação de escolha e de amor con-jugal exige plena e total fidelidade. A fidelidade que não é apenas imposição legal e externa de Deus ou da socieda-de. Fidelidade total e absoluta é lei, é exigência que nasce do próprio amor. Casar-se com alguém é prometer e es-perar fidelidade e exclusividade. Promiscuidade não com-bina com amor; só interessa a quem está apenas a cole-cionar orgasmos. Temos de ter pena desses coitados, dessas coitadas que vivem rolando de cama para cama. Devem ter um vazio tremendo no coração. Procuram inu-tilmente o que nunca poderão encontrar, porque ainda não descobriram o amor, porque anda não amadureceram o bastante para poder amar.

O casal cristão deve ser maduro e deve ser capaz. O afeto, como vimos, é volúvel. Se você quer ser fiel, in-dependentemente da sua situação e da sua idade, contro-le seus afetos. Não importa se você é casado há cinqüen-ta anos, não importa se está com oitenta anos, não impor-60

ta se está há cinqüenta anos nas Equipes de Nossa Se-nhora. Se você descuidar, vai cair. Se não tomar conta, se não mantiver firmes as rédeas dos afetos, eles tomarão os freios nos dentes e levarão você para onde nem imagi-nava que pudesse ir. Não importa sua situação, sua ida-de; se não tomar conta de seus olhares, seus olhares vão atrair você para o abismo. Ver, não depende de nós. Bas-ta estar de olhos abertos. Mas olhar, fitar, apreciar, admi-rar, isso depende de nós. E se olhamos e apreciamos, nosso coração pode perder a cabeça. Essa é a experiên-cia, e vocês não a ignoram. Quem ama não anda a caça. Por isso mesmo anda atento para não se deixar atrair, nem enredar. Sem vigilância é fácil a sedução.

Amor e abnegação

O amor, que deve ser vivido e manifestado na se-xualidade, entre outras coisas exige abnegação. Segundo padre Caffarel, a sadia vivência da sexualidade, também dos celibatários, exige duas pernas para se manter em pé e para caminhar, ou se preferirem duas asas para crescer e subir. Exige abnegação e exige amor.

A abnegação consiste em a pessoa não se fechar no “para mim”, mas abrir-se na disponibilidade para o ou-tro. Abnegação significa colocar Deus em primeiro lugar na vida. Abnegação significa aceitar e seguir uma reta escala de valores na vida. Abnegação é não procurar sempre o mais fácil, o mais agradável. É saber abraçar também o difícil e o menos atraente. Abnegação é saber dominar os instintos, as inclinações, os impulsos. Por isso mesmo a abnegação exige ascese, esforço continuado e ordenado para a caminhada espiritual.

A vivência cristã da sexualidade exige que se dê valor à sexualidade, que se dê valor às coisas da carne e às coisas do coração. Exige que reconheçamos na sexua-61

lidade um dom de Deus, um caminho para o crescimento. Não podemos rejeitar, temer, odiar, excomungar a sexua-lidade. Vem de Deus e deve levar para Deus. É preciso, sim, que saibamos ver nos bens da sexualidade símbolos e promessas de bens maiores. É preciso que saibamos ver, na satisfação que nasce do encontro entre homem e mulher, pequena amostra, pálida imagem da alegria, da felicidade, da plenitude que o Senhor promete na outra vida. Com isso saberemos também relativizar devidamen-te a sexualidade.

Na vida conjugal, uma forma de abnegação é colo-car a vida sexual acima dos humores do momento. Saber dar satisfação e alegria ao outro mesmo se... e não as-sumir ares de martírio, mas procurar fazer desse um mo-mento de partilha na paz dos filhos e das filhas de Deus. Abnegação significa que o casal, para amar verdadeira-mente, precisa também aceitar a renúncia, todos os tipos de renúncia. Renúncia que às vezes poderá custar muito, renúncia algumas vezes até mesmo ao encontro no leito conjugal. Que isso não signifique diminuição de amor, mas seja impulso para uma transfiguração ainda maior.

Finalmente renúncia, abnegação significa aceitar os limites do pudor, que varia de pessoa para pessoa; mas que é barreira que não pode ser ultrapassada, sob pena de transformar em invasão o que deveria ser encon-tro de amor. Abnegar-se na vida conjugal significa aceitar o jogo da temperança, da generosidade, da procura e do desprendimento.

Conclusão

Bem meus amigos, minhas amigas, essa apresen-tação é uma tentativa, é um ensaio. Não sei se era exa-tamente isso que vocês pensavam, não sei se era exata-mente isso que esperavam, não sei se isso de fato cor-62

responde ao que deveria ser dito. É preciso que vocês casais, principalmente vocês casais das Equipes de Nos-sa Senhora, reflitam sobre esse tema e ajudem a cami-nhada de outros casais. Espero que numa próxima opor-tunidade aqui esteja não um celibatário falando para vo-cês, mas um casal que possa partilhar suas experiências vividas, sofridas e usufruídas.

Não fui completo, sei perfeitamente. Pincei certos aspectos. Estou mais interessado em levantar perguntas do que em oferecer respostas.

Aparecida, 23 de setembro de 2005.

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