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KARATE, A ARTE DE TRANSFORMAR VIDAS

RENATO FROSSARD
 
KARATE:

A Arte de Transformar Vidas






 

Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade...

(Confúcio)




Dedico este livro:

 

Ao meu pai Lourivaldo, pelo grande amor dedicado a seus filhos.

           

Ao Sensei Neweton Adas, por sua amizade e apoio incondicionais e por sua total devoção ao karate.

 

Ao Sensei Júlio Olguim, por sua vida dedicada ao crescimento e popularização do karate.

 

A meus queridos alunos.

 

A todos os karatecas e amigos que têm me apoiado ao longo dos anos de prática do karate.

 

                                 

PREFÁCIO

 

Karate, uma arte marcial milenar com adeptos em quase todos os países do mundo, centenas de milhares de atletas, professores e mestres espalhados por todo o globo, um número sem fim de praticantes e simpatizantes, promete tornar-se, em breve, uma das modalidades olímpicas, e o número de praticantes aumenta a cada dia. Apesar disto, pouca coisa digna de nota foi escrita a respeito do Karate até nossos dias. De fato, existe uma grande quantidade de material em cuja capa encontra-se impresso o nome Karate, mas que em seu interior encerra um conteúdo de origem duvidosa, sensacionalista e que, na maioria das vezes, não tem nada a ver com o verdadeiro Karate, sua história, sua filosofia e objetivos.

 

Impulsionado por este fato e pelo desejo de relatar experiências vividas em cerca de 25 anos, divididos entra a prática e o ensino do Karate, decidi empenhar-me na difícil tarefa de escrever um livro. Apesar de consciente do desafio que isto representa, acredito que vale a pena me dedicar a este trabalho, uma vez que esta será uma forma de fazer por esta maravilhosa arte um pouco em gratidão a tudo que ela tem feito por mim durante toda a minha vida.

 

Neste livro, procurarei contar sobre o incrível poder transformador de vidas contido na prática do Karate, a prática que vai muito além de um mero exercício físico. Falarei das amizades construidas através da arte, das lições recebidas de vários mestres, do apoio recebido nas horas difíceis, e tantos outros eventos que me levaram a tornar-me hoje uma pessoa bem sucedida e realizada.

Assim, espero poder contribuir para que o leitor conheça um pouco mais a respeito do karate através deste trabalho despretensioso e ao mesmo tempo sério, não sensacionalista, e que não é do tipo "aprenda Karate sem mestre". Meu desejo é que praticantes e não praticantes da arte possam se beneficiar da leitura deste livro, e possam compreender um pouco mais a respeito desta Arte Marcial, arte de transformar vidas!!!

 

 

 

INTRODUÇÃO

BREVE RELATO:

Como Tudo Começou

 

Nasci em Governador Valadares, cidade do interior de Minas Gerais, e cresci em Coronel Fabriciano, vizinha à anterior, no mesmo estado. Devido a problemas familiares, fui criado em meio a um ambiente hostil e violento, e apanhava constantemente de meus irmãos mais velhos e, às vezes, de colegas. No entanto, minha dedicação aos estudos fez com que me tornasse uma pessoa consciente e crítica, e levou-me a buscar uma solução para meus problemas, ao invés de simplesmente me conformar com a situação. Sabia que precisava aprender a me defender, de forma a sobreviver às agressões que sofria diariamente e, assim, poder prosseguir em meus estudos e em minha vida pessoal. Além disto, eu precisava encontrar uma razão, um sentido para minha existência, até então completamente vazia e sem perspectiva de mudança. Cheguei até mesmo a pensar que viveria para sempre apanhando de outras pessoas e que jamais teria coragem de reagir às agressões, pois, afinal, há anos me encontrava naquela situação.

 

O Karate, ou a idéia que se tinha deste, sempre esteve presente na mídia e nos meios televisivos. Nas telas dos cinemas, o herói sempre surgia triunfante, desferindo incríveis golpes contra os adversários e destruindo a todos sem medo e sem piedade. Alguns até chegavam ao extremo de arrancar órgãos internos com a introdução de um “nukite” (pontas dos dedos) no estômago do inimigo. E quem não conheceu a estória de “Daniel San” (Karate Kid: a hora da verdade, 1984)? O filme retrata a vida de um jovem adolescente que vivia apanhando de arruaceiros, até conhecer “Sr. Miyagy”, um velho mestre de karate, que o ensina, e o ajuda a e se livrar dos adversários. Estórias às vezes exageradas e sangrentas, outras vezes românticas e utópicas, mas que, no entanto, tinham um forte poder de atração sobre mim, pois alimentavam minha esperança de libertar-me das surras e de muitos outros problemas.

Assim, aos 12 anos de idade, decidi que aprenderia karate para livrar-me de meus agressores, como faziam os personagens de meus filmes favoritos. No entanto, dois problemas básicos se colocavam entre meu sonho e a sua realização. Primeiro, eu não conhecia nenhuma academia em minha cidade. Segundo, mesmo que eu conhecesse uma academia, eu não tinha dinheiro para pagar as mensalidades. Apesar disso, eu queria muito aprender karate. Então, adquiri algumas revistas e livros que pretendiam ensinar a arte marcial. No começo, foi realmente empolgante executar os movimentos demonstrados nas fotografias. Socos, chutes, defesas, bases, etc. Aprendi rapidamente nomes de movimentos, significados de palavras, origem do karate, estórias e lendas sobre a arte marcial. Através da prática dos exercícios de aquecimento e alongamento, tornei-me flexível e ágil. Apaixonei-me pelo esporte. E até que deu resultado. Eu realmente deixei de apanhar de meus irmãos e de colegas. Não porque eu soubesse karate o suficiente para derrotá-los, mas porque a minha atitude diante dos inimigos já havia sido profundamente mudada pela arte marcial.        

Com o passar do tempo, porém, percebi que o simples fato de treinar através de revistas ou livros jamais faria de mim um verdadeiro karateca. Além disso, meus amigos já começavam a me interrogar, procurando saber em que “faixa” eu estava, em que academia eu treinava, quem era meu mestre, etc. Então eu precisava inventar estórias, fantasiar que era faixa tal, que treinava em tal academia, uma situação nada agradável. Assim, eu sabia que precisava encontrar uma escola, e começar a treinar de verdade. Mas como eu conseguiria fazer isto?

Naquela época, eu havia lido um livro sobre artes marciais, onde o autor dizia que tudo era possível se desejássemos do fundo de nosso coração. Ele falou de sua grande dificuldade para treinar, e dos duros treinamentos enfrentando o frio e a neve. Contou que seu mestre mal falava com os alunos, mas apenas comparecia ao dojo para mostrar os movimentos e então ordenava que repetissem tais movimentos, incessantemente, por horas. Resolvi, pois, procurar uma academia, embora não soubesse como pagaria pelas aulas. Como naquela época não existia a Internete e o jornais e listas telefônicas eram a única fonte de informação, encontrar uma escola de artes marciais não era tarefa fácil. Para minha felicidade, descobri através de um amigo, que havia uma academia de karate em minha cidade. Foi quando conheci meu primeiro professor, Sensei Matias Olguim, e iniciei meu verdadeiro aprendizado do Karate, aos 16 anos de idade. Eu estava radiante e mal podia acreditar que estava realmente treinando karate, com um professor que sabia o que estava ensinando e que conversava com os alunos a fim de orientá-los e prepará-los para as dificuldades e responsabilidades da vida. Lembro-me bem do meu primeiro treinamento. Eu sabia executar as formas, mas desconhecia conceitos básicos como hikiashi e hikite (puxada de pé e puxada de mão). Pensava que deveria permanecer com as mãos paradas após cada golpe. Além disso, sentia vergonha quando o professor nos mandava emitir o kiai (grito). Mas logo eu estava habituado aos treinos e sentindo-me verdadeiramente em casa. Posso dizer, sem dúvida, que esta foi a primeira grande realização de minha vida.

É evidente que logo percebi a enorme diferença entre as telas de cinema e o mundo real, mas a verdade é que o Karate me trouxe autoconfiança e tornou-me uma pessoa mais forte. Com o passar dos anos, a prática do esporte deixou de ser uma simples forma de me defender de agressões físicas, e tornou-se um novo estilo de vida, um hábito saudável, uma atividade física, uma filosofia, um aprendizado, uma humanização, etc. Passei a compreender que o Karate, embora longe de ser daquilo que os filmes demonstravam, era sim uma prática capaz de transformar vidas, já que era capaz de trazer esperança e motivação para um viver saudável, criar laços duradouros de amizade e apontar caminhos alternativos de vida que não fossem destrutivos ou prejudiciais.

Hoje, posso olhar para traz e perceber o quanto eu devo ao Karate e a todos os meus mestres que me legaram esta maravilhosa arte. Sinto que tenho uma imensa responsabilidade agora, de transmitir estes conhecimentos recebidos durante tantos anos àqueles que desejem aprender e colocar em prática em sua vida. Não se trata de um conhecimento marcial apenas, e também não se trata de nenhuma religião ou magia. De fato, durante todo o tempo da prática do Karate eu jamais me esqueci de Deus, nem jamais procurei substituí-lo pelo esporte. Nem tampouco pretendo apresentar esta arte marcial como algo milagroso ou como a solução para todos os problemas da humanidade. O Karate é algo que só pode ser compreendido por aqueles que o praticam com o coração aberto e por tempo suficiente para que os efeitos se façam sentir em sua vida. Aqueles que chegarem a este estágio, praticarão o Karate como se nunca o houvessem praticado, como se cada vez fosse a primeira, ouvindo as palavras do mestre como se nada soubessem e crescendo a cada dia, tornando-se melhores, mas mantendo a humildade como se fossem crianças aprendendo a dar os primeiros passos.


 

 

CAPÍTULO I

O KARATE: História e Evolução

 

Muitas lendas circundam a origem do karate e muitas estórias são contadas a respeito de seu surgimento na tentativa de explicar como a arte marcial se formou, desenvolveu e perpetuou ao longo dos séculos. Muitas destas estórias são carregadas de mistérios e de explicações fantásticas. Muitas destas buscam explicar o karate com base em fatos sobrenaturais e até mesmo mágicos. No entanto, a explicação mais aceita e mais plausível, envolve apenas eventos comuns e perfeitamente aceitáveis do ponto de vista do mundo físico e palpável.

Conta-se que Darhuma, um monge indiano, em certo momento de sua vida, decidiu abandonar os confortos da vida principesca e tornou-se um peregrino a andar pelo mundo. Em suas andanças, chegou ao templo de Shaolin onde pretendia ser aceito como discípulo, mas não foi aceito. Assim, segundo a lenda, Darhuma colocou-se em posição de Zarei e meditou por nove anos ininterruptos em frente ao mosteiro. Vendo sua dedicação e persistência, o mestre daquele templo implorou que Darhuma se tornasse seu mestre.

Ao ensinar as duras técnicas da meditação Zen, Darhuma notou que seus discípulos não podiam suportar as duras e longas horas de treinamento, e muitas vezes caiam no sono. Por ter sido um príncipe, o monge havia aprendido uma técnica de luta conhecida como Vajaramushti, que traduzido quer dizer: aquele cujo punho fechado é um diamante. Darhuma decidiu ensinar tal técnica aos seus discípulos como forma de fortalecer-lhes o físico a fim de que pudessem ter melhor desempenho na prática espiritual da meditação. Os discípulos, por sua vez, não só se tornaram fortes para a prática Zen, mas também se tornaram grandes lutadores, ganhando notoriedade e espalhando a fama dos lutadores de Shaolin por toda aquela região.

Por ter se tornado importante e poderoso na China, o templo Shaolin atraiu o ódio de inimigos daquele país. Certa vez, bandidos envenenaram a água do templo, levando muitos monges à morte e forçando outros a fugir para salvar suas vidas. Estes sobreviventes fugiram para diversas partes do continente, ensinando sua arte marcial nos lugares por onde passavam. Isto explicaria a origem da maioria das artes marciais Sino-Japonesas.

No arquipélago de Ryu-kyu existe uma pequena ilha chamada Okinawa. Embora seja, hoje, integrada ao Japão, a ilha já foi um país independente. Como eram proibidos de usar armas ou aprender qualquer forma de luta para se defender de bandidos ou agressores, os nativos daquela ilha praticavam, em segredo, uma arte marcial conhecida como “Te” ou “Okinawa-Te”. Com a influência recebida da arte dos monges de Shaolin, o Okinawa-Te se complementou e se desenvolveu, passando, mais tarde, a ser chamado de Karate- do.

                              


Antes de receber este nome, porém, o Karate passou por diversas fases. Porque o Okinawa-te se desenvolveu de forma mais intensa nas cidades de Shuri, Naha, e Tomari (importantes cidades de Okinawa) e porque, em cada uma delas, os estilos praticados diferiam essencialmente, cada cidade deu um nome próprio ao seu estilo. Assim, tinha-se o Shuri-te na cidade de Shuri, o Naha-te em Naha e o Tomari-te em Tomari. Todos os estilos tinham em comum a terminação “te”, significando mão ou punho. Era comum nomear os estilos de luta como “punho” de alguma coisa. Por exemplo, nas artes marciais chinesas era comum nomear os estilos como “punho do tigre”, “punho do dragão”, etc. Assim, seguindo a influência chinesa, os estilos eram denominados de “punho” ou “mão” da cidade onde se originaram, ou seja, Punho de Shuri, Punho de Naha e Punho de Tomari.

O Shuri-te era um estilo bastante explosivo e rápido. Sokon Matsumura (1809-1901), aluno do mestre Sakugawa, foi um dos grandes mestres desta escola. Também Seisho Tsuji (1840-1920) foi importante mestre deste estilo. Já o Naha-te enfatisava os exercícios de força e respiração e era um estilo mais suave do que o Shuri-te. Neste estilo, maior importância era dada ao fortalecimento físico através do controle da força e da respiração. Seu mais importante mestre foi Kanryo Higashionna (1853-1915). Finalmente, o Tomari-te era um estilo intermediário, bastante parecido com o Shuri-te, porém praticado por um pequeno grupo de pessoas, em sua maioria militares da cidade de Tomari. Seus principais mestres forma Kosaku Matsumora (1829-1899), Choki Motobu (1871-1945) e Kokan Oyadamari.

 

I.1 ESCOLAS MODERNAS E SEUS MESTRES

 

SHORIN-RYU

            A partir de meados do século XIX, cada mestre passou a dar um nome à sua escola ou estilo. O estilo Shuri-te uniu-se ao Tomari-te para formar o Shorin Ryu. Shorin é a pronúncia japonesa de Shaolin, indicando a influência recebida da arte chinesa. Este estilo, primeiramente, dividiu-se em três outros estilos chamados Kobayashi-Ryu, Shobayashi-Ryu e Matsubayashi-Ryu. Alguns dos mais conhecidos mestres desta escola foram: Chosin Chibana (1885-1969), que continuou a linha de Shorin-Ryu do mestre Itosu chamando-a Kobayashi-Ryu (Shorin-Ryu), Katsuya Miyahira que, após a morte do mestre Chibana, liderou o Shorin-Ryu Shido-kan e Shugoro Nakazato (1921-), fundador do Shorin-Ryu Shorin-kan.

 

SHOTOKAN

Gichin Funakoshi (1868-1957), aluno dos mestres Azato e Itosu e também do mestre Matsumura e outros mestres, é um dos principais responsáveis pela difusão do karate-do no Japão. Embora a princípio não quisesse dar um nome específico ao seu estilo, este ficou conhecido como Shotokan, um dos estilos mais difundidos hoje em dia. Para se ter uma idéia de sua popularidade, é comum quando alguém pratica este estilo, ao invés de dizer que pratica karate, dizer que pratica Shotokan. Entre os principais alunos de Funakoshi destacaram-se Shigeru Egami (1912-1981, Shotokai), Masatoshi Nakayama (1913-1987, NKK), Hidetaka Nishiyama (1928-, ITKF) e Hirokazu Kanazawa (1931-, SKIF).  

 

SHITO-RYU

Kenwa Mabuni (1889-1952), um dos melhores alunos do mestre Itosu, foi também aluno do mestres Higashionna e Miyagui do Naha-te . Mudou-se para o Japão para ensinar Karate-do do estilo que primeiramente chamou Itosu-Kay até que em 1937 criou o estilo Shito-Ryu , que combina aspectos do Shuri-te e do Naha-te. O nome do seu estilo deriva dos caracteres dos nomes dos seus dois mestres Itosu e Higashionna. A terminação (ryu) comum a muitos estilos significa escola ou estilo. Após a sua morte, seu filho Kenei herdou o Shito-Ryu e seu aluno Ryusho Sakagami continuou o Itosu-Kai Shito-Ryu.

 

ISSHIN-RYU

Tatsuo Shimabuku, aluno dos mestres C. Kyan, Miyagui (Goju-Ryu) e de Choki Motobu, foi o fundador do estilo Isshin-Ryu que combina Shuri-te e Naha-te. Seu irmão Eizo Shimabuku continuou a linha Shobayashi-Ryu de Shorin-Ryu que se expandiu bastante nos Estados Unidos a través dos marinheiros das bases navais em Okinawa.

 

SHUDOKAN

Fundado pelo mestre Kanken Toyama (Oyadameri Kanken) (1888-1966). Toyama iniciou seu aprendizado com o mestre Itarashiki (Okinawa-te) e depois foi discípulo do mestre Itosu. Também treinou com os mestres AnKichi Aragaki, Anko Azato, Choshin Chibana, Kentsu Yabu, Oshiro e Tana. Também foi aluno do mestre Higashionna (Naha-te).

 

GOJU-RYU

Chojun Miyagui (1888-1953): foi o mais importante e provavelmente o mais conhecido discípulo do mestre Higashionna. O mestre Miyagui abrigou o  mestre Higashionna na sua casa, quando este estava idoso, e continuou a escola quando ele morreu. Também viajou à China várias vezes, seguindo os passos do seu mestre. Em 1929 (na época em que a maioria dos mestres estavam dando os nomes aos seus estilos) o mestre Miyagui decidiu chamar o seu estilo de Goju-Ryu, nome que explica a característica de combinar o duro (Go) com o suave (Ju), força e flexibilidade.  Assim, este estilo enfatiza os exercícios de respiração e combina movimentos fortes e rápidos com movimentos suaves e lentos. Miyagui foi um dos primeiros mestres a criar um sistema de ensino para o Karate-do.

 

I.2 O KARATE-DO NO JAPÃO

 

O Karate somente foi introduzido no Japão na década de 1920, tendo sofrido algumas mudanças, para que pudesse ser aceito como uma arte essencialmente japonesa. Em outras palavras, por ter sido de domínio da China durante muito tempo, Okinawa recebeu forte influência deste país, que era considerado inimigo dos japoneses. Assim, o nome Okinawa-te, por ter recebido influência chinesa, era escrito em caracteres chineses que literalmente significavam “mãos-chinesas”. Quando a ilha foi definitivamente incorporada ao Japão, e o Okinawa-te foi apresentado oficialmente neste país, alterou-se então o ideograma chinês, para o ideograma japonês significando “mãos vazias”. Além disso, foram introduzidos os tradicionais kimonos e graduações de Kyus (faixas coloridas, da branca até a marrom) e Dans (do 1º ao 10º grau para os faixas-pretas), adaptados do judô. Finalmente, foi estabelecido um sistema formal de ensino para o karate, englobando os treinos de kihon, kata e kumite, o qual prevalece até os dias atuais. Em 1933, o Dai Nippon Butokukai, órgão japonês encarregado das artes marciais, reconheceu oficialmente o Karate-do como uma de suas modalidades.

Posteriormente, no Japão, foram criados outros estilos de Karate-do, alguns dos quais são muito conhecidos no mundo todo.

Hironori Ohtsuka (1892-1982), primeiro japonês (não okinawense) a criar um estilo de Karate-do, fundou o Wado-Ryu, em 1931. O mestre Ohtsuka (1892-1982) era praticante avançado de Ju-jutsu e aprendeu Karate-do com o mestre Funakoshi, quando este o introduziu no Japão e posteriormente com o Mestre K. Mabuni.

Gogen Yamaguchi (1909-1989) aprendeu Goju-Ryu com com Jitsuei Yogi e com o mestre Miyagui, quando este visitou o Japão central. Foi o criador da linha Goju-Kai no Japão.

            Matsutatsu Oyama (1924-1994), nasceu na Coréia e seu verdadeiro nome era Hyung Yee. Quando criança, no seu país natal, aprendeu Chabee (uma combinação coreana de Ju-jutsu e Kempo). Depois, aprendeu Karate-do Shotokan no Japão mas buscou novas formas de treinamento e de luta criando em 1961 o Kyokushin-Kai . Também teve a oportunidade de aprender e intercambiar técnicas com Gogen Yamaguchi e outros mestres de Karate-do e Kung-fu . Oyama ficou famoso por, supostamente, conseguir derrubar touros com apenas um golpe de seus punhos. Seu estilo enfatiza o contato físico e a prática de atemi (quebramentos).

Nos dias atuais, são quatro os estilos reconhecidos pela WKF, Federação Mundial de Karate (World Karate Federation): Shotokan, Goju-Ryu, Wado-Ryu e Shorin-Ryu. Ao reconhecer somente os quatro estilos principais, a WKF não pretende desrespeitar ou ignorar o trabalho realizado por outros mestres. Tal reconhecimento se deve ao fato de serem estes quatro estilos os que apresentam diferenças mais perceptíveis entre si, e ao fato de a maioria dos outros estilos terem se originado da mistura destes, ou de derivações de outros estilos, já derivados destes quatro.

            No entanto, como o costume de cada mestre de nomear sua própria escola não parou após a criação dos quatro estilos reconhecidos, existe uma grande variedade de estilos, com um grande número de praticantes em todo o mundo. Assim, uma vez que estes estilos geralmente apresentam mais semelhanças do que diferenças, a federação não impede que seus praticantes participem das competições oficiais, desde que suas escolas sejam filiadas aos órgãos administrativos do esporte em seus respectivos países, e desde que sejam seguidas, à risca, as regras definidas pela WKF para as disputas de kata (demonstração) e kumite (luta).

 

I.3 Como se Organiza a Prática do Karate Moderno

Kihon, Kata e Kumite

 

Podemos dividir a prática do karate em três pilares básicos: Kata, Kihon e kumite. No kata, são praticados os fundamentos básicos do karate dentro de seqüências lógicas de movimentos (combate imaginário). É considerado um dos aspectos mais importantes da arte marcial. A prática de técnicas de ataque e defesa de forma isolada ou agrupada denomina-se kihon. Neste tipo de exercício o karateca procura reproduzir com o máximo de perfeição as técnicas ensinadas pelo professor. Um dos objetivos da prática do kihon é permitir que o atleta pratique as técnicas que, mais tarde, irá aplicar no kata e no kumite. Finalmente, o kumite é a prática do combate propriamente dito. Existem diversas variações para sua prática, a maioria visando manter a integridade física dos praticantes. Existe também o combate livre, com possibilidade de contato real, geralmente exigido de atletas avançados em exames de graduação (Dan). O kumite foi a última instância a ser introduzida no treinamento de karate.

 

II O KARATE EM FASES:

O sistema de graduações do karate e o aprendizado do atleta em cada fase.

 

FAIXA BRANCA (7º kyu)

O início no Karate é algo muito excitante para o estudante. Geralmente o aluno está cheio de expectativas e não sabe muito bem o que esperar pela frente. Muitas vezes, ele chega com alguma idéia preconcebida a respeito do Karate e cultiva pensamentos dos mais variados sobre a arte. Muitos estudantes pensam, por exemplo, que logo serão capazes de quebrar tábuas e tijolos, que serão capazes de executar saltos mirabolantes e acrobacias fantásticas, que adquirirão força para destruir dezenas de adversários de uma só vez e se tornarão invencíveis. Muitos até mesmo imaginam que serão capazes de desarmar um oponente. Bem, a maioria destas coisas está bem longe de ser verdade, pelo menos na maioria dos estilos de Karate. Quebrar tábuas e tijolos pode até ser uma forma de treinamento em algumas escolas, mas não é o objetivo maior do Karate. Acrobacias e saltos também podem estar presentes, mas não são usados pela maior parte dos professores e mestres em suas aulas. Finalmente, poucos professores encorajariam um estudante a tentar desarmar alguém que portasse uma arma de fogo, a não ser que não houvesse nenhuma outra esperança de solução para o impasse. Todas estas pré-concepções trazidas pelo principiante que perceberá, pouco a pouco, que "as coisas não são bem assim" fazem com que esta fase do aprendizado seja uma das mais delicadas.

 

Como fazer para que o aluno continue entusiasmado, apesar de descobrir que a maioria de suas idéias sobre o Karate eram equivocadas? Ou melhor, como mostrar a ele que estas pré-concepções não passam de folclore, de lendas, mas que o Karate tem sim muito a lhe ensinar? Acredito que a resposta para estas perguntas não é muito difícil de ser encontrada. Na verdade, basta que o professor mostre ao aluno o verdadeiro Karate, e o amor do aluno por esta verdadeira arte tenderá a crescer cada vez mais.

 

FAIXA AMARELA (6º kyu)

Embora esteja muito próximo do estágio anterior, no segundo estágio, ou faixa amarela na maioria das escolas, o aluno já tem alguma compreensão do Karate como ciência marcial. Nesta fase, o aluno já não pode mais ser considerado uma folha em branco, pois já domina conceitos básicos da arte. O aluno já sabe, por exemplo, a diferença entre um soco ou um chute executado de forma espontânea e um soco ou chute realizado com ciência, como ocorre no Karate. Assim, devemos ter sempre em mente que, a partir da faixa amarela, o aluno deve ser visto como um verdadeiro Karateca, e não mais como um possível candidato às faixas maiores. Na verdade, mesmo na faixa branca o bom professor terá olhos para perceber se o aluno é um bom prospecto para o sucesso na arte pois, ao longo dos anos, o professor desenvolve um certo "olhar clínico" capaz de descobrir novos talentos. Mas, de qualquer forma, o aluno faixa amarela dever ser respeitado pela sua conquista pois, por menor que possa parecer, ela é a mais difícil. Como assim, a mais difícil? Você pode estar se perguntando. O que eu quero dizer é que não é fácil transpor o primeiro momento, onde tudo é novo e estranho, onde termos nunca antes vistos são introduzidos, e onde uma rotina rígida de treinamento e disciplina precisa ser seguida. Portanto, chegar ao nível seguinte, já pode sem dúvida ser considerado uma grande vitória, pois, a partir daí, o aluno já estará ambientado no novo meio, e se sentirá à vontade para aprender qualquer nova técnica ou conceito que venha a ser ensinado.

 

ATÉ FAIXA VERDE (5º ao 3º)

A partir do segundo nível, até a faixa verde (5º nível), o aluno estará construindo sua base técnica e teórica no Karate. Nesta fase, é importante que o professor preste atenção a detalhes. Um soco mal executado, um chute mal balanceado, todos os pequenos detalhes que passam imperceptíveis aos olhos do leigo, mas que não escapam à percepção do professor, devem ser trabalhados e corrigidos para evitar que estes defeitos cristalizem e ser tornem impossíveis de corrigir mais tarde, quando o aluno já os terá assimilado à sua constituição física e mental. De fato, ao chegar à faixa verde, o aluno deverá estar tecnicamente completo, ou seja, o aluno já deve ser capaz de executar, com perfeição, todas as técnicas básicas do Karate, sem a necessidade de esforço excessivo. Além disso, o aluno faixa verde deve ser capaz de combinar movimentos mais complexos, além de poder participar de combates (shiai kumite) sem grandes dificuldades.

 

Para o aluno, esta deveria ser uma das fases mais produtivas e prazerosas de seu aprendizado. O aluno deve ser incentivado a aprender e imediatamente colocar em prática aquilo que aprendeu nos treinamentos de Kata e Kumite. Por exemplo, se o aluno aprende a controlar e explosão do golpe e o giro do quadril em um determinado Kihon, ele deve ser encorajado a usar este mesmo controle e giro ao executar o Kata. Se ele aprende uma técnica de esquiva e contra-ataque em outro Kihon, deve ser incentivado a tentar o movimento ao fazer Kumite. Um aprendizado direcionado desta forma fará muito mais sentido para o aluno e, consequentemente, será muito mais prazeroso para ele.

Especificamente para o aluno leitor, devo dizer que ele precisa ter muita humildade nesta fase. Ele precisará compreender que o professor nunca dirá algo buscando diminuir o valor de seu esforço ou ridicularizar sua dedicação ao Karate. Ao contrário, o aluno deve acreditar que o professor quer que ele alcance o máximo de seu potencial e, portanto, exigirá o máximo dele.

O aluno também precisa ser paciente, pois terá que repetir a mesma coisa milhares de vezes de forma a aproximar-se o máximo possível da perfeição. Terá que fazer Kata diversas vezes até que compreenda o sentido do que está fazendo, e a cada vez terá que se esforçar mais para que não fique desmotivado e não perca a vontade de prosseguir treinando. Na verdade, o aluno muitas vezes terá que lutar contra a própria vontade de parar tudo e desistir, pois o treinamento à vezes pode parecer repetitivo e sem sentido. No entanto, ao conquistar sua primeira medalha ou ao ser aprovado em um exame de faixas ou simplesmente ao se sair bem em uma situação real de combate, o aluno compreenderá o porquê de ter tido que treinar tanto e repetir tantas vezes o mesmo movimento.

A paciência, a perseverança e a humildade, são valores essenciais para o karateca. De fato, é impossível aprender Karate sem estas três virtudes. O karateca impaciente eventualmente desistirá de treinar, pois será incapaz de aguardar o tempo necessário para que os efeitos dos treinamentos possam ser sentidos. Se não for perseverante também desistirá, pois achará os esforços necessários muito grandes para que ele os enfrente. Enfim, se não tiver humildade, o karateca tenderá a achar que já sabe o bastante, e mesmo que continue treinando, não renderá o máximo por não levar os ensinamentos do mestre a sério. Chego até a afirmar que, destas três virtudes, a humildade é a mais importante, uma vez que engloba, de certa forma, as outras duas. Aprender uma arte marcial é aprender a ser humilde e a reconhecer que há sempre mais para se aprender. O aluno precisa esvaziar-se de toda soberba ou sentimento de superioriade nos treinamentos, para que possa verdadeiramente tornar-se superior em combate.

 

DA FAIXA VERDE À MARROM (3º ao 1º kyu)

Ao chegar à faixa verde, o aluno já deverá ter adquirido um conhecimento técnico marcial relativamente alto. Já saberá usar as "armas" de forma satisfatória. Será rápido e vigoroso nos golpes e já compreenderá bem conceitos como hikite ou hikiashi, sem que seja necessário lembrá-lo a todo momento. Esta é a fase em que o aluno deve solidificar seus conhecimentos e adquirir maturidade.

Neste ponto, o aluno poderá estar encantado com o poder que lhe é conferido pelo Karate e pode começar a sentir-se invencível. Por isso, este é o momento em que o professor deve lembrá-lo de que ainda há muito para se aprender e que ele ainda poderá chegar a ser muito mais forte do que ele imagina ser até aquele momento. De qualquer forma, esta é uma fase muito produtiva para o aluno, pois a perícia técnica adquirida nos primeiros anos de treinamento lhe permitem participar de diversos eventos que podem servir de incentivo para que ele continue seus treinamentos e não desista mais.

A partir da faixa verde o aluno poderá seguir diferentes caminhos que definirão seu futuro no Karate. O aluno pode, por exemplo, decidir participar de competições (não quero dizer que ele não possa fazê-lo antes da faixa verde). Então ele terá que começar a se preparar de forma específica para tais eventos, já que estes possuem uma série de regras e comportamentos específicos que deverão ser obedecidos pelo atleta. Assim, o aluno provavelmente precisará dedicar tempo extra aos treinos, uma vez que o professor pode optar por separar o grupo dos alunos que desejam competir do grupo de alunos que não possui tal intenção e realizar um treino especial com os futuros competidores. Mais tarde dedicarei um capítulo inteiro para falar sobre as competições e sua importância para o Karate e sua continuação através dos tempos.

Alguns alunos podem não demonstrar interesse por competições e portanto não devem ser forçados nem discriminados por isto. Estes alunos, porém, devem ser auxiliados a pensar no seu futuro como karatecas, no que pretendem fazer de sua arte. Se não tomarão parte em competições, precisarão de maior encorajamento e de maior força de vontade para continuar a treinar, uma vez que a realização pessoal será sua única recompensa por seus esforços. De qualquer forma, tais alunos podem ser encorajados a tomar parte nas competições, ainda que de forma indireta, torcendo por seus colegas, auxiliando na organização dos eventos, participando como auxiliares da comissão de árbitros, etc. No futuro eles podem vir a participar destes eventos como atletas ou podem tornar-se árbitros. Não devem, entretanto, permanecer completamente isolados das competições pois estas poderão servir de elo entre eles e a arte a que se dedicam.

Em geral, existe uma faixa intermediária após a faixa verde (no estilo Goju Ryu é a faixa roxa) antes que o aluno receba o grau de faixa marrom. Esta representa uma continuidade do amadurecimento do aluno e uma espécie de preparação para o último grau que antecede a faixa preta. Muitos alunos dedicam mais tempo a esta faixa pois sentem-se inseguros para subir o próximo degrau. Sentem que ainda não aprenderam o suficiente e que necessitam aperfeiçoar suas habilidades. Durante este tempo, o aluno deve dedicar-se à autoreflexão e treinar de forma intensa para sanar eventuais "imperfeições" que forem identificadas por seu professor.

Ao chegar à faixa marrom, o aluno já terá um elevado grau de conhecimento técnico e filosófico de sua arte. Supõe-se que o aluno compreenderá bem o significado de tudo que fez até aí e do que pretende fazer no futuro. A faixa marrom, então, será uma espécie de estágio, onde o aluno deverá se preparar para receber o grau de shodan. Durante este período, o aluno deverá participar de cursos de primeiros socorros e de arbitragem, deverá fortalecer seu conhecimento sobre o Karate e sua história, precisará fazer mais do que apenas executar golpes e katas com perfeição. O aluno faixa marrom, precisará demonstrar que é digno de receber a faixa preta, através de um conjunto de atitudes e qualidades que precisarão ser demonstradas ao seu professor e à comunidade, bem antes do exame de faixas oficial. O professor que permite que um mal aluno receba tal honra estará se responsabilizando por qualquer dano que ele venha a causar no futuro.

Uma vez que o faixa marrom passe por todos estes testes que, pode-se dizer, estendem-se por toda a sua vida de karateca, e pelo teste oficial - Exame de Faixas Pretas - que avaliará suas habilidades e conhecimentos específicos, ele receberá o grau Shodan e, a partir daí, tornar-se-á membro do yundan-sha. O aluno terá alcançado a tão sonhada faixa preta.

Evidentemente, fiz estas divisões tendo em consideração uma determinada relação “tempo x faixa”, que pode variar de um indivíduo para o outro. Em outras palavras, um aluno que permaneça 3 anos em determinada faixa, poderá ter um nível de conhecimento e maturidade superior ao de outro aluno que, tendo permanecido apenas 6 meses no nível anterior, foi promovido para o próximo. Por outro lado, um aluno pode permanecer muito tempo em uma determinada faixa, e ainda assim não demonstrar um alto grau de desenvolvimento, por não ter trabalhado com suficiente empenho nos treinos. Finalmente, o progresso dependerá da individualidade de cada aluno, ou seja, uns aprendem mais rápido, outros menos. Assim, não estou propondo, através destas reflexões, nenhuma classificação rígida ou diagnóstico preciso de como estará o aluno em determinado grau. É preciso saber diferenciar o "grau" que o aluno usa na cintura do verdadeiro grau em que ele se encontra. Ás vezes pode ser um grau mais elevado, outras pode ser um grau inferior.  

 

O PRINCÍPIO DA COMPREENSÃO

A FAIXA PRETA (SHODAN): Não Um Fim, mas Um Novo Começo

 

Pode-se dizer, de certa maneira, que a partir da faixa preta é que o karateca começará seu verdadeiro aprendizado no Karate. O leitor pode se perguntar, então, se todo o conhecimento adquirido até aquele momento não serviu para nada. Esclareço que não se trata disso. Com a afirmação de que o começo do aprendizado do karateca se dá na faixa preta, não estou desmerecendo os anos de treinamento árduo e todo o trabalho de renúncia a outras coisas da vida para se chegar até este nível. Com certeza todo o aprendizado construído até este ponto é importante e valioso. O que eu quero dizer é que tal aprendizado é apenas o princípio, conforme procurarei explicar nos parágrafos seguintes.

Sabemos que, ao chegar na faixa preta o aluno terá uma grande bagagem de conhecimento, tanto teórico quanto prático. Ele será capaz de fazer coisas que antes não poderia nem imaginar. Será também uma pessoa completamente diferente daquela que era quando entrou pela primeira vez no dojo, como faixa branca. Nem sequer conseguirá se lembrar de toda a insegurança e estranheza que sentiu ao participar do primeiro treino. Terá uma força e um potencial descomunais. Por outro lado, a partir deste momento, o karateca encontrará uma série de novos desafios.

Em geral, um dos primeiros desafios que o novo faixa preta enfrenta é a dificuldade em encontrar motivação para continuar treinando após alcançar o grau. De fato, mesmo após dedicarem anos de sua vida ao esporte muitos karatecas são tentados a abandonar, e muitos efetivamente abandonam, os treinos a partir da faixa preta por diversas razões. Alguns deixam o karate por não encontrarem mais sentido em treinar. Outros por Acreditarem que já chegaram ao seu máximo ou por não terem mais objetivos a curto prazo como tinham quando eram faixas coloridas (yukyusha). Além disso, outros fatores como mudança, fechamento de uma academia, necessidade de dedicação ao trabalho, faculdade, casamento, etc., podem levar o karateca a abandonar os treinos após a conquista da faixa preta.

Embora esta tendência de abandono não seja muito comum no Japão, onde a prática do karate continua normalmente após o aluno alcançar o grau Shodan, no Brasil, esta parece ser, infelizmente, mais a regra do que a exceção. De fato, uma grande parte dos atletas costuma abandonar o esporte antes mesmo de alcançar este nível.

Como, então, encontrará o karateca ânimo para continuar treinando? Precisará treinar sozinho? Terá que se tornar professor, mesmo que se sinta inapto para fazê-lo? Estas são perguntas que precisam ser respondidas para que o jovem faixa preta não se desvie dos caminhos do Karate, mas continue sua jornada de aprendizado e crescimento, até o fim de sua vida. A este respeito, acredito que minha experiência pode ser útil para ajudar aqueles que enfrentam ou enfrentarão um dia tal dificuldade.

Até chegar à faixa preta, fui um karateca extremamente ativo. Treinava praticamente todos os dias, participava de competições, fazia cursos de aperfeiçoamento, exercia funções de arbitragem, dava aulas, etc. Após a faixa preta, mantive um elevado grau de atividade e prática da arte, mantendo me ligado a todos os eventos dos quais podia participar, dando aulas e treinando diariamente. Em um determinado momento, no entanto, houve um significativo declínio de minha participação ativa no karate, chegando a ficar completamente longe dos dojos e das competições por 2 anos. Depois deste período, voltei a treinar com força total durante cerca de 5 anos, período durante o qual também competia. Depois disso, por razões de trabalho e estudo, diminuí drasticamente o ritmo dos treinos e participação em campeonatos, sem, porém, jamais abandonar o Karate. O que quero demonstrar através de minha experiência é que às vezes precisaremos nos afastar um pouco, mas nunca devemos perder o foco. O karate deve estar dentro de nós, mesmo que não possamos ir à academia de forma tão regular como antes. Todo faixa preta deve compreender isto muito bem, do contrário acabará abandonando e esquecendo tudo aquilo que aprendeu com tanta dificuldade. Às vezes ele estará sozinho, mas precisa continuar sua jornada. Não se pode parar na metade do caminho, mas às vezes é necessário retardar a marcha, para acelerar de novo um pouco mais adiante.

Uma das alternativas para o faixa preta que deseja manter-se na ativa é a de tornar-se professor de karate. No entanto, a decisão de tornar-se professor é muito importante e deve ser feita com cuidado. Não se deve decidir por esta profissão pelos motivos errados. Por exemplo, se o faixa preta pensa que, como professor, alcançará riqueza e glória, é bem provável que fique frustrado. De fato, este é um caminho que reserva muito mais desafios e lutas do que ganhos materiais ou o recebimento de honras. O professor poderá enfrentar a falta de recursos financeiros, a falta de reconhecimento por parte da sociedade e até por parte de seus alunos, entre outras dificuldades. Basta olharmos o exemplo de muitos dos grandes mestres de karate da história, que levavam uma vida simples humilde.

Também acho que não se deve tornar-se professor apenas para não abandonar o Karate. Este seria um passo errado e desnecessário. De fato, existem outras formas de manter-se ativo que podem servir de opção para os que não se sentem atraídos a ensinar. Os que decidirem se dedicar a esta atividade, precisam ter um objetivo maior em mente. É preciso que o principal fator encorajador do futuro professor seja o desejo de transmitir a outros aquilo que ele recebeu de seus mestres, para que estes transmitam às futuras gerações. Se este for o seu desejo, e se você se sentir preparado o suficiente, então você pode se considerar apto a tornar-se um professor. Não estou sugerindo que o professor não possa ter interesses econômicos relacionados ao esporte, mas apenas acredito que o fator econômico não deve ser o principal ou único agente motivador de quem deseja tornar-se professor de karate, pois além de isto ir contra a filosofia desta arte marcial, pode deixar frustrado quem assim encarar esta “profissão”, já que este é um caminho cheio de desafios e dificuldades a se superar. De fato, muitos são os que se aventuram no ofício de ‘professor de artes marciais’, mas poucos são os que perseveram neste caminho, e menos ainda são os que alcançam elevado reconhecimento público ou compensação monetária por seu trabalho.

De qualquer forma, não pretendo desistimular aqueles que desejam ser professores, mesmo porque carecemos de bons professores de Karate que possam continuar perpetuando nossa arte. O meu objetivo é mostrar que nem tudo são glórias neste trabalho. Mas, como professor, posso garantir que este é um ofício muito gratificante. Só o professor tem a honra de ver seus alunos partirem do zero e tornarem-se grandes karatecas. Ele pode vê-los progredir e se tornarem fortes. Além disso, as amizades que vão sendo construídas pelo caminho são algo incomparável com qualquer outro prêmio que se poderia receber. O professor também conquista o respeito e a gratidão de seus alunos, sobretudo por parte daqueles que alcançarem uma melhor compreensão do caminho (Do). Tais reconhecimentos são pra toda a vida, e seu valor é inestimável.

 

Capítulo III: COMPETIÇÕES:

Significado e Importância

 

As competições de Karate são uma oportunidade de socialização e de aprendizado para o aluno. Neste eventos, o karateca pode vivenciar de forma prática aquilo que aprendeu nos treinamentos do Dojo. Desta forma, o aluno poderá verificar seu progresso e constatar na prática o quanto ele desenvolveu suas habilidades ou o quanto ele precisará melhorar caso note alguma deficiência no decorrer da competição. Além disso, a existência de regras que limitam a intensidade do contato dos golpes, a disciplina exigida durante a competição e o estrito cerimonial a ser seguido durante o evento, ajudam o aluno a desenvolver o caráter e o respeito à regras e à hierarquia.

As competições surgiram da idéia de popularizar o Karate através daquilo que o ser humano mais tem de natural, o desejo de confrontar-se com outros e de superar o oponente a sí próprio. Por ser um esporte regido por regras e com a exigência de uma excelente conduta moral e ética - tanto durante quanto antes e depois do evento - o Karate de competição fornece um ambiente saudável de confronto entre atletas e de auto-superação. Ainda, as competições criam uma situação única que serve de pretexto para a reunião de várias escolas de Karate e seus praticantes, provenientes de diferentes cidades, estados ou países, dependendo da invergadura do certame. De qualquer forma, o objetivo maior das competições é reunir os praticantes de Karate de uma determinada região, país ou de todo o mundo de forma a manter vivo o esporte, além de incentivar a sua prática pelas futuras gerações.

As federações de cada estado ou país, normalmente, são as responsáveis pelo controle e organização das competições. Para competir, basta que o aluno seja inscrito no evento por seu professor, e compareça na data, local e horário estabelecidos para a realização dos combates. Naturalmente, para que isto possa ocorrer, tanto aluno como professor devem ser registrados junto á federação ou órgão competente.

As disputas, em geral, são organizadas por idade, faixa e peso dos competidores. Existem dois tipos principais de competição no Karate: Shiai Kumite (luta por pontos) e Kata (Luta Imaginária).

No Shiai Kumite, dois atletas se enfrentam em uma luta regida por regras. As regras prevêm um conjunto de comportamentos permitidos ou proibidos que englobam vários pontos como intensidade do contato, técnicas permitidas e proibidas, áreas pontuáveis do corpo do oponente, penalidades, código de conduta, etc. Os atletas se enfrentam num quadrado de mais ou menos 64 metros quadrados e tentam marcar pontos atingindo o adversário nas áreas pontuáveis do corpo com técncas permitidas. Existe diferença de pontuação para cada tipo de técnica e para cada área onde o atleta é atingido. Pelas regras atuais da WKF (World Karate Federation) o tempo médio de luta é de 3 minutos e vence o atleta que obter 8 pontos de vantagem sobre seu oponente ou que, passado o tempo regulamentar, tiver obtido mais pontos que seu adversário. Havendo empate, ocorre a prorrogação (ensho-sen) onde os alunos se enfrentam em estilo de "morte súbita", ou seja, vence quem fizer o primeiro ponto. Persistindo o empate, os árbitros decidirão quem é o vencedor com base em critérios como combatividade, conduta exemplar durante o evento, respeito às regras, etc.

Nas competições de Kata cada atleta se apresenta individualmente ou em equipes. Nas apresentações individuais, 2 atletas se enfrentam por vez. O primeiro (aka) apresenta o Kata e então retira-se, aguardando que o segundo atleta (shiro) se apresente. Após terminarem suas apresentações, ambos são chamados pelos árbitros até o centro do Koto onde, após a autorização do árbitro central, todos os árbitros erguem suas bandeiras (vermelha ou azul) ao mesmo tempo. Vence o atleta que obtiver mais votos favoráveis a ele (aka = faixa vermelha/ shiro = faixa azul). Assim vão seguindo-se as disputas até que se obtenha os 4 atletas finalistas que disputarão os 3 primeiros lugares.

 

Nas disputas de Kata por equipes, 3 ou 5 atletas se apresentam simultaneamente, devendo procurar executar todos os movimentos de forma síncrona e com o máximo de semelhança possível entre si. De igual forma, as equipes se apresentam uma a uma e recebem o resultado através de bandeiras, como ocorre nas disputas individuais. Existem ainda disputas de bunkai, onde as aplicações dos movimentos dos katas devem ser ilustradas através de uma "dramatização" dos golpes. Algumas destas apresentações são muito criativas e alcançam incomparável beleza e perfeição técnica.

Apesar de ser um esporte massivamente praticado em todo o mundo, o Karate ainda não é considerado um esporte olímpico. Acredita-se que este fato seja motivado, tão somente, por questões políticas, uma vez que o esporte já se encontra organizado e possui uma federação mundial com regras próprias, é praticado mundialmente, tem seus eventos mundiais realizados periodicamente e já é presença garantida nos Jogos Panamericanos. Esperamos que num futuro próximo, as barreiras políticas ou seja lá quais forem sejam transpostas para que o Karate possa ocupar seu merecido lugar nos jogos olímpicos.

 

Apesar da importância das competições e de seu papel socializador e mantenedor da chama que mantêm vivo o Karate, devemos sempre nos lembrar que elas não são, nem devem ser, o objetivo maior e/ou final do aluno/professor. De fato, conforme afirma Abel Figueiredo, o desenvolvimento inicial do karate está mais ligado a “um confluir de valores sócio-culturais com métodos de combate” e ao desejo de converter esta arte okinawense em Budo (Figueiredo, 1994). Além disso, devemos lembrar-nos de que, no princípio, a prática do karate era feita de forma secreta, o que não condiz com práticas competitivas. Ou seja, quando se realiza uma competição de qualquer esporte, fica subentendido o desejo de publicidade. Uma vez que tal desejo não existia quando do surgimento do karate, pelo contrário, desejava-se escondê-lo, concluímos que suas bases fundamentais, realmente, não estão assentadas nas competições. 

No princípio do karate, os treinos se davam somente através da prática dos katas, com o objetivo de enrijecer o corpo e aumentar a invulnerabilidade do praticante. (Figueiredo, 1994) Não havia, portanto, objetivos competitivos na prática da arte.

“O karate tem por objetivo principal tornar o corpo robusto como o aço e fazer dos membros lanças e arpões.” (Tokitsu, 1994, p. 53)

Alguns mestres, no passado, eram contra as competições por acreditar que os objetivos da prática do Karate Do eram incompatíveis com tais eventos. Para se ter uma idéia deste fato, basta lembrar que apenas em 1951 a prática de kumite foi adotada pela JKA (Japan Karate-do Association) e que as primeiras competições somente ocorreram em 1957 (Figueiredo, 1994), sob forte oposição de alguns mestres, como vemos no comentário de Shigero Egami (1912-1981) reproduzido a seguir (in: Figueiredo, 1994):

“Na minha juventude, pensei e agi sob a idéia de me tornar eficaz face a uma situação real. Pratiquei então principalmente o combate livre que foi a forma original do atual combate de competição... Assim afastei-me do treino essencial... Não compreendo porque o karate continua a evoluir na direção errada... Se definirmos o karate exclusivamente como uma competição desportiva, não terei mais nada a dizer.”

 Hoje em dia, no entanto, a maioria dos mestres já encara estes eventos de forma positiva, embora sempre façam questão de frisar que estes não são, nem jamais serão, o objetivo principal da prática do Karate.

Assim, ao invés de serem encaradas como objetivo principal, as competições devem ser vistas como um trampolim, uma ponte que ajudará o praticante a alcançar maiores objetivos na prática de sua arte. Em outras palavras, um aluno que treina exclusivamente para competições, poderá sentir-se frustrado caso seus objetivos não se cumpram, ou mesmo que estes sejam alcançados, tal aluno poderá frustrar por uma série de razões como o seu envelhecimento e cessação da idade produtiva neste tipo de evento, por exemplo. De fato, muito embora alguns atletas continuem competindo até uma idade relativamente avançada, a maioria encerra sua participação em competições depois de uma certa idade. Portanto, se as competições forem o principal ou único objetivo de um atleta, este poderá acabar abandonando a prática do karate ao ver-se forçado a encerrar suas atividades como competidor, uma vez que ele não terá construído um sentido maior e mais significativo para a prática do esporte.

Em suma, as competições, quando encaradas da forma correta, podem e devem fazer parte da vida do aluno. Elas podem ajudá-lo a superar-se a si próprio além de servirem de incentivo para que ele continue sempre buscando melhorar mais e mais nos caminhos do Karate. No entanto, tais eventos não devem ser vistos como o principal objetivo do atleta, uma vez que, caso isto ocorra, podem trazer dor e frustração ao aluno, que pode acabar se desviando do verdadeiro Do. Com o passar do tempo, medalhas e troféus não passarão de meras lembranças, recordações de realizações passadas. O karate, no entanto, deve permanecer pra sempre no espírito e no coração do praticante.

 

CAPÍTULO IV

O Karateca:Uma Academia Viva

                    As características únicas do Karate fazem de seus praticantes verdadeiras academias vivas. De fato, um karateca realiza exercícios que trabalham os mais diversos músculos de seu corpo, sem que seja necessário recorrer a apetrechos e aparelhos de ginástica ou, sequer, ir até uma academia para treinar. Com efeito, apenas praticando os exercícios de kihon e kata, em sua própria casa ou em qualquer lugar onde haja um mínimo de espaço, o karateca consegue desenvolver força muscular igual ou superior àquela conseguida através do uso de aparelhos de musculação (não se confunda aqui força muscular com ganho de massa corporal). Além disso, o karateca desenvolve flexibilidade, agilidade, ganha reflexos, melhora a coordenação motora, desenvolve sua capacidade cardio-respiratória e melhora sua capacidade de concentração. E o karateca consegue tudo isto apenas com a prática de sua arte marcial, sem precisar de nenhum aparelho específico para seu treinamento, nem de recorrer a outras modalidades esportivas. Assim, o Karate possui um diferencial extremamente significativo em relação a outras atividades físicas, o que faz dele uma atividade nobre se comparada com outros esportes.

                   

                    A academia viva em ação

 

                    Ao praticar sua arte, o karateca põe em ação sua academia, que é o seu próprio corpo. Ele inicia seu treinamento com um aquecimento, no qual, após fazer exercícios que induzem os músculos a se relaxarem, ele se alonga e se relaxa a fim de se preparar para o treinamento de Karate propriamente dito.

                    Uma vez aquecido e alongado, o praticante passa ao treinamento de kihon onde pode fortalecer os músculos dos membros superiores e inferiores. Conseqüentemente, fortalecerá também os músculos peitorais, abdominais e umbrais. Além de fortalecer os músculos, estará automaticamente desenvolvendo sua capacidade aeróbica e sua resistência muscular (treino de bases).

                    Porém, é no treinamento de kata que o praticante de karate encontrará a mais vasta gama de possibilidades de treinamento e desenvolvimento físico. Nesta parte do treinamento, a academia do atleta se torna praticamente ilimitada. De fato, o kata permite que o esportista se movimente em todas as direções, trabalhe os membros superiores e inferiores, trabalhe os músculos do pescoço e até mesmo os olhos têm a oportunidade de se exercitar. O atleta ainda trabalha os movimentos das articulações das mãos e dos pés, dos joelhos, cotovelos e as articulações dos dedos.

                    Além disso, Porque precisa se esquecer de tudo em volta a fim de executar o kata com exatidão, o karateca desenvolve sua capacidade de concentração consideravelmente. Assim, ao realizar outras atividades do dia-dia, o atleta tenderá a demonstrar maior concentração e atenção do que a maioria das pessoas, já que, ao manter o foco somente na realização dos katas, o karateca força seu cérebro a desenvolver-se, tornando-se mais apto para a realização de tarefas simples ou complexas. A prática do kata também melhora (diminui) o tempo necessário para que o indivíduo reaja a uma situação inesperada (reflexos). Outro ponto importante de ser lembrado, é que a prática do kata é feita com kime, ou seja, requer-se do corpo o máximo de concentração e explosão de força. Desta forma, o karateca vai se fortalecendo pouco a pouco, até que se torne um indivíduo forte e saudável, mais resistente a doenças e infecções e sem aquelas incômodas dores musculares, comuns nas pessoas sedentárias.

                    Ao finalizar sua série de treinamentos, já bastante satisfeito consigo mesmo, o atleta poderá concluir o treino com uma série de exercícios de alongamento e relaxamento que o ajudarão a diminuir a possibilidade de sentir quaisquer dores decorrentes do esforço muscular praticado durante o exercício.

                    Para uma série completa como a referida acima, seria necessário mais ou menos 1 hora. No entanto, caso não disponha de todo este tempo, o karateca poderá criar uma série mais curta, que esteja dentro de sua possibilidade. Por exemplo, o atleta pode treinar durante 45 ou 30 minutos, diariamente ou 3 vezes por semana, e ainda assim colher os benefícios da prática do Karate. Mesmo uma série de 15 minutos diários já seria melhor do que o sedentarismo completo, pois o mais importante é manter-se em atividade constante.

                    Finalmente, gostaria de esclarecer que, ao descrever o karateca como academia viva, tenho em mente um atleta avançado, que já dominou todas as técnicas e katas, que já sabe se aquecer e se alongar sozinho, e que, portanto, já é capaz de treinar sem a necessidade de acompanhamento por parte de um professor. O atleta que tenho em mente, geralmente é faixa preta ou atleta com muitos anos de experiência no Karate. Assim, tal atleta é capaz de treinar sozinho, perfeitamente, sem que isto o prejudique. Não aconselho, portanto, que atletas pouco experientes ou principiantes tentem praticar exclusivamente sozinhos, pois poderão incorrer em erros que não serão devidamente corrigidos por um professor. Nada os impede, no entanto, de combinarem seus treinos individuais com os treinos regulares em seu dojo sob a supervisão de seu professor ou mestre. De qualquer forma, poucos são os esportes que dão ao atleta a possibilidade de, já no princípio, praticar sozinho aquilo que aprendeu em sua academia ou clube. O Karate oferece esta possibilidade.

 

 

CAPÍTULO V

KATA: Batalha Contra Inimigos Reais e Imaginários

 

                    Devido ao fato de o kata ser um dos fundamentos mais importantes do karate, dedicarei este capítulo exclusivamente à sua discussão, lançando um olhar em profundidade sobre este exercício, capaz de unir corpo, mente e espírito na busca de um só objetivo.

                    Os antigos mestres costumavam chamar o kata de “batalha imaginária”. De fato, apesar da beleza que pode ser produzida em sua execução, seus objetivos e segredos vão muito além da mera beleza visual. Com efeito, durante a execução destes exercícios, o praticante deve imaginar-se em uma luta contra diversos adversários, que ele destrói ou tira de combate ao executar as técnicas de ataque e defesa que formam o kata. Estes são seu inimigos imaginários. No entanto, eu irei além do que simplesmente classificar o kata como uma batalha imaginária, uma vez que existem inimigos bem reias que devem ser enfrentados durante sua prática. Ao executar um kata com verdadeira dedicação, o karateca trava uma batalha contra seus piores inimigos, e só sairá vencedor, se conseguir derrotá-los. Você pode estar se perguntando a quais inimigos eu estou me referindo, uma vez que o kata é um exercício que se pratica sozinho, isto é, sem adversários reais. Ao falar de inimigos, refiro-me aos inimigos interiores, aqueles que tentam fazer com que o atleta fracasse em seu objetivo de executar um kata perfeito. Por exemplo: desânimo, cansaço, medo, insegurança, raiva, culpa, incerteza, fome, sede, dor, paixões, preocupações, orgulho, tensão, nervosismo, vaidade, distração, etc. Todos estes inimigos trabalham contra o karateca desde o momento em que inicia a execução do kata até o momento final. E para vencê-los, o praticante precisa contar com o máximo de sua concentração e determinação.

                    Para ser considerado bom, um kata deve apresentar diversos elementos: Kime, Beleza, Agilidade, Leveza, Zanchin, Shakugan, Técnica, Precisão, etc. Em outras palavras, para quem assiste a execução, o kata deve parecer algo extremamente fácil de fazer, e ao mesmo tempo cheio de beleza e plasticidade. É mais ou menos como assistir a uma apresentação de um artista patinador. Todos sabem que seus movimentos são extremamente difíceis, e que pra atingir um certo grau de perfeição foram necessários anos de treino. Mas vendo-o executar sua seqüência com tamanha leveza e exatidão, girando solto no ar feito um pássaro e aterrissando suavemente após sua pirueta, temos a impressão de que conseguiríamos fazer o mesmo com semelhante facilidade. Porém, nossa razão nos lembra que somos incapazes de tal proeza, a menos que dedicássemos uma vida inteira à prática daquela arte. Semelhantemente, para executar um kata com beleza e eficiência, dando a impressão de que o faz com extrema facilidade, o karateca pode levar anos e anos praticando. Ainda assim, os inimigos interiores do atleta continuarão a ameaçá-lo durante toda a sua vida. A medida em que o praticante consegue controlar e manter estes inimigos em silêncio, determinam a qualidade da execução de seu kata.

                    Assim que inicia a execução do kata, o atleta enfrenta o desânimo, que procura fazer com que ele o faça de qualquer maneira, sem kime, sem concentração. O lutador então se esforça e se concentra, procurando executar cada movimento com o máximo de força e explosão. Mas logo vem a dor, e procura fazer com que o karateca relaxe e descuide das bases, elevando sua altura a fim de aliviar a sensação de desconforto. Se for fraco, o lutador terá perderá a batalha, pois se renderá à dor. Se for forte, procurará ignorar a dor e manterá as bases no nível em que iniciou a execução. De repente, o guerreiro percebe que está cercado de olhares admirados e curiosos e se envaidece. Surge o momento perfeito para que a vaidade o derrube de sua fortaleza, fazendo com que perca a concentração, o que afeta toda a execução do kata podendo, inclusive, fazer com que esqueça a seqüência dos movimentos e tenha que interromper o kata, perdendo assim a batalha. Mas sendo guerreiro experiente, o karateca expulsa de sua mente as vaidades e concentra-se novamente na sua luta. Esquece-se de todos em volta. Pensa somente em seu objetivo: vencer seus inimigos. E assim, o lutador vai vencendo um a um seus inimigos interiores até finalmente concluir o kata, voltando á posição original de humildade e, finalmente, ao estado de paz interior.

                    Pode parecer incrível que a simples execução de uma seqüência de movimentos encapsule tanto significado, mas é realmente isto que ocorre na prática do kata, pois esta vai muito além da mera execução de movimentos corporais técnicas de ataque e defesa. De fato, o kata é um verdadeiro arsenal de guerra contra o comodismo e o conformismo humano com tudo aquilo que é mais fácil e confortável. É a busca do aperfeiçoamento pessoal através do esforço constante para se alcançar o inalcançável. A busca de uma perfeição que continuamos buscando, mesmo sabendo-a impossível de conquistar. À medida que luta contra seus inimigos interiores, o karateca vai se fortalecendo. Vai se tornando menos suscetível aos seus ataques, que vão perdendo as forças, como quando nos tornamos imunes a certas doenças. De tanto lutar contra seus adversários interiores e derrotá-los, o lutador vai se imunizando contra suas investidas. Com o passar do tempo, passa a não sentir desânimo ao executar o kata. Já não sente mais dor e consegue manter as bases no nível apropriado de altura do início ao fim da seqüência. Seu nível de concentração aumenta consideravelmente, possibilitando a ele preocupar-se apenas com sua batalha e esquecer-se de seus problemas, temores, dúvidas, fraquezas, etc. Mas o guerreiro se manterá alerta, sabendo que seus inimigos estarão sempre ali, prontos pra atacar ao menor sinal de fraqueza, e ele sabe que deve estar preparado para derrotá-los novamente.

                    Em resumo, ao executar um kata, por mais simples que ele seja, não o faça como se estivesse simplesmente executando uma seqüência de movimentos. Primeiro, porque são técnicas de ataque e defesa, segundo porque cada técnica, para ser efetiva, necessita da participação de todos os seus músculos e mente trabalhando em conjunto. Lembre-se sempre que a seqüência que você está executando simula uma luta entre você e vários adversários. São adversários imaginários, que devem ser derrotados um a um à medida que você executa o kata. Além destes adversários imaginários, você tem adversários reais que estão dentro de você, dentro de sua mente! Você precisa derrotá-los, ou seu kata  não terá valor algum. Você pode executar o kata sem kime para aprender a seqüência correta dos movimentos, mas tal execução serve somente para este objetivo. Não trará nenhum benefício para sua saúde ou para o fortalecimento de seus músculos. Não desenvolverá sua concentração, não te ajudará a controlar o medo da dor. Nunca faça o kata preocupado com quem está te assistindo, pois assim seu kata será prejudicado. Você perderá a concentração e não conseguirá uma execução próxima da perfeição. Procure fazer o kata apenas pra si mesmo. Faça o melhor que puder pra si mesmo. Seja honesto consigo mesmo, e quem te assistir ficará maravilhado com sua execução.  Como diz a sabedoria: vencer a si mesmo é a maior das vitórias!

 

CAPÍTULO VI

Transformando Vidas Através do Karatê

 

                    Como o leitor pôde notar pelo título do livro, o tema principal do mesmo é a transformação que a prática do karatê pode produzir na vida do atleta. Também deixei bem claro, na introdução, que não pretendo fazer do karate uma religião ou uma filosofia, mesmo porque não acredito que este se trate nem de uma coisa nem de outra. Minha ênfase é no karate como prática esportiva e marcial e nas mudanças concretas que ele traz à vida daqueles que o praticam com seriedade e dedicação.

                    Quando jovem, morava em uma cidade pequena e não via grandes perspectivas de crescimento pessoal. Ao iniciar a prática do karate, porém, um novo mundo de possibilidades se abriu diante dos meus olhos, mudando toda uma trajetória de vida, que poderia ter sido de fracasso total, em pleno sucesso profissional e educacional.

                    De fato, a prática do karate veio mudar para melhor vários aspectos da minha vida, o quais tentarei descrever detalhadamente neste capítulo.

 

VI.1 Socialização

                    Tendo crescido em meio à pobreza e a discriminação social, além de mais tarde ver este núcleo familiar ser desmanchado devido à separação de meus pais, tinha sérias dificuldades para me socializar com colegas ou amigos. Era muito fechado e procurava isolar-me das outras pessoas, como uma forma de me proteger e me preservar do contato social. Não é necessário dizer que isto gerava em mim um imenso vazio e tristeza, pois me sentia inferior ao ver que meus colegas e amigos pareciam se enturmar com grande facilidade, enquanto eu, quase sempre, permanecia isolado das rodas de conversas ou brincadeiras promovidas entre eles. Exceto por alguns momentos em que eu fazia “palhaçadas” para levar os outros ao riso, eram raras as ocasiões em que era convidado para estar junto a eles. O fato é que poucas pessoas gostam de ter junto de si alguém que é excessivamente fechado e agressivo. Alguém que se ofende com excessiva facilidade e reage de forma defensiva ao mínimo chiste, é quase sempre rejeitado ou colocado à parte em qualquer grupo. Realmente, por ter crescido em um lar onde as brigas e discussões eram constantes, onde as surras e espancamentos eram fatos corriqueiros, aprendi a me defender e reagir ao menor sinal de ameaça. Assim, eu reagia sempre com palavras e às vezes chegava ao extremo de reagir fisicamente, partindo, literalmente, para o braço. Por outro lado, eu era um adolescente extremamente tímido e infeliz que, por ser constantemente maltratado, sentia-me injustiçado e cultivava a auto-piedade. Desta forma, era constantemente ridicularizado pelos colegas que, percebendo meus sentimentos de inferioridade, aproveitavam-se destes para se divertir às minhas custas. Minha raiva e meu esbravejar apenas reforçava a atitude zombeteira deles excitava-os a prosseguir com as chacotas e piadas em relação à cor de minha pele, minha aparência, minha origem social, dentre outras formas de preconceito e discriminação.

                    Através da prática do karate, tive a oportunidade de me relacionar com diversos tipos de pessoas. Desenvolvi verdadeiros laços de amizades e pude me socializar satisfatoriamente com várias pessoas. O clima de respeito no qual o karate está pautado, ajudou-me a estabelecer melhores relacionamentos, a conter minha agressividade e a ouvir antes de responder ou antes de me “defender”. 

                    As brincadeiras e “zoeiras” comuns dos momentos de descontração auxiliaram-me a tornar-me mais tolerante e a aceitar-me a mim mesmo da maneira que sou, já que ali eu era aceito e respeitado por todos. Também pude perceber que não havia necessidade de me defender de toda e qualquer suposta agressão à minha pessoa.

                    Evidentemente, eu não tinha consciência de todos estes detalhes a meu respeito naquela época, e nem percebi a mudança que estava ocorrendo em meu caráter. As mudanças ocorreram de forma lenta e silenciosa, sem causar dor excessiva e sem gerar oposição de minha parte, o que, em minha opinião, constitui uma grande vantagem do karate. Quero dizer, se uma pessoa é corrigida e repreendida abertamente ela pode se revoltar e se endurecer ainda mais, piorando a sua situação. No karate isto não acontece, pois a disciplina e o respeito são aceitos como elementos imprescindíveis ao aprendizado da arte marcial, o que é desejado pelo aluno. Assim, o aluno se submete à rígida disciplina e aprende a respeitar normas de convivência, porque deseja aprender a lutar karate.

                    Assim, passei a me relacionar melhor com todos os meus colegas, dentro e fora do dojo. As piadas e chistes já não me ofendiam tão facilmente e passei a ter um número maior de amizades significativas. Também aprendi a controlar a raiva e a agressividade, deixando de reagir com facilidade a agressões reais ou imaginárias. Através do relacionamento constante com o mestre e colegas de treino, desenvolvi maior capacidade de respeitar e de ser respeitado.

                    Outro ponto interessante deste caráter social do karate em minha vida é o fato de trabalhar na academia. Como eu tinha dificuldades para pagar as mensalidades, embora economizasse o máximo possível para poder fazê-lo, e como eu nunca faltasse aos treinos, meu mestre permitiu-me trabalhar no dojo como forma de pagar minhas mensalidades. Fiquei encarregado da limpeza da academia antes e após os treinos, além de atender a recepção da escola e realizar pequenos trabalhos, quando solicitado. Assim, além de aprender a arte marcial, tive também a oportunidade de desenvolver um ofício. Mais tarde, meu trabalho na academia passou a ser remunerado, o que me ajudou a continuar meus estudos da arte marcial, além de ajudar no meu sustento diário. A conquista deste trabalho me trouxe dignidade e elevou minha auto-estima. Foi a primeira escola e meu primeiro emprego. Para um jovem de minha origem social, a conquista de um ordenado, por mínimo que fosse, representou uma grande vitória. Por outro lado, trabalhar na academia torna-se um exercício de humildade, já que o aluno passa a servir os outros colegas, de maneira indireta. Em outras palavras, o aluno bolsista trabalha para que os alunos pagantes tenham uma escola limpa e agradável para treinar. Assim, ambos são beneficiados: o alunos pagante por encontrar um dojo limpo e organizado, e o aluno bolsista, por poder praticar o karate de forma ininterrupta. Os anos que passei como aluno assistente no dojo de meus primeiros mestres (Sensei Matias Alberto Olguim e seu filho Julio Guilherme Olguim) foram extremamente úteis para meu amadurecimento pessoal e profissional. Eventualmente, tive que aprender a caminhar com meus próprios pés, mas o aprendizado obtido ali foi imprescindível para que eu conseguisse vencer todos os obstáculos que surgiriam em meu caminho nos anos futuros.

 

VI.2 – Saúde

                     Desde minha infância, sempre tive uma saúde frágil. Ainda bem criança passei por 2 crises de pneumonia. Tinha pouca ou nenhuma resistência física, era excessivamente magro e fraco. Minha capacidade cardio-respiratória era muito débil, e eu não conseguia correr pouco mais que alguns metros. Não tinha vocação para os esportes, e por isso, era sempre colocado em segundo plano. Numa partida de futebol de rua, por exemplo, era sempre o último a ser escolhido para compor o time, ou ficava como goleiro. Embora isto se devesse em grande parte à minha falta de talento nato para o futebol, pode-se dizer que minha saúde instável colaborava para que eu ficasse excluído das brincadeiras com os colegas. Já adolescente fui acometido de uma terceira crise de pneumonia que, desta vez, quase tirou-me a vida. Ao receber alta do hospital, estava terrivelmente magro e com aparência pálida. Minha recuperação foi lenta e dolorosa. As seqüelas deixadas pela doença pareciam não ter mais remédio. Sentia-me fraco e sem ânimo para as atividades diárias e estudos. Foi quando o karate surgiu em minha vida.

                    A prática regular e constante do karate aos poucos foi transformando minha saúde. Em cerca de um ano de prática da modalidade, já me sentia muito mais bem disposto e revigorado. Meus músculos se fortaleceram sobremaneira e ganhei uma flexibilidade extraordinária. Meus reflexos melhoraram muito e eu já não me cansava com tanta facilidade. Cerca de dois anos após iniciar os treinos, participei de uma maratona de rua na qual conquistei uma medalha após completar um percurso de 10.000 metros. Embora não tenha chegado em primeiro lugar, o feito representou um avanço muito grande para mim, pois foi uma prova prática de que minha saúde estava se desenvolvendo. Desde então, após terem se passado mais de 20 anos, nunca mais precisei ser internado por motivos de doença. A não ser para ajudar alguém ou em algumas raras ocasiões para receber atendimento de urgência em caso de acidentes, nunca mais precisei entrar em um hospital.

                    Embora eu tenha hoje 37 anos completos, muitos se assustam quando revelo minha idade. Na verdade, minha aparência física é de uma pessoa bem mais jovem. Recentemente uma aluna disse acreditar que eu tinha 28 anos de idade, e uma outra disse que devia ter no máximo 32. De fato, isto não é exclusividade minha. Todos os meus colegas praticantes de karate, que iniciaram a prática do esporte ainda jovens, aparentam ter idade bastante inferior à sua idade real. Meu mestre e amigo, Neweton Adas, por exemplo, tem aproximadamente a mesma idade que eu, e no entanto aparenta não ter mais do que 30 anos de idade. Este é um dos benefícios do karate que eu mais admiro e enfatizo. W., um amigo karateca, aos 42 anos de idade ainda participa de competições e exibe uma flexibilidade invejável. Sua aparência física também desmente os seus registros de nascimento. Chega muitas vezes a derrotar atletas mais jovens em disputas de kumite. Estes são apenas alguns exemplos dentre os milhares de karatecas ao redor do mundo que desfrutam dos benefícios diretos da prática do karate à saúde. Entrevistei e acompanhei vários praticantes da arte marcial, relacionando sua idade real ou cronológica com a idade aparente dos mesmos, de acordo com a opinião de observadores externos. Fiquei espantado com a discrepância percebida entre estas idades.

                    Um karateca amigo meu que estava afastado dos treinos por motivo de trabalho, estava se queixando de sentir fortes dores nas costas e nos ombros recentemente. Ele já havia feito aplicações tópicas de analgésicos, ingerido comprimidos, enfim, já havia tentado de tudo para controlar sua dor sem obter resultados satisfatórios. Ele então resolveu retomar seus treinos de karate e com menos de uma semana de treinamento suas dores haviam desaparecido por completo. O melhor de tudo é que ele não precisou gastar nem um centavo com medicamentos ou médicos. Tudo que ele precisou foi colocar em ação sua academia viva e logo sentiu-se restabelecido de sua saúde.

                    Os benefícios do karate para a saúde já foram cientificamente comprovados. De acordo com o professor José Antônio Viana, Dr. em Educação Física pela UGF e professor da Universidade Estácio de Sá, “a prática controlada do karate direcionada a educação, ao lazer, ao fitness e à qualidade de vida, pode favorecer a melhoria das grandes funções, a resistência muscoloesquelética, a amplitude articular e a coordenação motora geral e específica, fazendo com que o praticante torne-se mais ativo, perspicaz, forte e resistente nas atividades cotidianas.” Segundo Viana, “estudos têm demonstrado que a prática do karate está relacionada a melhorias nos sistemas cardiovascular, melhoria da força, resistência, potência e flexibilidade, mudança na composição corporal e perda de peso.” O autor afirma que a prática do karate tem sido relatada como um componente auxiliar na modificação e na adoção de um estilo de vida mais ativo e saudável, combatendo os diversos males associados à hipocinesia, próprios da vida contemporânea” (Viana, 2008). Vemos que tais estudos encontram se em conformidade com o que venho relatando neste livro a respeito do karate e seus benefícios para a saúde do atleta.

                    Diante de tantas evidências de que a prática constante do karate promove a saúde e o bem estar físico e mental, só me resta, uma vez mais, encorajar a todos aqueles que buscam saúde e bem estar a dedicarem-se a prática deste esporte. Os benefícios se fazem sentir rapidamente, e são duradouros. Mesmo que seja forçado a se afastar dos treinos por algum tempo, o praticante ainda colherá os benefícios do estilo de vida saudável que adotou enquanto treinava.

 

VI.3 Desenvolvimento Moral e Ético

                    Além de, como já foi dito, promover benefícios à saúde física e mental do atleta, o karate contribui para o desenvolvimento ético e moral do praticante. De fato, além de se beneficiar do desenvolvimento físico, psicológico e emocional promovido pela prática do esporte, o karateca também é favorecido no que diz respeito ao seu entendimento daquilo que é moral e eticamente correto. Considerando o fato de que vivemos em sociedade, tal entendimento torna-se indispensável para todo ser humano. Sabemos que não é possível que cada indivíduo faça somente aquilo que bem entenda, sem respeitar certos limites necessários à vida em comunidade, sem respeitar os direitos do próximo.

                    Embora o karate não aborde diretamente questões de direito, ou questões de cunho religioso ou moral, sua prática subentende a necessidade de uma conduta honesta e eticamente correta do praticante, sem a qual ele encontrará dificuldades em alcançar o sucesso desejado na arte marcial. Em outras palavras, para que o aluno possa permanecer na academia, praticando o karate coletivamente com seus colegas de dojo, é necessário que ele demonstre disciplina, respeito, bondade, honradez, honestidade, fidelidade, persistência, dinamismo, sabedoria, etc. Uma série de valores morais e éticos que são requeridos e encorajados na prática diária do esporte e nas competições e eventos coletivos.

                    Se observarmos bem, veremos que os valores preconizados pelo karate são os mesmos preconizados pelas religiões e filosofias que buscam o maior crescimento intelectual e espiritual dos seres humanos. Assim, apesar de não tratar-se de filosofia ou religião, o karate contribui para a formação moral e ética do praticante, por exigir deste uma conduta coerente com a prática de uma arte marcial cuja origem está baseada na honra e na justiça.

                    Todo karateca deve ser fiel aos princípios que regem a arte marcial que pratica, e por isso deve ter uma conduta que se harmonize com estes princípios. Nenhum karateca deve ser grosseiro, desonesto, indisciplinado, mal, covarde, mentiroso, infiel, etc. Quando age em desacordo com os princípios morais e éticos incutidos no karate, o praticante desonra não só a si mesmo, mas à todos os praticantes da arte, e ao karate propriamente dito. Por isto, ao requerer do atleta uma conduta ética e moral exemplar, o karate o ajuda a desenvolver o caráter, de forma a tornar-se uma pessoa com qualidades admiráveis e desejáveis para uma vida social satisfatória e honrada.

VI.4- Auto-Defesa

                    Vivemos em um mundo violento. Basta ligarmos a T.V nos primeiros momentos do dia para ouvirmos notícias de crimes e guerras. Assaltantes, muitas vezes, tiram não só os bens mas também a vida de suas vítimas. Pais violentos agridem seus filhos e vice-versa. Vizinhos se agridem entre si. Irmãos agridem irmãos. E assim a lista de violências prossegue. Por esta razão, todos nós precisamos encontrar formas de nos precaver contra os diversos tipos de violência que, a todo instante, ameaçam nossas vidas.

                    Para a maioria das pessoas que buscam a prática do karate, um dos atrativos principais é a possibilidade de adquirir um meio de auto-defesa eficaz. De fato, o karate constitui um meio eficiente e barato de auto-defesa, uma vez que não requer a aquisição de armas ou instrumentos de nenhuma espécie. Em outras palavras, o karateca carrega sua arma sempre consigo: seu próprio corpo. Assim, o praticante de karate pode dispensar o trabalho de transportar instrumentos de ataque ou de defesa, já que os seus instrumentos estão contidos nele próprio. Guardadas as devidas limitações relativas ao uso de armas de fogo e outras situações onde a melhor defesa é a calma e a imobilidade, o karate representa uma poderosa arma de ataque e defesa.

                    Por outro lado, o que muitos ignoram, é que o sentido da expressão auto-defesa vai muito além da idéia de destruir o inimigo antes que este nos cause dano, aplicando golpes precisos e contundentes. De fato, muitas vezes a verdadeira defesa pessoal está em se evitar o perigo e em se evitar confrontos desnecessários. Por exemplo, se eu sei que em tal rua, em tal horário, pessoas costumam ser assaltadas, é mais lógico que eu evite passar por aquele lugar, especialmente naquele horário em questão. Se um brutamontes me xinga ou provoca com gozações, é mais sábio ignorar a afronta do que partir para o revide. Se eu tenho a oportunidade de me esconder de um agressor e assim escapar de seu ataque, porque razão me confrontaria com ele? Se é possível fugir do ladrão, porque esperar até que ele me alcance? Estes pequenos, mas importantes, princípios podem ser resumidos pelo famoso ditado popular: “O seguro morreu de velho”. Tais ensinamentos também estão incutidos no karate que, ao contrário do que se possa imaginar, preconiza a paz e a não violência como forma de solucionar os conflitos.

                    Em princípio, só devemos recorrer ao uso da força após esgotadas todas as possibilidades. Não é fácil, entretanto, precisar em que momento isto ocorre. Com efeito, em algumas situações pode ser melhor agir imediatamente, evitando assim que o agressor tenha qualquer chance de nos fazer mal. Em outras, o melhor pode ser permanecer imóvel e simplesmente esperar que o agressor vá embora, torcendo para que não nos cause nenhum dano físico ou à nossa vida. Acredito que tudo dependerá do momento e de como estaremos preparados para reagir à situações inesperadas. De qualquer forma, o importante é que não sejamos tolos e não tomemos nenhuma atitude precipitada, que pode custar a nossa vida ou a vida de pessoas queridas.

                    Cada professor deveria instruir seus alunos a não reagir em situações onde o agressor detém o controle da situação (possui arma de fogo). A não ser em raros casos onde, por algum descuido, o agressor se coloca vulnerável, dando a oportunidade para que o lutador haja rapidamente, desarmando-o e o colocando fora de combate, é praticamente impossível desarmar um atirador antes que este execute um disparo. Além disso, é muito difícil de se perceber em que momento o atacante se colocará em posição de fragilidade. O princípio da sabedoria contido no karate nos ensina que devemos, antes, preocuparmo-nos com a preservação da vida, ao invés de procurar realizar feitos mirabolantes para que sejamos elogiados pelos outros. Muitos atos de “heroísmo” acabaram em tragédia.

                    Certa vez alguns colegas, sabendo que eu sou karateca, quizeram pregar-me uma peça. Conversaram durante alguns instantes a respeito de um suposto ladrão que estaria rondando a vizinhança. Em seguida, desligaram a força elétrica para que todas as luzes se apagassem. Um destes colegas vestiu-se com uma roupa preta, cobrindo o rosto com um pano e simulou um assalto. A empregada começou a gritar desesperada, pois também não sabia tratar-se de uma brincadeira. Procurei manter-me calmo e tentei acalmá-la. Não reagi imediatamente pois estava escuro e eu não tinha como saber se o suposto ladrão estava armado. O “bandido” avançava em minha direção enquanto a empregada continuava a gritar feito louca. Tudo parecia desmoronar e naquele momento pensei que fosse morrer. Estava para desferir um golpe, quando um dos meus colegas “segurou” o “ladrão”. Só então percebi tratar-se de uma brincadeira, já que o colega que segurou o “ladrão” era um grande covarde e jamais, em uma situação real, faria tal coisa. Após passado o susto, tive que agüentar as gozações e piadinhas em relação ao meu karate, colocando em dúvida o valor de minha arte marcial e coisas deste tipo. Expliquei a todos, no entanto, que a prática do karate não nos obriga a sermos perfeitos o tempo todo, nem a sair por aí enfrentando bandidos na escuridão. Expliquei ainda o perigo da atitude deles ao simular um assalto, pois, caso eu reagisse, poderia ter ferido gravemente o colega, ou mesmo causado sua morte. Não sei se minha forma de agir foi a melhor para aquele momento, mas tenho plena convicção de que reagir, certamente, não era a melhor opção, já que eu acreditava piamente tratar-se de um assalto real. Na verdade, se as artes marciais ensinassem apenas golpes e técnicas defensivas, provavelmente já teriam desaparecido, pois o ser humano já dispõe de armas poderosas e altamente destrutivas, não havendo tanta necessidade de que alguém saiba lutar a fim de conseguir sobreviver, como ocorria no passado. Felizmente, o karate, como outras artes marciais, agrega valores que estão muito além da simples auto-defesa, e isto fez com que ele permanecesse vivo até os dias de hoje.

                    Em resumo, o princípio da defesa pessoal no karate é: preservar a vida acima de tudo. Este princípio engloba a preparação para enfrentar situações de crise ou risco, a coerência no agir e no pensar, o bom senso para evitar perigos desnecessários e para não reagir de forma precipitada, e a sabedoria para enfrentar os problemas e perigos do dia-dia. Seguir estes princípios é muito mais importante do que dominar qualquer técnica marcial.

 

 

CAPÍTULO VII

CONCLUSÃO

 

                    Ao longo de todo o livro, procurei apresentar o que existe de melhor no karate e os benefícios que sua prática pode trazer às nossas vidas. Falei de meus queridos mestres e amigos que tanto me ajudaram a crescer em todos os aspectos da vida. Procurei apresentar de forma sucinta a história e a evolução do karate e demonstrar as fases do treinamento de um karateca, desde o início de seu aprendizado até a sua graduação como faixa preta. Também procurei demonstrar como o karate influencia positivamente diversas áreas de nossa vida como saúde, sociabilidade e autoconfiança. Enfim, procurei fazer uma rápida viagem em torno de tudo aquilo que o karate significa e representa.

                    As experiências aqui relatadas são todas reais e foram compartilhadas a fim de que fosse possível ao leitor alcançar um maior entendimento do que é o karate, e do porque se deve praticar esta arte. Em momento algum estes relatos buscam o engrandecimento próprio deste autor, mas sim reconhecer e enaltecer o poder do karate. Muito ainda há para ser dito a respeito desta arte, e este trabalho não pretende esgotar um assunto tão vasto como é este esporte. Futuros trabalhos deverão complementar o presente, preenchendo lacunas onde estas tenham havido, discutindo, redargüindo, e tornando o karate cada dia mais conhecido no meio acadêmico, social,  e popular.

 

EPÍLOGO

                    O karate representa muito em minha vida porque ele mudou completamente as minhas perspectivas em relação àquilo que eu acreditava poder esperar dela. O karate, por ser um esporte, exercita a estrutura física e mental do indivíduo. Por lidar com valores como respeito, amizade, disciplina e coragem, ajuda o praticante a moldar e lapidar o caráter. Por ser uma atividade que prioriza a prática em grupos, o karate promove o convívio social entre seus praticantes. Ao mesmo tempo, o karate é um esporte que pode ser praticado individualmente, dispensando o uso de aparelhos de ginástica sofisticados ou a necessidade de um espaço demasiadamente amplo. Além de todas estas qualidades, o karate ainda constitui um meio eficaz de defesa pessoal, nos prepara para lidar com situações críticas e nos ensina a evitar perigos desnecessários. Uma arte marcial que acumula tantas qualidades, jamais deveria ser colocada de lado por alguém que iniciou-se em sua prática.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

APRESENTANDO MESTRES E AMIGOS:

 

I.1 - AKIO YOKOYAMA (8º Dan):

Pioneiro do estilo Kenyu-Ryu no Brasil

 

Em pé: Fabio Andrade, Reinaldo Silva e Marcio Bambirra.

Agachado: Akio yokoyama

 
 
Akio Yokoyama nasceu em

 

                                                             

 

 

Akio Yokoyama nasceu em Tokyo, no Japão, em 1942. Iniciou seus treinamentos como o mestre Tadao Nakano, aluno de Ryoshou Tomoyori, em 1958 na Universidade Tenri. Akio Yokoyama veio para o Brasil no ano de 1965, com o objetivo de divulgar o estilo Kenyu-Ryu de Karate. Através de demonstrações, exibições públicas, divulgações, promoção de competições, entre outros eventos, Yokoyama conseguiu estabelecer uma grande rede de praticantes de Karate em todo o Brasil, mais especificamente no estado de Minas Gerais, onde se fixou, fundando a Tenri Dojo de Karate, em Belo Horizonte. Em 1973, Akio promoveu, nesta mesma cidade, o 1º Campeonato Nacional Extra com o apoio da Confederação Brasileira de Pugilismo - Departamento de karate. Ministrou aulas de karate no exército (C.P.O.R) e na polícia militar entre 1972 e 1975. Em 1984, Yokoyama fundou a Associação Kenyu Ryu Karate Kempou do Brasil. Tornou-se conhecido e respeitado por seu trabalho árduo e dedicação ao karate.

 

I.2 MATIAS ALBERTO OLGUIN (1931-1992):

Meu primeiro mestre

 

Aluno de Akio Yokoyama, Sensei Matias Olguim, foi meu primeiro professor de Karate. Argentino naturalizado brasileiro, Sensei Matias foi uma personalidade incrível. Ensinou Karate em Ipatinga, cidade de sua residência, e também na cidade de Coronel Fabriciano. Pessoa bondosa e comprometida com o crescimento do esporte, foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento do karate na região mineira do Vale do Aço, e pela fundação da Federação Mineira de Karate, em 1977. Sensei Olguim legou o karate a seus dois filhos, Matias Olguim Junior e ao meu segundo professor, Júlio Olguim.

 

I.3 JÚLIO GUILHEME OLGUIN:

Um Verdadeiro Guerreiro

 

Sensei Júlio Olguim, filho de Sensei Matias Olguim, continuou o trabalho de divulgação e popularização do karate no vale do aço, após o falecimento de seu pai em 1992. Sensei Júlio começou a ensinar karate ainda jovem. Antes da morte de seu pai, ficou à cargo da escola da cidade de Coronel Fabriciano, vizinha à Ipatinga. Após alguns anos treinando com Sensei Matias, em Ipatinga, passei a treinar com Sensei Julio, já que residia próximo à sua escola. Com ele pude aprender mais à respeito da essência do Karate. De fato, embora já soubesse executar técnicas de defesa e ataque, faltava-me entender o âmago da arte marcial. Sensei Júlio me ajudou a perceber as nuâncias existentes nos movimentos, os pequenos detalhes que fazem a diferença no momento de combate. Ele também me ensinou muitas coisas relativas à vida em sociedade e à boa formação do caráter. Sensei Júlio sempre foi uma pessoa amiga e encorajadora. Graças à sua dedicação como professor e ao seu empreendedorismo, fui capaz de continuar treinando até chegar à Shodan (Faixa Preta) em 1993.

Sensei Júlio não desanimou diante das imensas dificuldades que enfrentou para expandir o Karate em sua região. Enfrentou a falta de recursos financeiros e a falta de apoio ao esporte. Buscou incentivos quando estes não existiam, conseguiu patrocínios e parcerias quando estas pareciam impossíveis e improváveis. Através de seu trabalho, mostrou que é um verdadeiro guerreiro, e demonstrou na prática o real espírito do karate.

Hoje, Sensei Julio é professor de Educação Física e Karate em Ipatinga, e continua guiando crianças e jovens nos caminhos desta arte marcial, além de preparar atletas de todas as idades para a participação em competições na modalidade Shiai Kumite (luta competitiva) e Kata (forma). O próprio Sensei Júlio, também foi competidor e conquistou títulos importantes no Karate. Seu trabalho proporcionou grande crescimento para o esporte em toda a região do Vale do Aço, onde seu nome e de sua família são bastante reconhecidos e respeitados.

 

 

I.4 SENSEI NEWETON ADAS

Grande mestre e amigo

 

Bacharel em Educaçao Física, Sensei Neweton Adas é faixa preta Quarto Dan em Goju Ryu, e Diretor-Técnico da Federação Mineira de Karatê, onde iniciou seus trabalhos ainda jovem. Grande amigo e mestre, sua vida de vitórias tem servido de exemplo para todos os seus alunos e para todos aqueles que o conhecem (Frossard, 2004). Sensei Neweton é figura importante no cenário do karate mineiro e um dos principais responsáveis pela organização e realização de eventos relativos ao esporte como competições e cursos de aperfeiçoamento técnico. Participa frequentemente de cursos e eventos em nível nacional e internacional. Dentre suas mais importantes atuações, está o trabalho como técnico/treinador da equipe de karate do Clube Atlético Mineiro. Reconhecido nacional e internacionalmente por seu excepcional trabalho, Sensei Neweton não mede esforços para aprimorar-se, e contribuir para o engrandecimento do karate.

 

I.5 Como Tornei-me Aluno de Sensei Neweton Adas

 

Em 1995 mudei-me definitivamente para Belo Horizonte, em busca de melhores oportunidades. Após conseguir trabalho na capital, decidi retomar os treinos de karate. De 1995 a 1998, fui aluno de Sensei Akio Yokoyama (8º Dan), na hoje extinta Tenri Dojo. Em 1999, Por razões econômicas, desliguei-me da escola, ficando sem local para praticar e sem professor. Após algum tempo sem treinar, senti a necessidade de me unir, novamente, a uma escola de karate. Mas onde encontrar um professor à altura de Sensei Akio? Como pagar as mensalidades da academia, uma vez que passava por um momento difícil?

Certo dia, encontrei-me, por acaso, com o Presidente da FMK, Sensei João Carlos de Godói (5º Dan), e cumprimentei-o dizendo que era aluno de Sensei Júlio Olguim. Sensei João Godói, então, convidou-me a visitar a sede da FMK, convite que aceitei com satisfação. Durante a visita, tive a honra de conhecer melhor as pessoas responsáveis pelo funcionamento da FMK e pela administração de todos os eventos oficiais do esporte em todo o estado de Minas Gerais. Soube mais a respeito do trabalho da FMK e pude compreender o desafio de se representar o karate mineiro no cenário nacional. Felizmente, durante a visita, recebi outro convite que trouxe grande mudança de perspectivas pessoais e profissionais. Graças a este convite pude retomar a prática do karate, além de recuperar meu entusiasmo e amor pela arte, então ofuscados pelas duras lutas que enfrentava na ocasião.

Como mencionei anteriormente, enfrentava dificuldades financeiras e por isto não podia pagar uma academia para treinar. Em minha visita à FMK, reencontrei Sensei Neweton Adas, a quem havia conhecido anos atrás, mas com quem eu não mantinha, até então, um relacionamento próximo. Relatei a ele minhas dificuldades e, após conversarmos muito, Sensei Neweton bondosamente convidou-me para treinar em sua academia como aluno bolsista. Foi com grande satisfação que recebi o convite, e tratei imediatamente de aceitá-lo. Meu retorno ao dojo foi difícil, mas graças ao trabalho e sabedoria de Sensei Neweton, logo recuperei o vigor físico e a perícia na execução dos katas, kihon e kumite.

Fiquei impressionado com a dedicação e amor daquele professor pelo karate, além de sua preocupação em zelar pelo bem estar de seus alunos, não apenas superficialmente, mas de forma completa, comprometendo-se com a formação física, ética, moral e intelectual de seus estudantes. De fato, Sensei Neweton Adas sempre demonstrou preocupar-se com o sucesso de seus alunos tanto dentro, quanto fora da academia, e foi ele quem mais me ajudou a reerguer-me profissionalmente e a reencontrar meu caminho rumo à realização pessoal, tanto em relação ao Karate, com a conquista de medalhas até então inéditas para mim, quanto em relação aos meus estudos e trabalho. Com efeito, após treinar com Sensei Adas, conquistei vários títulos no esporte, estabeleci-me como professor de Karate e, finalmente, fui aprovado no vestibular da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde graduei-me em Letras/ Língua Inglesa em 2007, e em Língua Portuguesa, em 2009. Atribuo meu sucesso em grande parte à melhora geral de meu estado emocional e psicológico proporcionadas pelas aulas com o grande professor.

Tamanho foi o impacto que os treinos e todas as coisas novas que aprendi tiveram sobre meu Karate, que decidi mudar meu estilo anterior (Kenyu Ryu) para o estilo de Sensei Adas, o Goju-Ryu do mestre Shogun Miyagy. Já completamente "convertido" ao novo estilo, conquistei o grau de NIDAN em 2002 e o grau de SANDAN em 2007.

Hoje, Sensei Neweton continua a realizar um excelente trabalho em prol do karate, formando campeões, guiando lideranças, organizando eventos e desenvolvendo projetos, tudo isto, tendo em vista o crescimento e o desenvolvimento de nossa arte.

Hoje, realizado profissionalmente, sinto que tenho uma dívida enorme para com o karate e para com todas estas pessoas fantásticas que Deus colocou em meu caminho e que me mostraram que era possível mudar a direção de minha vida e que eu podia realizar coisas incríveis se eu acreditasse nisto. Por isso eu compreendo que o Karate é muito mais que uma arte marcial, muito mais que um esporte, e que não se trata de uma combinação de movimentos. Acima de tudo, o Karate é um ambiente de convívio social e uma escola de disciplina, respeito e dedicação à construção do caráter. Finalmente, eu poderia citar muitas outras pessoas incríveis que me ajudaram nesta jornada, mas citei somente aquelas para com as quais tenho maior dívida. A todas as outras porém, não esqueço de agradecer em minhas orações e mantendo-as vivas em minha mente e em meu coração.


 

 

GLOSSÁRIO

 

 

AGE UKE Bloqueio ascendente. 

AGE ZUKI Socar para cima.

AI Harmonia, chegar juntos, unificação, integração,amor

AITE Parceiro

AIDA Intervalo ,Distancia.

AINIKU Infelizmente.

AIRASHI Amável.

AI HANMI Parceiros frente à frente, ambos com o mesmo pé adiantado.

AIKI Combinação de duas (ou mais) energias, harmonização, integração.

AI-UCHI Ataque simultâneo

AKARI Claridade.

AKIRAMERU Desistir

AKIRAKANA Óbvio,Evidente.

AKI Outono.

AKARUI Claro

AKA Vermelho

AKA (SHIRO) IPPON Ponto para Aka(vermelho).

AKA (SHIRO) NO KACHI Vitória para AKA

AMAI Doce.

ARIGATO GOZAIMASHITA "Muito obrigado"

ASHI Perna ou pé.

ASHI BARAI Varrer com o pé.

ASHI WAZA Técnicas de pernas.

ATEMI Golpe, uma pancada direcionada à um ponto anatômico frágil; usado defensivamente no Aikido.

ATEMI WAZA Técnicas de golpear.

ATENAI YONI Não  bater

ATOSHI BARAKU Limite de 30 segundos para término da uma luta.

AWASE Combinar; atrair a ação do parceiro iniciando a execução da técnica.

AWASE UKE Defesa com as mãos unidas.

AWASE ZUKI Mesma coisa que MOROTE ZUKI.

AYUMI DACHI Base natural com o peso no centro de gravidade, ITOSU-KAI SHITO-RYU.

 

B:

 

BO Bastão longo com aproximadamente 6 pes.

BOKKEN Espada de madeira.

BUDO Disciplinas marciais do Japão moderno.

BUDOKA Praticante de arte marcial.

BUJUTSU Artes marciais japonesas clássicas.

BUNKAI Estudo das técnicas e aplicações do KATA

BUSHIDO Código dos guerreiros do período clássico no Japão.

BUSHIN "Espírito marcial," o nível mais alto de maestria nas artes marciais.

 

C:

 

CHOKU ZUKI Soco direto.

CHUDAN Nivel  Médio

CHUDAN ZUKI Soco a altura média.

 

D:

 

DAN Graduação; no Karatê a graduação dos faixas pretas vai de shodan (1o grau) à judan (10o grau).

DANKYU Sistema de graduação de Karatê moderno. Data de 1887 para frente. Baseado no modelo militar de atribuição de Graus.

DESHI Discípulo.

DO Um determinado caminho de refinamento físico e espiritual; um modo de vida.

DO-GI Uniforme de treinamento usado por praticantes de artes marciais.

DOJO Academia. Literalmente “lugar de iluminação” 

DOMO ARIGATO GOZAIMASHITA Forma Japonesa de “Muito obrigado”, ao término de uma aula é formal agradecer ao instrutor e esse aos alunos.

DORI [também pronunciado tori] Pegar, segurar.

DOSA Movimentos básicos; mais comumente kihon-dosa .

 

E:

 

EMPI Cotovelo

EMPI UCHI Pancada com o cotovelo

ENBUSEN Linha de atuação

ENCHO-SEN Prorrogação de uma luta, a qual reicia quando o Referee comanda "SHOBU HAJIME."

EN-NO-IRIMI Entrada circular; entrar atrás de um ataque e controlá-lo num movimento circular.

 

F:

 

FUDO DACHI Posição imutavel, firme.Semelhante SOCHIN DACHI.

FUDO-NO-SHISEI Postura "Imutável" ( firme e equilibrada).

FUDO-SHIN "Espírito Imutável"; atitude mental inexpugnável.

FUKUSHIN SHUGO "Reunião dos Judges"

FUMIKOMI Chute em forma de pisão, normalmente ao joelho ao pé.

 

G:

 

GANKAKU DACHI O mesmo que TSURU ASHI DACHI e SAGI ASHI DACHI.

GASSHUKU Período intenso de treino durando vários dias. Em português poderia ser traduzido por "retiro".

GEDAN Nível inferior 

GEDAN BARAI De cima para baixo

GEDAN UDE UKE Bloquear com antebraço para baixo.

GEDAN ZUKI Socar para baixo..

GI Uniforme usado na prática de artes marciais japonesas, vulgarmente denominado Kimono

GODAN Faixa preta 5o Dan.

GOHON KUMITE Forma de kumitê para iniciantes. Deslocamento de 5 passos, usando técnicas de ataque e defesa basica.

GO NO SEN Técnica de permanecer na defenciva, para contra atacar..

GYAKU-HANMI Posição reversa na qual os parceiros tem o pé oposto à frente.

GYAKU ZUKI Soco invertido.

 

H:

 

HACHIDAN Faixa preta 8o Dan.

HACHIJI DACHI Posição natural com os pés na largura dos ombros, pontas ligeiramente voltados para fora..

HAI "Sim".

HAISHU UCHI Pancada usando as costas da mão.

HAISHU UKE Defesa usando as costas da mão..

HAITO UCHI Pancada usando a faca interna da mão.

HAJIME "Comando para iniciar , Kata, ou Kumite.

HAKAMA "Saia-calça" samurai usada por praticantes de Aikido e Kendo.

HANGETSU Meia  lua

HANGETSU DACHI base em forma de meia lua.

HANMI Posição triangular.

HANSHI “Mestre”, Um título dado aos faixas pretas de mais alta graduação de uma organização e significa que este tem a compreensão total daquela arte.

HANSOKU Penalidade por uma Infração grave, a qual eleva a pontuação do oponente a SANBON.

HANSOKU CHUI "Penalidade por uma infração média, na qual se dá IPPON para o oponente.

HANTAI Reverso, oposto.

HANTEI "julgamento feito pelos árbitros, para uma situação de luta indefinida.

HARA Região da barriga, três dedos abaixo e acima do umbigo, sede do KI, energia interior

HARAI WAZA Técnicas de  raspagem.

HENKA-WAZA Técnicas explorando variações possíveis.

HEIKO DACHI Posição natural na qual os pés ficam a largura dos ombros, com as pontas voltadas para frente.

HEIKO ZUKI “Soco emparelhado”(Soco duplo simultâneo).

HEISOKU DACHI Posição natural, pés juntos voltados para frente.

HIDARI Esquerda.

HIJI Cotovelo, também chamado de EMPI.

HIJI ATEMI Golpe com o cotovelo.

HIJI UKE Bloqueio ou defesa com o cotovelo.

HIJI-ATE Cotovelada também chamado de EMPI-UCHI

HIKITE Puxada de mão

HIKIWAKE “Empate no kumite”. Juiz mostra as mãos palmas para cima, na lateral.

HITOSASHI IPPON KEN Junta do dedo indicados, o mesmo que IPPON KEN.

HIZA GERI Joelhada

HIZA UKE Bloqueio usando o joelho.

HOMBU DOJO Termo que se refere a Dojo central.

 

I:

 

IAI-DO A arte de desembainhar e cortar com a espada.

IKI Respiração; o ato físico de respirar.

INASU Evasão de um ataque somente desviando o corpo da linha de ataque.

IPPON KEN Golpe com a junta da segunda falange do dedo anular

IPPON KUMITE Luta de um passo.

IPPON NUKITE Golpe de punhalada usando apenas um dedo estendido.

IPPON SHOBU Luta de um ponto, usado em torneios.

IRIMI Penetrar, entrar. Situação de luta muito próxima em que se desvia a defesa ou ataque do oponente para entrar.

 

J:

 

JIKAN "tempo".

JIN-NO-KOKYU A respiração do ser humano; o terceiro estágio da meditação com respiração.

JIYU IPPON KUMITE Luta de um ataque, usando qual que técnica e anunciando qual vai ser.

JIYU KUMITE luta livre.

JIYU-WAZA Técnicas livres.

JO Bastão de madeira de 120 cm ( 4 pés).

JODAN Nível superior ..

JO-DORI Técnicas para desarmar um oponente armado com bastão.

JOGAI “Sair da área de luta”.

JOGAI HANSOKU CHUI Terceira saída da área de luta. Da IPON ao oponente

JOGAI HANSOKU Quarta saída da área de luta. Da sambom e conseqüentemente a vitória ao oponente

JOGAI KEIKOKU Segunda saída da área de luta. Da WASA-ARI ao oponente.

JO-TAI-KEN Treinamento de bastão contra espada.

JU O principio da flexibilidade; o aspecto salgueiro das técnicas e da filosofia do Aikido.

JUDAN Faixa preta de décimo Dan (o maior grau concedido).

JUDO Sistema de arte marcial moderno criado por Jigoro Kano (1860-1938).

JUJI UKE Bloqueio em X.

JUJUTSU Sistemas japoneses de combate desarmado.

JUN ZUKI O termo usado na WADO RYU para OI-ZUKI.

JUTSU Técnica. Denominava as artes marciais de combate (Jujutsu, Kenjutsu, Karate-jutsu)

 

K:

 

KACHI: Vencedor. (por exemplo, AKA KACHI) em torneios.

KAGI ZUKI Soco em gancho,(Jion).

KAISHU Mão aberta, se refere aos movimentos com a mão aberta ou que o punho não esteja completamente fechado.

KAKEJIKU Um pergaminho pendente.

KAKE-TE Bloqueio ou defesa em gancho. (BASSAI-DAÍ)

KAKIWAKE Bloqueio duplo frontal , com a parte externa do pulso, para um ataque como agarramento.

KAKUSHI WAZA "Técnicas secretas."

KAKUTO UCHI Golpe com a partes externa do pulso, também conhecido como "KO UCHI."

KAKUTO UKE Defesa com a partes externa do pulso, também conhecido como KO UKE.

KAMAE Atitude; postura "combativa".

KAMAE-TE Comando dado pelo instrutor para o aluno entrar em posição.

KAMI Deus, divindade, espírito divino, inspiração sagrada, anjo guardião, ser humano iluminado.

KAMIZA A parte do dojo onde pergaminhos, fotografias do fundador, e outras coisas, são mostradas.

KANSHA Gratidão profunda e sincera.

KAPPO Técnicas de ressuscitar pessoas que sucumbiram a um choque ao sistema nervoso.

KARATE Sistema de arte marcial moderno originado em Okinawa, introduzido ao mundo por Gichin Funakoshi (1868-1957).

KARATE-DO Caminho das mãos vazias. Filosofia de vida do Karate. Isto não só implica o aspecto físico de Karate, mas também os aspectos mentais e sociais de Karate.

KARATEKA O praticante de Karate.

KATA "Forma Padrão," tipos de prática pré-determinados usados como veículo de aprendizado.

KATA-DORI Ser segurado na região do ombro.

KATATE-DORI Ser segurado por uma mão.

KATATE-RYOTE- DORI Ter o braço segurado por duas mãos.

KEAGE Chutar para cima

KEIKO Treinando. O único segredo para o sucesso em Karate.

KEIKOKU Advertência com penalidade de WAZA-ARI para o oponente.

KEKOMI Pontapé em forma de punhalada.

KEMPO Termo usado para descrever sistemas de lutas que usam o punho. Nesta consideração, KARATE também é KEMPO

KEN Espada.

KENDO Esgrima moderna japonesa, praticada principalmente como um esporte competitivo.

KENSEI Técnicas com KIAI silencioso. Relacionado a meditação.

KENTSUI o mesmo que TETTSUI.

KENTSUI UCHI golpe de martelada TETTSUI UCHI

KERI pontapé.

KI [Chi em chinês] Energia vital, força da vida; também o aspecto do ki relativo as técnicas e a filosofia do Aikido.

KIAI Grito penetrante; aplicação da técnica com emprego total da força espiritual. Grito libertado com o propósito de focalizar toda a energia em um único momento, manifestação de KIME

KIBA DACHI Base mais estável, montado no cavalo. Também conhecido NAIFANCHI ou NAIHANCHI DACHI.

KIHON Técnicas básicas.

KIKAI TANDEN O centro físico e espiritual do ser humano, localizado a, mais ou menos, cinco centímetros abaixo do umbigo.

KIKEN "Renúncia." O árbitro aponta um dedo para o concorrente

KIME foco de potência; arremate; finalização

KI-NO-NAGARE Técnicas fluídas.

KIMUSUBI O elo do ki, a mistura de energias.

KI-O-TSUKE "Atenção",cuidado.

KITAERU Forjar.

KIRIOKU Ânimo

KISEKI Milagre

KITANAI Sujo.

KITTO Sem  falta.

KIZETSU Desmaio.

KIZAMI ZUKI Soco com a mão que está a frente alongando.

KO BO ICHI O conceito de “conexão" de Ataque-defesa.

KODOKU Solidão

KOE Voz.

KOISHII Saudades.

KOKUMIM Povo.

KO UCHI Golpe com a parte externa do pulso, também conhecido como KAKUTO UCHI.

KO UKE Defesa com a parte externa do pulso, também conhecido como KAKUTO UKE

KOHAI Alguém com menos experiência; ao contrário de Sempai.

KOKEN Articulação do pulso.

KOKORO “Espírito, Coração”. Na cultura japonesa, o espírito mora no coração

KOKUTSU DACHI Posição ou base em que 70% do peso permanece atrás.

KOKYU O sopro da vida, sopro vital do cosmos; tecnicamente, "boa harmonia."

KOKYU-HO Exercícios especiais para desenvolver o poder da respiração.

KOKYU-ROKU Poder da respiração com algo distinto do poder físico puro.

KOKYU-UNDO Exercícios de movimentos respiratórios, realizados sentados ou em pé.

KOSA DACHI Posição em que as pernas estão cruzadas.

KOSHIN Traseiro.

KUATSU O método de ressuscitar uma pessoa por perdeu os sentidos devido a estrangulamento ou choque.

KULEN "Ensinamentos secretos," transmitidos oralmente; implica numa transmissão direta, pessoa-pessoa.

KUMADE Mão  de urso..

KUMANO Distrito antigo na prefeitura de Wakayama, considerado o centro da espiritualidade japonesa.

KUMI-JO Treino de bastão com parceiro.

KYU graduação de faixas inferior a preta, de 10º ao 1º

KYUDAN Faixa preta de nono grau.

KYUSHO WAZA Técnicas de pontos de pressão.

 

M:

 

MA-AI Intervalo correto entre os parceiros; distanciamento perfeito.

MAKIWARA alvo de treinamento feito de palha

MANDALA Diagrama sagrado; mapa cósmico.

MASAKATSU AGATSU "Verdadeira vitória é auto-vitória,"

MEN-UCHI Golpe em direção a cabeça ou face.

MIGI Direito(a).

MISOGI Purificação do corpo e da mente.

MOKUSO meditação

MUNADORI Ser segurado na região do peito.

MUSHIN Estado de integração entre a mente e o corpo no qual a mente acha-se livre de ilusões

MAAI GA TOH distancia não formal (incorreta)

MAE Frente.

MAE ASHI GERI Chutando com a perna dianteira 

MAE EMPI golpe de cotovelo para frente.

MAE GERI KEAGE Pontapé repentino dianteiro. Também MAE KEAGE.

MAE GERI KEKOMI Pontapé dianteiro profundo. Também MAE KEKOMI.

MAE UKEMI técnica para frente.

MAKOTO Um sentimento de sinceridade absoluta e franqueza total que requer uma mente totalmente livre de pensamentos.

MANABU Método de aprender imitando e seguindo o instrutor

MANJI UKE Bloqueio ou defasa dupla, onde um braço executa GEDAN BARAI para um lado, enquanto o outro executa JODAN UCHI UKE (ou JODAN SOTO YOKO TE).

MATTE "Espera".

MAWASHI EMPI UCHI Cotovelada circula também conhecido como MAWASHI HIJI ATE.

MAWASHI GERI Chute circular.

MAWASHI HIJI ATE Cotovelada circula também conhecido como MAWASHI EMPI UCHI.

MAWASHI ZUKI Soco circular.

MAWAT-TE Comando do instrutor para os alunos se virar.

MENKYU Sistema de atribuição de Títulos(relacionado a uma arte marcial real)Kakuto Bu-jutsu. Data de 1600 para trás. Não é um sistema de atribuição de "Graus", pelo modelo militar.

MIENAI "Eu não pude ver." Indicação dos juizes auxiliares sobre determinada técnica.

MIGI Direita.

MIKAZUKI GERI Pontapé crescente.

MOKUSO Meditação

MOROTE UKE Bloqueio aumentando. Um braço apóia o outro com o punho.

MOROTE ZUKI Perfurando simultaneamente com ambos os punhos. Também conhecido como AWASE ZUKI.

MOTO NO ICHI "posição original ." Comando do juiz para que os lutadores voltem as suas linhas iniciais.

MUDANSHA Alunos que se preparam para exame de faixa preta.

MUBOBI Advertência por descuido com sua própria segurança

 

N:

 

NAGARE Fluxo; fluxo ininterrupto de ki durante a execução de uma técnica.

NANBEI América  Do  Sul.

NANBOKU Norte  e Sul.

NANDE Por que.?

NANDEMO Qualquer Coisa

NAGE "Aquele que arremessa," o defensor que aplica a técnica contra o atacante.

NAOTE Voltar a posição

NUKITE "Mão de espada"

NUNCHAKU Arma Okinawense que consiste em bastões unidos por corda ou corrente. Foi originalmente utilizado pelos Okinawenses como instrumento de colheita para destroçar palha de arroz.

 

O:

 

OBI faixa que prende o uniforme de treino

ONEGAI SHIMASU "Boas vindas dado ao aluno quando inicia a prática”,Por favor.

OSAE UKE Bloqueio ou defasa para baixo.

OTOSHI EMPI UCHI Golpe de cotovelo para baixo.

OTOCHI OSAE UKE Defesa para baixo como TEICHO UKE em forma de pressão, também chamado de SHOTEI OSAE UKE

OYAYUBI IPPON KEN Junta do dedo polegar.

OYO WAZA Aplicação da interpretação das técnicas de um KATA, variando de acordo com as condições do momento.

OSS  Saudação dos  atletas  de karate,energia  positiva.

 

R:

 

REI Respeito, curvar-se abaixo do mais graduado

REIGI Etiqueta. Manter e buscar sempre a etiqueta formal. Mesmo em uma luta manter sempre a sinceridade.

REINOJI DACHI Base em que os pés formam um “L”

RENSEI Observar e criticar o desempenho dos competidores num torneio.

RENSHI "Uma pessoa que dominou a si mesma." Um especialista das técnicas daquele sistema

 

S:

 

SAGI ASHI DACHI Igual a GANKAKU DACHI ou TSURU ASHI DACHI.

SAI Uma arma de Okinawa que é amoldada em forma de tridente com o dente do meio maior.

SANBON KUMITE Luta de três passos.

SANBON SHOBU Luta de três pontos. Usado em torneios..

SANCHIN DACHI Postura ou base em forma circular.

SASHITE Elevando a mão para golpear, agarrar, ou bloquear.

SEIKEN junta frontal da mão formada pela articulação do dedo indicador e anular.

SEIRYUTO técnica que usa a base do SHUTO, próximo a articulação

SEIZA Maneira correta de sentar formalmente sobre os joelhos

SEMPAI O estudante mais antigo.

SEN NO SEN Atacando no momento exato, não deixando o oponente fazer nada.

SEN SEN NO SEN Atacando antes dos ataques do oponente. Antecipando-os.

SENSEI professor; mestre

SHIDOIN Instrutor 

SHIAI Uma luta de uma competição.

SHIHAN “Mestre” Título dado ao mais antigo ou sábio dos professores. Professor dos professores.

SHIKKAKU Desqualificação. Expulsão de uma competição.SANBON.

SHIKO DACHI base ou posição quadrada. Pés voltados para a lateral. Usado pelo Goju-ryu e Shito-ryu

SHIRO Branca

SHIZENTAI posição natural - corpo fica relaxado mas alerta

SHOBU HAJIME Comando para começar uma prorrogação de luta

SHOBU SANBON HAJIME Comando para início de luta de três ipons.

SHOMEN Frente ou topo da cabeça. Também a frente de um Dojo.

SHUGO Juiz principal chama os auxiliares com movimento de braços.

SHUTO TE O mesmo que SHUTO UKE. 

SHUTO UKE Defesa com a faca de mão.

SOCHIN DACHI posição estável também chamado de FUDO DACHI.

SOKUTO lateral ou faca do pé.

SOTO (UDE) UKE Bloqueio ou defesa com a parte de fora do braço.

SOTO YOKO TE O mesmo que UCHI UDE UKE.

SUKUI TE O mesmo que SUKUI UKE.

SUKUI UKE Bloqueio ou defesa escavando.

SUWARI WAZA Técnicas usadas a partir da posição sentado.

 

T:

 

TAI SABAKI esquiva

TAIMING GA OSOI parar a cronometragem

TATE EMPI Golpe de cotovelo para cima.

TATE URAKEN UCHI Ataque Vertical com a parte de trás do punho.

TATE ZUKI Soco Vertical com a outra mão apoiando o braço

TEIJI DACHI Base ou posição com os pés formando um “T”

TEISHO UCHI pancada com a palma da mão.

TEISHO UKE Bloqueio ou defesa com a palma da mão

TEISHO YOKO UKE Bloqueio lateral em kibadachi (Jion)

TETTSUI UCHI Pancada de martelo KENTSUI.

TOBI GERI Chute Saltando.

TONFA Ferramenta de agricultura transformada em arma pelos Okinawenses

TORANAI "Nenhum ponto"

TORIMASEN "nenhuma técnica pontuável." Cancelamento de uma indicação anterior.

TSUKAMI WAZA técnica de agarrar a arma(arma, perna ou braço)do adversário.

TSUKI Soco em forma de punhalada

TSURU ASHI DACHI Posição do Grou, também chamado de GANKAKU DACHI e SAGI ASHI DACHI.

TSUZUKETE Prosseguir.

TSUZUKETE HAJIME "Reiniciar uma luta” o árbitro dá um passo atrás em ZENKUTSU DACHI

TUITE habilidades lutando.

 

U:

 

UCHI (UDE) UKE Bloqueio com a parte interna do antebraço.

UCHI DESHI Estudante que vive em um dojo. Dedicando tempo integral ao treinamento e as vezes aos serviços pessoais do Sensei.

UCHI MAWASHI GERI Dentro de um chute circular.

UCHI YOKO TE O mesmo que SOTO UDE UKE.

UKE Bloqueio ou defesa

UKEMI WAZA técnicas de projeção..

URA ZUKI Soco subindo (mão invertida)

URA MAWASHI GERI Chute  circular invertido.

URAKEN Atrás das juntas dos dedos indicador e anular.

USHIRO EMPI UCHI Golpeando com o cotovelo para trás.

USHIRO GERI Chute para trás.

UTOSHI-UKE Bloqueio como tetsui, (Jion)

 

W:

 

WA-UKE Um bloqueio onde a mão percorre um caminho como se estivesse limpando uma parede a sua frente. No final inclina-se a mesma para fora.

WAZA Técnicas

WAZA ARI "Meio ponto"

 

Y:

  

YAMA ZUKI Soco em forma de “U”. (Bassai-Dai)

YAME Pare!

YOI preparar

YOKO Lado.

YOKO GERI KEAGE Pontapé repentino lateral. Também chamado de YOKO KEAGE.

YOKO GERI KEKOMI Pontapé de punhalada. Também chamado de YOKO KEKOMI.

YOKO MAWASHI EMPI UCHI Golpeando com o cotovelo para o lado.

YOKO TOBI GERI pontapé lateral voador.

YORY ASHI Movimento simultâneo de pés

YOWAI fraco

YUDANSHA praticante graduado; faixa preta (qualquer grau)

 

Z:

 

ZANSHIN estado de reserva mental/ espiritual

ZAREI cumprimento sentado

ZAZEN meditação sentado

ZENKUTSU DACHI base avançada. 70% do peso a frente.

ZENSHIN Avançar  a frente atento a luta.

BUDO: Caminho do guerreiro

DO: caminho

DOJO: escola

KIME: poder

KARATE: mãos vazias

KIAI: espírito/ grito

KATA: forma

OKINAWA TE: mãos de Okinawa

SHAKUGAN: olhar

TE: mão

ZANCHIN


 

Referências
Vianna, José Antonio.  Karate: da arte marcial à qualidade de Vida. Rio de Janeiro. 2008.
Gonzalo Velasco. Uma breve história do karate do. Artigo da Internete. 1999.

Figueiredo, A. Abel. O Âmago do Karate. Artigo da Internete. 1994.

Figueiredo, A. Abel. A Emergência do Karate Moderno. Artigo da Internete. 1994.

Funakoshi, Guichin. Karate Do Kiohan: the master’s text. Kodansha, New York. 1973

 

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